Álvaro Dias e sua banana aos eleitores

Imagine a seguinte situação: você contrata um arquiteto para projetar sua casa, e escolhe aquele determinado profissional porque já viu suas outras obras, gostou do seu estilo e confia em seu trabalho. Depois das conversas iniciais, ele apresenta o projeto para você, e é tudo muito bonito. Animado e já ansioso pelo resultado final, você o aprova, e a construção começa. Um certo dia você resolve visitar a obra, como costuma fazer rotineiramente, e vê que o arquiteto colocou uma pilastra enorme e vermelha no meio da sala. Você pergunta o porquê daquilo, mas só obtém como resposta evasivas do tipo “confie em mim” e “esta é uma ótima pilastra, vai dar sustentação ao teto da sala”. De nada adianta levar o engenheiro civil, que considera a pilastra inútil, justificando que o teto da sala já está sustentado por todo um sistema de vigas e lajes, e nem argumentar que aquilo vai atrapalhar demais toda a utilização da casa, pois o arquiteto continua com a ideia fixa de manter aquela monstruosidade. Felizmente você tem à mão um recurso perfeito para esse tipo de problema: a rescisão de contrato. Você manda seu arquiteto plantar batata no asfalto e contrata outro em seu lugar.

Pois é… Infelizmente esse recurso não nos está disponível na política, e não podemos mandar o senador Álvaro Dias para junto do nosso arquiteto fictício. Esse senhor, cuja atuação parecia coerente, inclusive na contra-mão da covardia tucana, resolveu de um dia para o outro contrariar aqueles que o elegeram e colocar uma pilastra petista no meio de uma das salas mais importantes do Brasil, o STF. Não adiantam argumentos lógicos e verdadeiros, despejados aos montes por pessoas bem informadas nas postagens do perfil do senador no Facebook. Estas, que têm levantado questões seríssimas contra Luiz Edson Fachin, estão sendo ignoradas pelo senador Álvaro Dias, que prefere inventar todas as mentiras e desculpas que consegue para justificar seu maior equívoco, o de apoiar a indicação de Fachin ao Supremo Tribunal Federal.

A postura do senador tem ganhado ares de histeria; ele insiste em repetir e repetir e repetir que Fachin é uma pessoa digna, confiável e sem vínculos com o PT, enquanto deixa sem resposta as centenas de pessoas que não param de lhe deixar comentários recheados de dados e argumentos, esses sim verdadeiros. Não fosse Álvaro Dias um político de longa carreira, a quem não se pode atribuir ingenuidade, eu ficaria tentado a pensar que ele não para de repetir suas mentiras para tentar ele mesmo acreditar nelas. Mas um senador da república não chega nesse nível sendo ingênuo, e nem bobo. Elalvaro_bananae defende sua posição porque tem alguma razão muito forte para isso, e o faz descaradamente, afrontando os mesmos eleitores que lhe garantiram a cadeira do Paraná no Senado Federal, e que sentem-se impotentes, pois não podem demiti-lo e nem mesmo reclamar para seu chefe. Álvaro Dias chutou seus eleitores no traseiro e lhes deu o dedo do meio. Sim, eleitor paranaense, você levou uma banana do senador.

Numa única coisa o senador foi sincero: quando disse que o apoio à indicação de Fachin é uma postura coerente, ele estava certo. Pode não ser coerente com o trabalho que ele vinha fazendo, mas é coerente com o partido tosco ao qual ele pertence, é coerente com o que seu chefe, FHC, vem pregando esse tempo todo, e é coerente com a covardia de Aécio Neves diante das manifestações de março e abril. Álvaro Dias está finalmente agindo como o PSDB espera, fazendo papel de falso antagonista ao PT, ajudando a manter o Brasil nessa dualidade dos infernos, onde temos que escolher entre o fogo e a frigideira, entre o roto e o rasgado.

Como costuma dizer um grande amigo, que morte horrível a do senador Álvaro Dias.

Flavio Quintela é escritor e tradutor de obras sobre política e filosofia, e autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

Nova República: falecida em 12 de abril de 2015

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Colunistas, edição de 1 de abril de 2015.

Nossa realidade é cheia de dualidades, coisas ou forças que só existem se acompanhadas de seu par. É o caso dos ímãs, por exemplo. Todo ímã tem dois polos, norte e sul; corte-se um ímã ao meio e surgirão dois outros, cada um com os mesmos dois polos. A Nova República, denominação dada ao período posterior ao governo militar, começou em 1985, com o governo Tancredo-Sarney. Estamos falando de um período de 30 anos, do qual o primeiro terço foi marcado por acontecimentos de extrema relevância política, como a Constituinte e a eleição e impeachment de Collor, seguidos pela dualidade que todos conhecemos bem: PT versus PSDB.

É muito importante compreendermos o quão arraigada esta dualidade está neste período, pois somente assim poderemos entender o movimento histórico que está prestes a acontecer: a morte da Nova República e sua iminente substituição por algo que ainda não sabemos o que é. O fim do governo atual de Dilma Rousseff, seja por impeachment, renúncia ou cassação, é ao mesmo tempo o fim de uma era. E, com base no comportamento que os caciques tucanos têm tido em relação ao clamor popular, parece que eles também enxergam esse mesmo destino.

O término antecipado do governo Dilma significa a extinção do PT. O partido não tem mais lastro para voltar a governar: faltam quadros, falta imagem, falta ética – sobrou apenas o desespero de manter o esquema de poder a qualquer custo. E será também a extinção do PSDB, que elegeu-se fazendo um falso contraponto ao PT, e só sobreviveu nos últimos 12 anos graças à ignorância coletiva de um povo que acredita (ou acreditava) piamente que os dois partidos são antagônicos em suas essências.

Mas quem, ou o quê, substituirá essa dualidade que está prestes a acabar? É muito improvável que alguém saiba essa resposta, e não há nada mais amedrontador que o desconhecido. A maioria dos caciques políticos observa atônita o movimento popular que tomou as ruas em março último, sem conseguir saber como lidar com toda essa insatisfação ou o que dizer a essas milhões de pessoas. O medo os calou e os imobilizou.

Conseguirá a sociedade brasileira fazer o melhor uso possível desse medo, e conduzir-se ereta ao novo período histórico que está prestes a se iniciar? Saberemos a partir do próximo dia 12.

 

Flavio Quintela é escritor e tradutor de obras sobre política e filosofia, e autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e Mentiram para mim sobre o desarmamento”.