Temeroso ou destemido, o que vai ser?

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 2 de fevereiro de 2017.

ivesgandraMichel Temer assumiu a Presidência com a aprovação de uma nação cansada do petismo, mas logo de início mostrou que governaria pautado por aqueles que o odeiam e que querem o seu fim. Foi o que aconteceu quando ele acertadamente extinguiu o Ministério da Cultura. A medida, apoiada por grande parte da população, foi bombardeada incansavelmente por artistas e jornalistas de esquerda, os mesmos que dias antes adotavam o “fora Temer” como frase de parachoque. Em vez de manter seu pulso, agradar o povo e economizar dinheiro de impostos, Temer optou por ceder terreno aos seus inimigos.

A decisão que paira sobre o presidente hoje é muito mais importante e impactante para o Brasil do que a existência ou não de um ministério. A indicação de um ministro para o lugar de Teori Zavascki é daquelas que ecoam por décadas, muitas vezes além do período de vida do próprio presidente. Foi o caso de Dias Toffoli, nomeado por Lula quando tinha apenas 42 anos de idade, e que poderá exercer seu cargo até 2042. Na composição atual, o Supremo Tribunal Federal tem nada menos que sete ministros indicados pelos petistas Lula e Dilma, e a atuação de alguns deles, em diversas oportunidades, deixou bem clara sua orientação ideológica de esquerda. Temer tem em mãos, portanto, a chance de devolver um pouco do equilíbrio ao STF.

Nos últimos dias, o nome de Ives Gandra Filho surgiu como possível indicação de Temer para a corte suprema. A quase totalidade da imprensa brasileira, ao se deparar com o currículo e com as posições de Gandra Filho sobre temas importantes – ele é favorável à revisão das atrasadíssimas leis trabalhistas brasileiras, é um crítico do excesso de tributos e do Estado inchado, é contra o ativismo judicial e, de quebra, é um cristão declarado –, entrou em estado de pânico com a possibilidade de que um conservador ocupe a vaga de Zavascki. Deu-se início, então, a uma campanha extremamente desonesta de difamação e desqualificação de Ives Gandra Filho e, ao mesmo tempo, a promoção incondicional de Alexandre de Moraes como a melhor opção para a vaga.

Dentre as táticas sujas utilizadas para denegrir Gandra Filho está a citação de trechos isolados de seus artigos, pinçados completamente fora de contexto e com o único propósito de criar uma impressão mentirosa sobre a linha de pensamento do jurista. Não colocarei aqui a prova completa da canalhice, porque alguém com muito mais conhecimento na área já o fez – o advogado e jornalista Taiguara Fernandes explicitou cada uma das citações pinçadas em excelente artigo publicado no portal Senso Incomum, no dia 26 de janeiro. Mas, a título de esclarecimento, farei um paralelo para você, leitor. Imagine o seguinte texto: “A noção de superioridade racial já variou bastante no decorrer da história humana. O homem branco é superior intelectualmente ao negro, acreditavam os nazistas. Mas, graças à evolução da ciência e aos avanços na área dos direitos humanos, esse tipo de discriminação sem fundamento faz parte de um passado já remoto”. Agora, imagine que alguém pinçou desse texto somente este pedaço: “O homem branco é superior intelectualmente ao negro”, e saiu falando por aí que o autor do texto é racista e que defende a mesma coisa que os nazistas. É exatamente isso que está sendo feito com Ives Gandra Filho. Note-se que esse tipo de atuação não é só moralmente reprovável, como também é crime previsto pelo Código Penal.

A melhor coisa que Michel Temer pode fazer é se espelhar em Donald Trump neste assunto. Trump anunciou na última terça-feira, 31 de janeiro, sua indicação para a vaga de Antonin Scalia: o conservador Neil Gorsuch. Respeitadas as proporções, Gorsuch é o Gandra Filho dos americanos. Fiel defensor da Constituição americana, ele tem um histórico de decisões favoráveis à vida, à propriedade privada, à liberdade de expressão e às liberdades individuais. Trump sabe que não pode governar para os que o odeiam, para os que o querem longe da Casa Branca; se fizer isso, será defenestrado rapidamente. Michel Temer parece não ter percebido isso; ou, pior, parece não ter a coragem necessária para governar em prol do povo brasileiro. Esse povo precisa de menos Estado em sua vida, menos regulação das relações de trabalho, menos interferência do governo nas empresas, menos impostos, menos leniência com criminosos etc. Indicar Alexandre de Moraes será apenas mais do mesmo. Se o presidente quiser deixar alguma marca positiva em seu governo, precisará de reformas profundas, e essas reformas precisarão de respaldo judiciário. Abrir mão de Ives Gandra Filho é abrir mão de um legado. Nesse caso, era melhor ter permanecido apenas como vice de Dilma. Afinal, do vice a gente não espera nada mesmo.

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e “Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

Precogs do ventre alheio

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 8 de dezembro de 2016.

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Desde o dia 29 de novembro passado, quando o STF legislou sobre o aborto até o terceiro mês de gravidez, o assunto tem estado entre os mais discutidos nas redes sociais e nas seções de comentários de diversos portais de notícias, incluindo o desta Gazeta do Povo. Os defensores dessa crueldade o fazem apoiados nas mais esdrúxulas argumentações, sobre as quais falo um pouco aqui.

Uma parte dos abortistas – usarei este termo aqui com o sentido de qualquer pessoa que acredite que o aborto é moralmente justificável – defende a prática dentro do prisma da saúde pública. Dizem eles que, já que a mãe vai abortar de qualquer maneira, que o faça legalmente, amparada pelo Estado, para minimizar o seu risco de morte. Para justificar essa lógica absurda, eles invocam estatísticas mentirosas e números simplesmente impossíveis de se comprovar. É claro que, se não se prestam nem ao serviço de utilizar dados verdadeiros, por que deveriam ser levados a sério quando o assunto é a vida de um ser indefeso? E ainda, se não são capazes de medir um evento factual como a quantidade de abortos terminados em morte da mãe, como podem definir o momento em que a vida passa a ser vida?

Uma outra parte dos abortistas defende a morte de bebês no útero com base no direito da mãe sobre seu corpo. Essa parte geralmente inclui feministas radicais que gritam “se não tem útero, não opine” para qualquer homem que, como eu, resolva opinar sobre o assunto. Fazem isso como se fosse necessário viver uma situação para se ter uma opinião balizada e fundamentada sobre a mesma. E defendem sua autonomia corporal como se um bebê dentro do útero não tivesse um DNA distinto do da mãe, ou seja, como se não fosse um ser completamente único. O bebê é tão distinto da mãe no início da gravidez quanto no dia de seu nascimento, ou mesmo no seu primeiro aniversário, e jamais pode ser tratado como um apêndice de outro corpo. Autonomia corporal é poder fazer lipo, é poder aumentar os seios, é poder trocar de sexo. Matar um bebê é assassinato.

Uma terceira parte dos abortistas, e desses vem o título deste artigo, gosta de brincar de prever o futuro. Em 2002, o filme Minority Report foi lançado, com Tom Cruise em seu papel principal. A história do filme é muito interessante: três jovenzinhos com faculdades sensoriais elevadas – os precogs – são mantidos numa espécie de transe utilitarista pelo órgão policial-judiciário da época (o filme se passa em 2054), e suas capacidades preditivas são usadas para prender criminosos pouco antes de cometerem um crime. No filme, essa divisão da polícia é conhecida como “pré-crime”. Mesmo na ficção de Hollywood, o aviso de que alguém estava prestes a cometer um delito grave chegava minutos antes da ocorrência do mesmo, e era comum o pré-criminoso ser pego já na cena em que cumpriria seu destino.

No nosso Brasil, e no resto do mundo também, os precogs do ventre alheio conseguem prever a desgraça de uma vida desde seu primeiro mês de gestação. Dizem eles que, se uma mãe optar por rejeitar seu bebê, melhor mesmo será matá-lo antes de nascer, porque do contrário o seu futuro certamente se resumirá a crimes e a uma vida à margem da sociedade. Ignoram a bondade e a caridade, ignoram todas as histórias de órfãos que superaram dificuldades e venceram, ignoram a vida humana no que ela tem de mais belo. Seu fatalismo cruel ecoa nos ventres defraudados e ocos das milhões de mulheres que abortam a cada ano em todo o mundo. Futuros médicos, garçons, engenheiros, atores, músicos, dentistas, aviadores, atendentes, enfermeiros e advogados, entre outros, são reduzidos a um amontoado mórbido de minicadáveres de pretensos futuros criminosos. Vidas que seriam vividas, desfrutadas e abençoadas são jogadas no lixo e apagadas antes de seu início em nome de uma prevenção socioeugênica digna do Terceiro Reich.

Aliás, a única coisa que separa os abortistas do nazismo das décadas de 1930 e 1940 são algumas décadas. A crueldade é a mesma, o desprezo para com a vida é o mesmo, a pretensão de julgar o valor alheio é o mesmo. Em uma coisa são piores, no entanto: os nazistas daquela época levantavam suas mãos inflamados pelo discurso apaixonado de seu líder; os abortistas de hoje defendem o indefensável por si mesmos, sem Hitler, sem SS e sem coação. Não poderão nem sequer alegar ignorância se um dia forem confrontados por conta de seu pecado diante de um tribunal divino de cuja existência duvidam e fazem troça. Não há nada que leiam, nem este texto e nenhum outro, que os faça abandonar o posicionamento em favor da morte.

Para quem defende a vida, esta foi uma semana de luto.

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e “Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

Lula, o chulo solitário

Artigo publicado no Senso Incomum em 21 de março de 2016.

Todo político eleito para um cargo do Executivo tem em suas mãos diversos cargos de confiança que frequentemente (estou sendo otimista com o frequentemente) são usados como moeda de troca. O mais alto cargo executivo do Brasil é a Presidência da República, e o presidente eleito possui uma quantidade imensa de indicações e nomeações ao seu dispor. É gente demais para ser “comprada” e “mantida refém”: eu lhe dou um emprego com um belo salário e uma boa dose de poder, e você fica na minha mão até o último dia do meu mandato.

Mas, uma das indicações que o presidente da república faz é bem diferente de todas as outras, e é justamente a indicação de ministro do Supremo Tribunal Federal. Esta é a única indicação para um cargo cujo mandato ultrapassa o da presidência – é para um mandato vitalício. Sendo assim, é a que tem a moeda de troca mais fraca. O presidente não pode ameaçar um ministro do STF com perda de mandato, e esta é justamente uma das características-chave de uma suprema corte, a de que seus componentes podem julgar qualquer assunto e qualquer pessoa sem influências externas, sejam elas de políticos, de partidos, de outras instituições ou do povo. É por isso que a escolha de ministros do STF com orientação ideológica semelhante à do presidente em exercício não é uma jogada de sucesso garantido. Exemplo disso foi o próprio Joaquim Barbosa, indicado por Lula em 2003, que em inúmeras oportunidades votou e julgou de forma completamente contrária ao esperado pelo governo petista.

lula-STF-totalmente-acovardadoLula, é claro, não é capaz de enxergar sua arrogância, torpeza e desprezo pelas outras pessoas. Seu ego gigantescamente inflado o impede de perceber que há pessoas no Brasil cujo poder é mais fundamentado e mais duradouro que o dele. O vilão clássico da literatura e do cinema sempre cai por causa do exagero de autoconfiança. Lula não foge à regra. Quem tudo pode, nada teme, e esse nada inclui investigações, grampos e vinganças. De guarda baixa, Lula foi pego em sua forma mais natural, a de ser desprezível e incrivelmente chulo em tudo o que diz. E, graças à inteligência de Sérgio Moro, os brasileiros puderam ouvir, no conforto de suas casas, as gravações em que Lula chama os magistrados do Supremo de covardes.

Eu não sei você, mas se eu tivesse um cargo vitalício, não respondesse para ninguém e fosse chamado de covarde publicamente por alguém, eu faria questão de aplicar a lei no limite mais rigoroso da letra a esse sujeito, caso algum de seus processos caísse em minhas mãos. Mas, como nem sempre o mal anda de braços dados com a sorte, as liminares pedindo a suspensão da nomeação de Lula como ministro foram cair justamente nas mãos de Gilmar Mendes, desafeto bem conhecido do ex-presidente. E Mendes não desapontou 97% dos brasileiros ao julgar a liminar procedente, frustrando os planos petistas e deixando Lula à mercê da operação Lava Jato.

Logo depois de sua decisão, Gilmar Mendes informou que levará a discussão voluntariamente ao plenário do STF. Muita gente recebeu esta afirmação como um sinal de que Lula está agindo por trás dos bastidores para que o colegiado do STF reverta a decisão de Mendes e ele possa tomar posse em definitivo como ministro. Eu não acredito nisso, e arrisco dizer que Gilmar Mendes adiantará a discussão em plenário porque tem certeza de que sua decisão será corroborada pelos colegas de tribunal, por um simples motivo: Lula passou dos limites e ofendeu todos eles. Não haverá misericórdia para o protoditador da Banânia, muito menos quando misericórdia significaria passar por cima das leis e permitir uma fraude que já virou piada internacional.

Enquanto isso, Dilma segue cada dia mais isolada, com olheiras cada vez mais profundas, sem ter mais nenhuma carta na manga. Boatos dizem que ela pensa em renunciar e uma vidente diz que ela tentará se matar. Qualquer que seja sua decisão, não mudará o fato de que seu governo acabou, junto com seu partido e seu mentor. Vão-se os presidentes, ficam os magistrados. Essa é a lição que Lula deveria ter aprendido e que, para nossa sorte, não aprendeu.

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

Álvaro Dias e sua banana aos eleitores

Imagine a seguinte situação: você contrata um arquiteto para projetar sua casa, e escolhe aquele determinado profissional porque já viu suas outras obras, gostou do seu estilo e confia em seu trabalho. Depois das conversas iniciais, ele apresenta o projeto para você, e é tudo muito bonito. Animado e já ansioso pelo resultado final, você o aprova, e a construção começa. Um certo dia você resolve visitar a obra, como costuma fazer rotineiramente, e vê que o arquiteto colocou uma pilastra enorme e vermelha no meio da sala. Você pergunta o porquê daquilo, mas só obtém como resposta evasivas do tipo “confie em mim” e “esta é uma ótima pilastra, vai dar sustentação ao teto da sala”. De nada adianta levar o engenheiro civil, que considera a pilastra inútil, justificando que o teto da sala já está sustentado por todo um sistema de vigas e lajes, e nem argumentar que aquilo vai atrapalhar demais toda a utilização da casa, pois o arquiteto continua com a ideia fixa de manter aquela monstruosidade. Felizmente você tem à mão um recurso perfeito para esse tipo de problema: a rescisão de contrato. Você manda seu arquiteto plantar batata no asfalto e contrata outro em seu lugar.

Pois é… Infelizmente esse recurso não nos está disponível na política, e não podemos mandar o senador Álvaro Dias para junto do nosso arquiteto fictício. Esse senhor, cuja atuação parecia coerente, inclusive na contra-mão da covardia tucana, resolveu de um dia para o outro contrariar aqueles que o elegeram e colocar uma pilastra petista no meio de uma das salas mais importantes do Brasil, o STF. Não adiantam argumentos lógicos e verdadeiros, despejados aos montes por pessoas bem informadas nas postagens do perfil do senador no Facebook. Estas, que têm levantado questões seríssimas contra Luiz Edson Fachin, estão sendo ignoradas pelo senador Álvaro Dias, que prefere inventar todas as mentiras e desculpas que consegue para justificar seu maior equívoco, o de apoiar a indicação de Fachin ao Supremo Tribunal Federal.

A postura do senador tem ganhado ares de histeria; ele insiste em repetir e repetir e repetir que Fachin é uma pessoa digna, confiável e sem vínculos com o PT, enquanto deixa sem resposta as centenas de pessoas que não param de lhe deixar comentários recheados de dados e argumentos, esses sim verdadeiros. Não fosse Álvaro Dias um político de longa carreira, a quem não se pode atribuir ingenuidade, eu ficaria tentado a pensar que ele não para de repetir suas mentiras para tentar ele mesmo acreditar nelas. Mas um senador da república não chega nesse nível sendo ingênuo, e nem bobo. Elalvaro_bananae defende sua posição porque tem alguma razão muito forte para isso, e o faz descaradamente, afrontando os mesmos eleitores que lhe garantiram a cadeira do Paraná no Senado Federal, e que sentem-se impotentes, pois não podem demiti-lo e nem mesmo reclamar para seu chefe. Álvaro Dias chutou seus eleitores no traseiro e lhes deu o dedo do meio. Sim, eleitor paranaense, você levou uma banana do senador.

Numa única coisa o senador foi sincero: quando disse que o apoio à indicação de Fachin é uma postura coerente, ele estava certo. Pode não ser coerente com o trabalho que ele vinha fazendo, mas é coerente com o partido tosco ao qual ele pertence, é coerente com o que seu chefe, FHC, vem pregando esse tempo todo, e é coerente com a covardia de Aécio Neves diante das manifestações de março e abril. Álvaro Dias está finalmente agindo como o PSDB espera, fazendo papel de falso antagonista ao PT, ajudando a manter o Brasil nessa dualidade dos infernos, onde temos que escolher entre o fogo e a frigideira, entre o roto e o rasgado.

Como costuma dizer um grande amigo, que morte horrível a do senador Álvaro Dias.

Flavio Quintela é escritor e tradutor de obras sobre política e filosofia, e autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

Imprensa brasileira: tem hora que dá raiva de ler / Brazilian press: sometimes it makes you sick

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English readers: English version right after the Portuguese one.

Um dos pilares da reforma eleitoral que o PT tem sonhado para o Brasil é a proibição das doações de empresas em campanhas eleitorais e a instituição do financiamento público de campanha, por um motivo óbvio: sendo o financiamento público, nos moldes que o PT quer aprovar, o dinheiro é distribuído proporcionalmente ao número de votos que o partido obteve nas eleições para Deputado Federal, ou seja, é um mecanismo de perpetuação de poder, pois quanto mais votos um partido leva numa eleição, mais dinheiro ele recebe na próxima eleição, praticamente extinguindo a possibilidade do surgimento de qualquer tipo de oposição.

Somente pelo fato de campanhas políticas serem algo que traz um certo repúdio das pessoas, que sempre pensam em corrupção, compra de favores, caixa dois, dinheiro ilícito etc, já seria intelectualmente desonesto, por parte da imprensa, abordar o que está acontecendo hoje no Brasil (STF se intrometendo na legislação para proibir o financiamento privado e por consequência aprovar o público) sem prover ao leitor um mínimo de informações sobre o que pode acontecer com os partidos e com as eleições caso as propostas petistas sejam postas em prática. Mas nossa imprensa, majoritariamente esquerdista, vai além, e veicula notícias escritas com o propósito claro de promover um lado e demonizar o outro. A notícia que inspirou este post foi veiculada hoje no website do UOL, como destaque principal da primeira página: “Câmara tem projeto que veta doação de empresas, mas maioria não quer votar“. Analisemos a notícia e a falta de honestidade do seu autor.

A chamada da notícia, seu título, já mostra a linha de ação do autor, o blogueiro Josias de Souza. Ao usar uma dualidade na frase, com uma afirmação versus uma negação (“câmara tem projeto” versus “maioria não quer votar”) ele já começa a passar a impressão, ao leitor de mente menos treinada, de que o projeto é bom, e quem não quer votar é mau. Técnica clássica da manipulação de ideias, que não deveria ser usada por um jornalista, pelo menos não por um que preze pela verdade. Mas continuando, na notícia em si, Josias diz que:

Chama-se Henrique Fontana (PT-RS) o signatário do projeto que não entusiasma a Câmara. O deputado reproduziu no texto ideias defendidas pelo movimento Eleições Limpas, o mesmo que elaborou a Lei da Ficha Limpa.

Novamente aparece com clareza a intenção do autor, de induzir seus leitores a acharem que o projeto que proíbe o financiamento privado é algo bom. Para isso ele associa o projeto de lei em questão a dois nomes de grande apoio popular, Eleições Limpas e Lei da Ficha Limpa. Novamente, para a mente destreinada, a associação produz uma sensação imediata de simpatia pelo tal projeto, pois se ele tem algo a ver com a Lei da Ficha Limpa, só pode ser bom. No parágrafo seguinte ele continua:

A maioria dos deputados não parece disposta a abrir mão da presença da caixa registradora das empresas nas suas campanhas.

Agora, ao se referir ao financiamento privado, Josias usa termos negativos, que provocam sensações ruins no leitor. Veja como é maldosa a frase, que remete logo à imagem de um político enfiando a mão para pegar dinheiro na caixa registradora de uma empresa doadora. A associação agora é com algo que causa repúdio. E para jogar a pá de cal no financiamento privado, ele diz no quarto parágrafo:

É por meio dessa proposta de emenda à Constituição que o presidente da Câmara, Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), pretende salvar as arcas das campanhas do que chamou de “intromissão indevida” do STF.

Aqui Josias usa a figuração da arca, como se os políticos bandidos estivessem todos unidos num último esforço de salvação, lutando contra o dilúvio provocado pelo STF. Novamente, a imagem que vem de imediato é dos políticos pecadores sendo castigados pelo virtuoso tribunal, que representa a justiça e a retidão. Também, utilizando-se de aspas, neste caso para deixar implícita a falsidade de uma declaração, ele procura dar validade para o que está acontecendo no STF, onde os ministros estão votando um assunto que não lhes diz respeito, promovendo a agenda petista de eternização do poder através das próprias instituições democráticas.

Resumindo, ninguém seria louco em dizer que o sistema atual de financiamento de campanha, onde o caixa dois é prática corrente, onde empresários compram vantagens com suas doações, e onde a fiscalização das doações é muito ineficiente, é um sistema bom. É claro que não é. Mas substitui-lo por um novo sistema que permitirá ao PT se perpetuar no poder não é, com certeza, uma alternativa melhor. O papel da imprensa seria o de noticiar e informar as pessoas, e não de manipulá-las – o uso de ferramentas de indução de raciocínio em textos jornalísticos é algo muito desonesto. Infelizmente o comportamento da esquerda brasileira tem se mostrado desonesto em todos os aspectos, e não surpreende que a imprensa jogue da mesma maneira. O que nos resta é desmascarar esses que se utilizam de sua posição privilegiada, de uma coluna ou blog em um órgão de mídia de grande circulação, para impor seu viés ideológico e adestrar seus leitores da maneira que lhes melhor convém.

English version:

One of the pillars of the electoral reform that PT (Brazilian Workers’ Party), has dreamed to Brazil is the veto to all private donations to electoral campaigns and the implementation of a state funding system for campaigns, for one obvious reason: in the state funding model that PT wants to approve, the funds are distributed according to the total amount of votes each party has achieved in the elections for congressmen – it is, therefore, a mechanism to perpetuate power, after all, the more votes a party wins in an election, the more money it will receive for the next one, practically extinguishing the rise of any political opposition.

Considering only the fact that political campaigns are naturally repugnant to most Brazilian people, because they bring to mind things like corruption, exchange of favors, illegal money etc., the press would already be intellectually dishonest if, while publishing news about the current situation in Brazil (Supreme Court is trying to forbid campaign funding by private companies), it will not provide the reader with a minimum amount of information about the consequences of this funding matters to the parties and to the elections in general. But the Brazilian press, vastly leftist, goes beyond that, and publishes news that are written with the clear objective of promoting one side and demonizing the other. The piece of news that inspired this post was published today at UOL’s website, as a main first page call: “Congress has a project that forbids private company donations, but most congressmen don’t want to vote.” Let’s analyze the news and its author’s lack of honesty.

The title already shows us the kind of action that the author, the blogger Josias de Souza, intends to use. When he uses a duality in the phrase, with an affirmative statement versus a negative one (“Congress has a project” versus “but most congressmen don’t want to vote”), he is leading the reader, especially the one with a less trained mind, to the impression that the project is good, and those who do not want it are evil. That’s a classical technique to manipulate ideas, that should not be used by a journalist, at least by one that values the truth. But let’s go on, into the body of the news, where Josias says:

Henrique Fontana (PT-RS) is the author of the project that doesn’t thrill the Congress. The congressman reproduced in his text some ideas advocated by the Clean Elections movement, the same one that had elaborated the Clean Record Law.

We can see again the author’s intention, to induce his readers to think that the project, which forbids private funding to campaigns, is something good. For that he creates a link between the project and two very popular names, Clean Elections and Clean Record Law. Again, for the untrained mind, this association results in an immediate sympathetic feeling for the project, because if it has anything to do with Clean Record Law, it must be good. In the next paragraph he says:

Most congressmen don’t show the will to give up the presence of cash registers from private companies in their campaigns.

Now, when referring to private funding, Josias uses only negative terms, to instill in the reader bad feelings about that. See how spiteful the phrase is – it brings to mind the image of a politician extending his hands to get money from the cash register of a donor. It is now a link to something repelling. And then, to bury private funding once and for all, he says in the fourth paragraph:

It is through this constitutional amendment proposal that the President of the Congress, Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), intends to save the campaign arks from what he called “an undue intrusion” from the Supreme Court.

At this point Josias uses the figurative image of Noah’s Ark, as if the evil politicians were all united in a last effort to save themselves from the flood, caused by the Supreme Court. Again, the image that comes to mind is the one where sinful politicians are being punished by the almighty court, that represents justice and righteousness. Also, using quotation marks as a way to suggest falseness about a statement, he tries to validate the actions of the Supreme Court, where its components are deliberating over a subject that does not concern them, promoting the Workers’ Party agenda of perpetuating its power through the very democratic institutions.

Summarizing, nobody would be crazy enough to say that the current campaign funding system, where illegal money is often used, where private companies buy advantages with their donations, and where the control is so inefficient, is a good system. But replacing it for a new one that will allow the Workers’ Party to perpetuate itself as the dominant power is not, for sure, a better alternative. The press role should be to inform people, and not to manipulate them – the use of thought induction tools inside journalistic texts configures dishonesty, at least.  Unfortunately, the leftists in Brazil have made dishonesty their last name, and it is not surprising, at all, that the press is playing the same game, in the same way. As for us, we need to expose these ones that use their privileged positions, when writing for large media groups, to impose their ideological bias and to school their readers in the ways that is most convenient to them.

A mídia brasileira se cala sobre o livro de Tuma

ASSASSINATO_DE_REPUTACOES_1386444613PMais uma evidência de que a nossa grande mídia está completamente vendida para a esquerda: não há uma menção sequer ao livro de Romeu Tuma Junior, Assassinato de Reputações, e à repercussão que tem causado, em nenhum dos principais portais de notícias brasileiros. Fiz a pesquisa agora pela manhã no G1, Estadão, Folha, O Globo, UOL, Terra e BOL (sim, até no BOL eu procurei…) e NADA! Até no portal de revista Veja, que publicou em sua última edição uma reportagem sobre o livro, não consta uma chamada para o assunto. Por mais incrível que possa parecer, o único lugar em que achei menção ao livro foi justamente no Brasil247, o mais vermelho dos portais.

Em meio a notícias de casamentos da filha de fulano com briga de sicrano, e de uma comoção geral da nação com o rebaixamento dos times cariocas, ninguém achou que fosse importante noticiar que Romeu Tuma Junior acabou de publicar um livro que, me desculpem as palavras, joga merda no ventilador do PT. O livro-bomba, como tem sido chamado, documenta uma prática criminosa do governo petista, ativa e operante nos mandatos de Lula e Dilma: a fabricação de dossiês contra adversários políticos e sua divulgação na mídia. O objetivo, é claro, é destruir a reputação dos desafetos do governo e auxiliar a máquina difamadora do PT em épocas de eleição.

O livro, que ainda não está à venda, fala de diversos casos em que o então Secretário Nacional de Justiça, Romeu Tuma Junior, recebeu pedidos de petistas de alto escalão para fabricar e esquentar dossiês contra os mais diversos inimigos políticos do partido, alguns de longa data e outros mais recentes. Alguns casos presentes no livro, e que mostram o nível de canalhice do governo petista – todos foram tirados da reportagem que a revista Veja fez com Tuma Junior, publicada na edição número 50 deste ano:

  • o então ministro da Justiça, Tarso Genro, pediu que Tuma vazasse os dados da investigação sigilosa do Cartel dos Trens para a imprensa, a fim de prejudicar o PSDB nas eleições municipais de 2008;
  • o sucessor de Tarso Genro no ministério, Luiz Paulo Barreto, pediu a Tuma que “fulminasse” o governador de Goiás, Marconi Perillo. De acordo com Tuma o pedido veio diretamente de Lula e de Gilberto Carvalho, como vingança por Perillo ter dito publicamente que havia avisado Lula sobre o mensalão;
  • o assassinato do prefeito de Santo André, Celso Daniel, também faz parte do livro, e Tuma faz acusações de ocultação de evidências, corpo mole das autoridades e da polícia e uma tentativa de jogar para baixo do tapete um crime que poderia comprometer muitos petistas poderosos;
  • sobre Gilberto Carvalho, Tuma afirma que o mesmo chegou a confessar, em meio a lágrimas, sua participação no esquema de propinas que levou à morte de Celso Daniel, como portador dos “recursos arrecadados”, que eram sempre levados a ninguém menos que Zé Dirceu;
  • sobre o mensalão, Tuma relata que contas usadas no esquema criminoso, no paraíso fiscal das Ilhas Cayman, foram ignoradas por Tarso Genro e não constaram na investigação.

Tuma fala ainda de dossiês contra Tasso Jereissati, contra a falecida Ruth Cardoso e também do grampeamento geral feito no STF, a fim de espionar as conversas de todos os ministros do Supremo. De acordo com o autor do livro, todo o material publicado tem lastro de evidências, e pode ser provado. Até o momento, de acordo com a única notícia que consegui encontrar sobre o livro (a do Brasil247) somente o Senador Álvaro Dias, do Paraná, se manifestou pelo Twitter a favor de chamar Romeu Tuma Junior para depor no Congresso Nacional. Ao olhar o Twitter de Álvaro Dias pude notar o seguinte: Em “O Globo” e “Estadão” cobrança por esclarecimentos de Tuma Jr. no Congresso. Ou seja, ambos os veículos de mídia citados devem ter publicado alguma coisa a respeito ontem à noite, mas já não consta mais nas páginas principais de seus portais eletrônicos.

Enfim, o livro de Tuma Junior lança acusações bombásticas e terríveis contra o governo petista. Até quando a mídia permanecerá calada a respeito? Álvaro Dias realmente assumirá a iniciativa de chamá-lo para depor? Teremos a CPI dos Dossiês? Essas são perguntas que ficarão em minha cabeça nos próximos dias. Vamos acompanhar atentos o que vem a seguir.