Joanna-ninguém

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 11 de agosto de 2016.

Hipocrisia. Esta talvez seja a palavra que melhor define o pensamento de esquerda. Ela permeia todo o espectro de pessoas ligadas a este, desde os pensadores que deram início a esse câncer histórico, passando pelos líderes e poderosos e incluindo uma quantidade incontável de idiotas úteis.

Jean Jacques Rousseau, filósofo francês que deu início ao pensamento de esquerda com sua distorcida noção de que o homem nasce bom e é corrompido pela sociedade, foi o primeiro hipócrita da turma. Ao mesmo tempo em que escreveu um livro sobre como educar as crianças, abandonou todos os seus cinco filhos em um orfanato, sem piedade. Um primor de bondade e compaixão.

Karl Marx, o mais influente pensador da esquerda, foi outro hipócrita de carteirinha. Nascido em família de classe média, filho de um advogado bem sucedido, Marx nunca chegou perto da classe trabalhadora sobre a qual escreveu. A luta de classes de que ele tanto fala nunca passou de elucubrações de sua mente, e a pena que escreveu O Capital foi segura por mãos virgens de trabalho pesado.

Com Vladimir Lenin, a hipocrisia ganhou oficialidade. Foi ele quem disse: “Acuse os adversários do que você faz, chame-os do que você é.” A máxima de Lenin tem sido um norte na conduta de todos os líderes de esquerda desde então. Hillary Clinton, atual candidata democrata à presidência dos EUA, discursa inflamadamente contra os ricos e poderosos, contra as fortunas de Wall Street, ao mesmo tempo em que recebe doações milionárias de campanha dessas mesmas pessoas. Lula, ex-presidente e quase-presidiário, se dizia trabalhador e do povo, enquanto acumulava imóveis, andava em jatos particulares e se deliciava com jantares que custavam alguns anos de salário mínimo.

Como não poderia deixar de mencionar os idiotas úteis, usarei o exemplo mais recente e diretamente ligado ao momento esportivo que vivemos hoje no Brasil. A nadadora Joanna Maranhão, que por muitas vezes deixou clara em suas declarações públicas a sua admiração pela quadrilha chamada Partido dos Trabalhadores, resolveu ganhar o primeiro lugar em alguma coisa fora da piscina (mesmo porque dentro dela lhe falta a competência) e disparou a mais hipócrita de todas as suas declarações. Disse ela, depois de ser eliminada da final dos 200m borboleta, que o Brasil é um país homofóbico, machista, racista e xenófobo. Pouco tempo depois, a excelente página Caneta Desesquerdizadora, presente no Facebook e no Twitter, compilou uma série de tweets da nadadora brasileira, desnudando sua hipocrisia, os quais eu cito no próximo parágrafo.

A Joanna que acusou o Brasil de ser homofóbico é a mesma que disse “Fred Mercury não era gay, só curtia emprestar a bunda!” e “Ariadna, pega (sic) os 2mil e paga seu funeral… porque pra você se passar por mulher só morrendo e nascendo de novo!” (referindo-se a Ariadna Arantes, transexual que participou do reality show Big Brother Brasil). A Joanna que acusou o Brasil de ser machista é a mesma que disse “Sinceramente, por que tem tanta mulher vagabunda nesse mundo?” e “Depois de Bruna Surfistinha, virou moda puta ficar rica, né?”. E a Joanna que acusou o Brasil de ser xenófobo é a mesma que disse “E vou falar uma coisa, me irrito com esse povo do sul e do sudeste que nunca se envolveu com política e é contra o PT” e “[sou] Boa o suficiente pra nunca ter perdido de nenhuma sudestina ou sulista nas minhas provas.” Medalha de ouro para ela no quesito “faça o que eu digo, não faça o que eu faço”.

Joanna Maranhão poderia ser apenas uma atleta que não conseguiu chegar à final. Poderia assumir a derrota com grandeza, como fizeram Novak Djokovic e Serena Williams, favoritos ao ouro e lendas em seu esporte. Poderia tirar lições, rever conceitos, repensar a carreira, arrumar força para treinar mais forte ou mesmo remoer-se em ódio por não ter conseguido seus objetivos. Mas, como todo vitimista de esquerda, ela resolveu jogar a culpa nas circunstâncias, nos fatores externos, na sociedade, no Brasil, no lugar periférico em que a Terra se encontra na Via Láctea etc. Como dizia o grande filósofo cartoon-pop, Homer Simpson, “a culpa é minha e eu a coloco em quem eu quiser”.

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

Os jogos da individualidade

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 4 de agosto de 2016.

Nesta sexta-feira (5) começam os Jogos Olímpicos, a celebração mundial do esporte e da competitividade do ser humano. Quem sintonizar o televisor na transmissão do evento certamente não verá cachorros apostando corrida ou cangurus competindo para ver quem pula mais alto; competir pelo simples prazer de competir é algo humano, assim como o é superar os próprios limites pelo simples prazer de superá-los.

Ser um esportista profissional, ou melhor ainda, ser um atleta olímpico, não é “bolinho”, como diz um amigo meu de Piracicaba. Certo tempo atrás eu li uma entrevista com Oscar Schmidt, o maior nome na história do basquete brasileiro, e nela o jogador dizia que sua vida era marcada por uma característica constante: a dor. Outros atletas de alto nível já deram testemunho do mesmo. É o preço cobrado por anos de submissão do corpo a treinos pesadíssimos e extremamente exigentes; é o preço do sucesso e da vitória, que não admitem empréstimos ou transferências de dívida.

Em tempos onde as pessoas se consideram “no direito” de tantas coisas – tempos onde professores defendem que não se corrija os alunos em sala de aula para não constrangê-los, onde um criminoso é tratado com leniência porque nasceu em uma favela, ou onde a cor ou a orientação sexual de uma pessoa aumentam suas chances oficiais de frequentar uma faculdade ou de exercer um cargo público –, tempos sombrios para o sucesso individual, as Olimpíadas são um lembrete quadrienal de que uma pessoa pode tomar as rédeas de sua vida e perseguir a vitória apesar de todas as dificuldades ao seu redor.

A beleza do esporte não está na esperança de confraternização entre os povos; esta é apenas uma mensagem externa à realidade dos atletas, que chegaram ao Rio de Janeiro para competir e vencer. E, para isso, cada um deles conta apenas consigo mesmo ou, no máximo, com os companheiros de equipe. No esporte, pelo menos até o momento, não há cotas, não há direito de ser feliz, não há mãozinha na cabeça. As regras são as mesmas e valem para todos: você tem o direito a participar, é proibido de usar substâncias que lhe deem uma vantagem injusta sobre seus competidores e, caso seja melhor que todos os outros, receberá o reconhecimento público e mundial por isso. É o individualismo em todo o seu esplendor e glória.

O povo brasileiro, atualmente tão acostumado a ser “cuidado” pelo Estado, vivendo sob uma Constituição que garante direitos absurdos e impraticáveis, pode fazer bom proveito do próximo mês e usar o exemplo olímpico para mudar seu modo de pensar. Muitos atletas que receberão medalhas nestes jogos são de origem humilde ou de países pobres; um outro tanto vêm de famílias desestruturadas, e alguns certamente sofreram bullying em seu tempo de escola. São, por assim dizer, representantes perfeitos de muitas das “minorias” que hoje demandam direitos e privilégios. No entanto, graças somente à força que um indivíduo possui dentro de si, e não a políticas coletivistas, nada disso os impedirá de chegar ao topo em suas modalidades.

Que estes não sejam os jogos da diversidade; que sejam os jogos da individualidade. Que o vitimismo pereça sob o metal das medalhas, entregues aos verdadeiros vencedores, aqueles que não vencem apenas seus competidores, mas a si mesmos. E que, em vez do vírus zika, esse espírito de superação seja o verdadeiro contágio na Rio 2016.

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

Síndrome de Estocolmo

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 28 de julho de 2016.

No dia 13 de setembro de 2007, encerrou-se o prazo de inscrições para cidade-sede dos Jogos Olímpicos de 2016. Sete cidades foram inscritas: Rio de Janeiro, Chicago, Madri, Baku, Praga, Doha e Tóquio. Naquele momento, quando a cidade brasileira começava seu processo de candidatura, qualquer administrador mediano saberia que era hora de se mexer. Apesar da forte concorrência das outras seis cidades e das péssimas condições de transporte e acomodação da cidade, no dia 2 de outubro de 2009 – exatamente 2,5 mil dias antes do início dos jogos – o Comitê Olímpico Internacional concedeu ao Rio a honra de ser a primeira cidade sul-americana a sediar os Jogos Olímpicos.

Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, desistiu de concorrer aos Jogos de 2020. Lá, o arranha-céu Burj Khalifa, maior estrutura já construída pelo ser humano – 828 metros de altura e 160 andares –, ficou pronto em menos de 2 mil dias, com um custo total de US$ 1,5 bilhão. Enquanto isso, num país chamado Brasil, um complexo de prédios comuns e de construção simples não conseguiu ser erguido e inaugurado dentro do dilatadíssimo prazo de quase sete anos. O custo final, financiado integralmente pela Caixa Econômica Federal, deve chegar bem perto de US$ 1 bilhão.

A Vila Olímpica foi apenas a mais recente das vergonhas que o Brasil tem passado no tocante aos Jogos Olímpicos do Rio. Depois de sermos manchete em diversos países pela nojeira das “águas olímpicas” brasileiras (o nome mais adequado seria esgoto olímpico), a novidade em cena são as delegações estrangeiras tendo de pagar reformas do próprio bolso e manter seus atletas em hotéis por causa do estado deplorável em que foram entregues os apartamentos. Sim, mesmo com R$ 3 bilhões gastos, sobraram vazamentos, falhas elétricas, acabamento defeituoso e sujeira nas obras tocadas por Carvalho Hosken e Odebrecht. Australianos, americanos, suecos, argentinos, quenianos e até mesmo os venezuelanos, acostumados à penúria imposta pelo regime de Maduro, reclamaram com razão das condições ridículas que encontraram quando foram se instalar na Vila.

Seria culpa da incompetência das construtoras? Difícil. A Odebrecht, por exemplo, tem obras espalhadas pelo mundo todo, e costuma entregar construções de alta qualidade, feitas dentro de um orçamento muito mais enxuto e controlado que o da famigerada Vila Olímpica. Seria culpa da indisponibilidade de materiais ou de mão de obra qualificada? Certamente que não. Todos os dias são entregues prédios de todos os tipos nas mãos da iniciativa privada, verdadeiras obras de arte de acabamento luxuoso. Não estando o problema na competência técnica e nem nos materiais usados, só sobra um culpado possível: aquele que criou as regras, contratou as empreiteiras e supervisionou a obra, o Estado, sobre o qual Milton Friedman disse: “Se colocarem o governo para administrar o Deserto do Saara, em cinco anos faltará areia”. Detalhe: ele dizia isso tendo em mente governos muito mais eficientes que o brasileiro.

Ao mesmo tempo em que os governantes brasileiros dão provas diárias de sua incompetência e incapacidade de gestão, a população média deseja cada vez mais Estado. Pesquisa recente feita pelo instituto Paraná Pesquisas mostrou que mais de 61% dos brasileiros são contra privatizações. É quase uma Síndrome de Estocolmo coletiva – trancado em seu cativeiro tupiniquim, o povo sofre diariamente com hospitais caindo aos pedaços, transporte público horroroso, estradas perigosas e esburacadas, repartições públicas ineficientes, combustível caro e uma das piores educações do mundo, só para citar os principais fiascos, e continua pedindo que o Estado assuma mais responsabilidades, que regule mais a economia, que faça mais leis e que tome mais dinheiro em forma de impostos.

Precisamos urgentemente de um esforço nacional de atendimento psiquiátrico. Os brasileiros só podem estar loucos.

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e Mentiram para mim sobre o desarmamento”.