O mundo está chato mesmo

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 25 de fevereiro de 2016.

limoesO último comercial da Pepsi, em que dois limões reclamam da chatice mimizenta em vigor nos tempos atuais, é fantástico. Não só pelo humor irônico à disposição desde o primeiro segundo da peça, mas pelo poder de evidenciar o seu tema de forma tão viva: bastou sua veiculação para que os ofendidos de plantão, os paladinos do politicamente correto e todos os afetados por essa doença chamada vitimismo, fossem em seu combate.

No Twitter, comentários que vão desde moderados como “comercial de mau gosto” até absurdos doentios como “comercial da Pepsi > escravidão > Holocausto > 11 de Setembro” mostram que a temática da peça não só está corretíssima, mas que foi imediatamente aplicada a ela mesma. E a insanidade não parte apenas de alguns consumidores, mas também do Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (Conar), que levará o comercial a julgamento por possível deboche e depreciação de minorias, mesmo não havendo nenhuma menção a nenhuma minoria, a não ser a dos limões, grupo social cujos membros, até o momento, não se pronunciaram sobre o assunto.

O politicamente correto é uma das grandes desgraças desta geração. Embora possa parecer, de início, algo sem muita importância ou sem consequências graves, a aplicação sistemática da mentalidade de proteger as pessoas de suas ditas fraquezas à custa das liberdades individuais, nas últimas décadas, resultou numa geração de incapacitados para a vida adulta real. Por vida adulta real entenda-se aquela em que a pessoa tem momentos de alegria e de sofrimento, passa por injustiças e também por situações justas, é amada e odiada, tem amigos e gente que não a suporta, recebe elogios e xingamentos, é exaltada e ridicularizada. Mas, para viver a vida adulta real, é necessário ser adulto de verdade, o que pressupõe uma autoconfiança suficiente para resistir às provas diárias e uma autoestima que leve à mais libertadora de todas as experiências humanas: rir de si mesmo.

Se as pessoas forem incapazes de suportar as dificuldades mais simples da vida, aquelas que podem ser resolvidas apenas com uma mudança de atitude própria, o que farão diante de situações realmente desafiadoras, como um colapso financeiro, uma doença grave, um divórcio ou uma morte na família? Se precisam ser protegidas até mesmo de palavras que não lhes são pessoalmente direcionadas, como enfrentarão ameaças reais às suas vidas? A resposta a essas perguntas é a própria razão da existência dos governos assistencialistas de esquerda: você não precisa ser autossuficiente nem autoconfiante, porque o Estado está aqui para cuidar de você. O Estado não deixará que ninguém o ofenda, que ninguém tire seu emprego, que ninguém ameace seu mundo perfeito de paz e felicidade. O problema é que, ainda que esse mundo “perfeito” fosse possível, seu preço – a supressão das liberdades individuais – seria alto demais. Mas a situação ganha ares de ficção científica diante de uma análise da realidade: em troca do confisco de suas liberdades e de seu dinheiro, o povo recebe um pedaço de papel de pão com os dizeres “prometo que tudo vai ficar bem”, assinado pelo papai Estado.

É papel importantíssimo dos pais a orientação para que seus filhos aprendam que não são vítimas, mas protagonistas com vontade própria; que não são indefesos, mas resistentes e resilientes; que não são dependentes de nenhum governo, mas capazes de criar riqueza e bem-estar com suas próprias mãos. E, acima de tudo, ensiná-los a… (clique aqui para acessar o restante do artigo na página do jornal).

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

Comida de avião

Artigo publicado em O Coyote, página 6, edição de outubro/novembro de 2015.

airline-foodPassei a adolescência e juventude inteiras chamando meus amigos por vocativos carinhosos como bicha, veado, boçal, retardado, jumento e outros do mesmo calibre. Em retribuição ouvia não só as mesmas coisas, como outras como lupa (referência à minha miopia de dois dígitos), baleia (fui gorducho até os 12 anos de idade), CDF etc. Para nós, moleques no final da década de 80, era impossível ver o Ney Matogrosso ou o Clodovil na televisão e não gritar, quase que num ato reflexo, “bicha louca!”

As coisas mudaram. Naquela época, colocar um brinco significava ser devidamente atormentado por meses a fio, e receber uma quantidade redobrada de apelidos. Hoje, quem xinga o goleiro do time adversário de veado e é pego pelas câmeras de televisão pode acabar tendo a vida destruída pelos ativistas das mídias sociais. Um professor esquerdista típico é capaz de criar um ciclo de palestras para festejar seu aluno pré-adolescente que resolveu se assumir homossexual, e formalizar um pedido de suspensão do outro que disse, baixinho, “bicha”.

A ditadura do politicamente correto, um dos filhotes mais feios e chatos da esquerda, acabou com a graça da vida. Seu lema principal é o “não pode”. Não pode caçoar da obesidade, da miopia, da opção sexual, da inteligência, da falta dela, da estatura, do cabelo, da careca, da cor, da etnia, dos trejeitos, do jeito desengonçado, da gagueira, da falta de habilidade e da idiotice de ninguém. Junto com essa vitimização veio também o desprezo pela beleza, pela estética, pela arte e pela verdade. O relativismo agigantou-se e fez uma inversão que jamais poderíamos esperar ou desejar: o belo tornou-se desprezível e o feio cultuável; a genialidade é loucura, e a mediocridade é desejável; o esforço é para idiotas, e o direito imerecido é para todos. Não é preciso ser muito inteligente para perceber que esse tipo de pensamento é baseado fundamentalmente em um sentimento torpe: a inveja. Afinal, se não posso ser belo, desprezarei quem o é e exaltarei meus semelhantes. Se me falta a genialidade, retratarei os gênios como loucos e diminuirei suas conquistas. Se criar a verdadeira arte me é impossível, criarei qualquer lixo e o elevarei ao patamar de obra prima. Isso é o que qualquer invejoso faz sozinho; o problema é quando muitos invejosos, juntos, ditam o ambiente cultural de uma nação – em grupo eles se protegem, se reforçam e ocupam espaços importantes, mudando os critérios de forma a agradar a si mesmos e a seus pares.

Esse é um dos grandes problemas do Brasil de hoje, e um difícil de resolver. Deixamos que os invejosos ocupassem muitas posições importantes e que ditassem muitas regras que sequer deveriam existir. E invejosos são como qualquer outro ser vivo da natureza: eles geram outros invejosos.

Escrevi este texto durante um voo para o Brasil, impactado por uma imagem que jamais sairá da minha mente, infelizmente. É a de um sujeito muito gordo e nu, sentado no chão e lambuzado de azeite de dendê. Ele chama aquilo de arte, e eu nem sei do que chamar. Afinal, se eu disser que ele é um gordo enorme, serei gordofóbico; se disser que as tetas dele são maiores que as de uma índia, estarei desrespeitando os nativos; se disser que aquilo é nojento, é capaz de ser acusado de preconceito contra os baianos, já que eles apreciam muito o tal azeite. E assim, como todo mundo faz parte de uma minoria a ser protegida, ninguém mais pode dar boas risadas do ridículo alheio.

Vasculhando minha mente, lembro-me de uma categoria de pessoas que ainda não foi descoberta pelos xiitas do politicamente correto, e que renderiam boas risadas: as pessoas que gostam de comida de avião. Pena que eu sou uma delas.

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

 

Vamos boicotar

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Colunistas, edição de 14 de junho de 2015.

De 1985 a 1994 a Kalunga patrocinou o Corinthians. De 1985 a 1994 ninguém da minha família colocou os pés numa loja da Kalunga. Como bons palmeirenses, fizemos nosso boicote ao patrocinador do arquirrival.

O livre mercado, essa coisa tão desprezada e vilipendiada pela esquerda, eleva o cliente a patrão supremo, com base numa regra simples e básica: ninguém é obrigado a comprar o que não quer. E por isso cada cidadão pode fazer e promover o boicote que bem entender.

O recente episódio que ocupou a mídia por vários dias, envolvendo um comercial de O Boticário para o dia dos namorados, traz à tona dois aspectos bastante característicos da linha de pensamento de esquerda: desprezo pela liberdade de expressão e desigualdade de direitos.

Desde que a tropa de choque do politicamente correto começou a ocupar posições de destaque, a liberdade de expressão vem sendo cerceada, e qualquer manifestação contrária ao uso político das minorias para promover a agenda da esquerda é atacada com violência pelos hipócritas que se intitulam defensores da tolerância, mas que não toleram nenhum pensamento contrário ao seu. Em consequência disso são raros, hoje, espaços como este em que escrevo livremente.

Mas o comportamento da esquerda, que gosta de se chamar de progressista, é também o de total desrespeito pela igualdade de direitos. É o comportamento do se-você-faz-é-feio-mas-se-eu-faço-não-é. Boicote de religioso que não concorda com um comercial que faz menção a relacionamentos homossexuais, não pode. Mas boicote aos produtos da grife Dolce & Gabbana por conta da opinião dos estilistas a favor da família tradicional, pode (detalhe: Dolce e Gabbana são gays). Pode também boicote às massas Barilla e à rede de restaurantes Chick-fil-A, pois ambas se posicionaram contra a agenda esquerdista.

Essa mentalidade contamina as pessoas de tal forma que já há minorias desprezadas dentro das minorias. Gays que se declaram de direita, negros que são contra as cotas raciais, pobres que dão uma banana aos programas assistencialistas, são todos difamados e insultados por seus “semelhantes”; afinal, se você faz parte de uma minoria, mas não pensa como um desvalido, você é um pária. Traduzindo: se você se encaixa no estereótipo do vitimizado, mas pensa como um cidadão adulto e responsável, você está errado, é um boçal.

Não é de hoje que a esquerda reivindica o monopólio da virtude, e também não é de hoje que suas contradições são tão descabidas quanto absurdas. A lista de hipócritas é extensa, e inclui milionários pregando o socialismo de cima de suas coberturas tríplex, políticos pregando o desarmamento cercados de seguranças armados, artistas pregando a ecochatice de dentro de jatinhos queimadores de combustível fóssil, músicos pregando o respeito ao conteúdo nacional com os bolsos cheios pela Lei Rouanet, e assim por diante. Essa hipocrisia, que deveria ser enojante, desprezível, acaba encontrando lugar na mente de um povo infantilizado, mergulhado num oceano de vitimismo e falsos direitos.

Termino pedindo: por favor, boicote. Prefira as empresas que representam o seu pensamento, as suas preferências, os seus ideais, e com isso faça girar a máquina extraordinária do livre mercado. E se fulano reclamar do seu boicote, boicote-o também. Boicotemos os chatos e os hipócritas.

Flavio Quintela é escritor e tradutor de obras sobre política e filosofia, e autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e Mentiram para mim sobre o desarmamento”.