A dor indissociável da vida

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 20 de abril de 2017.

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O ser humano nasce sofrendo. Nosso primeiro contato com o mundo é literalmente de chorar. Depois de tantas semanas no aconchego do ventre materno, a entrada no mundo através das mãos do obstetra ou da parteira vem acompanhada de muito esforço, dor, fluidos, sangue, suor e lágrimas; e me perdoem pelo chavão. A dor da mãe, principalmente no caso de parto natural, pode se estender por horas e horas, e é suportável apenas porque existe algo maior, que muitos de nós consideram o maior bem da humanidade: a vida. Digo muitos, e não todos, porque a humanidade já assistiu à ação de lunáticos poderosos que ceifaram milhões de vidas durante sua existência. Mas, no geral, a vida é e continuará sendo o motor maior do ser humano, e a chegada de uma nova vida é um espetáculo que jamais se torna repetitivo.

Mas divaguei. Minha ideia central é a dor, o sofrimento. Ao contrário do que muitas pessoas acreditam, principalmente as mais jovens, a essência da vida não é ser feliz. Quem vive correndo atrás da felicidade – conceito, aliás, bastante subjetivo e de difícil medida – não dá conta de uma verdade absoluta, que atinge todas as pessoas deste mundo: só existem duas certezas na vida de um ser humano, a de sofrer e a de morrer. A nossa natureza má garante a presença da dor em toda a nossa história de vida – por vezes nós a infligimos a nós mesmos, por vezes aos outros. E sobre a morte não há muito o que dizer: ela é implacável e invencível.

É claro que eu não poderia continuar nesta direção sombria sem mencionar as possibilidades de alegria que nos surgem. Não é porque vivemos com a certeza da dor e da morte que não podemos viver momentos de alegria. Nossa verdadeira humanidade está em agir ativamente para melhorar nossa vida e tornar os momentos de dor e sofrimento menos frequentes e menos intensos, ainda que enfrentemos o limite inexorável do acaso (ou do destino, como alguns acreditam). Ainda assim, está em nossas mãos o poder de lidar com nossos melhores e piores momentos e usá-los para moldar o nosso caráter e desenvolver as partes altas da alma.

Gosto muito de um texto do filósofo Louis Lavelle, que diz: “Há na vida momentos privilegiados nos quais parece que o universo se ilumina, que nossa vida nos revela sua significação, que nós queremos o destino mesmo que nos coube, como se nós próprios o tivéssemos escolhido. Depois o universo volta a fechar-se: tornamo-nos novamente solitários e miseráveis, já não caminhamos senão tateando por um caminho obscuro onde tudo se torna obstáculo a nossos passos. A sabedoria consiste em conservar a lembrança desses momentos fugidios, em saber fazê-los reviver, em fazer deles a trama da nossa existência cotidiana e, por assim dizer, a morada habitual do nosso espírito”.

Eu adoro esse texto, adoro mesmo. Já o li centenas de vezes e tento aplicá-lo no meu cotidiano, todos os dias. A consciência da falibilidade do ser humano e da necessidade de um aprimoramento pessoal é condição sine qua non para uma sociedade funcional – nenhum grupo de pessoas pode buscar justiça, paz, harmonia ou qualquer outro valor desejável sem que seus indivíduos realizem esta busca primeiramente por si mesmos, antes de qualquer tentativa de coletivização. E é neste ponto que colidimos com a ideologia de esquerda, sem nenhuma possibilidade de acordo ou nem sequer de respeito às suas ideias, que trouxeram as maiores desgraças à humanidade.

Desde que Rousseau removeu a responsabilidade individual pelos males praticados, estabelecendo que o homem nasce bom e culpando a sociedade pela degradação moral do indivíduo, os intelectuais de esquerda não fizeram nada além de aprofundar essa mentira e levá-la às piores consequências. Ao negar que o estado natural do homem é a miséria e que a dor é indissociável da vida, eles propuseram soluções absurdas, baseadas em problemas que não existem. Assim, para explicar o sofrimento propuseram a luta de classes, como se todo o sofrimento humano viesse somente da diferença de riqueza entre as pessoas. Fosse assim, os ricos seriam os mais felizes do mundo e os milionários acumulariam rugas de tanto rir; e os pobres se matariam de desgosto, amargurados até os ossos por não possuírem uma casa mais bonita ou um relógio de ouro. Para combater a dor e o sofrimento, propuseram sistemas de governo paternalistas, que tratam todos como crianças incapazes, prometendo algo que nenhuma pessoa na história da humanidade conseguiu prover a alguém: felicidade. Assumiram, assim, o monopólio da virtude, a ponto de serem os verdadeiros arautos da bondade e, enquanto o faziam, assassinaram civilizações inteiras. Pagaram a fé dos incautos com a morte e suas promessas de felicidade terminaram enterradas em valas comuns, junto aos corpos carregados de marcas de tortura e sofrimento. Essa é a história do comunismo, do socialismo, do nazismo e de todos os movimentos de esquerda que assolaram o mundo.

Tire de uma pessoa a certeza da dor, prometa-lhe felicidade, e ela não terá mais instrumentos para evoluir. Confronte uma pessoa com a inexorabilidade da dor, desafie-a… (para ler o restante deste artigo, clique aqui).

Você se preocupa muito com o futuro?

ampulheta9De vez em quando eu gosto de escrever sobre algo que não seja política. Eis que surgiu este assunto em minha mente.

Há muito tempo, quando não havia agendas, nem telefones, nem computadores, nem sequer relógios portáteis, quando as pessoas não se comunicavam a não ser pessoalmente, quando o mundo era tão maior do que o de hoje, porque as distâncias tinham que ser percorridas a pé ou a cavalo, muito tempo atrás um homem escreveu que tudo tem seu tempo nessa vida. Uma vida inteira é uma sequência de tempos, que vão se sucedendo de uma maneira que não temos muito controle e muitas vezes nem muito entendimento.

Alegria, tristeza, nascimento, morte, semeadura, colheita, abraço, distância, amor, ódio, choro, riso, criação, destruição, guerra e paz. Cada um desses momentos faz seu tempo em nossas vidas, e por mais que queiramos uns ou tentemos evitar outros, é simplesmente algo maior que nossa pequena existência. Aceitar o nosso destino é o único caminho que nos livra das culpas e dos medos. Para isso não precisamos acreditar que ele seja um destino pré-determinado, nem mesmo que haja alguém desenhando nosso futuro – basta entendermos que nossa vida acontece dentro de um universo imenso, em meio a bilhões de outras pessoas e trilhões de outras galáxias. Diante de tanta grandeza, dizer que temos nosso destino em nossas mãos é tão absurdo como dizer que podemos fazer que o Sol brilhe mais forte amanhã.

Abraçar o destino que nos cabe é nossa maior missão. Só assim podemos nos alegrar com o que temos, em vez de nos revoltarmos com o que não temos. Só assim podemos entender que ter alguém que nos ama é um privilégio e uma causa de celebração, e não um evento comum que acontece a toda hora. Só assim é que não nos sentiremos compelidos a comparar nossos destinos com o de outras pessoas, e a nos medir de acordo com elas. Afinal, se a cada pessoa cabe um destino único, não há razão para se desejar o destino de outrem.

Comer com alegria, gozar a vida com quem se ama, dormir com a tranquilidade de quem não deve e ser a pessoa mais justa que se puder ser – é assim que tornamos o pequeno mundo ao nosso redor um pouco melhor. Tempos difíceis fazem parte da vida, mas eles virão intercalados com tempos bons. Sempre haverá uma razão para a alegria, e sempre haverá esperança. Todos os tempos ruins que passamos nos dão a chance de crescer; o caráter de um homem é polido constantemente pelas adversidades, e a falta delas nunca fez bem a ninguém. Quem já leu meu livro vai se lembrar de quando falo que o Brasil é “amaldiçoado” por ser um lugar tão fácil de se viver.

Enfim, não sei se teremos guerras, se a humanidade vai acabar num cogumelo atômico, se entraremos numa era de maravilhas, se a Dilma vai ganhar ou não, mas sei que é possível viver cada dia de uma vez, na base do amor e com a ajuda de Deus. Abrace o seu destino e viva uma história bonita, sem tentar adivinhar o capítulo de amanhã, firme no propósito de fazer a melhor caminhada que puder. E que tudo mais vá para o inferno, como dizia o cantor.

 

Flavio Quintela é autor do livro “Mentiram (e muito) para mim