Síndrome de Estocolmo

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 28 de julho de 2016.

No dia 13 de setembro de 2007, encerrou-se o prazo de inscrições para cidade-sede dos Jogos Olímpicos de 2016. Sete cidades foram inscritas: Rio de Janeiro, Chicago, Madri, Baku, Praga, Doha e Tóquio. Naquele momento, quando a cidade brasileira começava seu processo de candidatura, qualquer administrador mediano saberia que era hora de se mexer. Apesar da forte concorrência das outras seis cidades e das péssimas condições de transporte e acomodação da cidade, no dia 2 de outubro de 2009 – exatamente 2,5 mil dias antes do início dos jogos – o Comitê Olímpico Internacional concedeu ao Rio a honra de ser a primeira cidade sul-americana a sediar os Jogos Olímpicos.

Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, desistiu de concorrer aos Jogos de 2020. Lá, o arranha-céu Burj Khalifa, maior estrutura já construída pelo ser humano – 828 metros de altura e 160 andares –, ficou pronto em menos de 2 mil dias, com um custo total de US$ 1,5 bilhão. Enquanto isso, num país chamado Brasil, um complexo de prédios comuns e de construção simples não conseguiu ser erguido e inaugurado dentro do dilatadíssimo prazo de quase sete anos. O custo final, financiado integralmente pela Caixa Econômica Federal, deve chegar bem perto de US$ 1 bilhão.

A Vila Olímpica foi apenas a mais recente das vergonhas que o Brasil tem passado no tocante aos Jogos Olímpicos do Rio. Depois de sermos manchete em diversos países pela nojeira das “águas olímpicas” brasileiras (o nome mais adequado seria esgoto olímpico), a novidade em cena são as delegações estrangeiras tendo de pagar reformas do próprio bolso e manter seus atletas em hotéis por causa do estado deplorável em que foram entregues os apartamentos. Sim, mesmo com R$ 3 bilhões gastos, sobraram vazamentos, falhas elétricas, acabamento defeituoso e sujeira nas obras tocadas por Carvalho Hosken e Odebrecht. Australianos, americanos, suecos, argentinos, quenianos e até mesmo os venezuelanos, acostumados à penúria imposta pelo regime de Maduro, reclamaram com razão das condições ridículas que encontraram quando foram se instalar na Vila.

Seria culpa da incompetência das construtoras? Difícil. A Odebrecht, por exemplo, tem obras espalhadas pelo mundo todo, e costuma entregar construções de alta qualidade, feitas dentro de um orçamento muito mais enxuto e controlado que o da famigerada Vila Olímpica. Seria culpa da indisponibilidade de materiais ou de mão de obra qualificada? Certamente que não. Todos os dias são entregues prédios de todos os tipos nas mãos da iniciativa privada, verdadeiras obras de arte de acabamento luxuoso. Não estando o problema na competência técnica e nem nos materiais usados, só sobra um culpado possível: aquele que criou as regras, contratou as empreiteiras e supervisionou a obra, o Estado, sobre o qual Milton Friedman disse: “Se colocarem o governo para administrar o Deserto do Saara, em cinco anos faltará areia”. Detalhe: ele dizia isso tendo em mente governos muito mais eficientes que o brasileiro.

Ao mesmo tempo em que os governantes brasileiros dão provas diárias de sua incompetência e incapacidade de gestão, a população média deseja cada vez mais Estado. Pesquisa recente feita pelo instituto Paraná Pesquisas mostrou que mais de 61% dos brasileiros são contra privatizações. É quase uma Síndrome de Estocolmo coletiva – trancado em seu cativeiro tupiniquim, o povo sofre diariamente com hospitais caindo aos pedaços, transporte público horroroso, estradas perigosas e esburacadas, repartições públicas ineficientes, combustível caro e uma das piores educações do mundo, só para citar os principais fiascos, e continua pedindo que o Estado assuma mais responsabilidades, que regule mais a economia, que faça mais leis e que tome mais dinheiro em forma de impostos.

Precisamos urgentemente de um esforço nacional de atendimento psiquiátrico. Os brasileiros só podem estar loucos.

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

 

Um milhão de mentiras

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 30 de setembro de 2015.

A mentira é uma prática bem disseminada no Brasil, especialmente no tocante à política. Quem não se lembra dos debates entre candidatos à Presidência, no ano passado, quando Dilma Rousseff disse reiteradamente que em seu segundo mandato não aumentaria juros, não criaria impostos e não mexeria em direitos trabalhistas? A presidente mentiu sem o mínimo pudor.

Mas há mentiras mais sofisticadas, também conhecidas como meias-verdades, que são usadas para suavizar uma realidade dura demais para ser exposta. G30092015-ILUSTRA-QUintelaeralmente essas meias-verdades são fundamentadas em dados matemáticos, pois a matemática é uma ciência exata e nunca mente. Junte-se a isso a arte de manipular informações e ocultar dados, e você conseguirá passar qualquer tipo de informação ruim de uma forma mais agradável e menos agressiva.

Tomo como exemplo uma notícia que apareceu recentemente na maioria dos portais de notícias do Brasil: a perda de quase 1 milhão de vagas formais de trabalho nos últimos 12 meses. Um milhão de vagas de trabalho é uma quantidade imensa, um número maior do que a população de diversos países. No entanto, quanto tomada sem nenhuma referência, pode parecer um número não tão impactante num país com mais de 200 milhões de habitantes, como é o Brasil. Num raciocínio rápido e superficial, a pessoa que lê tal número pode facilmente pensar algo como “somos um país tão grande, é ruim que 1 milhão de pessoas tenham perdido o emprego, mas ainda tem muita gente trabalhando”. É claro que, se ela fizer parte desse milhão, a coisa vai lhe parecer bem mais real, mas para quem ainda tem trabalho a situação se apresenta menos desesperadora.

Mas e se os números fossem apresentados como um todo? E se fosse explicado que o Brasil, apesar de seus mais de 200 milhões de habitantes, possui uma população economicamente ativa de apenas 80 milhões de pessoas? E se fosse mostrado que, desses 80 milhões, aproximadamente 25 milhões recebem Bolsa Família e, portanto, estão fora do mercado de trabalho? Mais ainda: e se fosse dito que, dos 55 milhões que sobraram, apenas 25 milhões trabalham formalmente, com carteira assinada? Bem, se tudo isso fosse exposto com clareza, ficaria muito fácil de se entender que a perda de 1 milhão de vagas formais de trabalho é um acontecimento catastrófico. Significa que, de cada 25 pessoas empregadas, uma perdeu seu sustento.

Qualquer um consegue se lembrar de 25 pessoas conhecidas. É um grupo pequeno, do tipo que se recebe facilmente para uma festinha de aniversário ou churrasco; é um grupo que cabe até numa mesa grande de pizzaria. Pois é: no Brasil de 2015, o Brasil de Dilma e do PT, uma dessas pessoas terá perdido o emprego, e dificilmente encontrará outro, porque as vagas se fecharam, extintas pela crise econômica que piora a cada dia.

Assim como acontece com os índices de violência – só percebemos que a situação está realmente ruim quando pessoas próximas de nós (ou nós mesmos) são atingidas e se tornam vítimas –, o problema do desemprego só nos impressiona quando nossos amigos, parentes e colegas começam a nos enviar seus currículos e perguntar se conhecemos algum lugar onde “estão contratando”. Em minha recente viagem ao Brasil percebi que esse ponto já foi ultrapassado: diversas pessoas com quem conversei falaram sobre amigos e parentes desempregados, pedindo ajuda para recolocá-los profissionalmente; alguns estão em situação crítica, desesperados, tendo de se mudar com a família para os fundos da casa dos pais porque já consumiram suas reservas e continuam sem trabalho.

A única pessoa que continua vivendo numa realidade alternativa é a própria presidente Dilma. Em plena Assembleia Geral da ONU ela conseguiu dizer que a economia brasileira está mais forte, mais sólida e mais resistente. Não é de se estranhar; afinal, sua patota continua empregada no gigantesco Estado brasileiro – pelo menos por enquanto.

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

Ministério da Vagabundagem

Em geral, tudo o que o governo petista faz me dá raiva e náuseas. Essa campanha nojenta “contra o trabalho infantil” não fica atrás; um tremendo de um absurdo, que se concretizado ajudará a idiotizar e inutilizar uma geração inteira.

Criminalizar o trabalho doméstico saudável – a criança que ajuda lavando louça, arrumando sua cama, passando um aspirador – é de uma maldade maquiavélica. O mesmo se pode dizer sobrchild_choree a criminalização do trabalho nos negócio familiares, essencial na transmissão de valores e conhecimento prático.

Os canalhas sabem muito bem que o trabalho infantil criminoso é aquele onde a criança é explorada, tem que deixar de estudar e de ser criança para fazer, aquele que é insalubre, que é injusto, que é desumano. Ajudar mamãe e papai em casa ou na padaria da família é um exercício de respeito e uma etapa importante na formação de um adulto responsável, competente e soberano.

Além disso, é uma intromissão inaceitável na soberania e autoridade dos pais sobre os filhos, enfraquecendo o núcleo familiar e jogando a população ainda mais para dentro das asas do Estado, que de bom pai não tem nada.

Os ataques são tantos e em tantas frentes que fica difícil combatê-los todos. E o objetivo é sempre o mesmo: destruir a soberania do indivíduo e estabelecer um estado coletivista onde a mão do governo seja a única que alimenta, afaga, educa e castiga. Até quando aceitaremos que esse tipo de legislação seja votada e aprovada? Quanto de sua autoridade os pais precisarão perder para fazer algo a respeito? Não se pode dar uma palmada, não se pode educar o filho em casa, não se pode pedir que ele lave a louça, não se pode, não se pode, não se pode. É tão difícil assim perceber que o plano do Estado Todo Poderoso de “cuidar” do cidadão do berço até o caixão está cada vez mais avançado?

Como diria Charlie Brown, que puxa…

Está em falta

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Colunistas, edição de 10 de maio de 2015.

Entrei em uma loja de vinhos, pois queria comprar um tinto espanhol, mas só encontrei vinhos brasileiros. Perguntei para o atendente se eles não vendiam mais importados, e ele me disse que o governo tinha baixado uma nova lei para proteger os produtores nacionais, e que agora havia uma cota máxima de produtos importados para vender, a qual já tinha se esgotado. Dava para ver que ele estava um tanto nervoso – eu não devia ser o primeiro cliente insatisfeito, que saía da loja sem comprar nada.

Desisti do vinho e resolvi jantar numa lanchonete. Pedi um hambúrguer com batata frita, e o garçom me respondeu:

“Está em falta, senhor”.

“Mas como? Isso aqui é uma lanchonete!”

“Sim, mas o governo baixou uma lei protegendo os produtos de origem indígena e nacional, e agora temos cota para a batata. Se o senhor quiser, tem mandioca frita. Ah, e o hambúrguer também tem cota, pois é estadunidense. Se o senhor quiser, temos bauru e churrasquinho.”

“Deixa pra lá. Perdi a fome. Me dá só uma Coca-Cola.”

“Tem guaraná, senhor… Acabou a cota da Coca também.”

not_availableJá sem acreditar no que estava acontecendo, saí da lanchonete e fui ao cinema, para tentar esquecer aqueles absurdos. Chegando lá, todas as salas estavam exibindo o novo filme do Fábio Porchat, algumas em português e outras dubladas em tupi-guarani. Pensei em perguntar o porquê daquilo, mas seria perda de tempo. Resolvi voltar para casa. Ao chegar aonde tinha estacionado o carro, quase caí de costas: ele havia se transformado num Gurgel BR-800. Saí correndo, assustado, até que escorreguei, bati a cabeça e… acordei suando.

Esse pesadelo que tive é o sonho da esquerda brasileira. Ora é a Ancine se intrometendo nas exibições de cinema e televisão, ora é a Camex alterando o Imposto de Importação para “proteger” algum setor industrial, ora é o Judiciário decidindo em favor de indígenas e quilombolas e rasgando os títulos de propriedade privada, ora são artistas incompetentes que querem ser privilegiados por regras estatais para conseguir público. Esse foi o caso de Fábio Porchat, recentemente indignado com a decisão do dono de um cinema que, para agradar o público, resolveu exibir Velozes e Furiosos 7 em quase todas as suas salas, enquanto o filme de Porchat ficava de fora da grade.

A mentalidade desse artista é a mesma de governantes, legisladores, juízes e militantes de esquerda: a de que o Estado deve tratar seus cidadãos como crianças inaptas e incompetentes para tomarem decisões.

O Brasil nunca será um país produtivo e desenvolvido enquanto os brasileiros não forem adultos competentes e responsáveis. A dependência do Estado é uma doença que destrói a força e a capacidade de movimento de uma sociedade. Esperamos que o Estado nos dê saúde, educação, segurança, lazer, emprego, e que cuide dos pobres e oprimidos. Mas, ao terceirizarmos ao Estado o que nos faz humanos – ou seja, a autonomia, a iniciativa, a capacidade de lutar, a caridade, o altruísmo, a cooperação e tudo mais que vem da parte mais alta de nossa alma –, estamos nos suicidando, soterrados pelo coletivismo burro que elege governos populistas e salafrários.

Acordemos, antes que o próximo item em falta seja a liberdade.

 

Flavio Quintela é escritor e tradutor de obras sobre política e filosofia, e autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e Mentiram para mim sobre o desarmamento”.