O tapete vermelho

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 26 de maio de 2016.

Estender o tapete vermelho é uma expressão que traz à mente a sensação de que alguém importante está a chegar. O tapete vermelho é a passarela dos eminentes, dos honrados, dos homenageados; ele define, por assim dizer, o merecimento de quem pisa em sua superfície.

Mas, como acontece com todas as coisas positivas deste mundo, o governo petista também conseguiu deturpar o conceito de tapete vermelho. Em vez de estendê-lo para honrar os merecedores, o governo Dilma o fez para encobrir falcatruas e rombos quase incalculáveis. A presidente impedida era como um glutão estabanado, daqueles que vê uma mesa cheia à sua frente e não consegue parar de comer e de derrubar restos e migalhas ao seu redor. E sua equipe de governo era como os faxineiros preguiçosos da casa, varrendo os restos caídos para debaixo do enorme tapete vermelho da desonra. Bastou entrar um novo inquilino para perceber duas coisas: o tapete já estava alto, de tanta sujeira varrida para debaixo dele; a casa estava cheirando à podridão, por conta da porquice sem fim da turminha do PT.

Há muitas metáforas que podem ser usadas para o finado governo. Podem ser comparados a ratos que invadiram a despensa das finanças públicas, a inquilinos de péssimo caráter que ocuparam a casa do povo brasileiro, a ganhadores da loteria que gastaram pensando que o dinheiro jamais acabaria, ou a crianças mal-educadas que se lambuzaram com o pote de doce roubado do vizinho. Mas nenhuma delas conseguirá passar o estado real de coisas ao qual nosso país foi submetido. Para isso seriam necessários muitos anos de investigação, devassas minuciosas nas contas públicas do período e uma força-tarefa que nem todas as empresas de consultoria do mundo, juntas, talvez conseguissem fazer.

Michel Temer, na impossibilidade de realizar tudo isso, começa seu governo com boas medidas objetivas de governança. Começa, na verdade, a fazer o que qualquer administrador mediano faria: limitar as despesas para tentar sair – um dia, quem sabe, num futuro distante – do cheque especial. A aprovação da nova meta fiscal para 2016 pelo Congresso Nacional mostrou que o novo governo entende que o dinheiro do Estado não nasce em árvore e não é infinito; as críticas feitas por políticos da nova oposição mostraram que PT, PCdoB, PSOL et caterva continuam acreditando em Papai Noel e em Saci Pererê.

Em outra frente, o novo governo tenta recuperar o terreno perdido na diplomacia. Parece que José Serra está disposto a deixar uma marca incisiva na condução das relações exteriores. Não acredito ainda que possamos nos livrar de vez do Mercosul, mas tê-lo devidamente colocado no ostracismo é algo que consigo enxergar sob a gestão de Temer. Com um pouco mais de otimismo dá até para crer que alguém na nova equipe terá a ideia brilhante de tentar um tratado comercial com o maior parceiro econômico do planeta, os “estadunidenses imperialistas”, como diria aquele seu professor de história boçal. Talvez seja bom se Serra tiver umas conversas com o pessoal da Colômbia, do Peru e do Paraguai, que já entenderam que o Mercosul está para os tratados comerciais assim como o Esperanto está para os idiomas em uso.

Quanto ao tapete, Temer terá de comprar um novo. Tem manchas que simplesmente não saem mais, nem com aqueles produtos miraculosos do 1406. A sujeira dos governos Lula e Dilma só tem um destino viável: o aterro sanitário.

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

Lula, o chulo solitário

Artigo publicado no Senso Incomum em 21 de março de 2016.

Todo político eleito para um cargo do Executivo tem em suas mãos diversos cargos de confiança que frequentemente (estou sendo otimista com o frequentemente) são usados como moeda de troca. O mais alto cargo executivo do Brasil é a Presidência da República, e o presidente eleito possui uma quantidade imensa de indicações e nomeações ao seu dispor. É gente demais para ser “comprada” e “mantida refém”: eu lhe dou um emprego com um belo salário e uma boa dose de poder, e você fica na minha mão até o último dia do meu mandato.

Mas, uma das indicações que o presidente da república faz é bem diferente de todas as outras, e é justamente a indicação de ministro do Supremo Tribunal Federal. Esta é a única indicação para um cargo cujo mandato ultrapassa o da presidência – é para um mandato vitalício. Sendo assim, é a que tem a moeda de troca mais fraca. O presidente não pode ameaçar um ministro do STF com perda de mandato, e esta é justamente uma das características-chave de uma suprema corte, a de que seus componentes podem julgar qualquer assunto e qualquer pessoa sem influências externas, sejam elas de políticos, de partidos, de outras instituições ou do povo. É por isso que a escolha de ministros do STF com orientação ideológica semelhante à do presidente em exercício não é uma jogada de sucesso garantido. Exemplo disso foi o próprio Joaquim Barbosa, indicado por Lula em 2003, que em inúmeras oportunidades votou e julgou de forma completamente contrária ao esperado pelo governo petista.

lula-STF-totalmente-acovardadoLula, é claro, não é capaz de enxergar sua arrogância, torpeza e desprezo pelas outras pessoas. Seu ego gigantescamente inflado o impede de perceber que há pessoas no Brasil cujo poder é mais fundamentado e mais duradouro que o dele. O vilão clássico da literatura e do cinema sempre cai por causa do exagero de autoconfiança. Lula não foge à regra. Quem tudo pode, nada teme, e esse nada inclui investigações, grampos e vinganças. De guarda baixa, Lula foi pego em sua forma mais natural, a de ser desprezível e incrivelmente chulo em tudo o que diz. E, graças à inteligência de Sérgio Moro, os brasileiros puderam ouvir, no conforto de suas casas, as gravações em que Lula chama os magistrados do Supremo de covardes.

Eu não sei você, mas se eu tivesse um cargo vitalício, não respondesse para ninguém e fosse chamado de covarde publicamente por alguém, eu faria questão de aplicar a lei no limite mais rigoroso da letra a esse sujeito, caso algum de seus processos caísse em minhas mãos. Mas, como nem sempre o mal anda de braços dados com a sorte, as liminares pedindo a suspensão da nomeação de Lula como ministro foram cair justamente nas mãos de Gilmar Mendes, desafeto bem conhecido do ex-presidente. E Mendes não desapontou 97% dos brasileiros ao julgar a liminar procedente, frustrando os planos petistas e deixando Lula à mercê da operação Lava Jato.

Logo depois de sua decisão, Gilmar Mendes informou que levará a discussão voluntariamente ao plenário do STF. Muita gente recebeu esta afirmação como um sinal de que Lula está agindo por trás dos bastidores para que o colegiado do STF reverta a decisão de Mendes e ele possa tomar posse em definitivo como ministro. Eu não acredito nisso, e arrisco dizer que Gilmar Mendes adiantará a discussão em plenário porque tem certeza de que sua decisão será corroborada pelos colegas de tribunal, por um simples motivo: Lula passou dos limites e ofendeu todos eles. Não haverá misericórdia para o protoditador da Banânia, muito menos quando misericórdia significaria passar por cima das leis e permitir uma fraude que já virou piada internacional.

Enquanto isso, Dilma segue cada dia mais isolada, com olheiras cada vez mais profundas, sem ter mais nenhuma carta na manga. Boatos dizem que ela pensa em renunciar e uma vidente diz que ela tentará se matar. Qualquer que seja sua decisão, não mudará o fato de que seu governo acabou, junto com seu partido e seu mentor. Vão-se os presidentes, ficam os magistrados. Essa é a lição que Lula deveria ter aprendido e que, para nossa sorte, não aprendeu.

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

Nós somos os ratos

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 17 de março de 2016.

Laboratory rat
O brasileiro

Está confirmado, demonstrado e sacramentado: o Brasil é um grande laboratório e as cobaias somos nós. Vivemos debaixo de um experimento social macabro – no qual fomos colocados por nós mesmos através do sufrágio universal – em que somos testados dia após dia, em que nossos limites são avaliados e distendidos, em que nossa tolerância é provada com doses pequenas, mas crescentes, do veneno político.

Se um dia esse experimento tiver fim, é bem possível que o resultado seja a comprovação de que somos o povo mais covarde e bovino do planeta. O “cientista” da vez, o governo petista, não tem medido esforços para provar essa tese, que o beneficiará por muitas décadas ainda.

Tudo começou no governo Lula, o mentor do maior esquema de compra de poder da história brasileira, conhecido como mensalão. Sim, o mensalão foi mostrado, provado, julgado e condenado, e nenhum de seus principais operadores – todos criminosos condenados – permanece preso. Os meandros da lei, as manobras bandidas dos advogados de defesa e uma suprema corte majoritariamente vassala do Executivo levaram, em conjunto, ao mais absurdo dos resultados: a total e completa impunidade.

Lula não só escapou de ser investigado ou punido; ele ganhou um segundo mandato e depois elegeu sua sucessora, ou seja, ganhou um terceiro e um quarto mandatos (nota: aos que, por algum motivo inexplicável, ainda acham que o PSDB faz bem ao Brasil, lembro que foi Fernando Henrique Cardoso quem colocou panos quentes sobre o mensalão, entregando a eleição de 2006 de bandeja a Lula. Coisa de amigos, é claro).

Com o governo Dilma veio um novo recorde: o maior escândalo de corrupção da história mundial, o petrolão. Era o aumento da dose em nosso experimento. Se os ratinhos brancos aguentaram um mensalão inteiro sem maiores reações, por que não partir para algo inédito, algo marcante e “digno” de ser lembrado por gerações? Dilma Rousseff, seguindo os passos de seu antecessor, passou incólume pelas eleições de 2014 – assumindo, é claro, que o processo não tenha sido fraudado eletronicamenrte – e foi reeleita mesmo diante de todos os indícios de sua participação na grande trapaça que foi a compra da refinaria de Pasadena. Enquanto isso, a maioria dos ratinhos pulava feliz ao receber mais um pedaço de queijo bolorento.

Depois de 12 anos pilhando o país, é claro que chegou o momento da crise econômica. Nem o rei Midas seria capaz de fabricar ouro suficiente para compensar a ladroagem do petismo. O Brasil parou, e até os ratinhos mais bobinhos perceberam que estavam recebendo menos queijo no fim do dia. Será que finalmente fariam um motim no laboratório? Romperiam as gaiolas e partiriam para o ataque ao cientista louco? Afinal, são mais de 200 milhões de ratinhos e apenas alguns milhares de criminosos. Parecia que sim, mas não passava de mais um experimento. No dia 16 de março de 2016 foi aumentada a dose de teste mais uma vez, num nível que até então ninguém imaginava ser possível. Com a ida de Lula – um sujeito agraciado com um pedido de prisão preventiva e investigado por diversos crimes – para um ministério do governo, o Brasil rompeu a barreira que separa as democracias dos regimes totalitários. O golpe será completo se a emenda constitucional de autoria do senador Aloysio Nunes (ex-motorista de assalto e atual amiguinho tucano), que cria uma excrescência chamada semiparlamentarismo, for votada e aprovada nos próximos meses. Lula, que já teve dois mandatos como presidente e um como titereiro-mestre, completaria sua ascendência a ditador com uma possível nomeação a primeiro-ministro não eleito pelo povo. Ele seria o Stalin da Banânia, o Hitler carnavalesco, o Mao da cachaça, o semideus encapetado do agreste, o líder supremo que conduzirá o Brasil à miséria, mas sempre do conforto de um rei.

Enquanto isso, muitos… (clique aqui para acessar o restante do artigo na página do jornal).

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

Uma chinelada só

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 10 de março de 2016.

É bem provável que você já tenha pensado, depois de ser picado por algum pernilongo sanguinário, algo como “mas por que esse bicho existe, se a única coisa que ele faz é parasitar e causar doenças?” Ou então, ao descobrir que teria de passar por uma cirurgia às pressas para remover um apêndice supurado, lhe passou pela mente “que troço inútil é esse, que ou não faz nada de bom ou me leva logo para a sala de cirurgia?” A lista de mancadas da natureza não para por aí: vermes, moscas, vírus, câncer, raios solares UV, ervas daninhas, fungo de unha e bactéria da cárie são apenas alguns exemplos de coisas sem as quais nossas vidas seriam muito melhores, e das quais nenhum ser vivo do planeta sentiria falta. Mas, sendo o homem um imitador da natureza, ele também produz suas inutilidades daninhas, e uma de suas obras-primas nessa categoria é o PT.

Depois de 13 anos no comando do país, está evidente que a agremiação que se diz “dos trabalhadores” não serve para nada que preste. À política brasileira, em geral, já é difícil atribuir resultados bons de qualquer tipo, mas o PT é o grande campeão do Framboesa de Ouro da política nacional, levando as estatuetas de pior partido, pior político principal, pior político coadjuvante, pior gestão pública, pior plano de governo, pior diplomacia, pior ideologia e pior escândalo de corrupção. Esse desempenho “majestoso” é resultado de um verdadeiro trabalho de equipe, no qual cada membro consegue fazer pior que o anterior, superando consistentemente as expectativas (negativas) de todos nós. O diretor desse filme de terror é Lula, o pobre mais milionário do mundo. Este senhor etílico sempre esteve por trás de toda a conduta petista; ele é, por assim dizer, o titereiro do partido, desde sua fundação até hoje.

barataasO nível de mediocridade do PT é tamanho que o partido não consegue nem sequer ser um vilão de verdade. Outras nações tiveram suas desgraças comandadas pelas mãos de políticos maus, de ditadores sanguinários, de genocidas e de loucos como Stálin, Hitler, Fidel e Pol Pot. Esses psicopatas deixaram um legado de morte, escravidão e destruição, e colocaram seus nomes entre os mais famosos da história da humanidade, ainda que pela mais vil das razões. Mas, enquanto russos, alemães, cubanos e cambojanos tiveram seus Darth Vaders, nós vivemos sob o governo de um Dick Vigarista. Lula, no fim das contas, não passa de um ladrão e de um projeto mal-sucedido de ditador. Seu sítio, sua cobertura no Guarujá, suas palestras milionárias, seus laços com empreiteiras corruptas, seus esquemas para enriquecer os filhos, tudo isso mostra que seu grande projeto de poder acabou se atrofiando para algo bem menos grandioso: enriquecer. É claro que, sendo um homem com um dos maiores egos deste lado da galáxia, ele sempre soube aproveitar muito bem os benefícios de ser líder, e sempre desfrutou dos prazeres megalomaníacos que somente quem está no comando sabe descrever.

Eu mesmo sempre disse que Lula tinha um projeto grandioso para tomar a América Latina de assalto e estabelecer por aqui a nova União Soviética. Mas, como todo gerente de projetos bem sabe, existem alguns requisitos para se transformar algo planejado em algo executado. Quando o projeto é o estabelecimento de um regime autoritário, uma condição sine qua non é a coragem, qualidade que nem Lula e nem ninguém do PT jamais teve. Lula sempre foi um covarde; a esquerda brasileira inteira sempre foi covarde, e foi fundada em cima da covardia. Esta geração que hoje está no poder, devemos lembrar, é a mesma que tentou ser terrorista na década de 1960, que fugiu feito barata acuada quando os militares tomaram o poder e que continuou agindo à moda das baratas, ocupando espaços obscuros e se multiplicando fora da vista de todos. Não deveria ser surpresa, portanto, que mesmo ficando 13 anos no poder o PT não tenha conseguido fechar a imprensa, assassinar opositores e estabelecer uma ditadura. Baratas não fazem isso, para nossa boa sorte.

Com a covardia dos petistas e um pouco de coragem de cada um de nós, não será… (clique aqui para acessar o restante do artigo na página do jornal).

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

Conselhos para Dilma

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 31 de dezembro de 2015.

Pensei muito sobre o que escrever na última coluna de 2015. Pensei em ignorar o tema óbvio de fim de ano e introduzir um assunto completamente diverso das retrospectivas e análises tão comuns desta época. Não consegui – parece que a proximidade com o fim de um ciclo traz consigo a necessidade de relembrar o que aconteceu, reforçar o que deu certo e aprender com o que deu errado.

Sendo assim, preparei uma lista de sugestões para a presidente da República, já que os erros dela são os que afetam mais gente ao mesmo tempo.

Para Dilma Rousseff:

dilma-óculosNão confie mais no Lula – eu sei que foi ele que a colocou aí na Presidência, e que sem ele você não seria nada além de uma empresária mal sucedida do 1,99. Mas o fato é que ele não gosta de você de verdade. Se ainda não percebeu, ele passou a jogar contra você. Na verdade, ele nunca jogou a favor – Lula é o tipo de pessoa que só faz as coisas por interesse próprio, um grande egoísta. Faça como os brasileiros de caráter e evite esse tipo de amizade. Não faz bem andar por aí na companhia de gente desse tipo.

Não escolha novos ministros do STF – suas escolhas são muito ruins. Sei que lhe parecem boas, mas você tem de entender que o que é bom para você geralmente é ruim para os brasileiros. Evite escolher novos ministros no futuro. Quando chegar a hora de escolher algum, invente alguma história, diga que está com dor de barriga ou que sua avó morreu. Faça o que for preciso para não cometer esse erro de novo.

Não escolha ministros de governo – quem não sabe escolher para o STF também não sabe escolher para o governo. É hora de se conformar com isso e deixar esse tipo de decisão para pessoas competentes. Tudo bem, sei que vai dizer que não tem ninguém competente em seu governo para tomar essas decisões. Mesmo assim, é melhor não decidir nada do que decidir errado.

Não fale mais em público – você não tem capacidade para discursar, muito menos de improviso. Evite entrevistas, aparições em eventos, palanques, púlpitos, microfones, câmeras de televisão e situações similares. Quando sentir aquela necessidade incontrolável de falar sobre coisas sem sentido como a importância da mandioca e os cachorros ocultos, tampe os dois ouvidos com os dedos e repita, baixinho, “mandioca, cachorro, mandioca, cachorro, mandioca, cachorro” até passar a vontade.

Não se comunique – toda vez que você usa telefone, e-mail, correio, WhatsApp, bilhetinho, Skype ou sinais de fumaça, alguma coisa ruim acontece. Evite se comunicar. Pense na possibilidade de uma temporada monástica no Himalaia, uma experiência única em que você poderia aprender a comunicar-se consigo mesma e a crescer interiormente. Lembre-se de que esse tipo de experiência não costuma funcionar a menos que dure quatro ou cinco anos. É importante ter perseverança nessas horas e não desistir. Na dúvida, rasgue o passaporte.

Não assine mais nada – tudo o que você assinou prejudicou os brasileiros e piorou suas vidas. Evite canetas, lápis, carimbos, teclados, mouses e outros dispositivos que possam transformar o que lhe vem à mente em ações concretas. Se colocarem algo em sua frente para assinar, finja que não viu, derrame café em cima da folha ou faça aviõezinhos e jogue-os pela janela. Só não assine nada.

Não presida mais nada – sua experiência presidindo as coisas só causou transtorno e falência. Você conseguiu afundar uma das maiores economias do mundo e transformar um país como o Brasil em motivo de lamento. Evite ficar em Brasília. Na verdade, evite o Brasil. Evite-o como o alcóolatra deve evitar a bebida, como o viciado deve evitar as drogas. Sugiro China, Japão, Austrália ou Nova Zelândia como locais para passar uma longa temporada. Sei que gosta de Cuba, mas é perto demais.

Tenho certeza de que, se seguir os meus conselhos, o Brasil terá um 2016 muito melhor. Feliz ano novo.

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

Fechando com muro de ferro

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 9 de setembro de 2015.

Diz-se quando se termina algo muito bem, acima do esperado, que se fechou com chave de ouro. Por falta de exemplos na política brasileira, a opção que sobra é a do esporte: depois de cinco partidas de um futebol eletrizante e envolvente, a seleção de 1970 venceu a final com a Itália por 4 a 1, fechando com chave de ouro uma Copa do Mundo que permanece até hoje como a melhor já jogada pelo Brasil, mesmo para alguém de minha geração, que nem era nascido nessa época.

Quanto à chave ser de ouro, nenhuma novidade. Desde épocas muito antigas da história humana o ouro é sinônimo de nobreza, daquilo que não se mistura, do metal mais precioso. Por ser um metal “mole”, nunca foi e nem poderia ser usado para fins mais rudes e prosaicos, papel geralmente reservado ao ferro e sua evolução contemporânea, o aço. O fato é que ninguém quer fechar nada importante com chave de ferro – qualquer um tem uma chave de ferro em casa. Até a tapera mais simples e o carro mais enferrujado abrem e fecham com chaves de ferro.

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Mas voltemos à política brasileira. Fechar um governo com chave de ouro seria pedir demais, pelo menos nos últimos 500 anos. Mas nossa capacidade de superação inversa, ou seja, aquele talento de conseguir piorar o que já é ruim, atingiu seu ápice no atual governo, do qual se pode finalmente dizer: acabou. Ainda não é possível saber se Dilma terminará ou não seu segundo mandato, mas os últimos seis meses de notícias ruins ininterruptas, de recrudescimento da crise econômica e de recordes negativos quase diários só precisavam de um evento simbólico para marcar o dia a ser colocado na lápide petista.

O dia da Independência deste ano ganhou ares de ditadura africana com a adoção de tapumes metálicos altos para impedir que o tradicional desfile de Brasília – que existe para ser visto – fosse visto pelo povo. O obstáculo à visão do populacho teve um objetivo claro, o de restringir o evento apenas aos que se assentariam nas arquibancadas, garantindo assim um público bem adestrado com cargos públicos, mortadela e propina. O raciocínio, se é que essa palavra cabe à nossa confusa presidente, é que manifestação popular boa é aplauso; o resto se combate ou se evita. Melhor mesmo é garantir a diversão e o aplauso dos 7% no 7 de Setembro, e aproveitar esta coincidência numérica cabalística que não deve se repetir, a continuar a queda de aprovação popular em pesquisas futuras.

Mas, como tudo na vida tem um lado bom, essa atitude quase norte-coreana marcou o tão esperado fim do governo Dilma. Se faltava um símbolo para o seu extraordinário fracasso, nada melhor que o reconhecimento público de que não há mais evento, lugar, palanque ou aparição segura para a presidente, e que as vaias a seguem mais de perto do que o serviço secreto tupiniquim. O governo que não governa não tem mais legitimidade nem mesmo para não governar. A imagem que vem à mente é a de um grande navio sem comando, em que a tripulação procura roubar tudo o que pode dos passageiros para naufragar com mais anéis nos dedos, ainda que lhes falte o mindinho.

Seja daqui a alguns meses ou no início de 2018; seja por impeachment, por impugnação eleitoral ou por uma simples derrota nas urnas; seja eternizada nos livros de história como a pior presidente que já repousou as nádegas no Planalto ou a primeira presidente mulher a ir em cana na história deste país, Dilma Rousseff poderá dizer, sem pestanejar: fechei com muros de ferro.

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

 

Tempos sombrios

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 27 de agosto de 2015.

O jogo democrático caracteriza-se, obrigatoriamente, pelo confronto político entre situação e oposição, exercido através de meios legais e não violentos. A ausência de oposição é característica de regimes autoritários, como os de Cuba e Coreia do Norte, e nunca é positiva ou desejável para uma nação (vale lembrar que na época dos governos militares havia oposição). Infelizmente, esta noção fundamental à manutenção da liberdade não parece fazer parte da agenda política deste governo.

Não é de hoje que a versão petista do antigo ministério da propaganda de Hitler, capitaneado por Joseph Goebbels, vem tachando os oponentes do governo de antidemocráticos e golpistas. As acusações, no entanto, são falsas em todos os aspectos, contradizendo tanto a lógica como a coerência histórica. Tomemos como exemplo a questão do impeachment: a se considerar a Constituição Federal e as evidências que vêm sendo reveladas sobre o governo atual, não existe base legal para se classificar um pedido de impeachment como algo antidemocrático ou como “quebrar as regras do jogo”. A se considerar o comportamento histórico dos próprios políticos governistas que defenderam, 23 anos atrás, o impeachment de Fernando Collor, também não há justificativa para tais acusações de golpismo, ainda mais diante das manifestações populares que lotaram as ruas do país em três oportunidades neste ano.

Sobre as manifestações, aliás, as tentativas recentes de desqualificá-las têm se mostrado histéricas e fantasiosas, e incluem desde sugestões estapafúrdias de que a CIA esteja financiando alguns dos movimentos até as coberturas irracionais dos protestos por grande parte da mídia, com menção desonrosa especial ao instituto Datafolha, que tem divulgado contagens e pesquisas mentirosas sobre os manifestantes, facilmente contestáveis por documentos anteriores do próprio instituto.

Esse comportamento, por mais afetado e anormal que tenha sido, ainda não tinha ultrapassado abertamente a linha da ilegalidade e do arrepio à lei. Sim, pode-se dizer que houve mentiras que deixam qualquer pescador corado de vergonha, e que houve falsidade, ocultação, antiprofissionalismo, falta de civismo, falta de caráter e falta de vergonha na cara por parte da presidente e de seus ministros, assessores, conselheiros, partidários, militantes e tantos outrosjaqwag que se penduram na estrutura estatal gigantesca que o PT montou em seus quase 13 anos no poder. Mas isso já não é mais verdade.

Jaques Wagner, ministro da Defesa, diretor superior das Forças Armadas, cuja função é articular as ações que envolvam estas instituições, publicou em seu perfil público do Facebook no dia 24 deste mês uma montagem onde se lê “De que lado você está?”, tendo embaixo duas sequências de fotos: a de cima, denominada “Time Democracia”, mostra artistas defensores do governo fazendo pose com a presidente Dilma; a de baixo, denominada “Time contra o Brasil”, mostra políticos da oposição e o artista Lobão, que tem sido crítico ferrenho do governo. No texto que acompanha a montagem, o ministro escreve que “Hoje, na política brasileira, há dois times em campo. De um lado, em defesa da democracia, está a equipe formada por grandes artistas e expoentes da cultura nacional (…) Eles reconhecem que o país atravessa um momento difícil, mas pregam o respeito à Constituição, rechaçam qualquer possibilidade de interrupção do mandato da presidenta (sic)Dilma Rousseff (…) Do outro, estão os personagens de sempre, o time do pessimismo, do ‘quanto pior, melhor’, dos que colocam suas ambições eleitorais acima da estabilidade institucional do país e dos que saíram das urnas derrotados pela quarta vez seguida (…) E você, de que lado vai jogar nesta partida, no time que está sempre contra o Brasil ou no time da democracia?”

Qual é a mensagem que um ministro da Defesa passa ao escrever algo assim? Nenhuma que seja aceitável. Se ele queria apenas fazer uma analogia futebolística, passou longe do comportamento que se espera de quem representa as Forças Armadas. Se queria passar um recado de que Exército, Marinha e Aeronáutica estão prontas para jogar para o time “certo”, muito pior, pois isso significaria o estabelecimento de uma nova ditadura no país. Aliás, o ministro conseguiu criar sua própria versão do tão criticado bordão dos governos militares, “Brasil, ame-o ou deixe-o”, apenas trocando o imperativo por uma pergunta que pressupõe resposta certa. Não me surpreenderei se ele se apossar de uma certa frase de Jesus Cristo para se justificar no futuro – “Quem comigo não ajunta, espalha”.

Aqueles que acreditam ter o monopólio da virtude são capazes de coisas inimagináveis para manter o poder. São tempos sombrios quando gente como Jaques Wagner comanda as forças armadas de um país.

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e Mentiram para mim sobre o desarmamento”.