Je suis Dilma

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 16 de março de 2017.

000_FP4IZ

Eu moro há três anos nos Estados Unidos e falo inglês com fluência. Aliás, a língua inglesa sempre foi uma de minhas paixões, tanto que fui franqueado de uma rede de ensino de idiomas por quase dez anos no Brasil. Além disso, trabalhei em várias multinacionais americanas, onde volta e meia tinha de desfiar o idioma saxão em telefonemas e reuniões. E eis que, mesmo com esse histórico, ainda não me sentiria à vontade para dar uma entrevista em inglês. Seria certamente algo que me tiraria o sono na noite anterior.

Mas com Dilma Rousseff tudo é diferente. A ex-presidente, apesar de sua “heterodoxia” ao se comunicar em sua língua-mãe, resolveu que seria uma boa ideia conceder entrevista em francês durante sua recente viagem à Suíça. O resultado não poderia ter sido mais previsível: Dilma envergonhou o Brasil novamente. Se já andava na corda bamba ao discursar em português, misturando cachorros ocultos com crianças, estocando vento e fazendo poesia moderna com pasta de dente, em francês ela cruzou fronteiras. Nem mesmo os grandes comediantes que passaram por este planeta conseguiriam superar o esquete da dentuça francófona.

Ser ridículo é uma decisão pessoal, sempre. O problema de Dilma é, por algum capricho do divino, ter conseguido um dia ser eleita e reeleita presidente de um país com mais de 200 milhões de habitantes. Ou seja, ela faz parte de um grupo seleto de pessoas – e que fique claro que, no Brasil, ele é seleto apenas por seu diminuto tamanho e não pela qualidade de seus integrantes – e essa membresia, por assim dizer, requer uma etiqueta específica, completamente ignorada por ela. Dilma não só pisoteou o idioma alheio; ela o fez para transmitir uma mensagem inadequada e mentirosa, enlameando de vez sua já manchada história. Seguindo a linha “Napoleão de hospício”, a ex-presidente usou seu tempo de entrevista para denunciar um complô antidemocrático em curso no Brasil, cujo objetivo principal seria impedir a candidatura de Lula à Presidência em 2018. Tivesse mais alguns minutos e conhecesse mais algumas palavras do francês, Dilma poderia ter abordado a questão dos alienígenas que já vivem entre nós ou defendido que a Terra é, na verdade, plana. Sua opção foi, claramente, pelo maior dos três absurdos.

Ironicamente, poucos dias depois do vexame na Suíça, Dilma e Lula apareceram juntos em mais uma notícia: a divulgação da lista de Janot. Os dois ex-presidentes constam neste grupo não tão seleto de criminosos em potencial, ao lado de outros estrupícios como Aécio Neves, Aloysio Nunes, Antônio Palocci e Guido Mantega. A famigerada lista expõe o horror que é a política brasileira e nos deixa com a sensação de que estamos andando em círculos, em que o próximo escândalo é apenas uma versão mais recente da falcatrua anterior. Seu autor acertou em cheio quando disse que a democracia foi tomada pela corrupção no Brasil. Meu temor é que essa realidade seja irreversível em virtude de a corrupção estar tão alastrada e amalgamada na estrutura de… (para ler o restante deste artigo, clique aqui)

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e “Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

Mais uma redonda

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 1 de setembro de 2016.

O Brasil desanima, até quando anima. E desanima em grande estilo, com direito a absurdos nunca antes vistos na história nacional, quiçá mundial. Foi o que vimos nesta quarta-feira, no julgamento do impeachment de Dilma Rousseff no Senado. Os pizzaiolos da vez, Ricardo Lewandowski e Renan Calheiros – este último com vasta experiência na montagem de redondas italianas –, deixaram uma tremenda mancha num processo que poderia ter lavado a alma de muitos brasileiros. Dilma perde o mandato, mas não perde mais nada. É julgada culpada por crime, mas não recebe pena nenhuma. No país da impunidade, nem chega a ser muita surpresa; continua sendo, no entanto, extremamente difícil de engolir.

Esta coluna, que seria escrita em comemoração ao fim do governo mais incompetente e corrupto desde que Cabral atracou na costa brasileira, acaba dedicada aos momentos de comédia involuntária proporcionados pela senadora Kátia Abreu e pela própria Dilma. Dizem que devemos usar os limões da vida para fazer limonada; estou apenas tentando espremer a minha.

Kátia Abreu foi à tribuna do Senado depois de terminada a votação sobre o crime de responsabilidade cometido pela agora ex-presidente. Lá, teve a coragem de ser ridícula diante das milhões de pessoas que acompanhavam a transmissão da TV Senado: argumentou que a “pobre” Dilma estava a apenas um ano de se aposentar, e que tirar os seus direitos políticos acabaria impedindo nossa heroína tupiniquim de dar aulas em uma universidade pública ou de prestar um concurso em empresa, órgão ou autarquia estatal. É difícil escolher qual das interpretações é mais humorística, a de que Dilma é tão incompetente que só conseguiria arrumar emprego no serviço público, ou a de que Dilma teria condições de dar aula a alguém com mais de 4 anos de idade. Kátia Abreu completou seu discurso abilolado mencionando por diversas vezes os termos “presidenta honesta”, “mulher honrada” e coisas do tipo.

E depois, é claro, tivemos a própria Dilma fazendo seu discurso de despedida. Como seu estoque de argumentos já se extinguiu há muito tempo (desde sua infância, imagino), ela resolveu tirar o coringa da luta racial-social-sexual-indígena da lata do lixo. De acordo com Dilma, aqueles que a condenaram são, precisamente por terem-na condenado, racistas, machistas, homofóbicos, indiofóbicos, gordofóbicos, dentuçofóbicos etc. E, para rivalizar com sua grande amiga, senadora Kátia, Dilma disse que recorrerá da decisão em todas as instâncias possíveis – ainda não descobri se ela enviará o recurso para o Alto Conselho Jedi ou para a Federação dos Planetas Unidos – para reverter esse “golpe”. Senti falta de suas invenções engraçadas, como cachorros ocultos e pastas de dente que voltam ao tubo, mas acho que ela não estava no humor para esse tipo de coisa.

Piadas e pizzas à parte, a era PT chega ao seu tão esperado fim. Os picaretas que ainda sobraram no partido tentam descolar sua imagem da cor e do símbolo do mesmo. Anúncios multicoloridos (mas sempre sem vermelho) de diversos candidatos petistas deixam claro que ninguém mais quer apostar na sigla. O nome do partido sumiu das peças eleitorais, e a estrela com o 13 no centro caiu mais fundo que o diabo quando despencou do céu. É apenas uma questão de tempo para que o PT desapareça das câmaras municipais e estaduais, bem como dos gabinetes executivos e das duas casas de Brasília.

Eu queria muito ter escrito um artigo em clima de festa. Queria ter conseguido sentir um pouco de esperança, uma ponta de otimismo, uma nesga de luz em meio às trevas da política brasileira. Infelizmente, não foi assim. A manobra para evitar a perda dos direitos políticos de Dilma é apenas mais uma de tantas trambicagens que vemos todos os dias no Congresso. O Brasil sem Dilma e sem o PT no governo é, com certeza, um Brasil melhor, mas está muito longe de ser um Brasil decente. Quando o assunto é política, não somos nem sequer aceitáveis.

Termino com as palavras do ex-presidente Lula, para não dizerem que tenho preconceito com petistas: Tchau, querida.

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

Com o dinheiro dos outros é fácil

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 2 de junho de 2016.

Milton Friedman, economista genial que ganhou o Prêmio Nobel de Ciências Econômicas em 1976, dizia que há quatro maneiras de se gastar dinheiro:

  1. Gastar o próprio dinheiro consigo mesmo: ao gastar o recurso que foi conseguido com o próprio esforço e suor na compra de um bem que será usufruído por si mesma, a pessoa certamente será o mais criteriosa possível, buscando o melhor custo-benefício e o menor desperdício;
  2. Gastar o próprio dinheiro com outra pessoa: é o caso da compra de um presente, por exemplo. Como o recurso continua sendo fruto do próprio trabalho, a compra também é feita com o intuito de obter a melhor negociação, e o gasto é calculado em função da importância e merecimento que a pessoa presenteada tem para a compradora;
  3. Gastar o dinheiro de outra pessoa consigo mesmo: já não há a aplicação do critério de melhor custo-benefício. Na verdade, como o dinheiro não veio do próprio esforço e trabalho, a pessoa provavelmente se preocupará apenas em maximizar o benefício próprio, independente do custo;
  4. Gastar o dinheiro de outra pessoa com uma terceira: neste cenário não há a menor preocupação de se obter o melhor custo e nem o melhor benefício. O gasto está tão distante da escala de valores da pessoa que ela não se sente na obrigação de gastar seu próprio tempo e esforço em busca de negociações, descontos, qualidade etc.

Estas quatro maneiras servem para exemplificar com clareza o grande problema que é o assistencialismo social nas mãos do Estado. Aliás, servem para mostrar como todo o dinheiro gasto pelo Estado sempre cai no quarto caso, o mais perdulário e ineficaz de todos.

Nesta semana, o Ministério Público Federal identificou irregularidades no programa Bolsa Família – aquele que o PT insiste em chamar de “o maior programa de redistribuição de renda da história deste país” – da ordem de R$ 2,5 bilhões. As irregularidades abrangem cerca de 1,4 milhão de pessoas, e incluem beneficiários com diversos CPFs cadastrados para receberem múltiplos benefícios, servidores públicos, doadores de campanha, proprietários de empresas e outros picaretas mamadores das tetas estatais. Vale lembrar que no final de março deste ano o governo Dilma, ainda no poder, anunciou um corte de R$ 2,373 bilhões no orçamento do ministério da Saúde, ou seja, tirou recursos de uma das áreas que mais impacta a vida das pessoas para colocar nas mãos de falsários e vagabundos inscritos irregularmente no Bolsa Família.

O Estado brasileiro é voraz. Ele morde a riqueza gerada pelo trabalho genuíno por todos os lados, confiscando recursos por meio de impostos, impondo prejuízos por meio de regulamentações e burocracia, e acabando com a competitividade das empresas nacionais de todos os tamanhos. Os governos Lula e Dilma adicionaram à voracidade um elemento de crueldade: o Estado deixou de se inchar como a pessoa que engorda por comer desregradamente e passou a engordar como a pessoa que rouba comida para alimentar os inúmeros parasitas que vivem dentro de si. A quantidade de riqueza desperdiçada e utilizada para bancar a vida de gente que não trabalha, não produz nada e vive melhor do que a média da população brasileira é quase incalculável. Nas mãos de um governo liberal e pequeno, o PIB brasileiro poderia gerar uma situação econômica muito mais favorável e uma posição de destaque no cenário mundial.

Quando o Estado dá dinheiro às pessoas sem lhes pedir nada em troca, nem sequer que mantenham seus filhos na escola, não está lhes fazendo bem nenhum. Quando o Estado usa seus programas de esmola para financiar a perpetuação de um partido no poder, já não estamos mais falando de Estado, e sim de um grupo de criminosos travestido de governo. Cada dia com o PT fora da presidência é um dia de descobrir novos crimes e novos golpes aplicados diuturnamente pelos últimos 13 anos. Daria para construir um país inteiro do zero com o dinheiro todo que esse pessoal roubou. Infelizmente, nos restou chorar o leite derramado.

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

O tapete vermelho

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 26 de maio de 2016.

Estender o tapete vermelho é uma expressão que traz à mente a sensação de que alguém importante está a chegar. O tapete vermelho é a passarela dos eminentes, dos honrados, dos homenageados; ele define, por assim dizer, o merecimento de quem pisa em sua superfície.

Mas, como acontece com todas as coisas positivas deste mundo, o governo petista também conseguiu deturpar o conceito de tapete vermelho. Em vez de estendê-lo para honrar os merecedores, o governo Dilma o fez para encobrir falcatruas e rombos quase incalculáveis. A presidente impedida era como um glutão estabanado, daqueles que vê uma mesa cheia à sua frente e não consegue parar de comer e de derrubar restos e migalhas ao seu redor. E sua equipe de governo era como os faxineiros preguiçosos da casa, varrendo os restos caídos para debaixo do enorme tapete vermelho da desonra. Bastou entrar um novo inquilino para perceber duas coisas: o tapete já estava alto, de tanta sujeira varrida para debaixo dele; a casa estava cheirando à podridão, por conta da porquice sem fim da turminha do PT.

Há muitas metáforas que podem ser usadas para o finado governo. Podem ser comparados a ratos que invadiram a despensa das finanças públicas, a inquilinos de péssimo caráter que ocuparam a casa do povo brasileiro, a ganhadores da loteria que gastaram pensando que o dinheiro jamais acabaria, ou a crianças mal-educadas que se lambuzaram com o pote de doce roubado do vizinho. Mas nenhuma delas conseguirá passar o estado real de coisas ao qual nosso país foi submetido. Para isso seriam necessários muitos anos de investigação, devassas minuciosas nas contas públicas do período e uma força-tarefa que nem todas as empresas de consultoria do mundo, juntas, talvez conseguissem fazer.

Michel Temer, na impossibilidade de realizar tudo isso, começa seu governo com boas medidas objetivas de governança. Começa, na verdade, a fazer o que qualquer administrador mediano faria: limitar as despesas para tentar sair – um dia, quem sabe, num futuro distante – do cheque especial. A aprovação da nova meta fiscal para 2016 pelo Congresso Nacional mostrou que o novo governo entende que o dinheiro do Estado não nasce em árvore e não é infinito; as críticas feitas por políticos da nova oposição mostraram que PT, PCdoB, PSOL et caterva continuam acreditando em Papai Noel e em Saci Pererê.

Em outra frente, o novo governo tenta recuperar o terreno perdido na diplomacia. Parece que José Serra está disposto a deixar uma marca incisiva na condução das relações exteriores. Não acredito ainda que possamos nos livrar de vez do Mercosul, mas tê-lo devidamente colocado no ostracismo é algo que consigo enxergar sob a gestão de Temer. Com um pouco mais de otimismo dá até para crer que alguém na nova equipe terá a ideia brilhante de tentar um tratado comercial com o maior parceiro econômico do planeta, os “estadunidenses imperialistas”, como diria aquele seu professor de história boçal. Talvez seja bom se Serra tiver umas conversas com o pessoal da Colômbia, do Peru e do Paraguai, que já entenderam que o Mercosul está para os tratados comerciais assim como o Esperanto está para os idiomas em uso.

Quanto ao tapete, Temer terá de comprar um novo. Tem manchas que simplesmente não saem mais, nem com aqueles produtos miraculosos do 1406. A sujeira dos governos Lula e Dilma só tem um destino viável: o aterro sanitário.

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

Uma pedra chamada Dilma

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 19 de maio de 2016.

Poucos dias depois da eleição de 2014, sofri com dores terríveis na região lateral lombar. Após uma tomografia e algumas radiografias, o diagnóstico foi de pedras no rim. Algumas pedras pequenas e uma bem grande, de 7 milímetros, alojada no rim direito. O médico brincou, disse para eu dar um nome para a grandona. Eu levei a brincadeira a sério e lhe dei o nome de Dilma.

Dilma me acompanhou desde então, causando muita dor e desconforto. Ela me fez voltar cinco vezes ao hospital, me fez urinar sangue e suar frio, e me impediu de trabalhar por vários dias. Dilma me fez gastar um dinheiro que eu não queria ter gasto, me fez perder um tempo precioso, me desequilibrou nos dias de dores mais fortes e acabou trazendo sofrimento para toda a minha família. Ninguém aqui em casa queria a Dilma, ninguém fez nada para colocá-la na posição em que estava, mas mesmo assim ela continuou implacável, com um único objetivo em sua vida de pedra: nos prejudicar.

Com o passar dos meses, Dilma foi descendo. Saiu do rim e começou seu trajeto rumo à excreção. No meio de 2015 ela estava a 7 centímetros da bexiga. O médico recomendou o que todos recomendam para expelir uma pedra desse tamanho: tomar muita água, água em quantidades diluvianas. O duro é que eu não gosto de beber água. Gosto de Coca-Cola, suco de maçã, limonada, chá gelado, vinho, Gatorade, mas água mesmo eu peno para beber. Assim, minha falta de atenção à recomendação médica fez com que Dilma demorasse muito mais para fazer seu trajeto.

Chegamos a maio de 2016, e Dilma aprontou mais uma. Passei o final de semana com dores fortes, e fui novamente ao médico. A famigerada está na curvinha do ureter, pertinho da bexiga. Ela fez um longo caminho de descida desde que foi alçada ao posto de presidente das minhas dores, e agora está a um passo de sofrer o impeachment deste corpo. Num esforço final para obter todos os votos, estou bebendo mais de 5 litros de água por dia. É um negócio brutal, você tem que ir ao banheiro uma vez por hora, tem que ingerir mais líquidos que um camelo no Saara, mas tenho certeza de que terá valido a pena quando eu finalmente vir Dilma a caminho do esgoto. Na verdade, eu até gostaria de castigá-la mandando-a descarga abaixo, mas o médico disse que preciso capturá-la para estudos, pois assim podemos saber como evitar a formação de futuras Dilmas.

E assim segue a votação apertada em meu corpo. Até o momento não conseguimos todos os votos de que precisamos, mas temos uma nova articuladora em campo, a excelentíssima tansulosina. Ela promete alargar os caminhos para que Dilma possa sair mais facilmente. Tem seus possíveis efeitos colaterais, mas ainda prefiro um remédio imperfeito a uma dor perfeita. De acordo com o médico, se isso não funcionar teremos que tentar algo mais invasivo e mais complicado, uma explosão a laser através de cirurgia, o tipo de golpe revolucionário que não gostaria de ter em meu organismo.

Assim, estou na torcida e na confiança de que minha Dilma sairá em breve. Cheguei a desanimar por um tempo, até que me disseram que uma outra Dilma, a de um caso bem mais grave que o meu, acabou saindo depois de muito esforço e paciência. É com essa esperança que termino este artigo. E peço licença, pois preciso beber mais água.

PS: A pedra saiu às 20h40 de quarta-feira, 18 de maio de 2016.

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

A presidente de Schroedinger

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 12 de maio de 2016.

O físico Erwin Rudolf Josef Alexander Schroedinger, ganhador do prêmio Nobel de Física em 1933, ficou famoso fora do contexto acadêmico por um experimento virtual chamado de “O Gato de Schroedinger”, um paradoxo que ele inventou para tentar explicar o problema da mecânica quântica aplicada à vida diária, em objetos e seres de dimensões não subatômicas.

Ele descreve o experimento da seguinte maneira: uma caixa fechada, dentro da qual há um gato, um detector de radioatividade e um frasco de veneno. Há também um mecanismo que, se ativado pelo detector de radioatividade, quebra o frasco de veneno, que por sua vez mata o gato. Schroedinger dizia que, usando a interpretação quântica de Copenhagen, como não se pode saber se surgirá ou não uma partícula radioativa a ser detectada, o gato deveria ser considerado vivo e morto ao mesmo tempo, num estado ambíguo. É claro que bastaria abrir a caixa para saber se o real estado do gato, e o experimento fictício foi uma maneira de Schroedinger criticar a interpretação de Copenhagen. Mal sabia ele que seu experimento seria comprovado no Brasil de 2016.

Temos hoje a presidente de Schroedinger, a morta-viva do Planalto. Graças a seus incansáveis companheiros de crime, Dilma vai tentando se manter no poder com manobras jurídicas e com ameaças de violência. No front jurídico ela conta com a defesa de José Eduardo Cardozo, o advogado-geral da União que se transformou em advogado pessoal de Dilma Vana. O homem que deveria defender a União passou a desempenhar o papel preferido dos políticos petistas: advogado de porta de cadeia – Better call Cardozo. No front da violência, ela conta com os bandidinhos de sempre: MST, MTST e sindicalistas pelegos. Como lhes falta coragem para um embate realmente violento e armado, esse pessoal acaba queimando pneus em rodovias, agredindo gente indefesa e tumultuando a vida do cidadão comum. Estão mais para mosquitos do que para leões.

Voltando a Schroedinger, se nosso gato é a presidente, nossa caixa é Brasília. O veneno já conhecemos, mas em nosso caso ele pode ser chamado de remédio ou de impeachment. O mecanismo, esse é mais complicado… Câmara, Senado, STF, todos fazem parte desse processo intricado que ativa o veneno e mata o gato. Olhando Brasília de fora, fica realmente a impressão de que a presidente está morta e viva ao mesmo tempo. Mas, basta fazer um furinho na caixa para perceber que ela já partiu desta para a melhor (ou pior, dependendo de Sérgio Moro).

A turma do PT age como uma criança que não suporta perder. Aliás, escrevendo isso, lembrei-me claramente de um episódio de infância que cai muito bem como ilustração. Estávamos em cinco amigos, todo mundo na faixa dos 12 anos de idade, jogando War em minha casa. Um dos garotos estava prestes a ser eliminado – só lhe restava a Austrália. Quando ele viu uma miríade de exércitos inimigos acumulados em Sumatra e Bornéu, percebeu que não resistiria à próxima rodada, arrancou o tênis do pé e jogou em cima do tabuleiro. Voaram pecinhas para todo lado, e tivemos que começar de novo (sem ele, é claro) porque ninguém conseguia lembrar onde estavam os exércitos de cada um. Tivesse ele jogado um punhado de cocô no tabuleiro, a analogia seria perfeita.

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

A lista do adeus

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 5 de maio de 2016.

Este colunista espera, do fundo do coração, que esta seja sua última coluna sob a presidência de Dilma Rousseff. Afinal, o plenário do Senado deverá votar pela abertura do inquérito contra a pior presidente deste canto da galáxia amanhã, dia 6 de abril, e a oposição tem todos os votos de que precisa para afastar a presidente por 180 dias (ou, em outras palavras, para sempre).

Assim, achei de bom tom elencar um pouco do que esse governo fez de ruim para o Brasil, caso alguém ainda pense que poderá sentir saudades. Com vocês, minha lista do adeus:

A expressão “mãe do povo” – esperamos que a mãe e o pai do povo (sim, estou falando daquele criminoso que não tem o dedo mindinho) sejam condenados e presos, e que o povo aprenda que é melhor ser órfão do que ser filho do Estado;

O PAC – em vez de acelerar o crescimento, esse grande programa de loteamento de obras superfaturadas para políticos e empresários corruptos só freou ainda mais a economia brasileira. Finalmente terá seu fim, pois o próximo presidente dificilmente manterá algo que foi vendido como o grande feito da então ministra Dilma;

Kátia Abreu – maior decepção política dos últimos anos, a senadora lambe-botas da atual presidente será finalmente defenestrada do governo. A oportunista de Tocantins terá bastante tempo para refletir sobre o que é escolher estar do lado errado da história. Sorte dela não precisar de uma bomba atômica na cabeça para isso;

Mais Médicos – será um grande alívio para os brasileiros de bem quando o governo parar de enviar dinheiro para um ditador sanguinário através deste programa de fachada. O Mais Médicos foi um dos maiores absurdos deste governo, uma imoralidade, uma vergonha para o Brasil;

O Itamaraty Vermelho – com a saída do PT do governo, ressurge a esperança de que nossa diplomacia volte a priorizar as relações com os países livres e democráticos e pare de desperdiçar recursos e de sujar nossa reputação com o apoio a ditadores pelo mundo afora;

Nunca antes na história deste país – que bom será nunca mais ter que ouvir a frase “nunca antes na história deste país” e nem comparações ridículas do tipo “mais do que nos últimos 500 anos”;

MST – embora esta organização criminosa esteja longe de ser extinta, só o fato de não poderem mais entrar e sair do Planalto quando bem entenderem, fazendo o governo de capacho, já é uma evolução. E ainda há a esperança de que o novo governo aperte o cerco e pare de financiar esses vagabundos que invadem terras produtivas e destroem centros de pesquisa de agricultura e pecuária;

Blogueiros chapa-branca – sem o financiamento do governo petista, centenas de blogueiros chapa-branca deixarão de mamar nas tetas do Estado e finalmente terão de arrumar um emprego digno, um que não inclua defender criminosos e exaltar ditadores (a não ser, é claro, que consigam uma vaguinha na Folha);

Discursos sem pé nem cabeça – finalmente estaremos livres da vergonha internacional que é ver Dilma Rousseff falando em público. Será um adeus aos cachorros ocultos, às mandiocas exaltadas, aos dentifrícios retornantes e a tantas outras expressões nunca antes utilizadas por um presidente da república na história deste país e deste planeta. Pensando bem, este último ponto fica tanto como positivo como negativo, pois perderemos uma fonte inesgotável de diversão e comédia.

Enfim, Dilma já vai tarde, tarde demais. Ela sai deixando o país na pior recessão da história e protagonizando aquele que é considerado o maior escândalo de corrupção do mundo moderno. De todos os recordes que ela poderia quebrar, escolheu os piores. Dilma Rousseff, não sentiremos saudades de você.

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e Mentiram para mim sobre o desarmamento”.