É o amor

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 29 de dezembro de 2016.

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Pensei bastante no tema a que dedicaria minha última coluna de 2016. Tentei achar algo realmente relevante no cenário nacional, mas o máximo que encontrei foram discussões infrutíferas sobre a legitimidade ou não de um presidente da República se deleitar com sorvetes importados. No cenário americano, o mesmo do mesmo: democratas e mídia mainstream tentando de todas as maneiras desqualificar Donald Trump, desesperados com as escolhas acertadas e conservadoras que ele tem feito para seu gabinete.

O fato é que eu não queria abordar nenhuma dessas picuinhas políticas nesta última vez em que me dirijo a você, leitor, no ano de 2016. Por isso, depois de meditar um tanto a respeito, resolvi falar daquilo que, em minha opinião, mais faz falta no mundo de hoje: o amor. Antes que você desista de ler o restante deste texto, saiba que não pretendo ser piegas, tampouco sentimentalista nesta reflexão. Caso essa percepção lhe ocorra, será mais por conta da desconexão que esse vocábulo tem com a realidade corrente do que por culpa de minha abordagem do mesmo.

A falta de amor é algo que me incomoda e me machuca diariamente. Tanto em coisas pequenas, como o vizinho que ouve música em volume altíssimo sem considerar as pessoas na casa ao lado, quanto em monstruosidades, como o ataque terrorista de Berlim, o principal problema deste mundo é a falta de amor. E que ninguém ache que a religiosidade é a cura para esse mal: cansei de acompanhar discussões entre católicos e protestantes nas mídias sociais que fariam o próprio Jesus Cristo virar as costas e sair envergonhado. E o que dizer do islamismo? Uma religião cuja forma mais radical é responsável atualmente pela quase totalidade dos ataques terroristas e pelo assassinato de inocentes que não professam a mesma fé, ou seja, que de amor não tem nada.

A falta de amor está nas coisas corriqueiras, no e-mail raivoso de quem não concorda com sua opinião, no sujeito que corta a fila, no atendente que trata mal os clientes, no cônjuge que dá uma patada no outro, no nervosinho que lhe mostra o dedo médio no trânsito, naquela puxada de tapete do colega de trabalho e em cada ato desonesto praticado por quem quer que seja. Longe de querer endossar a tese descabida de muita gente da esquerda, de que alguém que cola numa prova é tão sujo quanto quem recebe milhões em propina, creio que a falta de amor nas pequenas coisas é condição sine qua non para a falta de amor nas grandes. Aliás, este é o grande problema do marxismo e da esquerda em geral: achar que é possível amar as multidões e odiar os indivíduos ao mesmo tempo.

A Bíblia possui muitíssimas passagens em que o amor é o tema principal. Talvez a mais conhecida seja aquela escrita por Paulo, em sua Carta aos Coríntios, aquela que Renato Russo utilizou como letra de uma canção, a mesma que é lida e repetida em casamentos ao redor de todo o globo: “Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver amor, serei como o sino que ressoa ou como o prato que retine. Ainda que eu tenha o dom de profecia e saiba todos os mistérios e todo o conhecimento, e tenha uma fé capaz de mover montanhas, mas não tiver amor, nada serei. Ainda que eu dê aos pobres tudo o que possuo e entregue o meu corpo para ser queimado, mas não tiver amor, nada disso me valerá. O amor é paciente, o amor é bondoso. Não inveja, não se vangloria, não se orgulha. Não maltrata, não procura seus interesses, não se ira facilmente, não guarda rancor. O amor não se alegra com a injustiça, mas se alegra com a verdade. Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta”.

O texto é magistral. É claro como água: amigão, você pode fazer o que quiser, pode parecer legal, fingir ser honesto, fazer pose de justo e se declarar o defensor dos pobres e oprimidos; se não tiver amor, não vale nada. Você pode ser petista, tucano, conservador, libertário, progressista, bolsonarete, olavete, religioso, ateu, palmeirense, corintiano, branco, preto, amarelo, índio, gay, hétero, casado, solteiro, rico, pobre, ignorante ou letrado; se não tiver amor, não vale nada. É na hora de verdadeiramente amar que caem todas as máscaras e que ficamos completamente nus. O problema é que ninguém mais parece se importar com essa nudez, e ser cruel e desagradável tem passado de ofensivo a desejável.

Eu disse que você poderia achar este artigo piegas, porque no fundo ele tem uma só conclusão: a solução para tudo é o amor. Falando assim, pode até parecer que eu sou algum tipo de hippie pós-moderno, mas o fato é que se essa não fosse a solução, ela não teria sido adotada por Deus. Quando comemoramos o Natal, no domingo passado, comemoramos o nascimento de Jesus Cristo, ou seja, do Deus que, por amor, se encarnou e morreu pela humanidade. Esse amor nos está disponível, ao alcance de qualquer ser humano. Nossa natureza difícil e egoísta nos afasta, muitas vezes, de amar. Mas ela não pode servir de desculpa eterna. Se há uma coisa que posso desejar para 2017 é que você ame muito mais do que amou neste ano. Se fizer isso, certamente terá dias melhores. Feliz 2017!

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e “Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

A mágica do Natal

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 24 de dezembro de 2015.

Nossa natureza humana e o hedonismo tão presente em nosso tempo podem nos levar a acreditar que ter prazer é o grande propósito da vida. E costumamos transportar essa necessidade a tudo o que fazemos, inclusive a datas comemorativas como o Natal: alegria, presentes, celebração e otimismo são a tônica das festas de fim de ano.

Mas 2015 não termina com muitas razões para ser celebrado. É claro que cada um de nós tem suas conquistas no âmbito pessoal – alguns se casaram, outros tiveram filhos e outros mais se graduaram –, mas, no geral, o Brasil não tem sido motivo de esperança para ninguém. A sequência de acontecimentos e fatos ruins é grande demais para um período tão pequeno. Se alguém se dispuser a fazer um levantamento de tudo o que foi publicado na mídia relativo a escândalos de corrupção, piora da economia, desemprego e violência, só para citar quatro pontos, verá que a quantidade de material é mais que suficiente para encher uma década inteira, quanto mais um ano.

Sim, 2015 cansou. Cansou tanto que quebrou até essa necessidade de prazer, e deixou o Natal desprovido de qualquer sentido terreno. Vimos, durante o ano todo, o pior que se pode esperar da humanidade: mentiras, falcatruas, conchavos, subornos, desrespeito, ódio, incompetência, desonestidade, insensatez, egoísmo, torpeza, falsidade, crueldade; e tudo bem debaixo de nossos narizes.

natal-presepio_74847No meio de tudo isso o verdadeiro Natal se destaca sobremaneira. A entrega de um Deus perfeito em prol de uma humanidade imperfeita ganha ainda mais brilho num lugar tão marcado pela imperfeição como o nosso país. Se é verdade que buscamos o divino quase que exclusivamente nos momentos de adversidade, a mensagem natalina vem em boa hora. Despidos de motivos gerais de celebração, comemoremos o Natal pelo que ele realmente é: o surgimento da única esperança real de redenção do homem. É hora de lembrar do que aconteceu de melhor na história do mundo.

É claro que, no dia 26, Dilma continuará presidente, o PT continuará no poder, o PSDB continuará fingindo ser oposição, a honestidade continuará em baixa, o país continuará falido, a inflação continuará crescendo, a violência continuará a aumentar, as escolas continuarão a formar analfabetos e os hospitais públicos continuarão com gente nos corredores. Nem a mágica mais fantasiosa já imaginada pelo homem seria suficiente para consertar o Brasil num piscar de olhos. Mas a mágica do Natal é real e muito mais simples e efetiva. “Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu, e o principado está sobre os seus ombros, e se chamará o seu nome: Maravilhoso, Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz.” Que a misericórdia divina, materializada no primeiro Natal, esteja sobre o povo brasileiro.

Aproveito para desejar a todos os meus leitores um ótimo e abençoado Natal. Nos vemos aqui antes da virada do ano.

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e Mentiram para mim sobre o desarmamento”.