Mais Acácios, menos Gérsons

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 3 de dezembro de 2015.

Não era fácil viver no Brasil, e não é fácil visitá-lo. Depois de um tempo morando fora, você entende que a índole de boa parte dos brasileiros é algo a se lamentar. É gente demais tentando levar vantagem em tudo; um exército de Gérsons que acaba ocupando espaços em todos os setores da sociedade, fazendo de nossogerson país um campeão em desrespeito às leis, impunidade e banditismo. Felizmente, o Brasil não tem apenas Gérsons.

No último domingo eu tive de me deslocar de Campinas, interior de São Paulo, para a capital, com minha esposa, nosso bebê de 5 meses e um monte de malas. Um grande amigo se ofereceu para nos levar, e no horário combinado partimos em viagem. Uma hora depois, a cerca de 30 quilômetros do fim da Rodovia dos Bandeirantes, o carro simplesmente parou de funcionar. A inércia foi suficiente para nos levar a um posto de gasolina, e conseguimos parar no estacionamento de caminhões.

Como tínhamos hora para chegar a São Paulo, bateu um certo desespero diante daquela situação: a primeira impressão fora de correia dentada rompida, ou seja, nenhuma chance de o carro funcionar novamente. O guincho viria, mas para levar meu amigo e seu veículo defunto de volta a Campinas. Comecei a procurar um meio de continuarmos nossa viagem. Entrei na lanchonete e perguntei às três funcionárias se conheciam algum taxista ou motorista que pudesse nos levar. A última delas me deu um papelzinho com um telefone escrito à mão: “O senhor pode tentar esse moço, o Pixote. Ele faz carreto.” Não preciso dizer que o apelido do sujeito e a palavra “carreto” não me animaram muito, mas mesmo assim liguei para o Pixote, e ninguém atendeu. Continuei minha busca.

Andando até os frentistas, perguntei se conheciam algum taxista da região. Um deles me indicou o “seu Sérgio”, e fez a gentileza de ligar para o mesmo utilizando o telefone do posto. Seu Sérgio me disse que nos levaria pela bagatela de R$ 220, e que iria até o posto para ver se as malas caberiam no carro. Como eu tinha certeza de que não caberiam, pois ele me informara que o veículo era um Fiat Siena, fui até minha esposa e lhe disse que ficaríamos ali por algum tempo, até que eu conseguisse resolver a situação. Ela aproveitou e foi dar mamadeira para o nosso bebê.

Quando voltei ao carro, onde meu amigo aguardava pelo guincho, percebi um outro carro ao nosso lado, com apenas uma pessoa dentro. Num impulso, abaixei-me e perguntei ao homem que estava ao volante: “Com licença, você por acaso está indo para São Paulo?”. Ele me respondeu que sim. Continuei: “Se eu pagar o que o táxi está me cobrando, você nos levaria para a casa da minha sogra, na Zona Leste?”. A resposta foi inesperada: “Não precisa me pagar nada. Eu ajudo você e sua família a chegarem a São Paulo. Pode colocar suas coisas aqui e eu levo vocês.” Corri para dizer à minha esposa que tinha conseguido alguém para nos ajudar – recebi como resposta um “você está louco?” – e, depois de convencê-la de que era muito pouco provável que aquele homem nos matasse e roubasse nossas malas cheias de roupinhas de criança, carregamos o carro e fomos embora. A viagem foi bastante agradável, e tive a oportunidade de conhecer um pouco do Acácio, esse brasileiro tão fora do normal por fazer algo que deveria ser corriqueiro. Ao final, quando insisti novamente em lhe pagar algo, Acácio me disse simplesmente “Não precisa mesmo; se um dia aparecer alguém assim na sua frente, apenas faça o mesmo.”

Precisamos de mais Acácios – nas escolas, na política, nas empresas, nas igrejas, nos tribunais, na mídia – para neutralizar os Gérsons que pilham e destroem a nação. Pessoas que colocam seus interesses acima de tudo e de todos – um comportamento típico da psicopatia – não servem para liderar outras pessoas, e muito menos para governar um país.

Acácios, uni-vos.

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

Para baixo, e avante

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 15 de outubro de 2015.

São vários os países em que se encontra uma certa identidade comum na população, uma característica que vem à mente de imediato e que os define em uma só expressão generalista. Por exemplo, quem pensa nos ingleses pensa logo em pontualidade. Os suíços combinam com a palavra precisão. Os italianos suscitam um sentimento de alegria culinária; e nossos hermanos argentinos transparecem um certo empinamento nasal, mesmo em tempos de Cristina Kirchner no poder.

Mas e o Brasil? Já se disse muitas vezes que nossa característica é o jeitinho brasileiro ou a máxima de se tirar vantagem em tudo. Eu proponho algo um pouco diferente: somos um país de charlatães.

char • la • tão

1. Que explora a boa-fé do público, inculcando os próprios méritos e erudição para enganar; trapaceiro; embusteiro; enganador; vigarista.

2. Que se faz passar por aquilo que não é; impostor.

3. Que quer mostrar qualidades que não tem.

O charlatanismo está em todas as classes sociais, em todas as esferas políticas, nas mesas de bares, nas festas de aniversário, nas discussões do trabalho, nas conversas de bebedouro, nas universidades, nas igrejas, na televisão, enfim, na vida diária do brasileiro. Cada vez que se ouve um “pode confiar em mim”, um “fique tranquilo”, um “a gente dá um jeito”, o espírito do charlatanismo vive. Afinal, o que são as promessas de nossos governantes senão uma versão oficial e bem difundida dessas três afirmações? Não fossem as agruras da realidade – a crise, a falta de dinheiro, o desemprego, a inflação, a violência –, poderíamos muito bem ser o país do engodo perfeito, da mentira transformada em verdade institucionalizada, a versão continental do Show de Truman.

A sujeira e a imoralidade extremas da política brasileira são apenas um produto do charlatanismo da sociedade. Políticos, como se bem sabe, não nascem por brotamento, não são alienígenas, e geralmente nascem como bebezinhos bonitinhos, tal como todos os filhotes do reino animal. A desculpa clássica para que a maioria deles se torne corrupta e preocupada somente em conseguir mais dinheiro e poder é a de que a política corrompe – e esta é apenas uma meia verdade. Embora o sistema político vigente no Brasil seja um convite à corrupção, garantindo a impunidade e oferecendo muitas oportunidades para que os eleitos se beneficiem pessoalmente e ilicitamente de seus cargos, o corrupto já chega quase pronto ao seu gabinete. Ele ou ela já teve um ótimo treinamento em sua trajetória de vida. Desde criança, quando talvez tenha visto os pais ou um amigo dando um jeitinho ilegal para algo simples, até a época de escola, em que a doutrinação de esquerda (que é inerentemente charlatã) lhe encheu a mente e o coração, a pessoa vai tendo seu caráter deformado. Esta deformação atinge um ponto de não retorno quando o charlatão adquire a certeza de que os outros não passam de peças a serem manipuladas para sua própria vantagem.

E assim, com uma charlatanice após a outra, construímos um país sem elite. Não temos estadistas, não temos inventores, não temos gênios, não temos líderes inspiradores. É claro que generalizo aqui, mas o faço conscientemente, pois as pouquíssimas exceções só existem porque foram fruto de uma criação ou contexto completamente distantes da realidade brasileira; são ilhas minúsculas num oceano vasto de mediocridade.

Quando eu era mais jovem, ouvi que os regimes totalitários e os maus governos não resistiam à miséria e às crises econômicas. Quem dera isso fosse verdade, pois significaria nossa chegada a um tão sonhado ponto de inflexão na história. Infelizmente, nossos vizinhos cubanos, venezuelanos, bolivianos e argentinos estão aí para nos garantir que é possível perpetuar os erros e cavar sempre mais fundo. O Brasil chega a uma grande crise econômica no ápice de uma crise de princípios. Atolamos e não há um pedaço de madeira por perto para se colocar debaixo dos pneus.

Para baixo, e avante.

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e Mentiram para mim sobre o desarmamento”.