Desarma mais que está pouco

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 7 de julho de 2016.

Uma busca rápida no Google com as palavras “idoso”, “posse” e “arma” retorna inúmeros resultados, muitos com notícias de idosos de 70, 80 e até 90 anos de idade que foram presos porque tinham uma espingarda ou um revólver em casa. Alguns desses criminosos perigosíssimos foram mantidos presos porque não tiveram recursos para pagar fiança e aguardar seu julgamento em liberdade. Ainda bem que temos uma legislação fantástica, que remove efetivamente essas ameaças à ordem pública de circulação. Não sei o que seria do Brasil se todos esses vovôs continuassem com suas armas em casa. Imagino que poderíamos chegar a níveis absurdos de assassinatos, algo como 60 mil mortes por ano, para chutar um número.

Mas chega de piada. No início desta semana, em Ribeirão Preto, um assalto hollywoodiano aterrorizou a população da Califórnia brasileira. Homens fortemente armados – chegaram a utilizar fuzis de calibre .50, aqueles que você saca do porta-malas quando precisa parar um blindado de guerra – explodiram uma empresa de segurança de valores e roubaram dezenas de milhões de reais de lá. Vídeos gravados pela população que mora perto do ocorrido mostram civis e policiais amedrontados e perdidos, sem saber o que fazer com tamanho poder de fogo. Ninguém foi preso até agora.

Os fatos que se descortinam diante de nós, brasileiros, mostram que os defensores do desarmamento erraram, definitivamente. Quando pregam que a população não deve poder ter e muito menos portar armas, sua argumentação se baseia inteiramente na premissa de que a polícia e as Forças Armadas devem ser os únicos grupos armados em um país. Não tenho a intenção de abordar o aspecto tirânico dessa proposta neste artigo de hoje, mas basta dizer que, se todas as armas estiverem sob o poder do Estado, ele não precisará temer o seu povo desarmado. Gostaria, no entanto, de destacar um outro aspecto, que é o da qualidade, poder de fogo e quantidade de armas à disposição da polícia em comparação aos criminosos.

O caso de Ribeirão Preto é apenas o mais recente de uma série incontável de embates entre policiais munidos de pistolas e revólveres contra criminosos armados com fuzis de alto calibre – fuzis semiautomáticos e automáticos que têm o comércio proibido pelo Estatuto do Desarmamento – utilizando quantidades de munição indisponíveis até mesmo nos melhores quartéis do Exército Brasileiro. É também mais uma prova clara e cabal de que o Estatuto do Desarmamento nunca funcionou e nunca funcionará. É uma lei que tira as armas apenas das pessoas de bem – aquelas que se dispõem a cumprir leis, por mais cretinas que sejam – e não adiciona nenhuma dificuldade à obtenção de armas por criminosos. Aliás, por ter quase extinto as lojas de armas do Brasil, a Lei 10.826/2003 foi na verdade um estímulo ao contrabando e ao comércio ilegal de armas que, sem o combate efetivo por parte do aparato policial do Estado, cresceu a ponto de fornecer peças de uso supostamente exclusivo das Forças Armadas a qualquer traficante pé-de-chinelo.

A população, como sempre, é quem sofre as piores consequências das políticas desastrosas e ilógicas do Estado. Um dos vídeos exibidos nos portais de notícias mostra uma família que se desespera ao perceber que os tiros estão ficando cada vez mais altos, ou seja, que estão cada vez mais perto de sua casa. A essas pessoas, e a quase todos os brasileiros, foi negado todo e qualquer direito à defesa própria. Elas não podem contar com a polícia e nem com suas próprias armas. Estão à mercê de criminosos que sabem muito bem que a probabilidade de encontrar resistência armada é irrisória.

Para completar a semana, diversos militares receberam nos últimos dias uma comunicação das Forças Armadas recomendando medidas de segurança aos que pretendem viajar ao Rio de Janeiro. As medidas incluem esconder a identidade militar, retirar fotos que identifiquem a pessoa como militar das redes sociais, retirar adesivos de carros que façam referência a alguma academia ou organização militar e evitar andar em certas áreas da cidade – áreas que foram designadas por traficantes como de tolerância zero a qualquer agente policial ou militar. É o Estado de joelhos diante do crime.

Com tudo isso em mente, deixo uma pergunta: você vai confiar sua vida a esse pessoal, ou vai lutar para ter de volta seu direito de se armar?

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

É hora de falar de armas

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 16 de junho de 2016.

Muitos brasileiros têm pavor de armas, como se fossem uma coisa intrinsecamente má. Infelizmente, nos últimos 25 anos o Estado e a mídia conseguiram colar nas armas a culpa pela violência, quando na verdade foi o banimento delas que deixou os brasileiros indefesos e à mercê de criminosos que atacam com a certeza de que não haverá resistência da vítima. Quando eu tinha meus 10 anos, lembro muito bem que meu tio andava armado, e meu pai sempre falava em comprar a dele. Lembro de ter entrado numa loja com ele e ver as armas expostas, que podiam ser compradas por cidadãos obedientes à lei. Isso soa hoje como fantasia no Brasil, depois que o governo conseguiu desarmar grande parte da população – mas não tirou nem uma pistola sequer das mãos dos criminosos.

Quando acontecem tragédias como a de Orlando – a menos de 25 quilômetros de minha casa –, a loucura sobe a níveis absurdos, e as redes de televisão começam a despejar uma quantidade tão grande de mentiras a ponto de o cidadão comum não saber mais em que acreditar. Mas, quando escrevo aqui, o faço como alguém que estudou o assunto a fundo, baseado em centenas de tabelas estatísticas – contendo dados dos últimos 400 anos, de países diferentes – e em estudos sérios feitos por professores de grandes universidades. Eu entendo que essa é a maneira correta de alguém se informar sobre um assunto, e não lendo três reportagens tendenciosas num jornal qualquer ou assistindo a alguns ignorantes no assunto discutirem em certos canais exclusivos de notícias.

A mídia engana demais. Como exemplo, posso citar os casos de tiroteios em escolas americanas, que são tratados como a coisa mais mortífera do mundo. Se você pegar qualquer ano como exemplo, de 1995 até hoje, o número de estudantes mortos em ataques como esses é menor que o número de estudantes mortos por esforço excessivo nas práticas de educação física. Mas ninguém verá uma reportagem sobre isso, porque o que interessa é pintar as armas como vilãs supremas. Em casa é a mesma coisa: quando uma criança morre por um disparo acidental da arma de seus pais, vira notícia no mundo inteiro; mas não há nem uma menção sequer às mortes por ingestão de produtos de limpeza, que acontecem 90 vezes mais que as mortes com armas. O que pensar sobre isso?

Para mim é bastante óbvio. Se existisse um interesse real do governo e da mídia de evitar mortes infantis, por exemplo, eles deveriam se preocupar muito mais em instruir os pais sobre como guardar seus produtos de limpeza do que tentar tirar o instrumento de defesa de suas mãos. Deveriam alardear os riscos de se andar de bicicleta, atividade que mata mais jovens que todos os atiradores dementes juntos. Mais que isso, deveriam mostrar os inúmeros casos documentados de pessoas que estão vivas hoje porque alguém próximo (ou elas mesmas) tinha uma arma numa situação de confronto com um criminoso.

Perceba a diferença: muitas pessoas morrem de bicicleta, mas não se tem notícia de que uma bicicleta tenha salvo uma vida, e ninguém sai por aí pedindo o banimento das bicicletas. Muitas pessoas morrem pelo uso de armas, mas muitas mais vivem por causa delas – as armas que matam são apenas as que estão nas mãos de criminosos – e todo mundo sai pedindo seu banimento generalizado. Um estudo recente da Universidade de Chicago sobre o uso defensivo de armas mostrou que em 99% dos confrontos com criminosos a pessoa só precisa sacar a arma para assustar o bandido e impedir o crime, e que menos de 0,1% dos crimes com armas de fogo foram cometidos por cidadãos que possuem uma arma legalizada.

A quem tem um preconceito infundado sobre as armas de fogo, convido a conhecer mais sobre o assunto. Ainda que você nunca compre uma para si, é importante saber que o direito de tê-las deve ser garantido a todos os cidadãos de bem, e que você estará mais seguro se houver alguém de bem armado por perto. Lembre-se de que a polícia chega sempre depois do crime. Bastaria uma pessoa armada dentro daquele clube em Orlando para evitar que o terrorista ceifasse tantas vidas. Há dezenas de relatos de situações semelhantes, em que um civil armado evitou diversas mortes ao abater um atirador; infelizmente eles são deixados no limbo pelos jornalistas militantes do desarmamentismo. E as zonas onde não se permite o porte oculto de armas curtas continuam sendo os alvos preferidos dos maníacos, terroristas e malucos em geral. Afinal, qual é a dificuldade de se infringir uma pequena proibição para quem já planeja o pior dos crimes?

Cidadãos de bem do Brasil e do mundo – brancos, negros, héteros, gays, homens, mulheres, jovens, idosos –, armai-vos!

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

Minha carta à revista Veja

Depois da vergonhosa Carta ao Leitor e da “matéria especial” onde Veja se coloca do lado dos desarmamentistas, tudo com base em informações falsas e mentirosas, enviei esta carta à redação da revista. 

Ao editor de Veja

Um debate público sério se faz com pessoas opinando, escrevendo e falando sobre determinado assunto, de forma verdadeira e fundamentada. Em qualquer país minimamente desenvolvido isso significa diversas obras escritas por quem é contra e um outro tanto por quem é a favor, formando uma bibliografia científica sobre o assunto, que serve de base tanto para a imprensa séria como para a população em geral.

O desarmamento é um tema que nunca foi discutido seriamente. Não há pesquisas e obras escritas com embasamento lógico, estatístico e científico a seu favor, e o motivo é simples: não é possível provar que o desarmamento é bom. As poucas obras que defendem essa ideia liberticida são desonestas, utilizam manipulação estatística e não seriam aprovadas em nenhuma análise de cunho científico, daquelas que são feitas para se atribuir prêmios ou reconhecimento público a qualquer pesquisa séria.

No Brasil, a coisa é muito pior. De um lado há obras bem fundamentadas, algumas traduzidas para a língua portuguesa – como as obras de John Lott e de Joyce Malcolm -, e uma inteiramente nacional e de ampla vendagem da autoria deste que vos escreve, Flavio Quintela, e de Bene Barbosa – Mentiram Para Mim Sobre o Desarmamento. Do outro lado há a imprensa porca e preguiçosa, as ONGs financiadas pelo governo de esquerda e os políticos de esquerda. Todos utilizam a mesma tática desprezível: citar pesquisas inexistentes, utilizar estatísticas manipuladas, citar fontes sem comprovação e abusar das mentiras. É com muita tristeza e decepção que constato a presença de Veja neste grupo. A publicação que eu ainda considerava digna de ser lida finalmente se entrega ao jeito porco e canalha de se fazer jornalismo, ou melhor dizendo, pseudo-jornalismo. A Carta ao Leitor e a “matéria especial” da última edição são vergonhosos em seu conteúdo, e compõem um capítulo lamentável do jornalismo brasileiro.

Não há justificativa para o uso de mentiras numa reportagem. Nem mesmo a atribuição de uma matéria sobre assunto tão importante a um jornalista tão pouco experiente como Kalleo Coura serve de desculpa para um papelão como esse. Além de me ser dolorido constatar essa mudança de posicionamento de Veja, pior ainda é perceber que a revista agora faz o mesmo tipo de jornalismo que eu tanto critiquei em publicações como Carta Capital e Isto É. Isso é uma verdadeira traição a um público fiel e que depositava esperanças na revista. Tivéssemos eu e Bene o poder midiático de Veja para divulgar nosso trabalho e nossas pesquisas bem fundamentadas, e não restaria um cidadão de bem sequer como assinante de Veja, tamanha foi a afronta da revista à verdade.

Com pesar,

Flavio Quintela
flavioquintela.com

Pr. Pinóquio

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 29 de outubro de 2015.

Qual é a função de um sacerdote ou líder espiritual? Não me refiro aqui às atribuições eclesiásticas, pois estas dependem da religião, mas sim à função dessas pessoas na comunidade da qual fazem parte. Em geral, o que se espera deles é alento, conforto e orientação aos seus fiéis e seguidores, e uma vida exemplar e inspiradora. É uma tarefa das mais difíceis quando tomada com seriedade e honestidade; e justamente por isso juntar religião e política torna-se algo tão complicado.

Ora, o sacerdote ou líder que ingressa na política – tanto por meio de cargo eletivo como pela militância ativa junto aos agentes políticos – está fazendo uma escolha muito clara: a de deixar de cuidar de sua comunidade num nível micro para cuidar de assuntos comunitários em nível macro. Ao mesmo tempo, assumindo-se que a integridade e honestidade serão mantidas, a tarefa de servir de exemplo torna-se muito mais pesada, já que o escrutínio de sua vida não é mais feito por alguns poucos olhos locais, mas sim por toda uma população, seja ela de uma cidade, estado ou mesmo o país inteiro.

ILUSTRA-QuintelaNesses últimos dias, temos assistido às declarações estapafúrdias de dois líderes religiosos engajados na política sobre um assunto que não dominam: o armamento civil. Os pastores Silas Malafaia e Magno Malta – este, senador pelo estado do Espírito Santo; aquele, um evangelista de massas com um forte trânsito entre parlamentares da bancada evangélica – lançaram-se num ataque direto ao PL 3722 (aquele que reforma o Estatuto do Desarmamento), que foi aprovado pela comissão especial da Câmara dos Deputados na terça-feira passada. E o fizeram da pior forma possível: mentindo sobre o assunto. Não é possível saber o que os motivou a fazer suas declarações, mas é bastante provável que os esquemas de favores tão comuns na política brasileira sejam a razão por trás das mentiras. Afinal, como explicar que duas pessoas comumente engajadas em boas causas coloquem suas figuras públicas ao dispor de uma causa contrária à liberdade, um assunto altamente técnico em que não cabe o senso comum e nem os chavões da esquerda liberticida?

Ambos, em seus vídeos, dizem que o novo projeto de lei permitirá uma maior quantidade de armas e munições por pessoa, e que permitirá aos professores darem aulas com uma arma na cintura – afirmações muito distantes da realidade do texto do projeto. Ambos batem na tecla errada de que somente a força policial deve possuir e portar armas, como se a polícia fosse onisciente, onipotente e onipresente. Ambos tentam pintar um quadro de caos e guerra civil no caso de a população se armar, desprezando os fatos e a história: o Brasil era um país muito mais seguro quando a população possuía armas de fogo, e não há registros de países em que a implementação de leis de posse e porte de armas tenha causado aumento de criminalidade – muito pelo contrário. Ambos tentam associar o cristianismo e a paz ao desarmamento, quando a história mostra que os ditadores mais sanguinários foram justamente os que mais desarmaram populações. Ambos repetem a argumentação mentirosa que a esquerda costuma usar para combater o direito mais básico de um cidadão, o de defender sua integridade, sua vida e a de seus familiares. Ambos alinham-se aos que dizem combater, fazendo coro com a ala mais retrógrada da política brasileira.

Aos senhores Malafaia e Malta, fica meu pedido público: informem-se sobre o assunto e revejam suas posições. Sua influência sobre as pessoas é muito grande para que ajam de forma tão irresponsável com um tema importante como esse. O que está em jogo é a liberdade e a segurança das pessoas, as mesmas que não possuem a mínima condição de manter guarda-costas como os senhores mantêm, e que saem de suas casas todos os dias sob o peso de quase 60 mil assassinatos anuais neste Brasil em guerra.

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

Carta aberta ao Pastor Silas Malafaia

Esta carta foi a base de minha fala no vídeo que fiz ao Pastor Silas Malafaia, em virtude de seu vídeo mentiroso sobre o PL3722 e o armamento civil:

Pastor Silas, meu nome é Flavio Quintela. Sou o criador da série de livros Mentiram para Mim, cujo segundo volume, escrito em co-autoria com o querido Bene Barbosa, fala justamente sobre o Desarmamento. Sou cristão, fiz seminário teológico por dois anos, e fui professor de escola bíblica por muito tempo, de modo que minhas convicções de fé e sobre o cristianismo não são baseadas em achismo ou senso comum.

Fiquei estarrecido com seu vídeo e, como não tenho meios para lhe contatar, o faço abertamente pelo meu canal do YouTube. Gostaria de deixar registrado que tentei contato com o senhor antes do lançamento de meu segundo livro, o Mentiram Para Mim Sobre o Desarmamento, e cheguei a enviar um exemplar à sua assistente, por correio. Creio que o senhor jamais o tenha lido, em vista do conteúdo de seu vídeo recente.

Serei breve, e levantarei apenas três pontos sobre seu vídeo:

  1. O senhor mente no vídeo. Mente especificamente sobre o conteúdo do projeto de lei 3722. Não me importa se mente de propósito ou por ignorância sobre o texto do projeto. O fato é que mente, e o pai da mentira, como o senhor mesmo disse muitas vezes em suas pregações, é o diabo. O Bene Barbosa, em vídeo feito ontem e cujo link está na descrição abaixo, destacou os pontos em que o senhor mente, e deixou muito claro qual é a verdade sobre o assunto. Não preciso dizer mais nada depois do que ele disse, e qualquer um que estiver me vendo nesse momento pode acessar o vídeo do Bene, que é curto e objetivo. Não bastasse o caráter repulsivo da mentira por si só, o senhor ainda o faz utilizando das mesmas estratégias que a imprensa de esquerda costuma usar no Brasil, e que por diversas vezes alvejou o seu ministério e sua vida pessoal.
  2. O senhor faz uma crítica totalmente desprovido de autoridade moral para tal. Tendo um privilégio que menos de 0,01% dos brasileiros têm, que é o de andar com seguranças ao seu redor, para tentar evitar ser uma das 60.000 vítimas de assassinato que perecem todos os anos nesta nação em guerra, o senhor jamais poderia advogar contra o direito de defesa do cidadão, e afirmar que somente a polícia deve possuir e portar armas. O senhor se iguala a muitos outros hipócritas do nosso Brasil sofrido e dá vida ao ditado popular “faça o que eu digo, não faça o que eu faço”. Nada mais longe do exemplo de Cristo do que isso. Aliás, o próprio apóstolo Paulo deixa clara em suas cartas a preocupação de viver de modo exemplar, e de jamais exigir de alguém algo que ele mesmo não possa realizar. A verdadeira liderança se constrói através de exemplo de vida, e o senhor já deve ter ouvido isso em inúmeros cursos e treinamentos. Pena que não tenha colocado o princípio em prática neste caso.
  3. Por último, quero lhe apontar um erro dos mais graves em seu discurso: o uso do senso comum num assunto onde isso não é cabível. Se tivesse lido meu livro, saberia que mais de 90% dos usos defensivos de armas de fogo não geram disparos, e que uma pessoa de bem que reage armada a um ataque tem o dobro de chances de sobreviver do que uma que não reaja. Saberia também que é a imprensa podre, a mesma que o senhor critica com veemência, que gosta de dizer que armas só servem para matar. Saberia que os países de população mais armada não são, de modo algum, os mais perigosos; muito pelo contrário. Saberia que quanto mais frágil uma pessoa, mais vantagem ela tem de possuir uma arma. Saberia que os ladrões têm mais medo de cidadãos armados do que da polícia. E saberia que em nenhum local onde o porte de armas foi liberado por lei a criminalidade aumentou, mas sempre diminuiu. Em vez de ciência e estatística o senhor opinou “de orelhada”, e fez papel de ignorante. Segurança pública, ainda mais num país com 60.000 mortes violentas por ano, não é lugar para senso comum e chavões esquerdistas.

Fico por aqui, e deixo um apelo para que o senhor se revista da mais bonita característica de um homem de Deus: a humildade. Seja humilde, reveja sua postura, e admita seu erro. A soberba é a pior saída.

Que Deus o guie e o ilumine.

Medindo resultados (ou não)

Como se mede o resultado de alguma coisa? Depende.

Quando falamos de gente que usa seus próprios recursos para fazer as coisas – leia-se empreendimentos privados – a coisa é bem simples: mede-se o resultado de um projeto da maneira mais direta possível, ou seja, perguntando-se se os objetivos propostos foram alcançados ou não, e decidemiss_ode-se pela manutenção ou extinção do tal projeto com base na resposta a essa pergunta. Trocando em miúdos: não deu certo, está demitido/cancelado/suspenso.

Quando falamos de gente que usa os recursos dos outros para não fazer as coisas – leia-se governo brasileiro – a coisa é incompreensível: não se mede nada, e quando alguém de fora resolve medir e mostrar o fracasso de algum projeto, não acontece nada. Trocando em miúdos: não deu certo, foda-se, vamos continuar fazendo do mesmo jeito.

Um caso ocorrido ontem em SP (veja matéria do G1 em http://goo.gl/xcaGyi) exemplifica muito bem esse comportamento em relação à segurança pública. Dois adolescentes armados fizeram arrastão num vagão de metrô e acabaram atirando em um padre. É a falência completa de duas políticas defendidas a todo custo por petistas, tucanos e outros lixos de esquerda: o desarmamento e a maioridade penal. Os resultados ruins aparecem dia após dia, e nada é feito para mudá-los. Ninguém é demitido, nenhuma lei é modificada, nenhum projeto é cancelado – tudo continua da mesma maneira, e o processo se retroalimenta negativamente.

Espero realmente que a única iniciativa atualmente em andamento para mudar alguma coisa nessa falência toda, o PL 3722, seja aprovado na Câmara. O trabalho de reunir as evidências desses resultados negativos eu já fiz com o Bene​, e nosso livro tem aparecido nas mãos de diversos políticos ultimamente. O seu deputado, aquele em que você votou no ano passado, precisa saber que vai perder o seu voto caso seja contra esse projeto de lei. A hora de mudar já passou faz muito tempo. Se você concorda com isso, faça sua parte: encha o saco dele(a) incansavelmente.

Flavio Quintela é escritor e tradutor de obras sobre política e filosofia, e autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

O jornalismo porco

No dia 20 de março de 2015 a Exame.com publicou uma matéria, assinada por Guilherme Dearo, sobre uma campanha publicitária desarmamentista feita na cidade de Nova Iorque. O artigo é o símbolo do jornalismo porco, do artigo feito de qualquer jeito, às pressas, sem cuidado, e pior, cheio de viés (intencional ou não).

Indignado com o ocorrido, e sendo leitor costumeiro de Exame, enviei o seguinte e-mail aos chefes de redação de Exame e Exame.com, com cópia para o presidente do grupo Abril:

Boa noite

Hoje me deparei com a seguinte reportagem no site de Exame:

http://exame.abril.com.br/marketing/noticias/comercial-cria-loja-de-armas-em-nova-york-e-choca-clientes

Quem assina é um tal de Guilherme Dearo, da Exame.com.

Deixei o seguinte comentário:

Reportagem porca essa. O autor não teve a decência de fazer uma pesquisa mínima de autores sérios, como Lott e Malcolm, que possuem trabalhos acadêmicos mostrando que a presença de armas em casa NÃO AUMENTA a incidência de mortes acidentais ou suicídios. Eu desafio o tal Guilherme Dearo a comparecer ao lançamento do meu novo livro com o Bene Barbosa, o Mentiram Para Mim Sobre o Desarmamento, que acontecerá no dia 8 de abril, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, levando consigo qualquer evidência que ele consiga achar sobre essas mentiras citadas na reportagem. Se ele conseguir fazer isso e provar que tudo o que escrevemos no livro está errado, ele pode começar a se chamar de jornalista.

Além disso, decidi mandar este e-mail para vocês porque achei um absurdo a falta de noção jornalística do repórter, que colocou informações falsas no texto (ex.: “Por lei todo americano pode comprar e portar armas.”), citou estatísticas que não existem (“as estatísticas provam o oposto: ter uma arma em casa aumenta as chances de suicídio, homicídio e tiro acidental”) e tratou o assunto com uma superficialidade irresponsável.

Como autor e pesquisador da área, me sinto mal em ver um jornalismo desse nível numa revista do calibre de Exame. Além de ser um desserviço à população, é uma exposição da revista ao ridículo.

Att,
Flavio Quintela 

Minutos depois recebi a seguinte resposta de Maurício Grego, editor de Exame.com:

Flavio

Obrigado pelos comentários.

Como especialista você certamente sabe que a Segunda Emenda da Constituição dos Estados Unidos assegura o direito de possuir e portar armas aos americanos, ainda que haja restrições que variam conforme o estado. Alterei o parágrafo que dizia que “todo americano pode comprar e portar armas” para que reflita isso de forma mais precisa.

Quanto às estatísticas, elas são citadas no vídeo. O repórter apenas as traduziu para facilitar o entendimento. Note que a reportagem não é sobre o mercado de armas. É sobre uma bem elaborada campanha publicitária.

Bom fim de semana,

Maurício Grego

Conferi imediatamente as mudanças que o Maurício disse ter feito, e elas realmente melhoraram um dos parágrafos, mas o conteúdo geral da matéria continuou muito ruim. Decidi então responder:

Maurício

Vi sua alteração, que realmente melhorou o texto. As diferenças impostas por leis estaduais e até mesmo municipais são muito grandes para serem ignoradas sob uma generalização daquelas. Obrigado.

Quanto às estatísticas serem parte do conteúdo do vídeo, entendo, mas continuo achando estranho que a campanha seja citada num artigo sem nenhuma observação crítica sobre a mesma. Por esse raciocínio que você me apresentou, qualquer campanha publicitária, por mais mentirosa que seja, é digna de aparecer na revista se for “criativa e inusitada”? Não é ofício e responsabilidade do jornalista oferecer às pessoas os subsídios para que elas se informem corretamente sobre um determinado assunto? Ora, ao dizer que

Logo de cara, a campanha mostra que 6 entre 10 americanos consideram que ter armas aumenta a segurança, mas as estatísticas provam o oposto: ter uma arma em casa aumenta as chances de suicídio, homicídio e tiro acidental.

o autor do artigo está, ainda que de forma tácita, endossando o conteúdo do vídeo e transmitindo a informação errada. O recorte da informação e o destaque dado a ela são de responsabilidade única do autor da matéria, e ao fazer isso ele abriu o tema, deixando de restringi-lo apenas à campanha em si, e passando a dar ênfase ao assunto “desarmamento”. No mínimo, para não ser completamente parcial, ele deveria ter escrito algo como “mas as estatísticas citadas no vídeo, que são contestadas por trabalhos acadêmicos da área, alegadamente mostram o oposto…”. Ainda seria desproporcional, mas pelo menos daria à matéria um pouco de honestidade em relação ao assunto.

Como leitor já de muitos anos de Exame, acho que a rapidez e a dinâmica da era atual do jornalismo, onde as publicações online podem ser feitas a qualquer momento, e a quantidade de textos publicados é muito maior do que na época onde a única opção era a impressão, não deveriam comprometer a qualidade e a honestidade dos artigos. A impressão que o leitor bem informado (ainda que este seja um tanto raro) tem é de um trabalho feito de qualquer jeito, digitado às pressas e sem nenhuma revisão de conteúdo. E, para piorar, com viés ideológico. Não estou acusando o jornalista de ser um defensor do desarmamento – estou dizendo que ele não parece ter conhecimento algum sobre o assunto além do pequeno vídeo que viu e postou. Quando se escreve um artigo sobre um tema que não se domina, o mínimo a se fazer é pesquisar os embasamentos a favor e contra, e passar isso ao leitor. Quem faz menos que isso, ou teve preguiça, ou está com segundas intenções.

Atenciosamente,
Flavio Quintela

Vou atualizar este artigo conforme receber (ou não) respostas. Mas, desde já, quero dizer a você, leitor deste blog, que precisamos mostrar nossa indignação quando um repórter faz um serviço ruim e desqualificado como esse. Se você reclama quando é mal atendido num restaurante ou numa loja qualquer, então pode reclamar também da imprensa. Eles são prestadores de serviço, e não estão livres da crítica de seus clientes. E esses somos nós.

Flavio Quintela é escritor e tradutor de obras sobre política e filosofia, e autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e “Mentiram para mim sobre o desarmamento“.