Os jogos da individualidade

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 4 de agosto de 2016.

Nesta sexta-feira (5) começam os Jogos Olímpicos, a celebração mundial do esporte e da competitividade do ser humano. Quem sintonizar o televisor na transmissão do evento certamente não verá cachorros apostando corrida ou cangurus competindo para ver quem pula mais alto; competir pelo simples prazer de competir é algo humano, assim como o é superar os próprios limites pelo simples prazer de superá-los.

Ser um esportista profissional, ou melhor ainda, ser um atleta olímpico, não é “bolinho”, como diz um amigo meu de Piracicaba. Certo tempo atrás eu li uma entrevista com Oscar Schmidt, o maior nome na história do basquete brasileiro, e nela o jogador dizia que sua vida era marcada por uma característica constante: a dor. Outros atletas de alto nível já deram testemunho do mesmo. É o preço cobrado por anos de submissão do corpo a treinos pesadíssimos e extremamente exigentes; é o preço do sucesso e da vitória, que não admitem empréstimos ou transferências de dívida.

Em tempos onde as pessoas se consideram “no direito” de tantas coisas – tempos onde professores defendem que não se corrija os alunos em sala de aula para não constrangê-los, onde um criminoso é tratado com leniência porque nasceu em uma favela, ou onde a cor ou a orientação sexual de uma pessoa aumentam suas chances oficiais de frequentar uma faculdade ou de exercer um cargo público –, tempos sombrios para o sucesso individual, as Olimpíadas são um lembrete quadrienal de que uma pessoa pode tomar as rédeas de sua vida e perseguir a vitória apesar de todas as dificuldades ao seu redor.

A beleza do esporte não está na esperança de confraternização entre os povos; esta é apenas uma mensagem externa à realidade dos atletas, que chegaram ao Rio de Janeiro para competir e vencer. E, para isso, cada um deles conta apenas consigo mesmo ou, no máximo, com os companheiros de equipe. No esporte, pelo menos até o momento, não há cotas, não há direito de ser feliz, não há mãozinha na cabeça. As regras são as mesmas e valem para todos: você tem o direito a participar, é proibido de usar substâncias que lhe deem uma vantagem injusta sobre seus competidores e, caso seja melhor que todos os outros, receberá o reconhecimento público e mundial por isso. É o individualismo em todo o seu esplendor e glória.

O povo brasileiro, atualmente tão acostumado a ser “cuidado” pelo Estado, vivendo sob uma Constituição que garante direitos absurdos e impraticáveis, pode fazer bom proveito do próximo mês e usar o exemplo olímpico para mudar seu modo de pensar. Muitos atletas que receberão medalhas nestes jogos são de origem humilde ou de países pobres; um outro tanto vêm de famílias desestruturadas, e alguns certamente sofreram bullying em seu tempo de escola. São, por assim dizer, representantes perfeitos de muitas das “minorias” que hoje demandam direitos e privilégios. No entanto, graças somente à força que um indivíduo possui dentro de si, e não a políticas coletivistas, nada disso os impedirá de chegar ao topo em suas modalidades.

Que estes não sejam os jogos da diversidade; que sejam os jogos da individualidade. Que o vitimismo pereça sob o metal das medalhas, entregues aos verdadeiros vencedores, aqueles que não vencem apenas seus competidores, mas a si mesmos. E que, em vez do vírus zika, esse espírito de superação seja o verdadeiro contágio na Rio 2016.

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

Um país de bebês desamparados

Estou traduzindo uma obra essencial* para a compreensão do fenômeno moderno dos estados-babás, esses monstros gigantescos que se intrometem cada vez mais na vida das pessoas, tentando tirar toda a sua liberdade e autonomia, regulando coisas simples e cotidianas que nem mesmo uma criança precisaria que fossem reguladas. O exemplo mais recente disso foi a aprovação, na assembléia legislativa do Espírito Santo, de uma lei que proíbe os restaurantes de deixar saleiros sobre as mesas, sob a alegação tácita de quenanny-state as pessoas não são capazes de decidir por si mesmas se devem ou não comer alguma coisa, dado que esta coisa tenha algum potencial de lhes fazer mal. A lei começa a valer em julho, e prevê multa de até mil e trezentos reais, de acordo com reportagem do G1.

Mas por que assistimos a esse tipo de intervenção em nossas vidas? Por que nossos políticos nos “presenteiam” com leis absurdas como essa? Bom, a resposta é longa o suficiente para demandar um livro inteiro, que em breve estará disponível ao público brasileiro. Mas, para se ter uma ideia do tipo de fenômeno que se está falando aqui, deixo um trecho de um dos capítulos:

Em qualquer estado democrático, aquilo que é institucionalizado é de fato uma expressão do que seu povo valoriza mais profundamente, tanto sábia como tolamente. De maneira mais geral, o que é institucionalizado nos arranjos de convivência de uma sociedade democrática depende de quais anseios e temores o eleitorado acredita que devem ser endereçados pelo estado.

Se os ideais do eleitorado são a liberdade individual, a auto-responsabilidade, a auto-atualização e a cooperação voluntária, e se os temores são aqueles relacionados às invasões da pessoa e propriedade de alguém ou às violações de contratos, então as regras da sociedade protegerão os direitos à propriedade privada e o desempenho de acordos executáveis.

Se, por outro lado, o povo anseia por ilusões de igualitarismo, segurança material garantida e regulação ampla das pessoas, deseja a indulgência e teme a incerteza e sua própria inveja e inadequações num nível suficiente, então ele rejeitará o ideal da liberdade. Esse povo criará, em vez disso, o estado gerencial moderno, e lhe concederá poder para regular, compensar, taxar e redistribuir sob a desculpa da justiça social.

Fica fácil entender o porquê de termos os políticos que temos, a constituição que temos, as leis que temos e os males sociais que temos: nosso povo anseia por ilusões de igualitarismo e segurança material. Nosso povo gosta de ser tratado como bebê, de receber comida da mamãe-estado, de ter alguém onipotente cuidando de si. Nosso povo adora ouvir a mentira mais contada nos palanques eleitorais, e aprimorada à perfeição pelo ex-presidente e sempre cachaceiro Lula: eu vou cuidar de vocês.

Numa época da história mundial em que até mesmo a nação que foi criada com os ideais mais fortes de liberdade, os Estados Unidos da América, se rende a promessas assistencialistas e troca suas liberdades por food stamps**, fica difícil imaginar que um país como o Brasil, com uma longuíssima tradição de infantilização do povo, conseguirá transformar essa mentalidade e virar o jogo em favor da responsabilidade individual, da liberdade e do respeito à soberania do indivíduo. Pessimismo? Não. Apenas realismo duro e difícil de engolir. Afinal, é um mundo onde Lulas e Obamas ocupam o poder.

Flavio Quintela é escritor e tradutor de obras sobre política e filosofia, e autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

* O livro “The Liberal Mind”, de Lyle H. Rossiter, será lançado em português pela Vide Editorial no segundo semestre de 2015, com tradução deste que vos escreve;

** Os food-stamps são a versão norte-americana do bolsa família, onde famílias recebem ajuda do governo para comprar comida em supermercados.