A corrente do mal

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 4 de fevereiro de 2016.

Tempos atrás compareci a uma sessão da câmara municipal da cidade onde moro, na Flórida. Num determinado momento foi dada a palavra à dona de um restaurante local, e ela pôde falar a todos os representantes de distrito e aos cidadãos presentes sobre uma ação beneficente que estava para acontecer em seu estabelecimento. O objetivo: reverter toda a renda de dois dias de operação para ajudar a pagar o tratamento de câncer de uma jovem policial da cidade. A dona do restaurante conhece pessoalmente a policial e, compadecida com sua situação, resolveu agir para ajudá-la. Recebeu naquela noite o apoio de toda a comunidade.

Não longe desse restaurante, talvez a uns 5 minutos de carro, funciona uma clínica médica para pessoas carentes. São cerca de 20 médicos que trabalham gratuitamente, cada um deles doando duas horas semanais de trabalho para atender quem não pode pagar uma clínica particular ou não tem plano de saúde. A triagem é feita no próprio local, e a prioridade são os pacientes da região. A clínica não tem nenhum subsídio ou ajuda governamental, e todas as suas despesas administrativas são pagas com as doações dos médicos e de filantropos locais.

O que eu acabei de descrever são exemplos de altruísmo aplicado localmente. Ajudar quem está necessitado é muito mais fácil e eficaz quando essa pessoa faz parte da sua vida de alguma maneira. Quando a comunidade se mobiliza para ajudar um dos seus, a própria comunidade se fortalece, e o auxílio chega ao necessitado sem agentes intermediadores. Além disso, quem doa pode acompanhar os resultados de sua ação, pois o beneficiário está por perto. Este, por sua vez, tem a quem agradecer, e sente-se amparado em seu momento de dificuldade; dificilmente se negará a ajudar alguém no futuro, quando estiver em condições para isso. É o conhecido efeito “corrente do bem”.

Uma sociedade que não preza pelo altruísmo e não o pratica cairá, necessariamente, nas mãos do assistencialismo governamental. Como disse o próprio Jesus Cristo, “os pobres, sempre os tereis convosco”. Sempre haverá pessoas necessitadas, gente que num determinado momento da vida se deparou com condições e circunstâncias pesadas demais para suas forças; o braço amigo pode vir do vizinho ou do governo. A diferença é que o vizinho o fará por compaixão; o governo, por votos.

Eu adoraria incluir um exemplo de altruísmo exercido localmente no Brasil. Na verdade, eu encontrei um belo exemplo para citar: o médico veterinário Ricardo Fehr Camargo, de São Carlos (SP), atendia gratuitamente até 30 animais por sábado, todos de pessoas que não podiam arcar com o pagamento. Ricardo e sua esposa faziam a triagem dos casos durante a semana, selecionando os mais críticos para atendimento prioritário. A recompensa de Ricardo: ser processado pelo Conselho Regional de Medicina Veterinária por atividade ilegal, com a possibilidade de perder seu registro profissional. A justificativa do CRMV: Ricardo não tem uma ONG e não estava realizando um serviço de utilidade pública, de acordo com o regulamento da classe.

O CRMV de São Paulo mostra, com isso, que está bem alinhado à postura tacanha de nossos governantes: o altruísmo não só deve ser substituído pelo assistencialismo interesseiro do governo, mas também deve ser punido e erradicado, até que não reste nem um cidadão sequer disposto a dar um prato de comida a uma pessoa faminta. É a corrente do mal. Com menos gente fazendo caridade localmente, o Estado assume cada vez mais o papel de cuidador, aumentando os impostos para… (clique aqui para acessar o restante do artigo na página do jornal).

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e Mentiram para mim sobre o desarmamento”.