Nota de falecimento

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 3 de novembro de 2016.

Faleceu neste domingo último o Partido dos Trabalhadores, vulgo PT, aos 36 anos de idade. A autópsia revelou a causa mortis: concussão eleitoral agravada por uma infecção parasitária generalizada. O falecido deixa um filho, Partido Socialismo e Liberdade, 12 anos de idade, e milhares de viúvas espalhadas pelos bairros nobres, redações, universidades e escolas do país.

Durante a autópsia, ao abrirem o crânio, os médicos encontraram evidências de uma malformação congênita que impede o desenvolvimento do cérebro e causa danos irreparáveis na criança. Não há ainda uma explicação de como o falecido conseguiu sobreviver até a idade adulta carregando essa condição, mas uma equipe de pesquisadores tenta no momento correlacionar esta anomalia ao local onde ele nasceu e viveu – eles esperam provar que em nenhum outro país do mundo alguém com uma condição dessas passaria do primeiro ano de vida.

Durante a abertura do tórax e da investigação das vísceras, os médicos encontraram uma quantidade de parasitas extremamente anormal, algo nunca antes registrado na história da medicina. De acordo com o médico-legista responsável, “uma pessoa não consegue viver com tantos parasitas sugando os suprimentos energéticos que deveriam alimentar todo o corpo. Esta morte era inevitável. Não existe cura para um estágio tão absurdamente avançado de infecção”.

A análise do conteúdo do estômago comprovou algo que relatos anteriores já tinham registrado: o falecido tinha um transtorno alimentar sério, e só se alimentava de dinheiro sujo. Parentes próximos disseram que, alguns anos atrás, na época do mensalão, o falecido tinha dito que iria se tratar, que procuraria uma clínica e ajuda psicológica, mas que tudo não passou de encenação. O hábito vicioso de se alimentar com dinheiro sujo causou uma falência do sistema gastrointestinal, além da destruição do fígado por toxinas. Nem mesmo uma equipe de médicos cubanos, especialista no assunto, foi capaz de salvar o moribundo.

O infortúnio familiar se completou com a notícia de que o filho do falecido (conhecido pelos amigos como PSol) se encontra em coma, respirando por aparelhos. Os médicos dizem que o menino apresenta uma malformação congênita semelhante à do pai, e que suas chances de sobrevivência são muito pequenas. De acordo com os registros médicos, PSol apresenta um índice de crescimento negativo – está menor aos 12 anos de idade do que era aos 8 – e sofreu um trauma extenso durante sua última viagem ao Rio de Janeiro. Uma fonte sigilosa de dentro do hospital disse que “estão tentando esconder, mas o menino já está morto”.

Enquanto isso, milhares de viúvas choram inconsoláveis, principalmente depois de terem descoberto que o falecido deixou apenas dívidas, e que não haverá mais mesada para nenhuma delas. Curiosamente, consultórios de psiquiatria da zona sul do Rio de Janeiro apresentaram um aumento de 80% em número de pacientes. Houve também diversos atendimentos a suicidas feitos pela linha de emergência da polícia, muitos deles usando nomes de artistas brasileiros famosos. O delegado responsável não quis se pronunciar sobre o caso quando perguntado se os suicidas eram realmente artistas famosos ou se apenas usaram os nomes para ocultar sua identidade. Disse ele: “Não vou comentar sobre o caso, não vou confirmar para vocês que são artistas de verdade, porque minha mulher não vive sem novela. Entendam o que quiserem”.

O enterro está marcado para 1.º de janeiro de 2017, em local ainda a ser divulgado.

Sem mais.

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e “Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

Deboche presidencial

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 22 de outubro de 2015.

As mulheres – ao menos as que eu conheço – costumam dizer que só é possível manter um marido fiel no casamento se o sujeito tiver algum medo de perder a esposa. Ou seja, quem perdoa todo e qualquer deslize tem grandes chances de acumular uma verdadeira galhada na cabeça.

No casamento da sociedade com os políticos, esse que dura no mínimo quatro anos, os brasileiros são o caso clássico da “mulher de malandro”. Só assim para explicar o comportamento irracional de eleger e reeleger gente mentirosa e traidora de nossa confiança. Para as mulheres que sofrem nas mãos de parceiros canalhas e têm dificuldades de terminar o relacionamento, há instituições como o Mada – Mulheres que Amam Demais Anônimas –, onde o compartilhar coletivo das experiências ruins abre espaço para a cura individual. Pena que não exista o AGA (Adoradores do Governo Anônimos) e nem o Cerca (Cidadãos Enganados que Reelegem Corruptos Anônimos) para tratar nosso povo.

Uma das mentiras mais famosas e lendárias da política brasileira recente foi dita por Paulo Maluf, quando, em meio a investigações sobre suas contas bancárias no exterior, disse a pérola “a assinatura é minha, mas não fui eu quem assinou”. A presidente Dilma Rousseff, reeleita mesmo depois de contar a maior sequência de mentiras já registradas numa campanha eleitoral, segue firme em sua sanha falsária, e finalmente conseguiu superar o feito de Maluf ao dizer que “o meu governo não está envolvido em nenhum escândalo de corrupção”.

Se não estivéssemos falando do governo que proporcionou ao Brasil o recorde de maior escândalo de corrupção entre todas as democracias mundiais, de todos os tempos, a situação poderia até ser cômica. Não é o caso. As quantias roubadas durante os governos do PT seriam suficientes para alavancar a economia brasileira; é dinheiro que saiu de cidadãos e empresas para o ralo do governo, e de lá foi redistribuído para os ratos que vivem de parasitar o Estado. Dinheiro que seria gasto em máquinas, produção, diversão, comida, imóveis, automóveis, roupas, propaganda, cultura, educação, e que em vez disso 22102015-ILUSTRA-Quintelaestá guardado em contas secretas no exterior, das quais apenas uma pequena minoria foi descoberta pela Polícia Federal em suas operações. E, como boa mulher de malandro que é o povo brasileiro, os ratos continuam saqueando nossas dispensas com a bênção do voto popular.

Não bastasse a natureza criminosa da corrupção e suas consequências funestas para a vida de cada brasileiro honesto, a atitude da presidente é também um deboche, um verdadeiro bullying estatal. Se estivéssemos num filme de adolescentes americanos, seria o equivalente a termos a cueca puxada até a cabeça e depois sermos trancados no armário. Deixamos que o governo se tornasse um valentão covarde, e ele nos tira quase metade da merenda. E ainda por cima senta-se na cadeira do diretor.

O que fazer? A nova geração de adultos, aqueles que agora entraram na terceira década de vida, é formada por uma maioria de jovens intelectualmente paupérrimos, “educados” por um sistema que coloca seus estudantes entre os piores do mundo. A escola brasileira contemporânea ocupa-se mais em perverter menores sexualmente e ideologicamente do que em ensinar Língua Portuguesa, Matemática e Ciências. São eles que ocuparão as vagas de trabalho (as poucas que ainda sobrarem) e as filas do assistencialismo estatal. São eles que votarão, são eles que formarão a nova massa não pensante. Precisamos urgentemente de uma revolução intelectual. Que comece por mim e por você.

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

Um milhão de mentiras

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 30 de setembro de 2015.

A mentira é uma prática bem disseminada no Brasil, especialmente no tocante à política. Quem não se lembra dos debates entre candidatos à Presidência, no ano passado, quando Dilma Rousseff disse reiteradamente que em seu segundo mandato não aumentaria juros, não criaria impostos e não mexeria em direitos trabalhistas? A presidente mentiu sem o mínimo pudor.

Mas há mentiras mais sofisticadas, também conhecidas como meias-verdades, que são usadas para suavizar uma realidade dura demais para ser exposta. G30092015-ILUSTRA-QUintelaeralmente essas meias-verdades são fundamentadas em dados matemáticos, pois a matemática é uma ciência exata e nunca mente. Junte-se a isso a arte de manipular informações e ocultar dados, e você conseguirá passar qualquer tipo de informação ruim de uma forma mais agradável e menos agressiva.

Tomo como exemplo uma notícia que apareceu recentemente na maioria dos portais de notícias do Brasil: a perda de quase 1 milhão de vagas formais de trabalho nos últimos 12 meses. Um milhão de vagas de trabalho é uma quantidade imensa, um número maior do que a população de diversos países. No entanto, quanto tomada sem nenhuma referência, pode parecer um número não tão impactante num país com mais de 200 milhões de habitantes, como é o Brasil. Num raciocínio rápido e superficial, a pessoa que lê tal número pode facilmente pensar algo como “somos um país tão grande, é ruim que 1 milhão de pessoas tenham perdido o emprego, mas ainda tem muita gente trabalhando”. É claro que, se ela fizer parte desse milhão, a coisa vai lhe parecer bem mais real, mas para quem ainda tem trabalho a situação se apresenta menos desesperadora.

Mas e se os números fossem apresentados como um todo? E se fosse explicado que o Brasil, apesar de seus mais de 200 milhões de habitantes, possui uma população economicamente ativa de apenas 80 milhões de pessoas? E se fosse mostrado que, desses 80 milhões, aproximadamente 25 milhões recebem Bolsa Família e, portanto, estão fora do mercado de trabalho? Mais ainda: e se fosse dito que, dos 55 milhões que sobraram, apenas 25 milhões trabalham formalmente, com carteira assinada? Bem, se tudo isso fosse exposto com clareza, ficaria muito fácil de se entender que a perda de 1 milhão de vagas formais de trabalho é um acontecimento catastrófico. Significa que, de cada 25 pessoas empregadas, uma perdeu seu sustento.

Qualquer um consegue se lembrar de 25 pessoas conhecidas. É um grupo pequeno, do tipo que se recebe facilmente para uma festinha de aniversário ou churrasco; é um grupo que cabe até numa mesa grande de pizzaria. Pois é: no Brasil de 2015, o Brasil de Dilma e do PT, uma dessas pessoas terá perdido o emprego, e dificilmente encontrará outro, porque as vagas se fecharam, extintas pela crise econômica que piora a cada dia.

Assim como acontece com os índices de violência – só percebemos que a situação está realmente ruim quando pessoas próximas de nós (ou nós mesmos) são atingidas e se tornam vítimas –, o problema do desemprego só nos impressiona quando nossos amigos, parentes e colegas começam a nos enviar seus currículos e perguntar se conhecemos algum lugar onde “estão contratando”. Em minha recente viagem ao Brasil percebi que esse ponto já foi ultrapassado: diversas pessoas com quem conversei falaram sobre amigos e parentes desempregados, pedindo ajuda para recolocá-los profissionalmente; alguns estão em situação crítica, desesperados, tendo de se mudar com a família para os fundos da casa dos pais porque já consumiram suas reservas e continuam sem trabalho.

A única pessoa que continua vivendo numa realidade alternativa é a própria presidente Dilma. Em plena Assembleia Geral da ONU ela conseguiu dizer que a economia brasileira está mais forte, mais sólida e mais resistente. Não é de se estranhar; afinal, sua patota continua empregada no gigantesco Estado brasileiro – pelo menos por enquanto.

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

Fechando com muro de ferro

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 9 de setembro de 2015.

Diz-se quando se termina algo muito bem, acima do esperado, que se fechou com chave de ouro. Por falta de exemplos na política brasileira, a opção que sobra é a do esporte: depois de cinco partidas de um futebol eletrizante e envolvente, a seleção de 1970 venceu a final com a Itália por 4 a 1, fechando com chave de ouro uma Copa do Mundo que permanece até hoje como a melhor já jogada pelo Brasil, mesmo para alguém de minha geração, que nem era nascido nessa época.

Quanto à chave ser de ouro, nenhuma novidade. Desde épocas muito antigas da história humana o ouro é sinônimo de nobreza, daquilo que não se mistura, do metal mais precioso. Por ser um metal “mole”, nunca foi e nem poderia ser usado para fins mais rudes e prosaicos, papel geralmente reservado ao ferro e sua evolução contemporânea, o aço. O fato é que ninguém quer fechar nada importante com chave de ferro – qualquer um tem uma chave de ferro em casa. Até a tapera mais simples e o carro mais enferrujado abrem e fecham com chaves de ferro.

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Mas voltemos à política brasileira. Fechar um governo com chave de ouro seria pedir demais, pelo menos nos últimos 500 anos. Mas nossa capacidade de superação inversa, ou seja, aquele talento de conseguir piorar o que já é ruim, atingiu seu ápice no atual governo, do qual se pode finalmente dizer: acabou. Ainda não é possível saber se Dilma terminará ou não seu segundo mandato, mas os últimos seis meses de notícias ruins ininterruptas, de recrudescimento da crise econômica e de recordes negativos quase diários só precisavam de um evento simbólico para marcar o dia a ser colocado na lápide petista.

O dia da Independência deste ano ganhou ares de ditadura africana com a adoção de tapumes metálicos altos para impedir que o tradicional desfile de Brasília – que existe para ser visto – fosse visto pelo povo. O obstáculo à visão do populacho teve um objetivo claro, o de restringir o evento apenas aos que se assentariam nas arquibancadas, garantindo assim um público bem adestrado com cargos públicos, mortadela e propina. O raciocínio, se é que essa palavra cabe à nossa confusa presidente, é que manifestação popular boa é aplauso; o resto se combate ou se evita. Melhor mesmo é garantir a diversão e o aplauso dos 7% no 7 de Setembro, e aproveitar esta coincidência numérica cabalística que não deve se repetir, a continuar a queda de aprovação popular em pesquisas futuras.

Mas, como tudo na vida tem um lado bom, essa atitude quase norte-coreana marcou o tão esperado fim do governo Dilma. Se faltava um símbolo para o seu extraordinário fracasso, nada melhor que o reconhecimento público de que não há mais evento, lugar, palanque ou aparição segura para a presidente, e que as vaias a seguem mais de perto do que o serviço secreto tupiniquim. O governo que não governa não tem mais legitimidade nem mesmo para não governar. A imagem que vem à mente é a de um grande navio sem comando, em que a tripulação procura roubar tudo o que pode dos passageiros para naufragar com mais anéis nos dedos, ainda que lhes falte o mindinho.

Seja daqui a alguns meses ou no início de 2018; seja por impeachment, por impugnação eleitoral ou por uma simples derrota nas urnas; seja eternizada nos livros de história como a pior presidente que já repousou as nádegas no Planalto ou a primeira presidente mulher a ir em cana na história deste país, Dilma Rousseff poderá dizer, sem pestanejar: fechei com muros de ferro.

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

 

Perdeu, PT

Artigo publicado no jornal O Coyote, edição de março/abril de 2015, página 6.

Quando se diz a palavra vida, algumas coisas costumam vir à mente: movimento, dinamismo, mudança constante. Algo que não combina muito com a vida é a estagnação. Temos uma certa repulsa por ela, pois o que está parado, acomodado, imóvel, parece não combinar com a dinâmica que esperamos viver. E é fato que os que se acomodam vão morrendo lentamente, qualquer que seja o foco da acomodação. Se nos acomodamos no emprego, acabamos ficando para trás e, eventualmente, trocados por alguém mais dinâmico. Se nos acomodamos em nosso casamento, as coisas ficam sem graça, o relacionamento vai murchando, e corremos o risco de passar por uma separação ou divórcio. Se nos acomodamos em nosso físico, o corpo vai engordando, ficando lento, os músculos ficam flácidos, e tudo se torna mais difícil.

No âmbito governamental a acomodação também tem resultados muito ruins. Nós mesmos vivemos hoje sob um governo de esquerda porque houve uma acomodação excessiva por parte dos governos militares, que “empurraram com a barriga” a questão do aparelhamento cultural, e uma acomodação sem precedentes da elite intelectual brasileira, que desengajou-se politicamente, deixando caminho livre para que chegássemos à situação de hoje, onde não há sequer um partido de direita disputando eleições no Brasil.

perdeuPTFelizmente, a acomodação não é exclusividade de ninguém. E doze anos no poder foram suficientes para que o PT e seus militantes se acomodassem também. Isso ficou muito claro nos dias 13 e 15 de março de 2015, quando duas manifestações opostas aconteceram em todo o território brasileiro. Diante de uma mobilização sem precedentes nas redes sociais, que chamavam as pessoas descontentes com o governo atual para um grande e pacífico protesto no dia 15, a militância petista tentou se articular rapidamente para produzir um contra-movimento dois dias antes. A tentativa não poderia ter dado mais errado, e ter sido mais ridícula: mesmo dando comida, transporte, roupa, balões e dinheiro para seus “manifestantes”, o total de pessoas presentes em todo o Brasil não chegou a 40 mil. Dois dias depois, 2 milhões de pessoas (mais de 50 vezes o público do dia 13) tomaram as ruas de dezenas de cidades brasileiras para mostrar que o PT não tem mais o monopólio da mobilização popular.

A acomodação da militância petista chegou a tal ponto que transformou-se em arrogância cega: seus manifestantes mercenários saem vestidos de vermelho dos pés à cabeça, com bandeiras e balões também vermelhos, ignorando que nossa pátria jamais adotou essa cor. Estão tão cegados por seu projeto de poder que já não percebem mais o patriotismo do brasileiro: quando vestimos o verde e amarelo ao lado de nossos irmãos de pátria, nosso coração bate mais forte e as esperanças de mudança são renovadas. O vermelho opressor do comunismo só traz incômodo e desespero, e é repudiado por mais de 90 por cento da população. Aliás, é repudiado até mesmo pelos que empunharam as bandeiras da CUT e do PT, já que uma pesquisa feita pelo Datafolha com os “manifestantes” do dia 13 mostraram que a maioria acredita que Dilma Rousseff sabia de tudo o que estava acontecendo na Petrobrás, e apenas um terço deles acha que ela está fazendo um bom governo.

Dilma Rousseff é praticamente uma unanimidade no Brasil de hoje. Seu governo tem destruído o pouco que havíamos construído no início da Nova República, e sua capacidade de mentir não tem mais lastro na ingenuidade do povo. Os poucos apoiadores que ainda restam dividem-se em dois grupos, o dos corruptos, que se beneficiam pessoalmente com o governo, e o dos seguidores irracionais, que se assemelham aos fanáticos religiosos, dispostos a se explodir em troca de benesses no além. A diferença é que os fanáticos religiosos têm coragem; os fanáticos petistas são covardes.

Perdeu, PT.

Flavio Quintela é escritor e tradutor de obras sobre política e filosofia, e autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

5 x 1

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Colunistas, edição de 15 de abril de 2015.

No último domingo o Brasil vivenciou a segunda manifestação do ano contra o governo Dilma e o PT. Que fique bem claro: ao contrário do que a mídia televisiva repetiu exaustivamente durante a cobertura jornalística, o povo não foi às ruas porque está cansado da corrupção, ou porque quer a reforma política – esses tópicos são apenas parte de uma insatisfação generalizada –, mas porque quer Dilma fora da Presidência da República.

A avaliação geral dos comentaristas de todas as emissoras e portais de notícias foi a mesma, parecendo até que foi combinado: afirmar que o número de manifestantes diminuiu e que isso é evidência do enfraquecimento do movimento. Esta análise agrada demais ao governo petista, que já parece mais preocupado com os índices de popularidade de Dilma do que com o número de pessoas nas ruas. Mas nem mesmo a arrogância extrema de todos os políticos de alto escalão do PT poderia ignorar uma manifestação como a do dia 12, e os motivos são simples.

Pouco antes do 15 de março, Dilma fez um pronunciamento em cadeia nacional cujos efeitos foram completamente contrários aos esperados pelos marqueteiros do Planalto. A fala mentirosa e sem convicção da presidente só fez turbinar os ânimos da população contra o governo. Diante da forte rejeição nas semanas seguintes, Dilma adotou a prática do sumiço público, retirando-se para evitar dar mais munição aos insatisfeitos. Pela primeira vez desde que assumiu a Presidência, ela teve de reconhecer, ainda que tacitamente, que é uma figura extremamente antipática e de pouquíssimo apelo popular. Assim, sem a ajuda do Planalto, a manifestação de domingo teve “menos lenha” para queimar. Só que a presidente não poderá manter seu silêncio até 2018 e, mantendo-se seu histórico, basta que abra a boca para que as panelas voltem a bater.

Outro ponto importante é a relação numérica entre as manifestações a favor e contra o governo. Mesmo com menos gente na rua, o número de pessoas que clamaram pela saída de Dilma e do PT foi mais de 100 vezes maior que o número de pessoas a defendê-los, isso sem levar em consideração que estes recebem transporte, lanche e gratificação monetária para tomar as ruas num dia de semana, enquanto aqueles o fazem por conta própria, pagando sua passagem e sacrificando seu tempo de lazer, a fim de não penalizar os centros urbanos em dias de trabalho. Esta palavra, aliás, define bem a diferença entre os dois grupos: mamadores das tetas governamentais de um lado e trabalhadores de verdade do outro.

Em algum lugar das redes sociais foi dito que uma vitória por 5 a 1 na sequência de uma por 7 a 1 é algo a se comemorar, e essa parece ser uma metáfora futebolística bastante verdadeira. Não é coerente, neste momento, sepultar o grande movimento popular da atualidade por causa de um bom resultado, apenas porque não foi excepcional. Esse é o raciocínio que o Planalto deseja que tenhamos, e uma coisa é certa: tudo o que eles desejam é o oposto do que devemos fazer. Dilma e o PT são a antítese de um Brasil decente, e eles têm de cair.

 

Flavio Quintela é escritor e tradutor de obras sobre política e filosofia, e autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

Debate ou combate?

Artigo publicado no Correio Popular de Campinas, seção Opinião, edição de 21 de outubro de 2014.

Ano eleitoral é ano de campanha política. E não há brasileiro, por mais ingênuo que seja, que acredite piamente nas peças publicitárias dos candidatos. Há um consenso geral na população de que os políticos mentem, e que mentem ainda mais quando estão em campanha. Chavões como “promessa de campanha dura só até a eleição” e “só estão interessados no meu voto” são frequentemente ouvidos da boca de pessoas dos mais diversos extratos sociais, nas mais diversas situações de convívio social.

octogonoMas tem um momento que todo mundo aguarda ansioso: o debate entre os presidenciáveis. Ah, o debate é quando os candidatos falam abertamente, um com o outro, sem marqueteiros, sem produções cinematográficas, uma oportunidade única de se avaliar as propostas e a preparação de cada um deles para ocupar o cargo político mais importante do país. Pelo menos é assim que deveria acontecer. No entanto, não é o que temos visto em todo o período de campanha presidencial, especialmente nos debates de segundo turno, entre Dilma e Aécio.

Eu acompanhei todos os debates entre os presidenciáveis, desde os de primeiro turno, e também a cobertura da mídia sobre cada um deles. Como a lei eleitoral brasileira impede que sejam feitos debates apenas com os candidatos mais bem colocados nas pesquisas, os de primeiro turno se tornaram, muitas vezes, plataformas de autopromoção para candidatos “nanicos”, e verdadeiras peças de comédia em alguns momentos. Diante dos diversos eventos desse tipo que foram televisionados, muitos analistas políticos e jornalistas disseram que se tivéssemos apenas os três candidatos com chances de chegada ao segundo turno, teríamos outro nível de discussão. A história os provou errados rapidamente.

Com a chegada dos debates de segundo turno pudemos ver que não há o menor interesse de se discutir as propostas de cada candidato, principalmente do lado da candidata governista. Está muito clara a intenção e estratégia da campanha petista, de usar os debates como plataforma para desconstrução da candidatura e pessoa de Aécio. Durante suas falas, entrecortadas por pausas estranhas e falhas de raciocínio, Dilma Rousseff utiliza-se de dados falsos a todos os momentos, dados que aqueles que assistem ao evento munidos de um computador conectado à internet, podem verificar imediatamente que são manipulados ou inventados. Além disso, ela abusa do subjetivismo, com seus chavões “eu acredito que” e “eu tenho certeza”, os quais aplica a assuntos extremamente objetivos como os índices de inflação e de crescimento econômico. Por último, pode-se notar que, durante o andamento de cada evento, Dilma vai tratando Aécio cada vez menos respeitosamente: ela geralmente começa chamando-o de candidato e senhor, para terminar com você, ferindo a etiqueta básica de comportamento num evento desse porte.

As perguntas que vêm à mente são:

  • Qual é o benefício de se debater com alguém que sempre escolhe não responder às perguntas ou respondê-las com mentiras?
  • Como tirar proveito de uma estrutura de debate onde quem tem a tréplica sempre sai na vantagem, já que fica com a última palavra?

Sobre a primeira pergunta, tenho claro comigo que os eleitores que têm o trabalho e o cuidado de verificar o que é dito pelos candidatos, e que além disso conseguem fazê-lo sem a paixão irracional por um dos lados, podem sim tirar proveito das duas horas que gastam ao assistir a esses eventos. Ou seja, para esses eleitores, a performance de cada candidato faz diferença, e há a possibilidade de se ganhar um voto que até então estava perdido. O problema é que esse tipo de eleitor é a minoria de uma minoria, ainda que seja uma minoria geralmente formadora de opinião.

Sobre a segunda pergunta, eu realmente creio que um novo modelo de debate deva ser proposto, um que suplante os defeitos do atual, e que permita ao eleitor receber um conteúdo mais factual e mais próximo à realidade. Não sei se isso passa por um uso maior de tecnologia de informação durante o evento, se passa por regras mais rígidas quanto ao conteúdo das respostas dos candidatos, mas entendo que a mudança do modelo seja necessária.

A continuar assim, estaremos mais bem servidos se gastarmos nossas noites assistindo a uma luta de boxe ou de vale-tudo. Nesses, pelo menos, os golpes baixos são punidos.

 

Flavio Quintela é escritor e tradutor de obras sobre política e filosofia, e autor do livro “Mentiram (e muito) para mim”.