Parabéns, patrão

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 14 de julho de 2016.

Esses dias estava conversando com uma grande amiga do Brasil. Ela e o marido são donos de uma empresa que vende pela internet e entrega em todo o Brasil. Ela me contava que seus últimos fins de semana têm sido dos mais chatos possíveis, pois tem passado horas e mais horas debruçada sobre a legislação tributária de diversos estados, na tentativa de minimizar legalmente os gastos com ICMS. Grandes corporações têm setores inteiros para fazer isso, mas os pequenos têm de se conformar em pagar ou estudar sozinhos. Como ela é do tipo que nunca se recusou a estudar, dá para entender todo esse esforço.

Eu já fui empresário no Brasil – tive uma franquia de idiomas por quase dez anos – e sei muito bem o nível dos desafios que um empreendedor enfrenta em nosso país. As dificuldades começam na abertura da empresa. Com muita sorte, e se toda a documentação estiver em ordem, você não consegue mover um dedo em menos de 110 dias. Estamos entre os piores países do mundo nesse quesito, à frente do Suriname e da Guiné Equatorial, mas atrás de Camboja, Haiti e Congo. No mundo civilizado – Nova Zelândia, Estados Unidos, Canadá, Holanda etc. – é possível abrir uma empresa em cinco dias ou menos.

Mas, apesar de demorar, a abertura não é a parte mais difícil. Operar num lugar onde se tributa o faturamento, e não o lucro, é tarefa para heróis. Se você for bem pequeno e suas atividades se enquadrarem, é possível ser roubado com moderação pelo Estado; ou, chamando pelo nome oficial, um roubo Simples. Quem não tem tanta sorte acaba sendo roubado sob a premissa de ser bem-sucedido; ou, chamando pelo nome oficial, roubo por Lucro Presumido. Somente se for suficientemente grande e tiver como gastar uma boa quantia mensal com contabilidade é que a empresa pode ser tributada pelo lucro real auferido. Uma barbaridade. Adicione as inúmeras declarações, licenças, autorizações, alvarás, leis trabalhistas, cadastramentos, recolhimentos, retenções e outras aporrinhações estatais e você terá um dos lugares menos propícios a se fazer negócios no planeta Terra, quiçá do universo conhecido.

A título de comparação, abri minha empresa nos Estados Unidos em 2015. Levou dois dias para obter o EIN, equivalente do CNPJ, e mais dois para fazer o cadastro estadual. O único imposto com que preciso me preocupar é o estadual, de 6,5%, que cobro apenas dos clientes da Flórida – qualquer venda feita para fora do estado é livre de impostos. A cada trimeste eu envio uma declaração de três linhas – isso mesmo, três linhas – contendo total faturado, total faturado dentro do estado e total de impostos recolhidos. Feito isso, eu autorizo a Fazenda Estadual a retirar da conta bancária da empresa o valor recolhido, e acabou. Não preciso pagar contador para isso; a única despesa que tenho com contabilidade é no fim do ano fiscal, para entregar a declaração de renda federal. Isso me custa US$ 150. Essa é a declaração em que fica demonstrado o lucro auferido ou não no ano, sobre o qual incidirá o único imposto federal. Detalhe: qualquer despesa de investimento, como compra de máquinas ou equipamentos, pode ser incluída antes do cálculo do lucro, minimizando o imposto pago e jogando mais dinheiro na cadeia produtiva.

É assim que se tira dinheiro do Estado e se coloca na mão das pessoas, sem intermediação, sem dezenas de agentes corruptos para pegar sua parte ilícita do bolo. E estou falando de um país que hoje possui uma máquina estatal gigantesca, muito além do que os pais fundadores da América sonharam para seu país. Mesmo assim, o empreendedor aqui é tratado como merece: o motor da economia, aquele que gera riqueza para o país. Hoje, conhecendo as duas realidades e as diferenças gritantes entre ser empresário no Brasil e nos Estados Unidos, só posso dizer uma coisa a cada empreendedor brasileiro que continua firme e resiliente em seu negócio: parabéns, patrão. Você merece.

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

O tapete vermelho

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 26 de maio de 2016.

Estender o tapete vermelho é uma expressão que traz à mente a sensação de que alguém importante está a chegar. O tapete vermelho é a passarela dos eminentes, dos honrados, dos homenageados; ele define, por assim dizer, o merecimento de quem pisa em sua superfície.

Mas, como acontece com todas as coisas positivas deste mundo, o governo petista também conseguiu deturpar o conceito de tapete vermelho. Em vez de estendê-lo para honrar os merecedores, o governo Dilma o fez para encobrir falcatruas e rombos quase incalculáveis. A presidente impedida era como um glutão estabanado, daqueles que vê uma mesa cheia à sua frente e não consegue parar de comer e de derrubar restos e migalhas ao seu redor. E sua equipe de governo era como os faxineiros preguiçosos da casa, varrendo os restos caídos para debaixo do enorme tapete vermelho da desonra. Bastou entrar um novo inquilino para perceber duas coisas: o tapete já estava alto, de tanta sujeira varrida para debaixo dele; a casa estava cheirando à podridão, por conta da porquice sem fim da turminha do PT.

Há muitas metáforas que podem ser usadas para o finado governo. Podem ser comparados a ratos que invadiram a despensa das finanças públicas, a inquilinos de péssimo caráter que ocuparam a casa do povo brasileiro, a ganhadores da loteria que gastaram pensando que o dinheiro jamais acabaria, ou a crianças mal-educadas que se lambuzaram com o pote de doce roubado do vizinho. Mas nenhuma delas conseguirá passar o estado real de coisas ao qual nosso país foi submetido. Para isso seriam necessários muitos anos de investigação, devassas minuciosas nas contas públicas do período e uma força-tarefa que nem todas as empresas de consultoria do mundo, juntas, talvez conseguissem fazer.

Michel Temer, na impossibilidade de realizar tudo isso, começa seu governo com boas medidas objetivas de governança. Começa, na verdade, a fazer o que qualquer administrador mediano faria: limitar as despesas para tentar sair – um dia, quem sabe, num futuro distante – do cheque especial. A aprovação da nova meta fiscal para 2016 pelo Congresso Nacional mostrou que o novo governo entende que o dinheiro do Estado não nasce em árvore e não é infinito; as críticas feitas por políticos da nova oposição mostraram que PT, PCdoB, PSOL et caterva continuam acreditando em Papai Noel e em Saci Pererê.

Em outra frente, o novo governo tenta recuperar o terreno perdido na diplomacia. Parece que José Serra está disposto a deixar uma marca incisiva na condução das relações exteriores. Não acredito ainda que possamos nos livrar de vez do Mercosul, mas tê-lo devidamente colocado no ostracismo é algo que consigo enxergar sob a gestão de Temer. Com um pouco mais de otimismo dá até para crer que alguém na nova equipe terá a ideia brilhante de tentar um tratado comercial com o maior parceiro econômico do planeta, os “estadunidenses imperialistas”, como diria aquele seu professor de história boçal. Talvez seja bom se Serra tiver umas conversas com o pessoal da Colômbia, do Peru e do Paraguai, que já entenderam que o Mercosul está para os tratados comerciais assim como o Esperanto está para os idiomas em uso.

Quanto ao tapete, Temer terá de comprar um novo. Tem manchas que simplesmente não saem mais, nem com aqueles produtos miraculosos do 1406. A sujeira dos governos Lula e Dilma só tem um destino viável: o aterro sanitário.

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

Uma pedra chamada Dilma

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 19 de maio de 2016.

Poucos dias depois da eleição de 2014, sofri com dores terríveis na região lateral lombar. Após uma tomografia e algumas radiografias, o diagnóstico foi de pedras no rim. Algumas pedras pequenas e uma bem grande, de 7 milímetros, alojada no rim direito. O médico brincou, disse para eu dar um nome para a grandona. Eu levei a brincadeira a sério e lhe dei o nome de Dilma.

Dilma me acompanhou desde então, causando muita dor e desconforto. Ela me fez voltar cinco vezes ao hospital, me fez urinar sangue e suar frio, e me impediu de trabalhar por vários dias. Dilma me fez gastar um dinheiro que eu não queria ter gasto, me fez perder um tempo precioso, me desequilibrou nos dias de dores mais fortes e acabou trazendo sofrimento para toda a minha família. Ninguém aqui em casa queria a Dilma, ninguém fez nada para colocá-la na posição em que estava, mas mesmo assim ela continuou implacável, com um único objetivo em sua vida de pedra: nos prejudicar.

Com o passar dos meses, Dilma foi descendo. Saiu do rim e começou seu trajeto rumo à excreção. No meio de 2015 ela estava a 7 centímetros da bexiga. O médico recomendou o que todos recomendam para expelir uma pedra desse tamanho: tomar muita água, água em quantidades diluvianas. O duro é que eu não gosto de beber água. Gosto de Coca-Cola, suco de maçã, limonada, chá gelado, vinho, Gatorade, mas água mesmo eu peno para beber. Assim, minha falta de atenção à recomendação médica fez com que Dilma demorasse muito mais para fazer seu trajeto.

Chegamos a maio de 2016, e Dilma aprontou mais uma. Passei o final de semana com dores fortes, e fui novamente ao médico. A famigerada está na curvinha do ureter, pertinho da bexiga. Ela fez um longo caminho de descida desde que foi alçada ao posto de presidente das minhas dores, e agora está a um passo de sofrer o impeachment deste corpo. Num esforço final para obter todos os votos, estou bebendo mais de 5 litros de água por dia. É um negócio brutal, você tem que ir ao banheiro uma vez por hora, tem que ingerir mais líquidos que um camelo no Saara, mas tenho certeza de que terá valido a pena quando eu finalmente vir Dilma a caminho do esgoto. Na verdade, eu até gostaria de castigá-la mandando-a descarga abaixo, mas o médico disse que preciso capturá-la para estudos, pois assim podemos saber como evitar a formação de futuras Dilmas.

E assim segue a votação apertada em meu corpo. Até o momento não conseguimos todos os votos de que precisamos, mas temos uma nova articuladora em campo, a excelentíssima tansulosina. Ela promete alargar os caminhos para que Dilma possa sair mais facilmente. Tem seus possíveis efeitos colaterais, mas ainda prefiro um remédio imperfeito a uma dor perfeita. De acordo com o médico, se isso não funcionar teremos que tentar algo mais invasivo e mais complicado, uma explosão a laser através de cirurgia, o tipo de golpe revolucionário que não gostaria de ter em meu organismo.

Assim, estou na torcida e na confiança de que minha Dilma sairá em breve. Cheguei a desanimar por um tempo, até que me disseram que uma outra Dilma, a de um caso bem mais grave que o meu, acabou saindo depois de muito esforço e paciência. É com essa esperança que termino este artigo. E peço licença, pois preciso beber mais água.

PS: A pedra saiu às 20h40 de quarta-feira, 18 de maio de 2016.

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

A presidente de Schroedinger

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 12 de maio de 2016.

O físico Erwin Rudolf Josef Alexander Schroedinger, ganhador do prêmio Nobel de Física em 1933, ficou famoso fora do contexto acadêmico por um experimento virtual chamado de “O Gato de Schroedinger”, um paradoxo que ele inventou para tentar explicar o problema da mecânica quântica aplicada à vida diária, em objetos e seres de dimensões não subatômicas.

Ele descreve o experimento da seguinte maneira: uma caixa fechada, dentro da qual há um gato, um detector de radioatividade e um frasco de veneno. Há também um mecanismo que, se ativado pelo detector de radioatividade, quebra o frasco de veneno, que por sua vez mata o gato. Schroedinger dizia que, usando a interpretação quântica de Copenhagen, como não se pode saber se surgirá ou não uma partícula radioativa a ser detectada, o gato deveria ser considerado vivo e morto ao mesmo tempo, num estado ambíguo. É claro que bastaria abrir a caixa para saber se o real estado do gato, e o experimento fictício foi uma maneira de Schroedinger criticar a interpretação de Copenhagen. Mal sabia ele que seu experimento seria comprovado no Brasil de 2016.

Temos hoje a presidente de Schroedinger, a morta-viva do Planalto. Graças a seus incansáveis companheiros de crime, Dilma vai tentando se manter no poder com manobras jurídicas e com ameaças de violência. No front jurídico ela conta com a defesa de José Eduardo Cardozo, o advogado-geral da União que se transformou em advogado pessoal de Dilma Vana. O homem que deveria defender a União passou a desempenhar o papel preferido dos políticos petistas: advogado de porta de cadeia – Better call Cardozo. No front da violência, ela conta com os bandidinhos de sempre: MST, MTST e sindicalistas pelegos. Como lhes falta coragem para um embate realmente violento e armado, esse pessoal acaba queimando pneus em rodovias, agredindo gente indefesa e tumultuando a vida do cidadão comum. Estão mais para mosquitos do que para leões.

Voltando a Schroedinger, se nosso gato é a presidente, nossa caixa é Brasília. O veneno já conhecemos, mas em nosso caso ele pode ser chamado de remédio ou de impeachment. O mecanismo, esse é mais complicado… Câmara, Senado, STF, todos fazem parte desse processo intricado que ativa o veneno e mata o gato. Olhando Brasília de fora, fica realmente a impressão de que a presidente está morta e viva ao mesmo tempo. Mas, basta fazer um furinho na caixa para perceber que ela já partiu desta para a melhor (ou pior, dependendo de Sérgio Moro).

A turma do PT age como uma criança que não suporta perder. Aliás, escrevendo isso, lembrei-me claramente de um episódio de infância que cai muito bem como ilustração. Estávamos em cinco amigos, todo mundo na faixa dos 12 anos de idade, jogando War em minha casa. Um dos garotos estava prestes a ser eliminado – só lhe restava a Austrália. Quando ele viu uma miríade de exércitos inimigos acumulados em Sumatra e Bornéu, percebeu que não resistiria à próxima rodada, arrancou o tênis do pé e jogou em cima do tabuleiro. Voaram pecinhas para todo lado, e tivemos que começar de novo (sem ele, é claro) porque ninguém conseguia lembrar onde estavam os exércitos de cada um. Tivesse ele jogado um punhado de cocô no tabuleiro, a analogia seria perfeita.

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

A lista do adeus

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 5 de maio de 2016.

Este colunista espera, do fundo do coração, que esta seja sua última coluna sob a presidência de Dilma Rousseff. Afinal, o plenário do Senado deverá votar pela abertura do inquérito contra a pior presidente deste canto da galáxia amanhã, dia 6 de abril, e a oposição tem todos os votos de que precisa para afastar a presidente por 180 dias (ou, em outras palavras, para sempre).

Assim, achei de bom tom elencar um pouco do que esse governo fez de ruim para o Brasil, caso alguém ainda pense que poderá sentir saudades. Com vocês, minha lista do adeus:

A expressão “mãe do povo” – esperamos que a mãe e o pai do povo (sim, estou falando daquele criminoso que não tem o dedo mindinho) sejam condenados e presos, e que o povo aprenda que é melhor ser órfão do que ser filho do Estado;

O PAC – em vez de acelerar o crescimento, esse grande programa de loteamento de obras superfaturadas para políticos e empresários corruptos só freou ainda mais a economia brasileira. Finalmente terá seu fim, pois o próximo presidente dificilmente manterá algo que foi vendido como o grande feito da então ministra Dilma;

Kátia Abreu – maior decepção política dos últimos anos, a senadora lambe-botas da atual presidente será finalmente defenestrada do governo. A oportunista de Tocantins terá bastante tempo para refletir sobre o que é escolher estar do lado errado da história. Sorte dela não precisar de uma bomba atômica na cabeça para isso;

Mais Médicos – será um grande alívio para os brasileiros de bem quando o governo parar de enviar dinheiro para um ditador sanguinário através deste programa de fachada. O Mais Médicos foi um dos maiores absurdos deste governo, uma imoralidade, uma vergonha para o Brasil;

O Itamaraty Vermelho – com a saída do PT do governo, ressurge a esperança de que nossa diplomacia volte a priorizar as relações com os países livres e democráticos e pare de desperdiçar recursos e de sujar nossa reputação com o apoio a ditadores pelo mundo afora;

Nunca antes na história deste país – que bom será nunca mais ter que ouvir a frase “nunca antes na história deste país” e nem comparações ridículas do tipo “mais do que nos últimos 500 anos”;

MST – embora esta organização criminosa esteja longe de ser extinta, só o fato de não poderem mais entrar e sair do Planalto quando bem entenderem, fazendo o governo de capacho, já é uma evolução. E ainda há a esperança de que o novo governo aperte o cerco e pare de financiar esses vagabundos que invadem terras produtivas e destroem centros de pesquisa de agricultura e pecuária;

Blogueiros chapa-branca – sem o financiamento do governo petista, centenas de blogueiros chapa-branca deixarão de mamar nas tetas do Estado e finalmente terão de arrumar um emprego digno, um que não inclua defender criminosos e exaltar ditadores (a não ser, é claro, que consigam uma vaguinha na Folha);

Discursos sem pé nem cabeça – finalmente estaremos livres da vergonha internacional que é ver Dilma Rousseff falando em público. Será um adeus aos cachorros ocultos, às mandiocas exaltadas, aos dentifrícios retornantes e a tantas outras expressões nunca antes utilizadas por um presidente da república na história deste país e deste planeta. Pensando bem, este último ponto fica tanto como positivo como negativo, pois perderemos uma fonte inesgotável de diversão e comédia.

Enfim, Dilma já vai tarde, tarde demais. Ela sai deixando o país na pior recessão da história e protagonizando aquele que é considerado o maior escândalo de corrupção do mundo moderno. De todos os recordes que ela poderia quebrar, escolheu os piores. Dilma Rousseff, não sentiremos saudades de você.

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

Nós somos os ratos

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 17 de março de 2016.

Laboratory rat
O brasileiro

Está confirmado, demonstrado e sacramentado: o Brasil é um grande laboratório e as cobaias somos nós. Vivemos debaixo de um experimento social macabro – no qual fomos colocados por nós mesmos através do sufrágio universal – em que somos testados dia após dia, em que nossos limites são avaliados e distendidos, em que nossa tolerância é provada com doses pequenas, mas crescentes, do veneno político.

Se um dia esse experimento tiver fim, é bem possível que o resultado seja a comprovação de que somos o povo mais covarde e bovino do planeta. O “cientista” da vez, o governo petista, não tem medido esforços para provar essa tese, que o beneficiará por muitas décadas ainda.

Tudo começou no governo Lula, o mentor do maior esquema de compra de poder da história brasileira, conhecido como mensalão. Sim, o mensalão foi mostrado, provado, julgado e condenado, e nenhum de seus principais operadores – todos criminosos condenados – permanece preso. Os meandros da lei, as manobras bandidas dos advogados de defesa e uma suprema corte majoritariamente vassala do Executivo levaram, em conjunto, ao mais absurdo dos resultados: a total e completa impunidade.

Lula não só escapou de ser investigado ou punido; ele ganhou um segundo mandato e depois elegeu sua sucessora, ou seja, ganhou um terceiro e um quarto mandatos (nota: aos que, por algum motivo inexplicável, ainda acham que o PSDB faz bem ao Brasil, lembro que foi Fernando Henrique Cardoso quem colocou panos quentes sobre o mensalão, entregando a eleição de 2006 de bandeja a Lula. Coisa de amigos, é claro).

Com o governo Dilma veio um novo recorde: o maior escândalo de corrupção da história mundial, o petrolão. Era o aumento da dose em nosso experimento. Se os ratinhos brancos aguentaram um mensalão inteiro sem maiores reações, por que não partir para algo inédito, algo marcante e “digno” de ser lembrado por gerações? Dilma Rousseff, seguindo os passos de seu antecessor, passou incólume pelas eleições de 2014 – assumindo, é claro, que o processo não tenha sido fraudado eletronicamenrte – e foi reeleita mesmo diante de todos os indícios de sua participação na grande trapaça que foi a compra da refinaria de Pasadena. Enquanto isso, a maioria dos ratinhos pulava feliz ao receber mais um pedaço de queijo bolorento.

Depois de 12 anos pilhando o país, é claro que chegou o momento da crise econômica. Nem o rei Midas seria capaz de fabricar ouro suficiente para compensar a ladroagem do petismo. O Brasil parou, e até os ratinhos mais bobinhos perceberam que estavam recebendo menos queijo no fim do dia. Será que finalmente fariam um motim no laboratório? Romperiam as gaiolas e partiriam para o ataque ao cientista louco? Afinal, são mais de 200 milhões de ratinhos e apenas alguns milhares de criminosos. Parecia que sim, mas não passava de mais um experimento. No dia 16 de março de 2016 foi aumentada a dose de teste mais uma vez, num nível que até então ninguém imaginava ser possível. Com a ida de Lula – um sujeito agraciado com um pedido de prisão preventiva e investigado por diversos crimes – para um ministério do governo, o Brasil rompeu a barreira que separa as democracias dos regimes totalitários. O golpe será completo se a emenda constitucional de autoria do senador Aloysio Nunes (ex-motorista de assalto e atual amiguinho tucano), que cria uma excrescência chamada semiparlamentarismo, for votada e aprovada nos próximos meses. Lula, que já teve dois mandatos como presidente e um como titereiro-mestre, completaria sua ascendência a ditador com uma possível nomeação a primeiro-ministro não eleito pelo povo. Ele seria o Stalin da Banânia, o Hitler carnavalesco, o Mao da cachaça, o semideus encapetado do agreste, o líder supremo que conduzirá o Brasil à miséria, mas sempre do conforto de um rei.

Enquanto isso, muitos… (clique aqui para acessar o restante do artigo na página do jornal).

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

A força de um indivíduo

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 21 de janeiro de 2016.

macriJá ouvi muitas vezes, durante conversas sobre política, que o Brasil não tem jeito, que não adianta mudar o presidente, que uma pessoa só não consegue fazer nada porque o sistema inteiro está podre etc. É claro que essas afirmações têm seus componentes verdadeiros, dado que nossa estrutura político-administrativa estimula e facilita práticas funestas como a corrupção, as trocas de favores entre os poderes e o aparelhamento da máquina pública. Mas não se pode minimizar a importância da Presidência da República nas decisões que afetam diretamente todos os cidadãos, e é justamente neste, que é o mais alto de todos os cargos eletivos brasileiros, que a força (ou fraqueza) de um indivíduo é aumentada exponencialmente.

Nossos vizinhos de continente, os argentinos, completaram um mês de governo com seu novo presidente, Mauricio Macri. Um alto membro do Banco Central argentino deu uma declaração que resume bem o nível de efetividade do novo presidente. Diz ele: “Não consigo crer: apertamos um botão e começamos a girar dinheiro. Nos últimos quatro anos dediquei uns 30% de meu tempo e energia pedindo autorizações para fazer isso; agora posso voltar a pensar em como ajudar os negócios do país a crescer”.

Outras medidas e decisões presidenciais tomadas no primeiro mês de governo foram: supressão dos impostos e cotas de exportação (os impostos chegavam a 30% do valor exportado e as cotas fixavam limites de venda de produtos agrícolas ao exterior); demissão de 10 mil funcionários públicos contratados irregularmente por Kirchner, mesmo sob uma legislação que torna a demissão quase impossível no funcionalismo público; terminação do tratado econômico com o Irã, decisão que deve levar à reabertura de uma denúncia judicial contra Cristina Kirchner, acusada de ter conseguido o referido tratado em troca de favorecer cinco agentes iranianos que participaram de um atentado a uma organização judaica em Buenos Aires; pedido de suspensão da Venezuela do Mercosul, que depois foi reconsiderado em virtude da vitória oposicionista nas eleições para o parlamento venezuelano; descredenciamento de médicos cubanos – participantes de um programa similar ao Mais Médicos – para “não financiar ditaduras”; derrubada, por decreto, da lei dos meios audiovisuais, uma das peças legislativas mais antidemocráticas do governo anterior.

Com essas e outras decisões, e com a escolha de uma equipe economicamente liberal, Mauricio Macri mostra que tem uma compreensão muito clara do poder da presidência e do poder de um indivíduo. A política argentina também é corrupta e cheia de conchavos; os últimos 12 anos dos argentinos também foram marcados pelo governo de uma única dupla; o alinhamento do país também era bolivariano; e a crise econômica também era uma realidade. É claro que… (clique aqui para acessar o restante do artigo na página do jornal).

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e Mentiram para mim sobre o desarmamento”.