Fofocalismo

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 13 de outubro de 2016.

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A capacidade que as pessoas têm de prestar atenção e gastar seu tempo com coisas menores e/ou inúteis tende ao infinito. As redes sociais são uma das provas modernas disso: perde-se uma quantidade imensurável de tempo olhando-se postagens de outros e comentando-se sobre textos e temas que não adicionam nem um centavo sequer ao bolso de ninguém (exceto dos CEOs dessas redes), muito menos um pensamento ou um conceito que valha a pena ser guardado na memória.

Esse tipo de comportamento não é exclusividade da era atual. Revistas e jornais de fofocas existem há bastante tempo, e a curiosidade sobre a vida dos outros faz parte da vida em sociedade desde que se tem registro histórico dela. Muitos dirão que, apesar da imbecilização que isso pode causar nas pessoas, agir assim é algo que traz prejuízos ou atrasos somente para a pessoa que o faz. Eu até poderia concordar com isso, não fosse um aspecto pernicioso desse foco nas coisas inúteis: o seu uso intencionalmente maldoso pela imprensa, especialmente pela imprensa esquerdista.

Nos últimos dias, vi dois exemplos de como um jornalista é capaz de usar banalidades e fatos de menor importância relativa para dar força à sua pauta ideológica. O primeiro caso foi o da primeira-dama Marcela Temer. Reportagens dos maiores portais de notícias do país insistiram em noticiar que Marcela usava um vestido de R$ 1.689 em seu discurso para o lançamento do programa Criança Feliz, como se isso fosse o maior pecado cometido por uma mulher desde que Eva comeu aquela maldita maçã. Ora, seu marido, Michel Temer, tem um patrimônio declarado de R$ 7,5 milhões, mais do que suficiente para comprar vestidos desse preço. Aliás, qualquer terno de preço mediano custa mais que o vestido de Marcela. Ou seja, esses jornalistas que costumam ser tão engajados em denunciar o machismo da sociedade brasileira – seja lá o que eles entendam por isso – ficam calados sobre os ternos Ermenegildo Zegna que muitos políticos usam, mas apontam o dedo para a primeira-dama e seu vestido que custa menos que um iPhone. Parece óbvio que, por trás dessa perseguição disfarçada de indignação, a real motivação desses “jornalistas” seja destruir a imagem da primeira-dama que, por sua beleza, juventude e feminilidade, deixa indignada aquela parcela majoritária da esquerda que tem aversão a tudo o que é bonito e tradicional, e a toda mulher que não seja feia, descabelada e com muitos pelos debaixo dos braços.

O segundo exemplo foi na mídia americana, em ataques ao presidenciável republicano. Mesmo diante de uma candidata como Hillary Clinton, que acumula em sua carreira episódios como a defesa imoral de um estuprador de adolescentes e o casamento com um predador sexual do quilate de Bill Clinton, todos os jornalistas da esquerda americana (além de vários da direita) resolveram achincalhar Donald Trump por causa de um vídeo onde ele fala bobagens de cunho sexual, daquelas que todo homem já ouviu um dia numa mesa de bar ou num vestiário de academia. Com a conivência dos idiotas úteis, que propagam essas reportagens e dão audiência a esses pseudojornalistas, a fala de Trump ganhou proporções totalmente descabidas, e a estratégia por trás disso é tão clara que eu, pessoalmente, não consigo entender como alguém não consiga enxergar: Hillary tem tantos escândalos e episódios moral e criminalmente reprováveis que somente o desvio da atenção de todos é capaz de dar algum espaço de manobra para sua campanha. Ela discursa ao lado do marido, que a traiu com uma estagiária e que é acusado de molestar sexualmente diversas mulheres, no maior show de hipocrisia deste nosso planeta azul. Quem inventou o ditado “faça o que eu digo, não faça o que eu faço” não imaginava que algo assim um dia existiria. Se a imprensa americana desse a mesma atenção aos escândalos de Hillary, ela já estaria na cadeia há muito tempo.

E o cidadão comum, que culpa tem nisso tudo? Bem, toda vez que ele replica um conteúdo podre desses ou que dá audiência para essa parte suja da imprensa, ajuda a disseminar e a encorajar esse comportamento. O jornalismo que vive de fofocas e inutilidades só consegue sobreviver porque é muito bem alimentado. Está na hora de matar esse pessoal por inanição.

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e “Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

Black blocs mascarados reacionários da direita

solnikUm médico que acredita que o coração fica no abdômen, um engenheiro civil que calcula a quantidade de concreto em uma obra jogando búzios, um advogado que decorou apenas os diálogos do último gibi do Cebolinha – todos esses exemplos poderiam servir como analogias da maioria dos jornalistas brasileiros da atualidade. Foi isso que pude ver ontem em noventa minutos de Roda Viva, que poderia ter sido chamado de Roda Burra. O nível de alguns “jornalistas” que ali se encontravam era tão ruim que não seria um exagero chamá-los de analfabetos funcionais.

Para quem não viu, o músico e escritor Lobão foi o entrevistado de ontem no Roda Viva, exibido na Cultura todas as segundas-feiras a partir das 22h. Foi um programa bastante divertido o de ontem, com o Lobão cercado de comunistas (alguns mais exacerbados que outros), disparando suas pérolas em resposta a perguntas muitas vezes idiotas, e mostrando uma sinceridade ímpar em todo o tempo. Mas se a parte divertida e positiva foi ver Lobão defendendo com muita competência os princípios que eu tanto prezo, como as liberdades individuais, o livre mercado e a propriedade privada, a parte divertida e negativa foi ver pessoas que se chamam de jornalistas falarem besteiras sem tamanho, e sem vergonha na cara. Apenas Augusto Nunes, que mediava o programa, e Tiago Agostini, que manteve suas perguntas no âmbito cultural, pareciam não ter saído de um hospício. Aos demais só faltavam as camisas de força.

Adriana Couto, apresentadora do Metrópolis, baseou suas perguntas no último livro do Lobão, Manifesto do Nada na Terra do Nunca. O problema é que as perguntas que ela fez soam absurdas para quem leu o livro, como eu. O que me leva a concluir que: a) ou ela não leu o livro e fez perguntas baseadas apenas em resenhas ou trechos isolados, b) ou ela leu o livro e não conseguiu entender, mesmo sendo uma leitura relativamente fácil e de vocabulário simples. As duas opções são péssimas. Um jornalista não pode ir a um programa de entrevistas como o Roda Viva, decidido a perguntar sobre uma obra do entrevistado, sem ler a obra! Agora, se leu a obra e não conseguiu entendê-la, não pode ser jornalista! Acontece que no Brasil pode, infelizmente, e se tornou muito comum a presença de “profissionais” que não conseguem mais apreender o significado real das palavras quando leem um texto. Por isso os chamei de analfabetos funcionais, pois, quando tentam ler, captam apenas significados automatizados de palavras que lhes estimulam as áreas adestradas de suas mentes, e este processo é desprovido de uma análise racional, estando muito mais ligado ao adestramento cultural a que foram submetidos e do qual não conseguem se libertar.

Mas o ponto alto da noite ainda estava por vir, e teria de vir de Alex Solnik, que personificou a demência em seu mais alto nível, ao perguntar para Lobão sobre os Black Blocs e, antes mesmo da resposta do entrevistado, complementou com a frase que ficará para sempre gravada nos arquivos da televisão brasileira:

“Black Blocs são de direita, porque usam máscaras.”

Afora as boas gargalhadas imediatas que essa jumentice provocou em mim e em muitos outros que assistiam ao programa naquele momento, a realidade disso é muito triste. Como pode uma pessoa dessas ser chamado de jornalista e, pior, trabalhar em uma revista e ser chamado para um programa como o Roda Viva? O raciocínio deste senhor é mais fantasioso do que o de uma criança em idade pré-escolar. E sua frase mais idiota da noite corrobora a idiotice do restante de suas perguntas, um apanhado de chavões ideológicos desconexos, sem mencionar sua falta de polidez durante o programa.

Essas pessoas que ali estavam ocupam lugares em grandes órgãos da mídia nacional. Não seria um exagero supor que há muitos outros como eles espalhados por grandes jornais, revistas e programas de televisão. Na verdade, uma breve leitura dos principais portais de notícias brasileiros deixa muito claro que essa suposição já se comprovou como realidade. O que lemos, com poucas exceções, são textos pessimamente escritos, carregados de lugares comuns, pontilhados com palavras-gatilho, que são a ferramenta para atingir o único objetivo desses jornalistas militantes: disparar reações sub-racionais em seus leitores pelo uso massivo de chavões ideológicos e palavras de difícil conexão com a realidade.

A mim, diante de tal loucura do senhor Alex Solnik, me resta alertá-lo sobre alguns perigosos Mascarados Reacionários de Direita com os quais ele pode se deparar em algum momento. Cuidado com esses, Alex Solnik: Zorro, Lanterna Verde, Batman, Bloco de Carnaval de Salvador, Pilotos de Fórmula Um, Pilotos de Motovelocidade, Lutadores de Esgrima, Jogadores de Hóquei, Jason do Sexta-Feira 13, Fantomas, Tartarugas Ninjas e muitos outros.