Era Eva brasileira?

Existe uma expressão muito comum entre os juízes e promotores de justiça americanos, empregada quando a acusação tenta usar provas obtidas de forma ilegal. Por exemplo, se um policial consegue apreender a arma utilizada num crime através de uma busca e apreensão sem mandado judicial, esta arma não poderá ser usada pelos promotores para compor o caso de acusação, pois isso seria comer do fruto proibido.

frutoEste conceito diz muito sobre o modo com que um povo faz suas coisas. Afinal, ele é justamente o oposto do terrível “os fins justificam os meios”. Comer do fruto proibido é negar o conjunto de regulamentos que torna a sociedade um lugar minimamente decente de se viver. Quando os fins justificam os meios, tudo é possível, e todas as atrocidades são permitidas em nome de um bem maior. Foi assim que Stálin, Mao, Hitler e tantos outros conseguiram assassinar tanta gente, convencendo as pessoas de que em prol de um “bem maior” tudo é justificável, até mesmo a morte de milhões de pessoas.

O Brasil, infelizmente, não é um país onde se evita o fruto proibido. Na verdade, parece que quanto mais proibido, mais se come dele. A declaração do sambista Neguinho da Beija-Flor, dada ontem à Rádio Gaúcha de Porto Alegre, exemplifica muito bem o que estou dizendo. Disse ele:

Se hoje temos o maior espetáculo audiovisual do planeta, agradeça à contravenção.

Ele se refere à história dos desfiles cariocas, que na época em que eram organizados pelo poder público eram extremamente desorganizados (como quase tudo o que o poder público faz no Brasil), mas que passaram a ser o espetáculo que são depois que os contraventores se juntaram e assumiram a organização da festa. Mas, afinal de contas, o que é uma contravenção quando o resultado é tão espetacular, não é mesmo? Uma escapada aqui, um “debaixo dos panos” ali, e de fruto proibido em fruto proibido nós construímos um país de bandidos, onde qualquer fim, por mais banal que seja, justifica todos os meios. E assim vamos criando e elegendo Lulas, Dilmas, Sarneys, Renans e Collors, e afundando cada vez mais em nossa falta de princípios e moral.

Nunca acreditei que Deus fosse brasileiro, como dizem. Já Eva…

 

Flavio Quintela é escritor e tradutor de obras sobre política e filosofia, e autor do livro “Mentiram (e muito) para mim”.