Mais uma redonda

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 1 de setembro de 2016.

O Brasil desanima, até quando anima. E desanima em grande estilo, com direito a absurdos nunca antes vistos na história nacional, quiçá mundial. Foi o que vimos nesta quarta-feira, no julgamento do impeachment de Dilma Rousseff no Senado. Os pizzaiolos da vez, Ricardo Lewandowski e Renan Calheiros – este último com vasta experiência na montagem de redondas italianas –, deixaram uma tremenda mancha num processo que poderia ter lavado a alma de muitos brasileiros. Dilma perde o mandato, mas não perde mais nada. É julgada culpada por crime, mas não recebe pena nenhuma. No país da impunidade, nem chega a ser muita surpresa; continua sendo, no entanto, extremamente difícil de engolir.

Esta coluna, que seria escrita em comemoração ao fim do governo mais incompetente e corrupto desde que Cabral atracou na costa brasileira, acaba dedicada aos momentos de comédia involuntária proporcionados pela senadora Kátia Abreu e pela própria Dilma. Dizem que devemos usar os limões da vida para fazer limonada; estou apenas tentando espremer a minha.

Kátia Abreu foi à tribuna do Senado depois de terminada a votação sobre o crime de responsabilidade cometido pela agora ex-presidente. Lá, teve a coragem de ser ridícula diante das milhões de pessoas que acompanhavam a transmissão da TV Senado: argumentou que a “pobre” Dilma estava a apenas um ano de se aposentar, e que tirar os seus direitos políticos acabaria impedindo nossa heroína tupiniquim de dar aulas em uma universidade pública ou de prestar um concurso em empresa, órgão ou autarquia estatal. É difícil escolher qual das interpretações é mais humorística, a de que Dilma é tão incompetente que só conseguiria arrumar emprego no serviço público, ou a de que Dilma teria condições de dar aula a alguém com mais de 4 anos de idade. Kátia Abreu completou seu discurso abilolado mencionando por diversas vezes os termos “presidenta honesta”, “mulher honrada” e coisas do tipo.

E depois, é claro, tivemos a própria Dilma fazendo seu discurso de despedida. Como seu estoque de argumentos já se extinguiu há muito tempo (desde sua infância, imagino), ela resolveu tirar o coringa da luta racial-social-sexual-indígena da lata do lixo. De acordo com Dilma, aqueles que a condenaram são, precisamente por terem-na condenado, racistas, machistas, homofóbicos, indiofóbicos, gordofóbicos, dentuçofóbicos etc. E, para rivalizar com sua grande amiga, senadora Kátia, Dilma disse que recorrerá da decisão em todas as instâncias possíveis – ainda não descobri se ela enviará o recurso para o Alto Conselho Jedi ou para a Federação dos Planetas Unidos – para reverter esse “golpe”. Senti falta de suas invenções engraçadas, como cachorros ocultos e pastas de dente que voltam ao tubo, mas acho que ela não estava no humor para esse tipo de coisa.

Piadas e pizzas à parte, a era PT chega ao seu tão esperado fim. Os picaretas que ainda sobraram no partido tentam descolar sua imagem da cor e do símbolo do mesmo. Anúncios multicoloridos (mas sempre sem vermelho) de diversos candidatos petistas deixam claro que ninguém mais quer apostar na sigla. O nome do partido sumiu das peças eleitorais, e a estrela com o 13 no centro caiu mais fundo que o diabo quando despencou do céu. É apenas uma questão de tempo para que o PT desapareça das câmaras municipais e estaduais, bem como dos gabinetes executivos e das duas casas de Brasília.

Eu queria muito ter escrito um artigo em clima de festa. Queria ter conseguido sentir um pouco de esperança, uma ponta de otimismo, uma nesga de luz em meio às trevas da política brasileira. Infelizmente, não foi assim. A manobra para evitar a perda dos direitos políticos de Dilma é apenas mais uma de tantas trambicagens que vemos todos os dias no Congresso. O Brasil sem Dilma e sem o PT no governo é, com certeza, um Brasil melhor, mas está muito longe de ser um Brasil decente. Quando o assunto é política, não somos nem sequer aceitáveis.

Termino com as palavras do ex-presidente Lula, para não dizerem que tenho preconceito com petistas: Tchau, querida.

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

Uma pedra chamada Dilma

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 19 de maio de 2016.

Poucos dias depois da eleição de 2014, sofri com dores terríveis na região lateral lombar. Após uma tomografia e algumas radiografias, o diagnóstico foi de pedras no rim. Algumas pedras pequenas e uma bem grande, de 7 milímetros, alojada no rim direito. O médico brincou, disse para eu dar um nome para a grandona. Eu levei a brincadeira a sério e lhe dei o nome de Dilma.

Dilma me acompanhou desde então, causando muita dor e desconforto. Ela me fez voltar cinco vezes ao hospital, me fez urinar sangue e suar frio, e me impediu de trabalhar por vários dias. Dilma me fez gastar um dinheiro que eu não queria ter gasto, me fez perder um tempo precioso, me desequilibrou nos dias de dores mais fortes e acabou trazendo sofrimento para toda a minha família. Ninguém aqui em casa queria a Dilma, ninguém fez nada para colocá-la na posição em que estava, mas mesmo assim ela continuou implacável, com um único objetivo em sua vida de pedra: nos prejudicar.

Com o passar dos meses, Dilma foi descendo. Saiu do rim e começou seu trajeto rumo à excreção. No meio de 2015 ela estava a 7 centímetros da bexiga. O médico recomendou o que todos recomendam para expelir uma pedra desse tamanho: tomar muita água, água em quantidades diluvianas. O duro é que eu não gosto de beber água. Gosto de Coca-Cola, suco de maçã, limonada, chá gelado, vinho, Gatorade, mas água mesmo eu peno para beber. Assim, minha falta de atenção à recomendação médica fez com que Dilma demorasse muito mais para fazer seu trajeto.

Chegamos a maio de 2016, e Dilma aprontou mais uma. Passei o final de semana com dores fortes, e fui novamente ao médico. A famigerada está na curvinha do ureter, pertinho da bexiga. Ela fez um longo caminho de descida desde que foi alçada ao posto de presidente das minhas dores, e agora está a um passo de sofrer o impeachment deste corpo. Num esforço final para obter todos os votos, estou bebendo mais de 5 litros de água por dia. É um negócio brutal, você tem que ir ao banheiro uma vez por hora, tem que ingerir mais líquidos que um camelo no Saara, mas tenho certeza de que terá valido a pena quando eu finalmente vir Dilma a caminho do esgoto. Na verdade, eu até gostaria de castigá-la mandando-a descarga abaixo, mas o médico disse que preciso capturá-la para estudos, pois assim podemos saber como evitar a formação de futuras Dilmas.

E assim segue a votação apertada em meu corpo. Até o momento não conseguimos todos os votos de que precisamos, mas temos uma nova articuladora em campo, a excelentíssima tansulosina. Ela promete alargar os caminhos para que Dilma possa sair mais facilmente. Tem seus possíveis efeitos colaterais, mas ainda prefiro um remédio imperfeito a uma dor perfeita. De acordo com o médico, se isso não funcionar teremos que tentar algo mais invasivo e mais complicado, uma explosão a laser através de cirurgia, o tipo de golpe revolucionário que não gostaria de ter em meu organismo.

Assim, estou na torcida e na confiança de que minha Dilma sairá em breve. Cheguei a desanimar por um tempo, até que me disseram que uma outra Dilma, a de um caso bem mais grave que o meu, acabou saindo depois de muito esforço e paciência. É com essa esperança que termino este artigo. E peço licença, pois preciso beber mais água.

PS: A pedra saiu às 20h40 de quarta-feira, 18 de maio de 2016.

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

A presidente de Schroedinger

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 12 de maio de 2016.

O físico Erwin Rudolf Josef Alexander Schroedinger, ganhador do prêmio Nobel de Física em 1933, ficou famoso fora do contexto acadêmico por um experimento virtual chamado de “O Gato de Schroedinger”, um paradoxo que ele inventou para tentar explicar o problema da mecânica quântica aplicada à vida diária, em objetos e seres de dimensões não subatômicas.

Ele descreve o experimento da seguinte maneira: uma caixa fechada, dentro da qual há um gato, um detector de radioatividade e um frasco de veneno. Há também um mecanismo que, se ativado pelo detector de radioatividade, quebra o frasco de veneno, que por sua vez mata o gato. Schroedinger dizia que, usando a interpretação quântica de Copenhagen, como não se pode saber se surgirá ou não uma partícula radioativa a ser detectada, o gato deveria ser considerado vivo e morto ao mesmo tempo, num estado ambíguo. É claro que bastaria abrir a caixa para saber se o real estado do gato, e o experimento fictício foi uma maneira de Schroedinger criticar a interpretação de Copenhagen. Mal sabia ele que seu experimento seria comprovado no Brasil de 2016.

Temos hoje a presidente de Schroedinger, a morta-viva do Planalto. Graças a seus incansáveis companheiros de crime, Dilma vai tentando se manter no poder com manobras jurídicas e com ameaças de violência. No front jurídico ela conta com a defesa de José Eduardo Cardozo, o advogado-geral da União que se transformou em advogado pessoal de Dilma Vana. O homem que deveria defender a União passou a desempenhar o papel preferido dos políticos petistas: advogado de porta de cadeia – Better call Cardozo. No front da violência, ela conta com os bandidinhos de sempre: MST, MTST e sindicalistas pelegos. Como lhes falta coragem para um embate realmente violento e armado, esse pessoal acaba queimando pneus em rodovias, agredindo gente indefesa e tumultuando a vida do cidadão comum. Estão mais para mosquitos do que para leões.

Voltando a Schroedinger, se nosso gato é a presidente, nossa caixa é Brasília. O veneno já conhecemos, mas em nosso caso ele pode ser chamado de remédio ou de impeachment. O mecanismo, esse é mais complicado… Câmara, Senado, STF, todos fazem parte desse processo intricado que ativa o veneno e mata o gato. Olhando Brasília de fora, fica realmente a impressão de que a presidente está morta e viva ao mesmo tempo. Mas, basta fazer um furinho na caixa para perceber que ela já partiu desta para a melhor (ou pior, dependendo de Sérgio Moro).

A turma do PT age como uma criança que não suporta perder. Aliás, escrevendo isso, lembrei-me claramente de um episódio de infância que cai muito bem como ilustração. Estávamos em cinco amigos, todo mundo na faixa dos 12 anos de idade, jogando War em minha casa. Um dos garotos estava prestes a ser eliminado – só lhe restava a Austrália. Quando ele viu uma miríade de exércitos inimigos acumulados em Sumatra e Bornéu, percebeu que não resistiria à próxima rodada, arrancou o tênis do pé e jogou em cima do tabuleiro. Voaram pecinhas para todo lado, e tivemos que começar de novo (sem ele, é claro) porque ninguém conseguia lembrar onde estavam os exércitos de cada um. Tivesse ele jogado um punhado de cocô no tabuleiro, a analogia seria perfeita.

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

Acumuladores

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 31 de março de 2016.

acumuladores.jpgCostumo assistir a uma série chamada Hoarders, exibida no Brasil com o nome Acumuladores. É um programa bem impressionante, que mostra pessoas com casos seríssimos de acumulação, em que é necessária uma intervenção da família e de especialistas para tirar a pessoa daquele estado, limpar a sua casa e tentar devolver a normalidade à sua vida. No último episódio que vi, a equipe de limpeza do programa tirou nada menos que 20 toneladas de lixo, que incluíam roupas velhas, jornais, papéis, fezes de animais, carcaças de ratos, panelas sujas, comida estragada e outras coisas bem nojentas. Para quem não tem uma boa ideia do que são 20 toneladas, são 4 mil daqueles sacos de arroz maiores.

Esse caso era tão grave que a equipe não conseguiu terminar todo o serviço a tempo. Mesmo depois de retirar as 20 toneladas de lixo, a casa continuou suja, e a remoção de todo aquele entulho revelou muitos problemas estruturais. Foram meses de esforço dos familiares para voltar a casa ao normal depois da saída de equipe de limpeza.

Nós, brasileiros, somos os acumuladores do mundo. Temos todo tipo de lixo na política nacional, e nos últimos 12 anos nossas pilhas de detritos cresceram assustadoramente. Parece que nunca conseguimos jogar nada fora – veja o caso de Fernando Collor, que mesmo depois do impeachment foi eleito senador, e continua vivendo à custa do povo brasileiro. Nos casos graves de acumulação, a casa acaba interditada por oferecer risco de vida aos moradores e aos vizinhos. O Brasil está chegando a esse estágio, e é por isso que se faz tão necessária a intervenção das pessoas lúcidas, das que olham para as pilhas e pilhas de lixo e dizem: isso tem de ir para o aterro, imediatamente.

O problema com o nosso lixo é que ele é vivo, e luta para não ser jogado fora. Vide o governo Dilma, que se arrasta por Brasília desde o começo do ano, e que vinha tentando se manter na casa a todo custo, a ponto de ter tentado a manobra absurda de nomear Lula como ministro. A passagem oficial do PMDB para a oposição selou, felizmente, o destino desse governo. Resumindo, o PT acabou e Dilma não conseguirá aprovar nem a compra de brioches para seu café da manhã se isso tiver de passar pelo Congresso. E o corolário dessa realidade é que seu impeachment tem tudo para passar tranquilamente pelas duas casas.

Não será fácil remover as muitas toneladas de lixo do governo. Nesses 12 anos, o PT espalhou dezenas de milhares de militantes na máquina pública. Foi um dos maiores aparelhamentos que o planeta já viu, uma marca impressionante até para o governo que nos trouxe o maior escândalo de corrupção da história mundial. E ainda temos um monte de porcarias que continuarão presentes através de PMDB, PSDB, PSB e tantos outros partidos que pegarão nossa esquálida carcaça para roer. Como na casa da senhorinha que mencionei, o visual não será nada bonito quando Dilma fechar a porta do Planalto e entregar as chaves ao novo inquilino.

Mas, principalmente para os que costumam dizer que o PT é apenas mais um partido corrupto… (clique aqui para acessar o restante do artigo na página do jornal).

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

Fechando com muro de ferro

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 9 de setembro de 2015.

Diz-se quando se termina algo muito bem, acima do esperado, que se fechou com chave de ouro. Por falta de exemplos na política brasileira, a opção que sobra é a do esporte: depois de cinco partidas de um futebol eletrizante e envolvente, a seleção de 1970 venceu a final com a Itália por 4 a 1, fechando com chave de ouro uma Copa do Mundo que permanece até hoje como a melhor já jogada pelo Brasil, mesmo para alguém de minha geração, que nem era nascido nessa época.

Quanto à chave ser de ouro, nenhuma novidade. Desde épocas muito antigas da história humana o ouro é sinônimo de nobreza, daquilo que não se mistura, do metal mais precioso. Por ser um metal “mole”, nunca foi e nem poderia ser usado para fins mais rudes e prosaicos, papel geralmente reservado ao ferro e sua evolução contemporânea, o aço. O fato é que ninguém quer fechar nada importante com chave de ferro – qualquer um tem uma chave de ferro em casa. Até a tapera mais simples e o carro mais enferrujado abrem e fecham com chaves de ferro.

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Mas voltemos à política brasileira. Fechar um governo com chave de ouro seria pedir demais, pelo menos nos últimos 500 anos. Mas nossa capacidade de superação inversa, ou seja, aquele talento de conseguir piorar o que já é ruim, atingiu seu ápice no atual governo, do qual se pode finalmente dizer: acabou. Ainda não é possível saber se Dilma terminará ou não seu segundo mandato, mas os últimos seis meses de notícias ruins ininterruptas, de recrudescimento da crise econômica e de recordes negativos quase diários só precisavam de um evento simbólico para marcar o dia a ser colocado na lápide petista.

O dia da Independência deste ano ganhou ares de ditadura africana com a adoção de tapumes metálicos altos para impedir que o tradicional desfile de Brasília – que existe para ser visto – fosse visto pelo povo. O obstáculo à visão do populacho teve um objetivo claro, o de restringir o evento apenas aos que se assentariam nas arquibancadas, garantindo assim um público bem adestrado com cargos públicos, mortadela e propina. O raciocínio, se é que essa palavra cabe à nossa confusa presidente, é que manifestação popular boa é aplauso; o resto se combate ou se evita. Melhor mesmo é garantir a diversão e o aplauso dos 7% no 7 de Setembro, e aproveitar esta coincidência numérica cabalística que não deve se repetir, a continuar a queda de aprovação popular em pesquisas futuras.

Mas, como tudo na vida tem um lado bom, essa atitude quase norte-coreana marcou o tão esperado fim do governo Dilma. Se faltava um símbolo para o seu extraordinário fracasso, nada melhor que o reconhecimento público de que não há mais evento, lugar, palanque ou aparição segura para a presidente, e que as vaias a seguem mais de perto do que o serviço secreto tupiniquim. O governo que não governa não tem mais legitimidade nem mesmo para não governar. A imagem que vem à mente é a de um grande navio sem comando, em que a tripulação procura roubar tudo o que pode dos passageiros para naufragar com mais anéis nos dedos, ainda que lhes falte o mindinho.

Seja daqui a alguns meses ou no início de 2018; seja por impeachment, por impugnação eleitoral ou por uma simples derrota nas urnas; seja eternizada nos livros de história como a pior presidente que já repousou as nádegas no Planalto ou a primeira presidente mulher a ir em cana na história deste país, Dilma Rousseff poderá dizer, sem pestanejar: fechei com muros de ferro.

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

 

5 x 1

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Colunistas, edição de 15 de abril de 2015.

No último domingo o Brasil vivenciou a segunda manifestação do ano contra o governo Dilma e o PT. Que fique bem claro: ao contrário do que a mídia televisiva repetiu exaustivamente durante a cobertura jornalística, o povo não foi às ruas porque está cansado da corrupção, ou porque quer a reforma política – esses tópicos são apenas parte de uma insatisfação generalizada –, mas porque quer Dilma fora da Presidência da República.

A avaliação geral dos comentaristas de todas as emissoras e portais de notícias foi a mesma, parecendo até que foi combinado: afirmar que o número de manifestantes diminuiu e que isso é evidência do enfraquecimento do movimento. Esta análise agrada demais ao governo petista, que já parece mais preocupado com os índices de popularidade de Dilma do que com o número de pessoas nas ruas. Mas nem mesmo a arrogância extrema de todos os políticos de alto escalão do PT poderia ignorar uma manifestação como a do dia 12, e os motivos são simples.

Pouco antes do 15 de março, Dilma fez um pronunciamento em cadeia nacional cujos efeitos foram completamente contrários aos esperados pelos marqueteiros do Planalto. A fala mentirosa e sem convicção da presidente só fez turbinar os ânimos da população contra o governo. Diante da forte rejeição nas semanas seguintes, Dilma adotou a prática do sumiço público, retirando-se para evitar dar mais munição aos insatisfeitos. Pela primeira vez desde que assumiu a Presidência, ela teve de reconhecer, ainda que tacitamente, que é uma figura extremamente antipática e de pouquíssimo apelo popular. Assim, sem a ajuda do Planalto, a manifestação de domingo teve “menos lenha” para queimar. Só que a presidente não poderá manter seu silêncio até 2018 e, mantendo-se seu histórico, basta que abra a boca para que as panelas voltem a bater.

Outro ponto importante é a relação numérica entre as manifestações a favor e contra o governo. Mesmo com menos gente na rua, o número de pessoas que clamaram pela saída de Dilma e do PT foi mais de 100 vezes maior que o número de pessoas a defendê-los, isso sem levar em consideração que estes recebem transporte, lanche e gratificação monetária para tomar as ruas num dia de semana, enquanto aqueles o fazem por conta própria, pagando sua passagem e sacrificando seu tempo de lazer, a fim de não penalizar os centros urbanos em dias de trabalho. Esta palavra, aliás, define bem a diferença entre os dois grupos: mamadores das tetas governamentais de um lado e trabalhadores de verdade do outro.

Em algum lugar das redes sociais foi dito que uma vitória por 5 a 1 na sequência de uma por 7 a 1 é algo a se comemorar, e essa parece ser uma metáfora futebolística bastante verdadeira. Não é coerente, neste momento, sepultar o grande movimento popular da atualidade por causa de um bom resultado, apenas porque não foi excepcional. Esse é o raciocínio que o Planalto deseja que tenhamos, e uma coisa é certa: tudo o que eles desejam é o oposto do que devemos fazer. Dilma e o PT são a antítese de um Brasil decente, e eles têm de cair.

 

Flavio Quintela é escritor e tradutor de obras sobre política e filosofia, e autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e Mentiram para mim sobre o desarmamento”.