Brazil Bizarro

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 27 de outubro de 2016.

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O Mundo Bizarro é um lugar bem conhecido daqueles que acompanham os quadrinhos da DC. É um planeta chamado htraE (Earth de trás para frente), quadrado em vez de redondo, onde tudo acontece ao contrário do que aconteceria na Terra: a feiúra é exaltada em vez da beleza, o objetivo dos empresários é perder dinheiro em vez de ganhá-lo, Aquaman não sabe nadar, Flash é o homem mais lento do mundo e Batzarro (o Batman de lá) é o pior detetive do mundo.

Quem quiser conhecer um mundo bizarro fora dos quadrinhos pode vir ao Brasil. Nós somos, sem sombra de dúvida, um país onde as coisas todas acontecem ao contrário. É no Brasil que os cidadãos são proibidos de portar um revólver sequer, enquanto os criminosos fazem uso de armamentos mais poderosos que os do Exército. É no Brasil que uma pessoa de bem, respeitadora da lei, é processada por homicídio por salvar seus familiares das mãos de criminosos, enquanto bandidos condenados e presos são soltos para passar o Natal com a família. É no Brasil que a presidente da República perde seu mandato, mas não perde os direitos políticos.

Mas é na área da educação que o Brasil consegue ser o mais bizarro dos lugares bizarros. Afinal, em que outro lugar o Estado aloca R$ 60 bilhões anualmente para a educação pública e consegue a façanha de ocupar as últimas posições em todos os exames comparativos entre alunos do mundo todo? Em que outro lugar o Estado investe em universidades públicas gratuitas e faz um trabalho porco no ensino básico e médio? Em que outro lugar os alunos saem quase analfabetos da escola, e apenas 8% deles atingem a proficiência na língua portuguesa? Em que outro lugar apenas 16% dos profissionais da educação possuem alto nível de alfabetização?

As ocupações de escolas em protesto contra a PEC são a cereja do bolo de nossa bizarrice. A situação parece até fictícia: alunos semianalfabetos, parte de um sistema educacional falido e ideologizado, ocupam escolas para protestar contra algo que não fazem a mínima ideia do que seja. Como escrevi nesta mesma coluna, na semana passada, a PEC 241 é de uma lógica e coerência ímpares no cenário legislativo brasileiro, e qualquer pessoa dotada de uma capacidade mediana de interpretação de texto, de um conhecimento básico da realidade brasileira e desprovida de uma agenda ideológica chegará à conclusão de que não há nada de errado com a proposta, e de que ela não afetará as verbas alocadas para a área educacional. Mas os nossos alunos, que passaram mais tempo aprendendo a colocar preservativos em pênis do que decorando a tabuada, e que não conseguem escrever um texto de duas linhas sem cometer menos de dez erros, acham que estão aptos a opinar e a agir contra essa rara iniciativa de boa administração pública. Inflamados muitas vezes por professores cujo objetivo único de estar em sala de aula é transmitir sua doutrina política, esses meninos e meninas, na grande maioria incapazes de entender um texto curto de jornal, agem como se fossem especialistas da lei e salvadores da pátria.

No mundo normal, a polícia entraria nas escolas, tiraria os baderneiros e instauraria a ordem. No Brasil Bizarro, ninguém faz nada, nem mesmo quando os alunos se matam dentro das escolas. No mundo normal, os pais ensinariam aos filhos os valores morais e teriam aquela conversa sobre sexo quando achassem apropriado; a escola, por sua vez, daria a base intelectual – a língua materna em sua forma culta e as ciências naturais. No Brasil Bizarro, o Estado quer falar de sexo desde o ensino primário, os alunos passam de um ano para o outro sem saber o que é uma prova ou avaliação, e escrever errado não passa de uma outra realidade cultural.

Todos os países que passaram por grandes surtos de desenvolvimento tiveram uma coisa em comum: um investimento inteligente e efetivo em educação. Quando eu estava na escola, pública por sinal, era a vez dos Tigres Asiáticos. A Coreia do Sul era o caso mais incrível: de país pobre a país desenvolvido em apenas duas décadas. O contrário também é verdadeiro. Os Estados Unidos têm feito as mesmas apostas erradas do Brasil – as universidades americanas são hoje um celeiro de professores marxistas, e têm formado uma geração de jovens extremamente mal preparados e incapazes de ocupar posições produtivas na sociedade. A diferença é que eles têm mais de 80% das melhores universidades do mundo em seu território, e isso funciona como um colchão protetor, que adia a chegada a uma situação de calamidade como a nossa. O nosso colchão já arriou faz muito tempo.

Não há governo neste país que comece um mandato sem dizer que focará seus esforços na educação. Quem parar de mentir sobre isso poderá realmente marcar a nossa história.

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e “Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

Ah, se eu ganhasse mais…

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 20 de outubro de 2016.

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Quem nunca disse ou nunca ouviu alguém dizer “ah, se eu ganhasse mais dinheiro, não teria tantas dívidas”? Todo endividado pensa isso, porque todo endividado pensa que o problema é não ter dinheiro suficiente, quando na verdade, na grande maioria das vezes, o problema é ter despesas demais. Isso vale para brasileiros e americanos, para pessoas, empresas e governos, para pobres e ricos.

No quesito gente, a coisa não anda nada bem. Um artigo recente da revista Forbes mostra que uma pessoa que tenha US$ 10 no bolso e nenhuma dívida contraída – nenhuma parcela de casa, carro, crediário ou cartão de crédito – é mais rica que 15% dos americanos. Isso significa que há mais de 45 milhões de pessoas, só nos Estados Unidos, que possuem patrimônio líquido negativo. No Brasil, a situação não é muito mais bonita. Segundo dados do Banco Central, 46,3% da renda média das famílias brasileiras está comprometida com dívidas.

Apesar dos números preocupantes, quando fazemos uma comparação com a situação do nosso governo, dá até vergonha de criticar o povo: a dívida pública brasileira chegou ao patamar de 73% do PIB neste ano. E, apesar desse porcentual assustador, muita gente se posicionou contrariamente à PEC 241 – proposta de emenda constitucional que fixa um limite máximo para os gastos públicos –, aprovada em primeira votação no plenário da Câmara no último dia 10. A PEC define que os gastos públicos de um determinado ano não poderão exceder os do ano anterior (valendo a partir de 2017, com valores corrigidos por conta da inflação), ou seja, congela os gastos públicos no patamar atual, que já é monstruosamente alto.

O pessoal que anda escrevendo contra a PEC 241 bate na tecla de que o congelamento dos gastos significará o corte de verbas importantes para o bem-estar social. A lógica que usam é a mesma do cidadão endividado: o problema é não ter dinheiro. Mas, quando se fala de governo, o problema é realmente não saber como gastar o dinheiro. A quantidade de recursos que some nos ralos do aparato governamental é incalculável. Ineficiência, burocracia, má administração, corrupção, falta de inteligência e incapacidade técnica – estas são apenas algumas das razões pelas quais o dinheiro dos impostos não é aproveitado de uma forma minimamente decente.

A imagem figurativa mais clara que me vem à mente é a de um cofre cheio de buracos. Os que se declararam contrários à PEC 241 – faço menção desonrosa ao vídeo do Mídia Ninja, narrado por Gregório Duvivier e recomendado no perfil de Dilma Rousseff no Twitter – são os loucos que querem encher o cofre jogando mais dinheiro. Eles acham que dinheiro dá em árvore (aposto que você já ouviu isso de sua mãe ou de seu pai) e que basta encher o cofre mais rapidamente do que os buracos o esvaziam para que tudo esteja certo. Para os seres pensantes, é óbvio que não adianta fazer nada enquanto os buracos estiverem drenando tudo o que se joga ali dentro.

E não adianta ganhar mais dinheiro. Países como Estados Unidos, Japão, Espanha e França têm dívidas públicas ainda maiores que a do Brasil. Lá, como aqui, o governo só sabe fazer uma coisa melhor que as pessoas: desperdiçar recursos. Se é para desperdiçar, que seja com limite.

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e “Mentiram para mim sobre o desarmamento”.