Vamos boicotar

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Colunistas, edição de 14 de junho de 2015.

De 1985 a 1994 a Kalunga patrocinou o Corinthians. De 1985 a 1994 ninguém da minha família colocou os pés numa loja da Kalunga. Como bons palmeirenses, fizemos nosso boicote ao patrocinador do arquirrival.

O livre mercado, essa coisa tão desprezada e vilipendiada pela esquerda, eleva o cliente a patrão supremo, com base numa regra simples e básica: ninguém é obrigado a comprar o que não quer. E por isso cada cidadão pode fazer e promover o boicote que bem entender.

O recente episódio que ocupou a mídia por vários dias, envolvendo um comercial de O Boticário para o dia dos namorados, traz à tona dois aspectos bastante característicos da linha de pensamento de esquerda: desprezo pela liberdade de expressão e desigualdade de direitos.

Desde que a tropa de choque do politicamente correto começou a ocupar posições de destaque, a liberdade de expressão vem sendo cerceada, e qualquer manifestação contrária ao uso político das minorias para promover a agenda da esquerda é atacada com violência pelos hipócritas que se intitulam defensores da tolerância, mas que não toleram nenhum pensamento contrário ao seu. Em consequência disso são raros, hoje, espaços como este em que escrevo livremente.

Mas o comportamento da esquerda, que gosta de se chamar de progressista, é também o de total desrespeito pela igualdade de direitos. É o comportamento do se-você-faz-é-feio-mas-se-eu-faço-não-é. Boicote de religioso que não concorda com um comercial que faz menção a relacionamentos homossexuais, não pode. Mas boicote aos produtos da grife Dolce & Gabbana por conta da opinião dos estilistas a favor da família tradicional, pode (detalhe: Dolce e Gabbana são gays). Pode também boicote às massas Barilla e à rede de restaurantes Chick-fil-A, pois ambas se posicionaram contra a agenda esquerdista.

Essa mentalidade contamina as pessoas de tal forma que já há minorias desprezadas dentro das minorias. Gays que se declaram de direita, negros que são contra as cotas raciais, pobres que dão uma banana aos programas assistencialistas, são todos difamados e insultados por seus “semelhantes”; afinal, se você faz parte de uma minoria, mas não pensa como um desvalido, você é um pária. Traduzindo: se você se encaixa no estereótipo do vitimizado, mas pensa como um cidadão adulto e responsável, você está errado, é um boçal.

Não é de hoje que a esquerda reivindica o monopólio da virtude, e também não é de hoje que suas contradições são tão descabidas quanto absurdas. A lista de hipócritas é extensa, e inclui milionários pregando o socialismo de cima de suas coberturas tríplex, políticos pregando o desarmamento cercados de seguranças armados, artistas pregando a ecochatice de dentro de jatinhos queimadores de combustível fóssil, músicos pregando o respeito ao conteúdo nacional com os bolsos cheios pela Lei Rouanet, e assim por diante. Essa hipocrisia, que deveria ser enojante, desprezível, acaba encontrando lugar na mente de um povo infantilizado, mergulhado num oceano de vitimismo e falsos direitos.

Termino pedindo: por favor, boicote. Prefira as empresas que representam o seu pensamento, as suas preferências, os seus ideais, e com isso faça girar a máquina extraordinária do livre mercado. E se fulano reclamar do seu boicote, boicote-o também. Boicotemos os chatos e os hipócritas.

Flavio Quintela é escritor e tradutor de obras sobre política e filosofia, e autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

O Papa é vermelho?

papa-francisco-ateusO Papa Francisco publicou ontem sua primeira exortação apostólica. E eu li o texto traduzido em português.

Antes de fazer qualquer comentário eu preciso dizer o que penso a respeito da Igreja Católica, que chamarei no restante do texto de IC. Para mim a importância da IC nas atuais circunstâncias em que vivemos é de uma magnitude muito grande. O mundo está se tornando mais vermelho e menos livre, e o esquerdismo, cujo objetivo é tornar esse planeta em um grande governo comunista para todos, vem ganhando terreno em muitas nações. Os valores da direita são ameaçados e confrontados todos os dias por políticos, ativistas e militantes da esquerda, os criadores dos “ismos” – feminismo, racismo, gayzismo etc. – que tanto dividem as sociedades e minam o poder de reação das pessoas.

Além disso, é um mundo onde o próprio cristianismo vem sendo combatido veementemente, com uma intolerância ímpar. O cristianismo é hoje a religião mais combatida do mundo, mesmo sendo a mais tolerante de todas. Nos países de maioria cristã os gays podem ser gays, as mulheres podem ser mulheres, os muçulmanos podem ser muçulmanos, sem medo de morrer por isso. Já nas nações islâmicas os gays são assassinados, as mulheres são discriminadas e os cristãos são perseguidos, e ainda assim não há um esquerdista que seja contra o islamismo. Pelo contrário, eles soltam suas vozes nos países democráticos e de herança judaico-cristã, lugares onde podem falar à vontade, pois sua liberdade de expressão é garantida, com seus discursos cheios de ódio por essa mesma liberdade que os garante vivos. É o caso mais absurdo de auto-contradição da história humana.

É nesse mundo que eu vejo a necessidade de uma instituição como a IC. A herança judaico-cristã, que ainda garante a uma parcela da população mundial a liberdade de expressão e os direitos à vida, à propriedade privada e à individualidade, é fruto direto da IC e de sua historia na Terra, bem como o são as universidades, hospitais e tantas outras belas contribuições que a IC fez à humanidade. Essa instituição gigantesca, presente em tantos lugares, capilarizada em pequenas congregações, atingindo populações de todas as classes sociais e níveis intelectuais, possui uma capacidade geradora de mudanças como nenhuma outra instituição individual no mundo. E agora, numa hora em que o mundo enfrenta a ameaça de uma era de trevas, o Papa, representante maior da IC, em vez de se posicionar contra o marxismo e suas consequências nefastas, prefere compor um discurso de viés esquerdista, atacando o livre mercado e deixando o verdadeiro inimigo de fora de sua análise. Vejamos alguns trechos:

Assim como o mandamento «não matar» põe um limite claro para assegurar o valor da vida humana, assim também hoje devemos dizer «não a uma economia da exclusão e da desigualdade social». Esta economia mata. ” – o que é isso Papa??? O que matou mais no século passado, a “economia de exclusão” ou os ditadores comunistas sanguinários? Onde se morre mais, na Cuba da igualdade da pobreza ou nos Estados Unidos da desigualdade da riqueza?

Neste contexto, alguns defendem ainda as teorias da «recaída favorável» que pressupõem que todo o crescimento econômico, favorecido pelo livre mercado, consegue por si mesmo produzir maior equidade e inclusão social no mundo. Esta opinião, que nunca foi confirmada pelos fatos, exprime uma confiança vaga e ingênua na bondade daqueles que detêm o poder econômico e nos mecanismos sacralizados do sistema econômico reinante.” – de novo Papa? Que fatos são esses a que se refere? Parece que o senhor não estudou as estatísticas mundiais que mostram que, quanto mais livre a economia de uma nação, maior é a qualidade de vida das pessoas. Se isso não é confirmação de que o livre mercado é bom, o que mais o senhor precisa para mudar sua opinião? E onde está escrito que as pessoas precisam ser iguais no sentido econômico do termo? Em qual parte da teologia católica o senhor se estriba para afirmar isso?

Neste sistema que tende a fagocitar tudo para aumentar os benefícios, qualquer realidade que seja frágil, como o meio ambiente, fica indefesa face aos interesses do mercado divinizado, transformados em regra absoluta.” – era só o que faltava, Papa. O senhor também virou ativista ambientalista? Quais estudos os senhor consultou para dizer que o meio ambiente é indefeso contra os interesses do mercado? Aliás, quando o senhor chama o meio ambiente de “realidade frágil”, o que quer dizer com isso? Afinal, muito dessa fragilidade parece ter sido desmascarada pelos mais diversos cientistas no mundo inteiro, que têm desmentido as previsões cataclísmicas que foram feitas na última década, as quais se mostraram todas erradas.

Hoje, em muitas partes, reclama-se maior segurança. Mas, enquanto não se eliminar a exclusão e a desigualdade dentro da sociedade e entre os vários povos será impossível desarreigar a violência.” – poxa Papa, agora o senhor me deixou triste. Invocar o besteirol de que a violência é fruto da desigualdade foi um golpe baixo. O senhor não entende que a exclusão e a desigualdade são intrínsecas das sociedades humanas, e que somente no paraíso pós-morte é que há alguma chance dessa condição ser erradicada? O senhor não vê que os homens que lutaram pelo fim dessa desigualdade através da implantação de uma “sociedade justa” foram os que mais mataram seres humanos em toda a nossa história?

Bom, o texto é muito longo, e esses são apenas alguns trechos que me deixaram realmente preocupado com o posicionamento deste Papa. Para mim é uma grande decepção que o líder máximo da única instituição com massa suficiente para ofuscar a escalada comunista seja tão “vermelho” em sua primeira exortação. Esse posicionamento tão antagônico ao livre mercado e ao capitalismo salta aos olhos, e acaba por ofuscar o restante do texto, que contém parágrafos excelentes sobre outros temas importantes.

Só o tempo dirá se esse Papa fala realmente em nome de Deus.