Não, ponto

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 3 de março de 2016.

Recentemente fui a uma loja de caça e pesca para comprar uma pistola. É uma loja enorme, de uma das maiores redes dos Estados Unidos, e vende desde fogãozinho para acampar até rifles de precisão. Como eu já tinha conversado com um atendente por telefone, e estava indo para fazer a aquisição, resolvi gravar um vídeo para mostrar como se compra uma arma por aqui. Chegando à loja, me dirigi ao departamento de armas e fui atendido por um senhor bastante simpático, um veterano de guerra. Puxei papo, disse que era brasileiro e que tinha escrito um livro contra o desarmamento, e que estava fazendo um vídeo sobre o assunto. Foi aí que lhe perguntei: posso filmá-lo falando sobre isso, sobre a importância das armas para a defesa própria? A resposta dele: não.

naoPara os brasileiros, falar “não” é tão difícil quanto escalar o Everest. Fosse no Brasil e eu teria ouvido algo do tipo “puxa, eu bem que queria, mas sabe como é, pode pegar mal com a gerência” ou “cara, seria um prazer te ajudar, mas eu não posso ir contra as normas da loja”. A nossa simpatia, tão difundida pelo mundo como a maior das qualidades brasileiras, não nos deixa falar um simples “não”. Não só isso, ela também nos faz interpretar um simples “não” como uma declaração de guerra, como uma negação pessoal, ainda que seja a primeira vez que falamos com a pessoa em nossa vida.

Não saber falar e ouvir “nãos” é um tremendo de um problema. É uma carga gigantesca que a pessoa leva nas costas e um convite à mentira. Falar “não” é o princípio primeiro do direito a ser deixado em paz. É com o “não” que evitamos aqueles tão famosos “programas de índio”, é com o “não” que nos livramos daquele colega aproveitador, é com o “não” que deixamos de fazer o que não nos agrada. Fulano, vamos para a festa de 80 anos da tia Zulmira, lá em Pirapora do Fim do Mundo? Não. Sicrano, você topa ser meu fiador? Não. Beltrano, preciso de alguém para me ajudar na mudança lá de casa, é coisa pequena. Não. É claro que não estou defendendo aqui que você se negue a ajudar qualquer um que lhe peça. O que estou defendendo é que você exerça a liberdade de fazê-lo quando bem entender, sem ficar se remoendo por ter magoado alguém.

Quando você fala “não” sem ressalvas, fica desobrigado de mentir. Afinal, o que dizer para seu primo que faz questão da sua presença no aniversário de 15 anos da filha, bem no dia em que você tinha marcado de ver o Super Bowl? Ou você diz um “não” sincero, ou inventa uma mentira, ou faz o que não quer e vai à festa. Parece que não, mas essa prática de mentir para se livrar do “não” acaba levando a um comportamento treinado e socialmente aceito. Quem já não esteve com alguém num bar ou restaurante e ouviu “só não posta no Facebook porque Fulano não pode saber que não estou doente”? Outra consequência bem desagradável desse comportamento é ser pego de surpresa. A pessoa não tem coragem de falar “não”, mas depois tem coragem de não cumprir um prazo acertado, ou de não entregar um trabalho importante. E dá-lhe mentira para justificar.

Não é preciso ser nenhum gênio para perceber que isso corrói a alma. Mentira é um negócio que destrói a integridade, e o fato de sermos um país de muitos mentirosos, a começar pela presidente da República, não diz muita coisa boa sobre nós. Lembremo-nos de que os políticos mentirosos são feitos da mesma matéria-prima que eu e você: de brasileiros. Por isso é tão importante que busquemos nos reformar moralmente, e parar de mentir por qualquer coisa é um bom começo. Que tal trocar o… (clique aqui para acessar o restante do artigo na página do jornal).

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

Deboche presidencial

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 22 de outubro de 2015.

As mulheres – ao menos as que eu conheço – costumam dizer que só é possível manter um marido fiel no casamento se o sujeito tiver algum medo de perder a esposa. Ou seja, quem perdoa todo e qualquer deslize tem grandes chances de acumular uma verdadeira galhada na cabeça.

No casamento da sociedade com os políticos, esse que dura no mínimo quatro anos, os brasileiros são o caso clássico da “mulher de malandro”. Só assim para explicar o comportamento irracional de eleger e reeleger gente mentirosa e traidora de nossa confiança. Para as mulheres que sofrem nas mãos de parceiros canalhas e têm dificuldades de terminar o relacionamento, há instituições como o Mada – Mulheres que Amam Demais Anônimas –, onde o compartilhar coletivo das experiências ruins abre espaço para a cura individual. Pena que não exista o AGA (Adoradores do Governo Anônimos) e nem o Cerca (Cidadãos Enganados que Reelegem Corruptos Anônimos) para tratar nosso povo.

Uma das mentiras mais famosas e lendárias da política brasileira recente foi dita por Paulo Maluf, quando, em meio a investigações sobre suas contas bancárias no exterior, disse a pérola “a assinatura é minha, mas não fui eu quem assinou”. A presidente Dilma Rousseff, reeleita mesmo depois de contar a maior sequência de mentiras já registradas numa campanha eleitoral, segue firme em sua sanha falsária, e finalmente conseguiu superar o feito de Maluf ao dizer que “o meu governo não está envolvido em nenhum escândalo de corrupção”.

Se não estivéssemos falando do governo que proporcionou ao Brasil o recorde de maior escândalo de corrupção entre todas as democracias mundiais, de todos os tempos, a situação poderia até ser cômica. Não é o caso. As quantias roubadas durante os governos do PT seriam suficientes para alavancar a economia brasileira; é dinheiro que saiu de cidadãos e empresas para o ralo do governo, e de lá foi redistribuído para os ratos que vivem de parasitar o Estado. Dinheiro que seria gasto em máquinas, produção, diversão, comida, imóveis, automóveis, roupas, propaganda, cultura, educação, e que em vez disso 22102015-ILUSTRA-Quintelaestá guardado em contas secretas no exterior, das quais apenas uma pequena minoria foi descoberta pela Polícia Federal em suas operações. E, como boa mulher de malandro que é o povo brasileiro, os ratos continuam saqueando nossas dispensas com a bênção do voto popular.

Não bastasse a natureza criminosa da corrupção e suas consequências funestas para a vida de cada brasileiro honesto, a atitude da presidente é também um deboche, um verdadeiro bullying estatal. Se estivéssemos num filme de adolescentes americanos, seria o equivalente a termos a cueca puxada até a cabeça e depois sermos trancados no armário. Deixamos que o governo se tornasse um valentão covarde, e ele nos tira quase metade da merenda. E ainda por cima senta-se na cadeira do diretor.

O que fazer? A nova geração de adultos, aqueles que agora entraram na terceira década de vida, é formada por uma maioria de jovens intelectualmente paupérrimos, “educados” por um sistema que coloca seus estudantes entre os piores do mundo. A escola brasileira contemporânea ocupa-se mais em perverter menores sexualmente e ideologicamente do que em ensinar Língua Portuguesa, Matemática e Ciências. São eles que ocuparão as vagas de trabalho (as poucas que ainda sobrarem) e as filas do assistencialismo estatal. São eles que votarão, são eles que formarão a nova massa não pensante. Precisamos urgentemente de uma revolução intelectual. Que comece por mim e por você.

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

Um milhão de mentiras

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 30 de setembro de 2015.

A mentira é uma prática bem disseminada no Brasil, especialmente no tocante à política. Quem não se lembra dos debates entre candidatos à Presidência, no ano passado, quando Dilma Rousseff disse reiteradamente que em seu segundo mandato não aumentaria juros, não criaria impostos e não mexeria em direitos trabalhistas? A presidente mentiu sem o mínimo pudor.

Mas há mentiras mais sofisticadas, também conhecidas como meias-verdades, que são usadas para suavizar uma realidade dura demais para ser exposta. G30092015-ILUSTRA-QUintelaeralmente essas meias-verdades são fundamentadas em dados matemáticos, pois a matemática é uma ciência exata e nunca mente. Junte-se a isso a arte de manipular informações e ocultar dados, e você conseguirá passar qualquer tipo de informação ruim de uma forma mais agradável e menos agressiva.

Tomo como exemplo uma notícia que apareceu recentemente na maioria dos portais de notícias do Brasil: a perda de quase 1 milhão de vagas formais de trabalho nos últimos 12 meses. Um milhão de vagas de trabalho é uma quantidade imensa, um número maior do que a população de diversos países. No entanto, quanto tomada sem nenhuma referência, pode parecer um número não tão impactante num país com mais de 200 milhões de habitantes, como é o Brasil. Num raciocínio rápido e superficial, a pessoa que lê tal número pode facilmente pensar algo como “somos um país tão grande, é ruim que 1 milhão de pessoas tenham perdido o emprego, mas ainda tem muita gente trabalhando”. É claro que, se ela fizer parte desse milhão, a coisa vai lhe parecer bem mais real, mas para quem ainda tem trabalho a situação se apresenta menos desesperadora.

Mas e se os números fossem apresentados como um todo? E se fosse explicado que o Brasil, apesar de seus mais de 200 milhões de habitantes, possui uma população economicamente ativa de apenas 80 milhões de pessoas? E se fosse mostrado que, desses 80 milhões, aproximadamente 25 milhões recebem Bolsa Família e, portanto, estão fora do mercado de trabalho? Mais ainda: e se fosse dito que, dos 55 milhões que sobraram, apenas 25 milhões trabalham formalmente, com carteira assinada? Bem, se tudo isso fosse exposto com clareza, ficaria muito fácil de se entender que a perda de 1 milhão de vagas formais de trabalho é um acontecimento catastrófico. Significa que, de cada 25 pessoas empregadas, uma perdeu seu sustento.

Qualquer um consegue se lembrar de 25 pessoas conhecidas. É um grupo pequeno, do tipo que se recebe facilmente para uma festinha de aniversário ou churrasco; é um grupo que cabe até numa mesa grande de pizzaria. Pois é: no Brasil de 2015, o Brasil de Dilma e do PT, uma dessas pessoas terá perdido o emprego, e dificilmente encontrará outro, porque as vagas se fecharam, extintas pela crise econômica que piora a cada dia.

Assim como acontece com os índices de violência – só percebemos que a situação está realmente ruim quando pessoas próximas de nós (ou nós mesmos) são atingidas e se tornam vítimas –, o problema do desemprego só nos impressiona quando nossos amigos, parentes e colegas começam a nos enviar seus currículos e perguntar se conhecemos algum lugar onde “estão contratando”. Em minha recente viagem ao Brasil percebi que esse ponto já foi ultrapassado: diversas pessoas com quem conversei falaram sobre amigos e parentes desempregados, pedindo ajuda para recolocá-los profissionalmente; alguns estão em situação crítica, desesperados, tendo de se mudar com a família para os fundos da casa dos pais porque já consumiram suas reservas e continuam sem trabalho.

A única pessoa que continua vivendo numa realidade alternativa é a própria presidente Dilma. Em plena Assembleia Geral da ONU ela conseguiu dizer que a economia brasileira está mais forte, mais sólida e mais resistente. Não é de se estranhar; afinal, sua patota continua empregada no gigantesco Estado brasileiro – pelo menos por enquanto.

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e Mentiram para mim sobre o desarmamento”.