A mágica do Natal

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 24 de dezembro de 2015.

Nossa natureza humana e o hedonismo tão presente em nosso tempo podem nos levar a acreditar que ter prazer é o grande propósito da vida. E costumamos transportar essa necessidade a tudo o que fazemos, inclusive a datas comemorativas como o Natal: alegria, presentes, celebração e otimismo são a tônica das festas de fim de ano.

Mas 2015 não termina com muitas razões para ser celebrado. É claro que cada um de nós tem suas conquistas no âmbito pessoal – alguns se casaram, outros tiveram filhos e outros mais se graduaram –, mas, no geral, o Brasil não tem sido motivo de esperança para ninguém. A sequência de acontecimentos e fatos ruins é grande demais para um período tão pequeno. Se alguém se dispuser a fazer um levantamento de tudo o que foi publicado na mídia relativo a escândalos de corrupção, piora da economia, desemprego e violência, só para citar quatro pontos, verá que a quantidade de material é mais que suficiente para encher uma década inteira, quanto mais um ano.

Sim, 2015 cansou. Cansou tanto que quebrou até essa necessidade de prazer, e deixou o Natal desprovido de qualquer sentido terreno. Vimos, durante o ano todo, o pior que se pode esperar da humanidade: mentiras, falcatruas, conchavos, subornos, desrespeito, ódio, incompetência, desonestidade, insensatez, egoísmo, torpeza, falsidade, crueldade; e tudo bem debaixo de nossos narizes.

natal-presepio_74847No meio de tudo isso o verdadeiro Natal se destaca sobremaneira. A entrega de um Deus perfeito em prol de uma humanidade imperfeita ganha ainda mais brilho num lugar tão marcado pela imperfeição como o nosso país. Se é verdade que buscamos o divino quase que exclusivamente nos momentos de adversidade, a mensagem natalina vem em boa hora. Despidos de motivos gerais de celebração, comemoremos o Natal pelo que ele realmente é: o surgimento da única esperança real de redenção do homem. É hora de lembrar do que aconteceu de melhor na história do mundo.

É claro que, no dia 26, Dilma continuará presidente, o PT continuará no poder, o PSDB continuará fingindo ser oposição, a honestidade continuará em baixa, o país continuará falido, a inflação continuará crescendo, a violência continuará a aumentar, as escolas continuarão a formar analfabetos e os hospitais públicos continuarão com gente nos corredores. Nem a mágica mais fantasiosa já imaginada pelo homem seria suficiente para consertar o Brasil num piscar de olhos. Mas a mágica do Natal é real e muito mais simples e efetiva. “Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu, e o principado está sobre os seus ombros, e se chamará o seu nome: Maravilhoso, Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz.” Que a misericórdia divina, materializada no primeiro Natal, esteja sobre o povo brasileiro.

Aproveito para desejar a todos os meus leitores um ótimo e abençoado Natal. Nos vemos aqui antes da virada do ano.

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

Restou-nos o Pelé

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 26 de novembro de 2015.

PELE_PeléQuem nunca viveu um pouco da rivalidade Brasil-Argentina? É no futebol que ela se manifesta com mais evidência, e ainda hoje os hermanos insistem em dizer que Diego Maradona foi melhor que Pelé (delírio deles, é claro). Mas, futebol à parte, essa rivalidade acabou se tornando realidade também na política, e da pior forma possível: uma competição de quem faz o governo mais populista e mais bolivariano. A briga foi acirrada durante todos esses anos, com os Kirchner se mantendo no poder por nada menos que 12 anos na Argentina, e o PT governando o Brasil pelos últimos 13. Ambos os governos mantiveram proximidade com regimes autoritários como os da Venezuela e de Cuba, ambos aparelharam seus tribunais superiores com juízes ideologicamente alinhados, ambos caminharam em direção à supressão de direitos e liberdades básicas dos cidadãos.

No ano passado tivemos nossa chance de deixar os argentinos para trás, mas em vez disso conseguimos eleger Dilma Rousseff para mais um mandato, o qual parece ter cada vez mais chances de ser levado até o fim. Eles, por sua vez, deram o primeiro passo para sair do buraco em que se encontram ao recusar a continuidade do governo de Cristina Kirchner, que seria levada a cabo através do candidato Daniel Scioli. Mas a população argentina reagiu nas urnas, e elegeu Mauricio Macri, ex-presidente do Boca Juniors e representante de uma frente de centro-direita que resolveu fazer uma oposição de verdade ao governo Kirchner – bem diferente do que o PSDB fez nas últimas 2 disputas presidenciais.

Macri não poderia ter feito uma declaração melhor em suas primeiras entrevistas após a divulgação do resultado: ao dizer que lutará pela suspensão da Venezuela do Mercosul já na próxima reunião de cúpula do bloco, ele sinaliza um posicionamento totalmente distinto em relação ao regime autoritário de Maduro, distancia-se do PT, distancia-se de Evo Morales, e passa a agir como nós esperávamos que o Brasil agisse se tivesse um governo que preza pela liberdade. Nunca é demais lembrar que Maduro perseguiu e matou manifestantes desarmados nas ruas de Caracas, e que mantém presos, em regime de completo isolamento, líderes oposicionistas cujo único crime foi o de terem expressado suas posições políticas abertamente.

Parabéns e obrigado ao povo argentino por ter combatido a onda bolivariana que pretendia pintar o continente de vermelho. Os quatro cavaleiros do apocalipse sul-americano – Lula, Chávez, Morales e Kirchner – e suas duas mulas substitutas – Dilma e Maduro – perderam uma batalha importante. Tivesse o Brasil eleito Aécio Neves, o projeto de poder do Foro de São Paulo teria recebido um golpe mortal com a eleição de Macri. O novo presidente herdará um país em situação difícil – o governo Kirchner seguiu à risca a agenda de esquerda, resultando em crise econômica, deterioração das instituições, supressão de liberdades individuais e corrupção, entre outros males. Aplica-se aqui a velha metáfora do navio que navega para o destino errado: para mudar sua direção não basta desligar os motores, pois a inércia é grande demais e, quanto maior a massa, maior a inércia. A Argentina tem condições de se recuperar em muito menos tempo que o Brasil, que ainda tem pelo menos três anos de má administração pela frente. Se Macri conseguir realizar as reformas que seu país precisa, quando Dilma sair do Planalto o Brasil já não jogará mais na mesma divisão da Argentina. Aí, só nos restará o Pelé.

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

Altruísmo e confiança: escassez devastadora

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, edição de 22 de julho de 2015.

Governado há mais de 20 anos por políticos de esquerda, o Brasil atingiu um estágio perigoso de escassez de algumas condições básicas para a manutenção de uma sociedade ordenada e funcional; entre elas, o altruísmo e a confiança.

A confiança é a base de todos os contratos e acordos firmados entre os membros de uma sociedade. Um ser humano, para viver, precisa interagir economicamente com os outros, através da compra, venda e troca de bens e serviços, e essas interações só são possíveis se as partes confiarem suficientemente umas nas outras a ponto de arriscar uma transação. Na falta desta confiança básica, as pessoas sentem medo de sair perdendo, e tudo o que antes era feito “no fio do bigode” passa a exigir quantidades enormes de verificações e autenticações que adicionam custo aos processos econômicos e desgosto aos cidadãos respeitadores da lei. As empresas, por sua vez, também precisam modificar suas políticas para não acumular prejuízos, rebaixando todas as pessoas honestas ao nível de possíveis aproveitadores.

Gerson-Vila-RicaO papel da agenda de esquerda neste processo degradante é bastante claro: ao estimular a dependência do Estado e enfraquecer a responsabilidade individual, o governo assume cada vez mais o papel de intermediador da confiança e de regulador da honestidade, algo para o que não tem vocação e nem capacidade. O processo se propaga a cada geração de forma cumulativa, e não se restringe apenas à confiança básica – o altruísmo padece tremendamente sob a ideologia de esquerda.

As políticas assistencialistas implementadas no Brasil nas últimas duas décadas são totalmente opostas ao altruísmo genuíno. Em vez de estimular as pessoas a ajudar o semelhante necessitado, elas acabam “terceirizando” a caridade feita localmente, a qual possui inúmeras vantagens sobre o assistencialismo estatal:menos intermediação, maior controle sobre quem precisa ou não ser ajudado e conexão real entre quem doa e quem recebe. Além disso, há um abismo moral entre a doação voluntária e o assistencialismo feito com dinheiro confiscado, aquele que os governos costumam chamar de arrecadação de impostos. E, por último, ações locais de altruísmo não compram votos; programas de ajuda governamental sim.

Novamente, o efeito cumulativo é inevitável. Quanto mais gente é atendida pelos programas do governo, maior é o custo dos mesmos; ao mesmo tempo, diminui-se o número de pessoas economicamente ativas, o que eleva a carga tributária sobre os que produzem, que por sua vez deixam de fazer a caridade local e pessoal por falta de recursos e porque “o governo já está fazendo”. E, por mais que os governos insistam em dizer que seus programas tiram as pessoas da miséria, o número de inscritos só faz aumentar: não há porta de saída, somente de entrada.

O desenvolvimento da confiança básica e o aprendizado do altruísmo, que deveriam ser um passo importante na conquista da competência adulta, estão em extinção na juventude brasileira. A criança e o adolescente de famílias necessitadas aprendem que podem e devem contar com o governo para cuidar de suas mazelas. Salvo se instruídos em algum momento de suas vidas por alguém que lhes exponha a verdade, tornar-se-ão adultos dependentes da ajuda estatal e desconfiados de qualquer um com condições econômicas mais favoráveis. Nas famílias não necessitadas, a lição será diferente: ser bem sucedido e cumprir a lei tem uma punição, a de ter seu dinheiro confiscado e entregue a alguém que você não conhece. E isso tudo se você conseguir sair de casa e dar um passo sem achar que vai levar uma rasteira de seu semelhante na próxima esquina.

Não bastava sermos o país dos Gérsons; somos agora um país de Gérsons egoístas e dependentes. Fomos transformados numa nação de crianças mimadas.

Flavio Quintela é escritor e tradutor de obras sobre política e filosofia, e autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

O Brasil ainda não é Sodoma e Gomorra

Uma das histórias mais conhecidas da Bíblia é a de Sodoma e Gomorra. Dizem as escrituras que essas duas cidades chegaram a um nível tão grande de depravação moral, maldade e vileza que Deus resolveu destruí-las por completo. Antes, porém, de concretizar seus planos, Ele avisa a Abraão para que este tenha tempo de tirar de lá sua família – seu sobrinho Ló, sua esposa e filhas.

Uma parte muito interessante da narrativa bíblica é a conversa entre Deus e Abraão. Este, movido de compaixão pela iminente destruição das cidades, começa a indagar a Deus se Ele pouparia as cidades caso houvesse 50 justos morando nelas. Deus diz que sim, que as pouparia pelos 50. Abraão continua, e reformula a pergunta, agora com 30 justos. A resposta de Deus continua a mesma. Ele insiste mais uma vez, baixando o número para 20, e obtém a mesma resposta. Por último, já se desculpando por ser tão chato, ele pergunta a Deus se Ele pouparia as cidades caso houvesse 10 justos nelas. Deus responde novamente que sim, que não as destruiria por causa desses dez. A narrativa deixa claro que não havia nem dez justos em Sodoma e Gomorra – depois que Abraão tira Ló e sua família de lá as cidades são destruídas com fogo que cai dos céus, e todos ali perecem.

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O Brasil não está longe de ser Sodoma e Gomorra. A maldade e a corrupção tomaram o país de uma forma tão completa e avassaladora que as pessoas de bem, as que lutam por princípios de justiça e verdade, sentem-se presas, sufocadas, desesperadas em meio a tantos escândalos, mortes, assassinatos, injustiças e mentiras. O sentimento geral é de desânimo e cansaço, de basta, de chega, de não aguentamos mais. Sim, estamos perto de uma falência completa, tanto financeira como moral, estamos por um fio. Vemos a nossa pátria sendo afundada e destruída por esse partido canalha que se apossou do poder, e lutamos do jeito que podemos para tentar salvar nossa terra.

Mas o Brasil ainda não é Sodoma e Gomorra! Longe de mim dizer que sou um justo, na concepção de justiça divina. Não, não sou. Sou um homem que falha e erra, como todos os outros. Mas de forma alguma sou como esses psicopatas e criminosos que ocupam desde a Presidência da República até os cargos mais baixos do governo petista. Eles são o que já vimos de pior num ser humano: vis, invejosos, assassinos, ladrões, mentirosos, cheios de ódio; lutam ao lado da injustiça, não se cansam de fazer o mal e de faltar com a verdade. Se o Brasil fosse inteiro como eles, já teríamos deixado Sodoma e Gomorra para trás há muito tempo.

Hoje é um dia histórico. O povo brasileiro que ainda acredita no Brasil está nas ruas neste momento. Mais de um milhão de pessoas já estão na Av. Paulista, em São Paulo, onde acontece o maior de todos os movimentos marcados para 15 de março. Em outros lugares a coisa aconteceu de forma semelhante, em menor volume, mas com a mesma mensagem: não suportamos mais o PT e Dilma Rousseff. É o clamor das pessoas de bem, dos trabalhadores verdadeiros, das famílias; é o clamor de brasileiros e brasileiras que vestem o verde, o amarelo, o azul e o branco, e repudiam com todas as suas forças o vermelho do PT, do comunismo e da morte. Nossa cor é a da bandeira, nossa inspiração é a Pátria, nossa voz é a do povo.

Não queremos ser Sodoma e Gomorra, nem Venezuela, e nem PT. Queremos ser Brasil. E, ainda que Deus não seja brasileiro, queremos mostrar para Ele que somos milhões de razões para que Ele nos poupe do pior dos destinos.

À luta, Brasil!

Flavio Quintela é escritor e tradutor de obras sobre política e filosofia, e autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e “Mentiram para mim sobre o desarmamento“.

 

 

Distopia é nosso sobrenome

utopia-distopiaA definição mais fácil de distopia é uma utopia negativa. É claro que, para entender tal definição, é necessário saber o que é uma utopia, que é nada mais do que a ideia de um mundo ideal e perfeito (e inexistente, por consequência). Há distopias famosas, como 1984, de George Orwell, e Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, obras em que os autores imaginaram um mundo onde a liberdade e a privacidade são nada mais do que lembranças de tempos remotos, e onde o coletivismo burro e o autoritarismo estão praticamente onipresentes em toda a sociedade.

Quem tem um mínimo de apreço pelas liberdades individuais termina de ler essas obras com um frio na barriga, um arrepio só de pensar que o mundo pode caminhar para um futuro assim. O arrepio é justificado, pois não só o mundo caminha para esse tipo de realidade distópica, como há um lugar em que ela já foi plenamente estabelecida: o Brasil. Acha um exagero dizer isso? Então continue comigo por mais alguns parágrafos; acompanhe meu raciocínio.

Quando penso numa sociedade ideal, utópica, vejo as pessoas podendo exercer suas liberdades sem medo. Vejo gente se expressando livremente, sem ninguém para censurá-las. Vejo os criminosos sendo presos, julgados e condenados. Vejo um governo que não interfere nas decisões e nas vidas das pessoas. Vejo cidadãos responsáveis por seus destinos. Vejo a proteção à privacidade e às escolhas individuais. Vejo o cultivo da verdade e da honestidade como um princípio dos mais elevados. Vejo a valorização do pensamento crítico e o uso da racionalidade. Vejo a busca pelo ideal limitada ao divino, e a certeza de que sozinhos não somos capazes de traçar padrões de conduta suficientemente bons para pautarem a humanidade.

Quando olho para o Brasil não vejo nada disso. Vejo as liberdades sendo removidas dia após dia. Vejo que não podemos mais nos expressar livremente, pois algum “policial” do politicamente correto virá com sua condenação pronta, endossada por uma mídia tacanha e mal intencionada. Vejo que a maioria dos criminosos está livre, os que são julgados não são presos, e os que são presos acabam soltos. Vejo um governo que muda as regras do jogo a cada momento, que brinca com a vida das pessoas, que rastreia cada centavo gasto por elas, que busca saber tudo sobre cada um de nós, ao mesmo tempo que esconde o máximo que pode sobre si. Vejo cidadãos desprovidos de responsabilidade, encostados em programas sociais, dependentes de esmolas oficiais, irresponsáveis e acostumados a jogar a culpa por seus atos falhos em qualquer pessoa que não eles mesmos. Vejo a privacidade se extinguindo, o olho do Estado em todos os lugares, a interferência das pessoas nas vidas das outras, a vigilância mútua incentivada pelo governo, a condenação das conquistas individuais em nome do coletivismo medíocre e o combate irracional a tudo o que não tem a grife “social” no nome, como se a sociedade não fosse composta de indivíduos. Vejo a valorização e a oficialização da mentira, despejada pelos mandatários da nação em programas de rádio e televisão, contadas sem nenhuma vergonha ou constrangimento, ditas num dia e desmentidas logo depois; e vejo essa cultura mentirosa arraigada na sociedade brasileira, no jeitinho, no tirar vantagem, no amigo que conhece um amigo. Vejo a perseguição ao pensamento crítico, o desprezo pela virtude, o ódio ao mérito, o culto aos prazeres mais animais e carnais, o desdém pela intelectualidade, a exaltação da ignorância e a coroação dos medíocres. Vejo a busca por tudo o que existe de mais baixo na alma humana, e a ridicularização do divino como conduta padrão de todos os que se dizem progressistas e a favor de um suposto e inexistente bem maior.

Fomos reduzidos a selvagens, cuja maior expressão de individualidade é lamber a própria bunda. Nosso intelecto foi subjugado por nossas perversões, e nos tornamos um povo sem princípios, sem respeito e sem memória. Parece realmente que decidimos reverter o processo evolutivo e caminhar de volta aos tempos do paleolítico, deixando para trás qualquer traço de civilização que um dia tivemos. Como dizem por aí, nas redes sociais, o Brasil não corre nenhum risco de dar certo. Infelizmente.

Flavio Quintela é escritor e tradutor de obras sobre política e filosofia, e autor do livro “Mentiram (e muito) para mim”.

Era Eva brasileira?

Existe uma expressão muito comum entre os juízes e promotores de justiça americanos, empregada quando a acusação tenta usar provas obtidas de forma ilegal. Por exemplo, se um policial consegue apreender a arma utilizada num crime através de uma busca e apreensão sem mandado judicial, esta arma não poderá ser usada pelos promotores para compor o caso de acusação, pois isso seria comer do fruto proibido.

frutoEste conceito diz muito sobre o modo com que um povo faz suas coisas. Afinal, ele é justamente o oposto do terrível “os fins justificam os meios”. Comer do fruto proibido é negar o conjunto de regulamentos que torna a sociedade um lugar minimamente decente de se viver. Quando os fins justificam os meios, tudo é possível, e todas as atrocidades são permitidas em nome de um bem maior. Foi assim que Stálin, Mao, Hitler e tantos outros conseguiram assassinar tanta gente, convencendo as pessoas de que em prol de um “bem maior” tudo é justificável, até mesmo a morte de milhões de pessoas.

O Brasil, infelizmente, não é um país onde se evita o fruto proibido. Na verdade, parece que quanto mais proibido, mais se come dele. A declaração do sambista Neguinho da Beija-Flor, dada ontem à Rádio Gaúcha de Porto Alegre, exemplifica muito bem o que estou dizendo. Disse ele:

Se hoje temos o maior espetáculo audiovisual do planeta, agradeça à contravenção.

Ele se refere à história dos desfiles cariocas, que na época em que eram organizados pelo poder público eram extremamente desorganizados (como quase tudo o que o poder público faz no Brasil), mas que passaram a ser o espetáculo que são depois que os contraventores se juntaram e assumiram a organização da festa. Mas, afinal de contas, o que é uma contravenção quando o resultado é tão espetacular, não é mesmo? Uma escapada aqui, um “debaixo dos panos” ali, e de fruto proibido em fruto proibido nós construímos um país de bandidos, onde qualquer fim, por mais banal que seja, justifica todos os meios. E assim vamos criando e elegendo Lulas, Dilmas, Sarneys, Renans e Collors, e afundando cada vez mais em nossa falta de princípios e moral.

Nunca acreditei que Deus fosse brasileiro, como dizem. Já Eva…

 

Flavio Quintela é escritor e tradutor de obras sobre política e filosofia, e autor do livro “Mentiram (e muito) para mim”.

Brasil x Botswana

O senso comum esquerdista costuma colocar os países desenvolvidos e capitalistas como exploradores, uma boa parte do restante do mundo como explorados, e a maioria dos países da África como pobres-nações-mega-exploradas-e-sem-esperanças. É a velha mentira da economia de soma zero, onde afirma-se que para alguém ser rico outro alguém tem que ser pobre.

Já o senso comum conservador é o de que qualquer nação que abrace certos princípios de liberdade individual e econômica, e opte por uma forma democrática e estável de governo, estará no caminho para o desenvolvimento e para a superação da pobreza. Um caso emblemático deste tipo de abordagem ficou famoso duas décadas atrás, com os chamados “Tigres Asiáticos”, que conseguiram um salto de desenvolvimento e de criação de riquezas sem precedentes na história recente.

Mas seria possível que algo assim acontecesse num lugar como a África, um continente que de acordo com todos os socialistas, comunistas e esquerdistas que conheço, foi destruído pela exploração conduzida por homens brancos malvadões? E mais, se tal lugar existisse, seria possível compará-lo ao Brasil, país que caiu nas mãos da esquerda há mais de duas décadas e que, portanto, não pode alegar estar sendo explorado por governantes capitalistas diabólicos?

A resposta é sim, e eu sugiro compararmos Brasil e Botswana.

O Brasil tem mais de 8 milhões e meio de quilômetros quadrados, e uma linha costeira das maiores do mundo. É também abundante em água doce, tem poucas zonas desérticas, e uma das maiores áreas cultiváveis do planeta. Além disso, desde o meio do século passado conta com um parque industrial e com uma infra-estrutura de energia e transporte que, se não é a ideal, está longe de ser desprezível. Independente desde 1822, o país já teve sete constituições e algumas rupturas da ordem democrática.

Botswana tem apenas 580 mil quilômetros quadrados, quase do tamanho do estado de Minas Gerais, e não possui acesso a nenhum oceano; pelo contrário, grande parte de suas terras é árida. Sua independência se deu em 1966, menos de 50 anos atrás. No passado foi um protetorado britânico (parece que onde esses ingleses malvados colocaram a mão as coisas andam direito) e desde sua independência não passou por nenhum tipo de instabilidade democrática, ou seja, nenhum golpe de estado ou revolução. A constituição do país data de 1966, e é a mesma até hoje.

gaborone-03-ciudad-verdeVista da cidade de Gaborone, em Botswana.

O Brasil possui um PIB per capita de US$ 11.900,00 (2011; em 1999 era de US$ 6.150,00), IDH de 0,744 e coeficiente de Gini de 51,9. Botswana possui um PIB per capita de US$ 16.200,00 (2011; em 1999 era de US$ 3.900,00), IDH de 0,683 e coeficiente de Gini de 63,0. E quanto ao índice de liberdade econômica? A nação africana ocupa uma honrosa 36a  posição, enquanto o Brasil amarga o 118o lugar – horroroso, em vez de honroso. Já sobre a liberdade de imprensa, Botswana tem um índice melhor até do que Estados Unidos e Itália, na ponta de cima da tabela, enquanto o Brasil faz companhia a países com ditaduras e governos autoritários, no extremo inferior.

O Brasil teve um surto de lucidez econômica nos governos Itamar e FHC, optando na época pela ortodoxia na condução da economia, o que nos levou à estabilidade e ao crescimento por diversos anos. Não preciso dizer que toda essa herança foi jogada no lixo pelos governos petistas, que levaram o país de volta à inflação, ao endividamento e à falta de confiança internacional. Botswana, por outro lado, tem mantido uma das mais altas taxas de crescimento econômico do mundo, com média acima de 9% ao ano, graças a uma política fiscal prudente e a um ótimo uso dos recursos naturais do país, rico em diamantes. Os sucessivos governos desde a independência jamais abandonaram as práticas de responsabilidade fiscal e o bom relacionamento com parceiros internacionais. Além disso, o ambiente para quem quer fazer negócios é excelente, com impostos baixos e incentivos reais e concretos ao empreendedorismo.

Resumindo, dentre esses dois países, aquele que optou pela ortodoxia econômica e pelos princípios conservadores está crescendo e tirando sua população da miséria, sem o emprego de programas de esmola pública. O outro, que optou pela heterodoxia (sem falar na pilantragem) econômica e pelos princípios socialistas, está estagnado, endividado e em meio a uma crise hídrica e energética, que só não será pior justamente pelo fato da economia estar parando. Os petistas alegam que trouxeram a justiça social ao Brasil, e que livraram o país de séculos de exploração; na verdade eles encheram os bolsos próprios e do partido e quebraram o país. A pequena Botswana permaneceu imune aos apelos revolucionários marxistas, mesmo incrustada numa região dita explorada, e vem gerando riqueza num ritmo muito forte, mostrando que não há herança histórica que resista a bons princípios de governança.

O tempo em que podíamos comparar o Brasil à Inglaterra ou à Rússia já ficou para trás. O que nos resta agora é tentar alcançar Botswana, torcendo para não virarmos uma Venezuela antes…

 

Flavio Quintela é escritor e tradutor de obras sobre política e filosofia, e autor do livro “Mentiram (e muito) para mim”.