DNA brazuca

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 30 de março de 2017.

sushi

O dia é quarta-feira. Entro num restaurante italiano próximo ao meu escritório. O restaurante faz parte de uma rede e tem algumas lojas na região. Sento-me com minha esposa após sermos muito bem recebidos pela hostess. O lugar é bem arrumado, mas não é chique ou requintado. Na verdade, uma placa na entrada anuncia alguns especiais de almoço por US$ 7, uma pechincha para a realidade local. Após estudarmos o cardápio, ela resolve pedir um torteloni de abóbora com pancetta, e eu decido por um fettuccine com molho de camarão.

Chegados os pratos, dou aquela garfada matrimonial no prato de minha esposa e descubro que ela fez uma escolha muito melhor que a minha. A garçonete passa por nossa mesa dois minutos depois e pergunta se gostamos da comida. Segue-se o diálogo:

“Gostamos, sim. Na verdade, eu gostei bem mais do que ela pediu que do meu prato.”

“Senhor, eu posso trocar o seu prato por um igual ao dela.”

“Sério? Puxa, obrigado, mas não precisa, não.”

“Não quero que saia daqui sem que sua experiência tenha sido a melhor possível. Será um prazer trazer um torteloni para o senhor.”

“Tudo bem, então. Aceito a cortesia.”

Após me deliciar com aquele torteloni cheio de pancetta, saio do restaurante ainda sem acreditar que aquilo tinha acontecido. Estávamos em nossos primeiros meses na América, e mal sabíamos que aquilo aconteceria com frequência em diversos outros lugares. Estávamos descobrindo a beleza de ser cliente numa terra em que cliente é rei.

O dia agora é domingo. A descoberta de que um novo restaurante japonês com DNA brazuca abriu na região nos leva a marcar o almoço de domingo num lugarzinho bastante descolado e muito bem frequentado na cidade vizinha à nossa. O local lembra um micromercado municipal, com uma cervejaria, uma padaria francesa, um café, um açougue mais sofisticado, uma barraca de sucos e lanches naturais, uma chocolateria e uma casa de chá. E ali, no meio de todo esse pessoal gringo, um japonês quase que 100% brasileiro. Dono brasileiro, atendente brasileiro e sushiman brasileiro. Não fosse o cardápio em inglês, poderíamos nos imaginar comendo sushi no Brasil.

Após analisarmos as opções, fazemos o pedido: ceviche e sushis variados, com uma única ressalva: tirar o cream cheese do hot roll porque nosso amigo Eduardo, fresco, não gosta. Com o pedido anotado e pago – o preço, mesmo sendo um restaurante sem serviço de mesa, já deixou todos menos entusiasmados e de carteiras vazias –, seguimos para uma das mesas do mercado e aguardamos a mensagem de texto no celular avisando que os pratos estão prontos para serem retirados. Quase meia hora depois, chega a mensagem. Vou até o balcão, pego os pratos com a ajuda do meu amigo e voltamos à mesa. Provo o ceviche e tenho a impressão de estar comendo limonada de peixe. Eduardo vai com voracidade para cima do hot roll e descobre que está cheio de cream cheese. Voltamos ao balcão, eu imaginando que seria tratado como daquela vez no italiano. Segue-se o diálogo:

“Amigo, o ceviche só tem gosto de limão.”

“É a nossa receita, senhor.”

“Eu não gostei. É possível trocar por alguma outra entrada?”

“Não, senhor. Não posso trocar por outra coisa, a não ser que queira comprar um novo prato.”

“Certo. Deixa pra lá. Outra coisa: pedimos o hot roll sem cream cheese e vocês colocaram cream cheese.”

“Vamos fazer outro. Por favor, me entregue o que veio errado.”

Dois hot rolls com cream cheese depois e completamente insatisfeitos com o serviço, saímos dali para nunca mais voltarmos.

Há um ditado entre os brasileiros imigrantes que explica muito bem a diferença entre os dois casos que contei: tem brasileiro que sai do Brasil, mas não deixa o Brasil sair dele. Em vez de enriquecer a cultura local com as boas características de um brasileiro – simpatia, calor humano, versatilidade, adaptatividade etc. –, o sujeito traz as práticas ruins que tinha em sua terra natal. Fazendo isso, cancela a maior vantagem da imigração, a sinergia de culturas. Entendo que algumas práticas comerciais comuns aqui nos Estados Unidos sejam impraticáveis no Brasil, pois os clientes simplesmente abusariam delas. Dou um exemplo: muitos restaurantes daqui deixam copos menores ao lado das máquinas de refrigerante, para que o cliente possa beber água sem pagar. Ninguém fica fiscalizando para ver se você pegou água ou Sprite, mas as pessoas respeitam e pegam somente água (pelo menos a grande maioria delas). Consegue imaginar isso no Brasil? Agora, se você se dispôs a abrir um negócio em terras estrangeiras, seria pedir muito que os bons costumes locais sejam seguidos?

A mentalidade gersoniana ainda tem muita influência na vida diária de muitos brasileiros. Quem tenta levar vantagem em tudo não consegue enxergar a vida como… (para ler o restante deste artigo, clique aqui)

O custo G

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 14 de abril de 2016.

Na semana que passou tive algumas experiências interessantes aqui nos Estados Unidos, que me levaram a esta reflexão. Elas aconteceram nos quatro dias em que estive numa feira de negócios, na Califórnia. Dentre elas destaco duas:

Durante a feira, não tínhamos toda a linha de produtos disponível para entrega imediata. Assim, ficamos de fazer o envio dos materiais faltantes para diversas pessoas, e nenhuma delas pediu nem sequer um comprovante de pagamento ou de compra. Elas apenas entregavam seu cartão de visita e pediam que a entrega fosse feita naquele endereço;

Na segunda noite, fomos jantar depois do fechamento da feira, e acabei levando minha mala com computador, produtos e recebimentos em dinheiro do dia, pois fomos diretamente ao restaurante. Jantamos, conversamos, pagamos e voltamos para o hotel, e só então lembrei de minha mala com tudo aquilo dentro. Voltei correndo ao local, já acometido de um certo desespero, e encontrei a mala exatamente no mesmo lugar, intocada.

Viver em um lugar onde a honestidade é muito mais regra do que exceção é muito bom. Você chega ao supermercado, informa que o caixa passou um pacote de cereal a mais na sua conta, e ninguém duvida de você; apenas devolvem o seu dinheiro, pois a sua palavra conta. Um grande amigo meu, em viagem recente a Orlando, deixou a carteira e o celular em cima do carro enquanto arrumava as filhas no banco de trás, e saiu dirigindo sem perceber. Dois quilômetros depois, se deu conta de que estava sem o celular e voltou ao hotel para refazer o caminho. Encontrou três carros de polícia parados, dois policiais na rua e uma terceira que veio ao seu encontro.

“Bom dia, policial, acho que perdi meu telefone por aqui; deixei em cima do teto do carro e deve ter caído.”

“Achamos este celular, que deve ter se espatifado na queda. É o do senhor?”

“É este mesmo. Muito obrigado!”

“O senhor não perdeu mais nada junto com o celular?”

“Não que me lembre.”

“Tem certeza?”

Nesse momento ele passa a mão no bolso e percebe que está sem a carteira.

“Pensando bem, não estou achando minha carteira.”

“Quanto dinheiro o senhor tinha nela?”

“Uns US$ 1,8 mil.”

“Nós tentamos pegar todas as notas que voaram quando sua carteira caiu. Por favor, confira se falta alguma coisa.”

Estava tudo lá.

Uma sociedade em que existe o que se chama de “confiança básica” é uma sociedade de benefícios, do ganha-ganha, da sinergia. A falta de confiança básica, como os brasileiros bem sabem, gera dissabores, aborrecimentos, retrabalhos e custos. É a assinatura que precisa ser reconhecida em cartório, é o documento de transferência do carro que precisa ser assinado na frente do escrivão, é a escritura que precisa ser registrada – os cartórios brasileiros consomem um dinheiro inútil, que poderia ser empregado em algo produtivo se não fosse a falta de confiança generalizada em vigência no Brasil. Mas não é só isso: golpes e furtos constantes destroem o pouco de confiança que resta em parte da população, alimentando ainda mais essa estrutura de múltiplas verificações e autenticações.

Se fosse possível somar todos os recursos que vão parar nas mãos do Estado – em todas as suas esferas – com tudo o que é gasto pela ausência de confiança básica, e também com as despesas relativas à infraestrutura precária de nosso país, creio que descobriríamos que mais de 70% de tudo o que produzimos vai parar no lixo. Esse é o custo G, o custo da aplicação sistemática e constante da Lei de Gérson na política e na vida diária. É o custo do egoísmo, da mentira e da desonestidade. É o custo do cada um por si e todos contra todos.

E, para não deixar em branco, este colunista quer registrar que estará torcendo pelo impeachment de Dilma, domingo que vem, mais do que torceu pelo Palmeiras na final da Libertadores de 1999.

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

Mais Acácios, menos Gérsons

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 3 de dezembro de 2015.

Não era fácil viver no Brasil, e não é fácil visitá-lo. Depois de um tempo morando fora, você entende que a índole de boa parte dos brasileiros é algo a se lamentar. É gente demais tentando levar vantagem em tudo; um exército de Gérsons que acaba ocupando espaços em todos os setores da sociedade, fazendo de nossogerson país um campeão em desrespeito às leis, impunidade e banditismo. Felizmente, o Brasil não tem apenas Gérsons.

No último domingo eu tive de me deslocar de Campinas, interior de São Paulo, para a capital, com minha esposa, nosso bebê de 5 meses e um monte de malas. Um grande amigo se ofereceu para nos levar, e no horário combinado partimos em viagem. Uma hora depois, a cerca de 30 quilômetros do fim da Rodovia dos Bandeirantes, o carro simplesmente parou de funcionar. A inércia foi suficiente para nos levar a um posto de gasolina, e conseguimos parar no estacionamento de caminhões.

Como tínhamos hora para chegar a São Paulo, bateu um certo desespero diante daquela situação: a primeira impressão fora de correia dentada rompida, ou seja, nenhuma chance de o carro funcionar novamente. O guincho viria, mas para levar meu amigo e seu veículo defunto de volta a Campinas. Comecei a procurar um meio de continuarmos nossa viagem. Entrei na lanchonete e perguntei às três funcionárias se conheciam algum taxista ou motorista que pudesse nos levar. A última delas me deu um papelzinho com um telefone escrito à mão: “O senhor pode tentar esse moço, o Pixote. Ele faz carreto.” Não preciso dizer que o apelido do sujeito e a palavra “carreto” não me animaram muito, mas mesmo assim liguei para o Pixote, e ninguém atendeu. Continuei minha busca.

Andando até os frentistas, perguntei se conheciam algum taxista da região. Um deles me indicou o “seu Sérgio”, e fez a gentileza de ligar para o mesmo utilizando o telefone do posto. Seu Sérgio me disse que nos levaria pela bagatela de R$ 220, e que iria até o posto para ver se as malas caberiam no carro. Como eu tinha certeza de que não caberiam, pois ele me informara que o veículo era um Fiat Siena, fui até minha esposa e lhe disse que ficaríamos ali por algum tempo, até que eu conseguisse resolver a situação. Ela aproveitou e foi dar mamadeira para o nosso bebê.

Quando voltei ao carro, onde meu amigo aguardava pelo guincho, percebi um outro carro ao nosso lado, com apenas uma pessoa dentro. Num impulso, abaixei-me e perguntei ao homem que estava ao volante: “Com licença, você por acaso está indo para São Paulo?”. Ele me respondeu que sim. Continuei: “Se eu pagar o que o táxi está me cobrando, você nos levaria para a casa da minha sogra, na Zona Leste?”. A resposta foi inesperada: “Não precisa me pagar nada. Eu ajudo você e sua família a chegarem a São Paulo. Pode colocar suas coisas aqui e eu levo vocês.” Corri para dizer à minha esposa que tinha conseguido alguém para nos ajudar – recebi como resposta um “você está louco?” – e, depois de convencê-la de que era muito pouco provável que aquele homem nos matasse e roubasse nossas malas cheias de roupinhas de criança, carregamos o carro e fomos embora. A viagem foi bastante agradável, e tive a oportunidade de conhecer um pouco do Acácio, esse brasileiro tão fora do normal por fazer algo que deveria ser corriqueiro. Ao final, quando insisti novamente em lhe pagar algo, Acácio me disse simplesmente “Não precisa mesmo; se um dia aparecer alguém assim na sua frente, apenas faça o mesmo.”

Precisamos de mais Acácios – nas escolas, na política, nas empresas, nas igrejas, nos tribunais, na mídia – para neutralizar os Gérsons que pilham e destroem a nação. Pessoas que colocam seus interesses acima de tudo e de todos – um comportamento típico da psicopatia – não servem para liderar outras pessoas, e muito menos para governar um país.

Acácios, uni-vos.

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

Altruísmo e confiança: escassez devastadora

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, edição de 22 de julho de 2015.

Governado há mais de 20 anos por políticos de esquerda, o Brasil atingiu um estágio perigoso de escassez de algumas condições básicas para a manutenção de uma sociedade ordenada e funcional; entre elas, o altruísmo e a confiança.

A confiança é a base de todos os contratos e acordos firmados entre os membros de uma sociedade. Um ser humano, para viver, precisa interagir economicamente com os outros, através da compra, venda e troca de bens e serviços, e essas interações só são possíveis se as partes confiarem suficientemente umas nas outras a ponto de arriscar uma transação. Na falta desta confiança básica, as pessoas sentem medo de sair perdendo, e tudo o que antes era feito “no fio do bigode” passa a exigir quantidades enormes de verificações e autenticações que adicionam custo aos processos econômicos e desgosto aos cidadãos respeitadores da lei. As empresas, por sua vez, também precisam modificar suas políticas para não acumular prejuízos, rebaixando todas as pessoas honestas ao nível de possíveis aproveitadores.

Gerson-Vila-RicaO papel da agenda de esquerda neste processo degradante é bastante claro: ao estimular a dependência do Estado e enfraquecer a responsabilidade individual, o governo assume cada vez mais o papel de intermediador da confiança e de regulador da honestidade, algo para o que não tem vocação e nem capacidade. O processo se propaga a cada geração de forma cumulativa, e não se restringe apenas à confiança básica – o altruísmo padece tremendamente sob a ideologia de esquerda.

As políticas assistencialistas implementadas no Brasil nas últimas duas décadas são totalmente opostas ao altruísmo genuíno. Em vez de estimular as pessoas a ajudar o semelhante necessitado, elas acabam “terceirizando” a caridade feita localmente, a qual possui inúmeras vantagens sobre o assistencialismo estatal:menos intermediação, maior controle sobre quem precisa ou não ser ajudado e conexão real entre quem doa e quem recebe. Além disso, há um abismo moral entre a doação voluntária e o assistencialismo feito com dinheiro confiscado, aquele que os governos costumam chamar de arrecadação de impostos. E, por último, ações locais de altruísmo não compram votos; programas de ajuda governamental sim.

Novamente, o efeito cumulativo é inevitável. Quanto mais gente é atendida pelos programas do governo, maior é o custo dos mesmos; ao mesmo tempo, diminui-se o número de pessoas economicamente ativas, o que eleva a carga tributária sobre os que produzem, que por sua vez deixam de fazer a caridade local e pessoal por falta de recursos e porque “o governo já está fazendo”. E, por mais que os governos insistam em dizer que seus programas tiram as pessoas da miséria, o número de inscritos só faz aumentar: não há porta de saída, somente de entrada.

O desenvolvimento da confiança básica e o aprendizado do altruísmo, que deveriam ser um passo importante na conquista da competência adulta, estão em extinção na juventude brasileira. A criança e o adolescente de famílias necessitadas aprendem que podem e devem contar com o governo para cuidar de suas mazelas. Salvo se instruídos em algum momento de suas vidas por alguém que lhes exponha a verdade, tornar-se-ão adultos dependentes da ajuda estatal e desconfiados de qualquer um com condições econômicas mais favoráveis. Nas famílias não necessitadas, a lição será diferente: ser bem sucedido e cumprir a lei tem uma punição, a de ter seu dinheiro confiscado e entregue a alguém que você não conhece. E isso tudo se você conseguir sair de casa e dar um passo sem achar que vai levar uma rasteira de seu semelhante na próxima esquina.

Não bastava sermos o país dos Gérsons; somos agora um país de Gérsons egoístas e dependentes. Fomos transformados numa nação de crianças mimadas.

Flavio Quintela é escritor e tradutor de obras sobre política e filosofia, e autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e Mentiram para mim sobre o desarmamento”.