A força de um indivíduo

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 21 de janeiro de 2016.

macriJá ouvi muitas vezes, durante conversas sobre política, que o Brasil não tem jeito, que não adianta mudar o presidente, que uma pessoa só não consegue fazer nada porque o sistema inteiro está podre etc. É claro que essas afirmações têm seus componentes verdadeiros, dado que nossa estrutura político-administrativa estimula e facilita práticas funestas como a corrupção, as trocas de favores entre os poderes e o aparelhamento da máquina pública. Mas não se pode minimizar a importância da Presidência da República nas decisões que afetam diretamente todos os cidadãos, e é justamente neste, que é o mais alto de todos os cargos eletivos brasileiros, que a força (ou fraqueza) de um indivíduo é aumentada exponencialmente.

Nossos vizinhos de continente, os argentinos, completaram um mês de governo com seu novo presidente, Mauricio Macri. Um alto membro do Banco Central argentino deu uma declaração que resume bem o nível de efetividade do novo presidente. Diz ele: “Não consigo crer: apertamos um botão e começamos a girar dinheiro. Nos últimos quatro anos dediquei uns 30% de meu tempo e energia pedindo autorizações para fazer isso; agora posso voltar a pensar em como ajudar os negócios do país a crescer”.

Outras medidas e decisões presidenciais tomadas no primeiro mês de governo foram: supressão dos impostos e cotas de exportação (os impostos chegavam a 30% do valor exportado e as cotas fixavam limites de venda de produtos agrícolas ao exterior); demissão de 10 mil funcionários públicos contratados irregularmente por Kirchner, mesmo sob uma legislação que torna a demissão quase impossível no funcionalismo público; terminação do tratado econômico com o Irã, decisão que deve levar à reabertura de uma denúncia judicial contra Cristina Kirchner, acusada de ter conseguido o referido tratado em troca de favorecer cinco agentes iranianos que participaram de um atentado a uma organização judaica em Buenos Aires; pedido de suspensão da Venezuela do Mercosul, que depois foi reconsiderado em virtude da vitória oposicionista nas eleições para o parlamento venezuelano; descredenciamento de médicos cubanos – participantes de um programa similar ao Mais Médicos – para “não financiar ditaduras”; derrubada, por decreto, da lei dos meios audiovisuais, uma das peças legislativas mais antidemocráticas do governo anterior.

Com essas e outras decisões, e com a escolha de uma equipe economicamente liberal, Mauricio Macri mostra que tem uma compreensão muito clara do poder da presidência e do poder de um indivíduo. A política argentina também é corrupta e cheia de conchavos; os últimos 12 anos dos argentinos também foram marcados pelo governo de uma única dupla; o alinhamento do país também era bolivariano; e a crise econômica também era uma realidade. É claro que… (clique aqui para acessar o restante do artigo na página do jornal).

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

Restou-nos o Pelé

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 26 de novembro de 2015.

PELE_PeléQuem nunca viveu um pouco da rivalidade Brasil-Argentina? É no futebol que ela se manifesta com mais evidência, e ainda hoje os hermanos insistem em dizer que Diego Maradona foi melhor que Pelé (delírio deles, é claro). Mas, futebol à parte, essa rivalidade acabou se tornando realidade também na política, e da pior forma possível: uma competição de quem faz o governo mais populista e mais bolivariano. A briga foi acirrada durante todos esses anos, com os Kirchner se mantendo no poder por nada menos que 12 anos na Argentina, e o PT governando o Brasil pelos últimos 13. Ambos os governos mantiveram proximidade com regimes autoritários como os da Venezuela e de Cuba, ambos aparelharam seus tribunais superiores com juízes ideologicamente alinhados, ambos caminharam em direção à supressão de direitos e liberdades básicas dos cidadãos.

No ano passado tivemos nossa chance de deixar os argentinos para trás, mas em vez disso conseguimos eleger Dilma Rousseff para mais um mandato, o qual parece ter cada vez mais chances de ser levado até o fim. Eles, por sua vez, deram o primeiro passo para sair do buraco em que se encontram ao recusar a continuidade do governo de Cristina Kirchner, que seria levada a cabo através do candidato Daniel Scioli. Mas a população argentina reagiu nas urnas, e elegeu Mauricio Macri, ex-presidente do Boca Juniors e representante de uma frente de centro-direita que resolveu fazer uma oposição de verdade ao governo Kirchner – bem diferente do que o PSDB fez nas últimas 2 disputas presidenciais.

Macri não poderia ter feito uma declaração melhor em suas primeiras entrevistas após a divulgação do resultado: ao dizer que lutará pela suspensão da Venezuela do Mercosul já na próxima reunião de cúpula do bloco, ele sinaliza um posicionamento totalmente distinto em relação ao regime autoritário de Maduro, distancia-se do PT, distancia-se de Evo Morales, e passa a agir como nós esperávamos que o Brasil agisse se tivesse um governo que preza pela liberdade. Nunca é demais lembrar que Maduro perseguiu e matou manifestantes desarmados nas ruas de Caracas, e que mantém presos, em regime de completo isolamento, líderes oposicionistas cujo único crime foi o de terem expressado suas posições políticas abertamente.

Parabéns e obrigado ao povo argentino por ter combatido a onda bolivariana que pretendia pintar o continente de vermelho. Os quatro cavaleiros do apocalipse sul-americano – Lula, Chávez, Morales e Kirchner – e suas duas mulas substitutas – Dilma e Maduro – perderam uma batalha importante. Tivesse o Brasil eleito Aécio Neves, o projeto de poder do Foro de São Paulo teria recebido um golpe mortal com a eleição de Macri. O novo presidente herdará um país em situação difícil – o governo Kirchner seguiu à risca a agenda de esquerda, resultando em crise econômica, deterioração das instituições, supressão de liberdades individuais e corrupção, entre outros males. Aplica-se aqui a velha metáfora do navio que navega para o destino errado: para mudar sua direção não basta desligar os motores, pois a inércia é grande demais e, quanto maior a massa, maior a inércia. A Argentina tem condições de se recuperar em muito menos tempo que o Brasil, que ainda tem pelo menos três anos de má administração pela frente. Se Macri conseguir realizar as reformas que seu país precisa, quando Dilma sair do Planalto o Brasil já não jogará mais na mesma divisão da Argentina. Aí, só nos restará o Pelé.

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e Mentiram para mim sobre o desarmamento”.