Ah, se eu ganhasse mais…

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 20 de outubro de 2016.

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Quem nunca disse ou nunca ouviu alguém dizer “ah, se eu ganhasse mais dinheiro, não teria tantas dívidas”? Todo endividado pensa isso, porque todo endividado pensa que o problema é não ter dinheiro suficiente, quando na verdade, na grande maioria das vezes, o problema é ter despesas demais. Isso vale para brasileiros e americanos, para pessoas, empresas e governos, para pobres e ricos.

No quesito gente, a coisa não anda nada bem. Um artigo recente da revista Forbes mostra que uma pessoa que tenha US$ 10 no bolso e nenhuma dívida contraída – nenhuma parcela de casa, carro, crediário ou cartão de crédito – é mais rica que 15% dos americanos. Isso significa que há mais de 45 milhões de pessoas, só nos Estados Unidos, que possuem patrimônio líquido negativo. No Brasil, a situação não é muito mais bonita. Segundo dados do Banco Central, 46,3% da renda média das famílias brasileiras está comprometida com dívidas.

Apesar dos números preocupantes, quando fazemos uma comparação com a situação do nosso governo, dá até vergonha de criticar o povo: a dívida pública brasileira chegou ao patamar de 73% do PIB neste ano. E, apesar desse porcentual assustador, muita gente se posicionou contrariamente à PEC 241 – proposta de emenda constitucional que fixa um limite máximo para os gastos públicos –, aprovada em primeira votação no plenário da Câmara no último dia 10. A PEC define que os gastos públicos de um determinado ano não poderão exceder os do ano anterior (valendo a partir de 2017, com valores corrigidos por conta da inflação), ou seja, congela os gastos públicos no patamar atual, que já é monstruosamente alto.

O pessoal que anda escrevendo contra a PEC 241 bate na tecla de que o congelamento dos gastos significará o corte de verbas importantes para o bem-estar social. A lógica que usam é a mesma do cidadão endividado: o problema é não ter dinheiro. Mas, quando se fala de governo, o problema é realmente não saber como gastar o dinheiro. A quantidade de recursos que some nos ralos do aparato governamental é incalculável. Ineficiência, burocracia, má administração, corrupção, falta de inteligência e incapacidade técnica – estas são apenas algumas das razões pelas quais o dinheiro dos impostos não é aproveitado de uma forma minimamente decente.

A imagem figurativa mais clara que me vem à mente é a de um cofre cheio de buracos. Os que se declararam contrários à PEC 241 – faço menção desonrosa ao vídeo do Mídia Ninja, narrado por Gregório Duvivier e recomendado no perfil de Dilma Rousseff no Twitter – são os loucos que querem encher o cofre jogando mais dinheiro. Eles acham que dinheiro dá em árvore (aposto que você já ouviu isso de sua mãe ou de seu pai) e que basta encher o cofre mais rapidamente do que os buracos o esvaziam para que tudo esteja certo. Para os seres pensantes, é óbvio que não adianta fazer nada enquanto os buracos estiverem drenando tudo o que se joga ali dentro.

E não adianta ganhar mais dinheiro. Países como Estados Unidos, Japão, Espanha e França têm dívidas públicas ainda maiores que a do Brasil. Lá, como aqui, o governo só sabe fazer uma coisa melhor que as pessoas: desperdiçar recursos. Se é para desperdiçar, que seja com limite.

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e “Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

Empreendedores mortos no ninho

Já faz quase um mês que não escrevo neste blog – deixo registrado aqui o meu pedido de desculpas a todos os meus leitores assíduos. O fato é que passei por uma mudança de vida bastante complicada, que exigiu dedicação total de mim, a ponto de não conseguir sentar e concatenar ideias para novos artigos.

Enfim, aqui estou novamente, escrevendo diretamente da Flórida, nos Estados Unidos. Sim, esta foi a mudança complicada: sair do Brasil com esposa, dois gatos e dois cachorros para assumir um projeto ousado de tradução da grande obra de Otto Maria Carpeaux para a língua inglesa. Quem já passou por uma mudança deste porte vai entender o que estou falando: parece que a coisa nunca vai acabar, as malas nunca são suficientes, você mal tem tempo para se despedir das pessoas, e ainda tem a burocracia particular de cada serviço que você tem que cancelar, e que somam centenas de minutos preciosos gastos ao telefone com atendentes despreparados.

Mas isso é apenas uma justificativa para minha ausência. O que eu quero mesmo abordar neste artigo é algo que ficou muito claro depois de dez dias morando aqui: o Brasil mata seus empreendedores no ninho. Vou falar sobre duas situações que exemplificam muito bem o que é um país com ambiente favorável aos negócios, e como no Brasil consegue-se fazer sempre o contrário do que seria recomendado.

Fomentando negócios

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Assim que eu soube que viria aos EUA para o projeto Carpeaux tive que buscar meios de sustento para minha família, e o mais lógico foi dar continuidade ao que eu já fazia no Brasil. Por isso surgiu a ideia de abrir uma filial da empresa em que presto consultoria, para iniciar a comercialização de seus produtos em território americano. Bastou uma busca no Google e eu já tinha o telefone de uma agência de fomento de negócios para a Flórida. Bastou uma ligação para que eu recebesse em meu e-mail uma série de documentos onde poderia traçar um plano básico de negócios, que seria analisado por essa agência e oferecido aos condados da Flórida que eu tivesse interesse.

Uma semana depois de mandar esses documentos recebi em meu e-mail uma apresentação de 80 páginas contendo os dados demográficos e econômicos de todos os condados pelos quais me interessei, juntamente com ofertas de redução de impostos e oportunidades imobiliárias para a instalação de meu negócio para cada condado. As informações foram minuciosas, e cada condado deixou uma pessoa responsável para me atender pessoalmente, caso eu desejasse. Aos que não conhecem a organização política americana, os condados são divisões de um estado, e abrangem alguns municípios dentro de seu território.

Depois de analisar o documento, escolhi dois condados para conhecer mais a fundo e marquei uma primeira reunião pessoal. Fui atendido por uma pessoa muito bem preparada, que me ofereceu toda a ajuda para a abertura da empresa, desde a indicação de profissionais de contabilidade até ajuda na contratação de empregados, quando for necessário. E para que tudo seja mais fácil, a abertura da empresa leva poucos dias e pode ser feita pela internet. O código equivalente ao nosso CNPJ sai no mesmo dia, e somente o lucro da operação é taxado.

Compare essa situação ao caso brasileiro e você chegará à conclusão: Brasil, você está fazendo isso errado! Entre preencher os papeis de abertura de uma empresa, aguardar registros na Receita e na Junta Comercial, e finalmente poder iniciar atividades legalmente vão no mínimo dois meses e meio, no melhor caso. E você ainda tem que lidar com a coisa mais esdrúxula que já inventaram no Brasil, que é o sistema de pagamento de impostos por “lucro presumido”. Ou seja, além de ter que vencer diversas barreiras burocráticas para iniciar seu negócio, você tem que trabalhar pagando impostos desde o primeiro dia, quando provavelmente ainda não está lucrando nada.

Oportunidade para todos

Num mesmo dia recebi em casa três prestadores de serviço. Como eu gosto de conversar com as pessoas, puxei papo com os três:

  • O cara que instalou a proteção de respingos na cozinha era venezuelano. Saiu de lá depois que Chávez começou a desmontar a democracia e veio estudar aqui. Hoje tem uma empresa que faz reformas e emprega cinco pessoas, inclusive o irmão, que veio depois;
  • O cara que instalou a TV a cabo era Sudanês. Saiu de lá por causa da guerra civil e ficou um ano aqui sem poder trabalhar legalmente. Hoje possui sua própria prestadora de serviços e trabalha como terceirizado da empresa de TV a cabo e internet. Dirige sua própria Dodge RAM gigantesca e cheia de ferramentas, e me disse que vive tranquilo com a esposa e filhos;
  • O cara que veio testar a água era do Irã. Saiu de lá porque não queria viver num país onde a religião está acima da democracia. Trabalha com uma empresa que vende filtros de água (e que pertence a outro venezuelano) e disse que está feliz em poder viver num ambiente democrático, sem ter que se curvar a um aiatolá.

Nenhum dos três é empregado formal de ninguém, nenhum deles tem direitos garantidos pela CLT, nenhum deles é filiado a sindicato, e ainda assim os três estão numa situação muito melhor que qualquer empregado brasileiro “protegido” por nossas leis trabalhistas jurássicas. A livre negociação entre empresários, empregados e prestadores de serviço é extremamente saudável para a economia e para as pessoas que querem apenas ganhar a vida de forma honesta.

Fica a pergunta: quando é que você, brasileiro, recebeu em sua casa três imigrantes de lugares tão distintos, todos felizes por terem encontrado um lugar melhor para viver e donos de seus próprios meios de sustento?

O Brasil nunca foi um lugar dos mais amigáveis para negócios, mas na década petista a coisa só tem piorado. Nossa posição nos rankings de liberdade econômica e de facilidade de abertura de empresas tem caído ano a ano, e sempre estamos em companhia dos países mais fechados do planeta. Mesmo assim nosso povo é empreendedor e muita gente insiste em arriscar tudo na abertura de negócios. Que potência poderíamos ser se essas pessoas tivessem, no mínimo, uma ajuda do governo brasileiro: a de não atrapalhar.

 

Flavio Quintela é autor do livro “Mentiram (e muito) para mim”