Pr. Pinóquio

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 29 de outubro de 2015.

Qual é a função de um sacerdote ou líder espiritual? Não me refiro aqui às atribuições eclesiásticas, pois estas dependem da religião, mas sim à função dessas pessoas na comunidade da qual fazem parte. Em geral, o que se espera deles é alento, conforto e orientação aos seus fiéis e seguidores, e uma vida exemplar e inspiradora. É uma tarefa das mais difíceis quando tomada com seriedade e honestidade; e justamente por isso juntar religião e política torna-se algo tão complicado.

Ora, o sacerdote ou líder que ingressa na política – tanto por meio de cargo eletivo como pela militância ativa junto aos agentes políticos – está fazendo uma escolha muito clara: a de deixar de cuidar de sua comunidade num nível micro para cuidar de assuntos comunitários em nível macro. Ao mesmo tempo, assumindo-se que a integridade e honestidade serão mantidas, a tarefa de servir de exemplo torna-se muito mais pesada, já que o escrutínio de sua vida não é mais feito por alguns poucos olhos locais, mas sim por toda uma população, seja ela de uma cidade, estado ou mesmo o país inteiro.

ILUSTRA-QuintelaNesses últimos dias, temos assistido às declarações estapafúrdias de dois líderes religiosos engajados na política sobre um assunto que não dominam: o armamento civil. Os pastores Silas Malafaia e Magno Malta – este, senador pelo estado do Espírito Santo; aquele, um evangelista de massas com um forte trânsito entre parlamentares da bancada evangélica – lançaram-se num ataque direto ao PL 3722 (aquele que reforma o Estatuto do Desarmamento), que foi aprovado pela comissão especial da Câmara dos Deputados na terça-feira passada. E o fizeram da pior forma possível: mentindo sobre o assunto. Não é possível saber o que os motivou a fazer suas declarações, mas é bastante provável que os esquemas de favores tão comuns na política brasileira sejam a razão por trás das mentiras. Afinal, como explicar que duas pessoas comumente engajadas em boas causas coloquem suas figuras públicas ao dispor de uma causa contrária à liberdade, um assunto altamente técnico em que não cabe o senso comum e nem os chavões da esquerda liberticida?

Ambos, em seus vídeos, dizem que o novo projeto de lei permitirá uma maior quantidade de armas e munições por pessoa, e que permitirá aos professores darem aulas com uma arma na cintura – afirmações muito distantes da realidade do texto do projeto. Ambos batem na tecla errada de que somente a força policial deve possuir e portar armas, como se a polícia fosse onisciente, onipotente e onipresente. Ambos tentam pintar um quadro de caos e guerra civil no caso de a população se armar, desprezando os fatos e a história: o Brasil era um país muito mais seguro quando a população possuía armas de fogo, e não há registros de países em que a implementação de leis de posse e porte de armas tenha causado aumento de criminalidade – muito pelo contrário. Ambos tentam associar o cristianismo e a paz ao desarmamento, quando a história mostra que os ditadores mais sanguinários foram justamente os que mais desarmaram populações. Ambos repetem a argumentação mentirosa que a esquerda costuma usar para combater o direito mais básico de um cidadão, o de defender sua integridade, sua vida e a de seus familiares. Ambos alinham-se aos que dizem combater, fazendo coro com a ala mais retrógrada da política brasileira.

Aos senhores Malafaia e Malta, fica meu pedido público: informem-se sobre o assunto e revejam suas posições. Sua influência sobre as pessoas é muito grande para que ajam de forma tão irresponsável com um tema importante como esse. O que está em jogo é a liberdade e a segurança das pessoas, as mesmas que não possuem a mínima condição de manter guarda-costas como os senhores mantêm, e que saem de suas casas todos os dias sob o peso de quase 60 mil assassinatos anuais neste Brasil em guerra.

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

Carta aberta ao Pastor Silas Malafaia

Esta carta foi a base de minha fala no vídeo que fiz ao Pastor Silas Malafaia, em virtude de seu vídeo mentiroso sobre o PL3722 e o armamento civil:

Pastor Silas, meu nome é Flavio Quintela. Sou o criador da série de livros Mentiram para Mim, cujo segundo volume, escrito em co-autoria com o querido Bene Barbosa, fala justamente sobre o Desarmamento. Sou cristão, fiz seminário teológico por dois anos, e fui professor de escola bíblica por muito tempo, de modo que minhas convicções de fé e sobre o cristianismo não são baseadas em achismo ou senso comum.

Fiquei estarrecido com seu vídeo e, como não tenho meios para lhe contatar, o faço abertamente pelo meu canal do YouTube. Gostaria de deixar registrado que tentei contato com o senhor antes do lançamento de meu segundo livro, o Mentiram Para Mim Sobre o Desarmamento, e cheguei a enviar um exemplar à sua assistente, por correio. Creio que o senhor jamais o tenha lido, em vista do conteúdo de seu vídeo recente.

Serei breve, e levantarei apenas três pontos sobre seu vídeo:

  1. O senhor mente no vídeo. Mente especificamente sobre o conteúdo do projeto de lei 3722. Não me importa se mente de propósito ou por ignorância sobre o texto do projeto. O fato é que mente, e o pai da mentira, como o senhor mesmo disse muitas vezes em suas pregações, é o diabo. O Bene Barbosa, em vídeo feito ontem e cujo link está na descrição abaixo, destacou os pontos em que o senhor mente, e deixou muito claro qual é a verdade sobre o assunto. Não preciso dizer mais nada depois do que ele disse, e qualquer um que estiver me vendo nesse momento pode acessar o vídeo do Bene, que é curto e objetivo. Não bastasse o caráter repulsivo da mentira por si só, o senhor ainda o faz utilizando das mesmas estratégias que a imprensa de esquerda costuma usar no Brasil, e que por diversas vezes alvejou o seu ministério e sua vida pessoal.
  2. O senhor faz uma crítica totalmente desprovido de autoridade moral para tal. Tendo um privilégio que menos de 0,01% dos brasileiros têm, que é o de andar com seguranças ao seu redor, para tentar evitar ser uma das 60.000 vítimas de assassinato que perecem todos os anos nesta nação em guerra, o senhor jamais poderia advogar contra o direito de defesa do cidadão, e afirmar que somente a polícia deve possuir e portar armas. O senhor se iguala a muitos outros hipócritas do nosso Brasil sofrido e dá vida ao ditado popular “faça o que eu digo, não faça o que eu faço”. Nada mais longe do exemplo de Cristo do que isso. Aliás, o próprio apóstolo Paulo deixa clara em suas cartas a preocupação de viver de modo exemplar, e de jamais exigir de alguém algo que ele mesmo não possa realizar. A verdadeira liderança se constrói através de exemplo de vida, e o senhor já deve ter ouvido isso em inúmeros cursos e treinamentos. Pena que não tenha colocado o princípio em prática neste caso.
  3. Por último, quero lhe apontar um erro dos mais graves em seu discurso: o uso do senso comum num assunto onde isso não é cabível. Se tivesse lido meu livro, saberia que mais de 90% dos usos defensivos de armas de fogo não geram disparos, e que uma pessoa de bem que reage armada a um ataque tem o dobro de chances de sobreviver do que uma que não reaja. Saberia também que é a imprensa podre, a mesma que o senhor critica com veemência, que gosta de dizer que armas só servem para matar. Saberia que os países de população mais armada não são, de modo algum, os mais perigosos; muito pelo contrário. Saberia que quanto mais frágil uma pessoa, mais vantagem ela tem de possuir uma arma. Saberia que os ladrões têm mais medo de cidadãos armados do que da polícia. E saberia que em nenhum local onde o porte de armas foi liberado por lei a criminalidade aumentou, mas sempre diminuiu. Em vez de ciência e estatística o senhor opinou “de orelhada”, e fez papel de ignorante. Segurança pública, ainda mais num país com 60.000 mortes violentas por ano, não é lugar para senso comum e chavões esquerdistas.

Fico por aqui, e deixo um apelo para que o senhor se revista da mais bonita característica de um homem de Deus: a humildade. Seja humilde, reveja sua postura, e admita seu erro. A soberba é a pior saída.

Que Deus o guie e o ilumine.

Dividir para conquistar

A esquerda é expert na fabricação de divisões e na incitação de ódio entre os diversos grupos que compõem a população brasileira. Já abordei esse assunto no meu primeiro livro, onde mostrei que o ativismo político montado sobre as minorias é sempre fruto do trabalho de pilantras e engenheiros sociais que não pertencem a minoria alguma, e que têm como objetivo único manipular a população e a opinião pública para satisfazer sua agenda. Embora esta estratégia, o dividir para conquistar, seja mais antiga do que a prostituição, a maioria das pessoas simplesmente não percebe o que está acontecendo e morde direitinho as iscas que são jogadas em nossa mídia.

A bola da vez é a promoção de uma suposta intolerância religiosa, como se o Brasil fosse a Irlanda do Norte do último quarto do século passado, e como se tivéssemos milícias de religiosos armados atacando-se mutuamente e perpetrando atos de terrorismo para marcar suas posições. O jornalismo porco e mentiroso de esquerda, que predomina na mídia nacional, adora usar comparações desproporcionais para tachar qualquer opinião contrária aos ideais marxistas como alguma-coisa-fobia, ou como intolerância-a-não-sei-o-que-lá. É uma tática facilmente perceptível, mas que parece passar incólume pela peneira crítica das pessoas. O exemplo mais comum que temos visto é o uso da palavra homofobia, que tem sua origem na agressão e morte de homossexuais por causa somente de sua orientação sexual, e que hoje é usada para qualquer manifestação minimamente oposta à corrente de pensamento imposta pela militância política da causa gay. Homofobia é matar ou ferir um homossexual porque ele é um homossexual. No Brasil de hoje, homofobia é chamar o juiz de viado.

Mas, como já disse acima, a bola da vez é a religião. Depois que Silas Malafaia conclamou o boicote dos fiéis de sua igreja aos produtos de O Boticário (assunto que rendeu um artigo meu na Gazeta do Povo), parece que a mídia resolveu enfatizar notícias que normalmente nem seriam publicadas, mas que agora, no conjunto, parecem dar a ideia de que o Brasil tem sua própria guerra religiosa acontecendo. isisAs notícias vão sendo publicadas com um viés planejado, e a sugestão de que os crimes foram cometidos por religiosos intolerantes é dada de maneira clara, sem que investigação nenhuma tenha apresentado tal conclusão, sem evidências comprobatórias e sem nada de concreto para sustentar a tese. O apedrejamento da menina do candomblé, o vandalismo ao túmulo de Chico Xavier, a morte do diretor de um centro espírita, e outras notícias que têm pipocado na mídia com muito mais ênfase do que em outras épocas – tudo parece indicar que o bode foi colocado no meio da sala, e o nome dele é cristianismo.

No ano passado, 60 mil brasileiros morreram assassinados, vítimas de uma política pública de segurança irresponsável e de um governo comprometido com o bem-estar dos criminosos. Morrem no Brasil, em um ano, mais pessoas do que durante todo o conflito entre israelenses e palestinos, mas quando morre um religioso os “experts” investigativos da mídia concluem rapidamente que a motivação é religiosa. Afinal, a chance de alguém morrer assassinado no Brasil é tão pequena, não é mesmo? E de notícia em notícia os cristãos brasileiros vão ganhando uma imagem de guerrilheiros do ISIS, como se estivessem prontos a decapitar fileiras de infiéis e postar seus vídeos na internet.

A continuar assim o Brasil tem tudo para ser um país realmente comunista, no sentido mais macabro da palavra. Remova-se toda a caridade feita pelas muitas instituições religiosas que ainda se comprazem dos pobres e desvalidos, e restarão apenas os programas de compra de votos que o governo petista tenta vender como solução para a miséria do povo. Elimine-se todas as igrejas do país, e restará apenas a devoção a um partido bandido como único preenchimento para o vazio da alma das pessoas.

Num país onde o único deus é o estado, o inferno é a realidade de cada dia.

Flavio Quintela é escritor e tradutor de obras sobre política e filosofia, e autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e Mentiram para mim sobre o desarmamento”.