O roto falando do costurado

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 24 de novembro de 2016.

Nos últimos dias houve registros de diversos protestos de brasileiros contra Donald Trump. O motivo: sua política de imigração. Eu mesmo recebi diversas mensagens de amigos e conhecidos preocupados com seus planos de vir aos Estados Unidos como turistas ou estudantes, como se o novo presidente fosse baixar uma lei marcial mandando executar todos os estrangeiros em território americano.

Para nós, brasileiros, esse tema passa longe do senso comum – é difícil analisarmos o que acontece hoje em algumas nações do mundo por causa da diferença brutal entre a quantidade de imigrantes que entram a cada ano no Brasil e nesses países. Em 2015, por exemplo, a Polícia Federal registrou a entrada de 117.745 imigrantes no Brasil, ou seja, uma relação de um imigrante para cada 1.756 brasileiros. No mesmo período, a Suécia recebeu 163 mil imigrantes, perfazendo uma relação de um imigrante para cada 60 suecos. Isso significa que a Suécia recebe proporcionalmente quase 30 vezes mais imigrantes que o Brasil.

Quando se toma o número total de imigrantes vivendo no país, a situação é igualmente díspar. O Brasil apresenta a baixíssima taxa de 0,9% da população composta por imigrantes. A Austrália tem quase 28%, a Alemanha tem 15% e os Estados Unidos, pouco mais de 14%. Até mesmo nossos vizinhos da Argentina abrigam muito mais estrangeiros que nós: quase 5% de sua população, apesar de toda a pecha de bairristas e xenófobos que os brasileiros costumam colocar sobre eles.

Esses números são facilmente constatáveis no dia a dia das pessoas: tente se lembrar de quantas vezes você viu alguém no seu bairro, no supermercado, num shopping center ou mesmo na rua falando outro idioma ou parecendo que veio de outro país. A maioria das pessoas não se lembra de ninguém, ou no máximo de um ou dois casos. Pergunte o mesmo para um americano – não precisa nem ser de Nova York, onde se ouve dez idiomas diferentes em uma breve caminhada pelas ruas da cidade – ou para um europeu, e a resposta será completamente diferente.

A beleza da imigração está justamente na mistura das culturas. Quem chega traz um pouco da sua cultura a ser incorporado na sua nova pátria, mas por outro lado procura absorver o modo de vida e os valores locais. Eu – e falo aqui como imigrante – creio que a grande maioria dos que decidem mudar de país não o faz com o intuito de transformar o novo lar numa versão de sua terra de origem. Se fosse assim, nem se mudariam. E, para que isso aconteça, é necessário que a identidade nacional seja preservada, uma tarefa que exige a presença de fronteiras e a existência e o cumprimento de leis relacionadas ao tema. Afinal, uma nação só existe dentro de fronteiras, e uma fronteira só existe se houver alguma dificuldade em transpô-la.

Acaba sendo um tanto ridícula a posição desses brasileiros que veem os Estados Unidos como uma nação xenófoba. A receptividade de americanos, alemães, franceses, canadenses, suecos e tantos outros povos à imigração é dezenas de vezes maior que a dos brasileiros. Se mal conseguimos receber turistas do estrangeiro – o Brasil ocupa uma vergonhosa 43.ª posição no ranking do turismo internacional, atrás de países como Bulgária, Vietnã e Croácia –, quão patético é apontarmos o dedo para nações do mundo que são muito mais acolhedoras que nós.

Para os brasileiros que vivem achando que somos o suprassumo da miscigenação étnica e cultural, fica o pedido: por favor, menos.

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e “Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

Uma esperança para a vida

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 17 de novembro de 2016.

O dia 22 de janeiro de 1973 não é lembrado de forma especial por muita gente, mas isso não faz dele um dos mais tristes da história da humanidade. Foi o dia em que a Suprema Corte americana, no julgamento conhecido como “Roe versus Wade”, decidiu que as mulheres teriam o direito de abortar durante os dois primeiros trimestres de gravidez. Bastou uma votação entre nove juízes para selar o destino de milhões de crianças que, nas últimas quatro décadas, foram assassinadas antes mesmo de nascer, privadas do mais básico dos direitos humanos, o de viver.

Não existe guerra na história humana que tenha matado tanta gente quanto o flagelo do aborto. Nos diferentes lugares do mundo onde essa prática cruel é legalizada, sua passagem de crime a direito dá-se geralmente sob as mais descabidas justificativas. Para seus defensores, é uma questão de saúde pública, um direito da mulher sobre seu corpo, um rompimento com o patriarcado opressor, ou todas as alternativas anteriores juntas. O aborto jamais é retratado em sua realidade crua: um procedimento assassino com requintes de crueldade e cuja execução se assemelha a um filme de terror. Pintar essa prática amaldiçoada com cores suaves é essencial para conseguir o apoio do público leigo – quem assiste a uma filmagem de um aborto geralmente não consegue chegar ao final, tamanho é o mal-estar causado pelas imagens fortes e inacreditáveis – à criação de legislações favoráveis ao assunto.

Os políticos de esquerda, seja nos Estados Unidos, no Brasil ou no resto do mundo, defendem o aborto. E costumam fazê-lo com uma naturalidade ímpar, como a agora derrotada Hillary Clinton, que em sua campanha para a presidência prometia aumentar o financiamento público a organizações abortistas como a Planned Parenthood, além de ter se posicionado em diversas oportunidades a favor do aborto sem restrição de período, aquele que pode ser realizado até minutos antes do nascimento do bebê.

A eleição de Donald Trump abriu uma possibilidade nova e revigorante para quem luta contra o aborto. Uma de suas primeiras tarefas como presidente será apontar um juiz para substituir Antonin Scalia, falecido em fevereiro deste ano. Na ocasião, a liderança do Senado americano – a casa tem maioria republicana desde 2014 – rapidamente se pronunciou contra a indicação de um novo juiz pelo presidente Obama, que certamente apontaria alguém com posicionamento à esquerda e, por conseguinte, a favor do aborto. Quando perguntado sobre quem indicará, Trump disse que escolherá alguém com o mesmo perfil ideológico de Scalia e que defenda a Segunda Emenda, aquela que institui o direito à legítima defesa e ao armamento dos cidadãos. Além disso, Trump poderá indicar outros juízes em seus quatro ou oito anos como presidente. Dos juízes da composição atual, a mais velha é Ruth Bader Ginsburg, com 83 anos. Ela e Stephen G. Breyer (78 anos) foram indicados por Bill Clinton, e costumam votar como a esquerda gosta. No evento possível da aposentadoria ou morte de um ou ambos, Trump poderia levar a corte a uma composição majoritariamente conservadora, ou seja, uma que teria a disposição de reverter a decisão de Roe versus Wade.

Apesar de este cenário possuir diversos condicionais, cresce a esperança entre os defensores da vida de que a maior potência do mundo encerre o ciclo macabro dos abortos protegidos, financiados e incentivados pelo Estado – Trump declarou mais de uma vez que cortará o financiamento da Planned Parenthood e impedirá que o dinheiro arrecadado em forma de impostos seja usado para o pagamento de qualquer tipo de aborto. Caso se confirme, essa será uma vitória de proporções bíblicas. Literalmente.

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e “Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

Eu disse

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 10 de novembro de 2016.

10112016-site-quintelaEste que vos escreve declarou, seis semanas atrás, nesta mesma coluna, que Donald Trump seria o próximo presidente dos Estados Unidos. Na ocasião, eu disse que confiava no método preditivo do professor Helmut Norpoth, que indicava a vitória do republicano justamente pelo caráter plebiscitário da eleição americana.

As eleições desta terça-feira mostraram que o povo americano rejeitou o atual governo de todas as formas. Donald Trump levou a presidência, e os republicanos mantiveram as maiorias no Congresso e no Senado. De quebra, Trump indicará um juiz para a Suprema Corte, que deverá voltar a ter maioria conservadora. Foi uma verdadeira goleada, uma que calou quase toda a mídia brasileira e internacional. Os jornais televisivos brasileiros, na manhã seguinte à eleição, mostraram âncoras, repórteres e analistas que não conseguiam acreditar no que estavam falando e estampavam em seus rostos um lamento profundo.

Mas, afinal, por que os americanos elegeram Donald Trump? É simples: porque não querem deixar de ser americanos. Esta grande nação, fundada em fortes princípios democráticos e com um apreço pela liberdade como nenhuma outra, conseguiu resistir aos golpes desferidos continuamente pela administração de Barack Obama contra os fundamentos constitucionais que têm sustentado os Estados Unidos em sua posição de liderança do mundo livre. Obama, Hillary e a grande maioria dos democratas promoveram, nos últimos oito anos, uma agenda antiamericana, tentando minar diversos pilares de sua democracia, como o direito à legítima defesa, a liberdade religiosa, a propriedade privada e a primazia do indivíduo e da família, entre outros. Sob Obama, os americanos empobreceram, ficaram mais preguiçosos, aprenderam que ninguém vence apenas com os próprios esforços e quase foram convencidos a substituir o orgulho e o patriotismo pela vergonha.

Hillary Clinton, durante sua campanha, tentou convencer o eleitorado de que faria melhor que o seu antecessor, mas suas propostas não passaram de mais do mesmo: aumentar o salário mínimo, criar direitos para mulheres e minorias, desarmar a população, aumentar a entrada de refugiados e ser leniente com os imigrantes ilegais. Talvez ela não tenha reparado que mais da metade dos americanos está mais pobre hoje do que dez anos atrás – mesmo com um salário mínimo maior –; que ninguém além dos ativistas dá a mínima para essa conversa de direitos de minorias; que os terroristas do Estado Islâmico têm tocado o terror no mundo graças ao coração mole dos estadistas ocidentais; e que os imigrantes legais são os que votam, e eles não querem nem ver os ilegais por perto. Se tentasse, ela não conseguiria ser mais dissonante com a realidade do que foi.

A beleza da vitória de Trump está justamente na reação desse povo. O americano não é predominantemente cosmopolita, muito pelo contrário. O jeito californiano ou novaiorquino de ser passa longe do americano médio, aquele que quer ter uma vida boa e simples: família, casa, carro, igreja aos domingos, um pouco de diversão e menos governo metendo o nariz onde não é chamado. É o cara que fica indignado ao ver bebês inocentes sendo assassinados com a bênção do Estado, que é altruísta em sua comunidade, que tira do seu tempo para treinar o time local de basquete, que tem orgulho de todos os combatentes e policiais da nação, que não fica com um centavo sequer de troco errado, que sai de calça de moletom, meia e chinelo porque não está nem aí para o que os outros pensam. Foram esses americanos que elegeram Donald Trump. O país é deles, e eles souberam tomar a melhor decisão possível. Deus abençoe a América.

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e “Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

 

Nota de falecimento

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 3 de novembro de 2016.

Faleceu neste domingo último o Partido dos Trabalhadores, vulgo PT, aos 36 anos de idade. A autópsia revelou a causa mortis: concussão eleitoral agravada por uma infecção parasitária generalizada. O falecido deixa um filho, Partido Socialismo e Liberdade, 12 anos de idade, e milhares de viúvas espalhadas pelos bairros nobres, redações, universidades e escolas do país.

Durante a autópsia, ao abrirem o crânio, os médicos encontraram evidências de uma malformação congênita que impede o desenvolvimento do cérebro e causa danos irreparáveis na criança. Não há ainda uma explicação de como o falecido conseguiu sobreviver até a idade adulta carregando essa condição, mas uma equipe de pesquisadores tenta no momento correlacionar esta anomalia ao local onde ele nasceu e viveu – eles esperam provar que em nenhum outro país do mundo alguém com uma condição dessas passaria do primeiro ano de vida.

Durante a abertura do tórax e da investigação das vísceras, os médicos encontraram uma quantidade de parasitas extremamente anormal, algo nunca antes registrado na história da medicina. De acordo com o médico-legista responsável, “uma pessoa não consegue viver com tantos parasitas sugando os suprimentos energéticos que deveriam alimentar todo o corpo. Esta morte era inevitável. Não existe cura para um estágio tão absurdamente avançado de infecção”.

A análise do conteúdo do estômago comprovou algo que relatos anteriores já tinham registrado: o falecido tinha um transtorno alimentar sério, e só se alimentava de dinheiro sujo. Parentes próximos disseram que, alguns anos atrás, na época do mensalão, o falecido tinha dito que iria se tratar, que procuraria uma clínica e ajuda psicológica, mas que tudo não passou de encenação. O hábito vicioso de se alimentar com dinheiro sujo causou uma falência do sistema gastrointestinal, além da destruição do fígado por toxinas. Nem mesmo uma equipe de médicos cubanos, especialista no assunto, foi capaz de salvar o moribundo.

O infortúnio familiar se completou com a notícia de que o filho do falecido (conhecido pelos amigos como PSol) se encontra em coma, respirando por aparelhos. Os médicos dizem que o menino apresenta uma malformação congênita semelhante à do pai, e que suas chances de sobrevivência são muito pequenas. De acordo com os registros médicos, PSol apresenta um índice de crescimento negativo – está menor aos 12 anos de idade do que era aos 8 – e sofreu um trauma extenso durante sua última viagem ao Rio de Janeiro. Uma fonte sigilosa de dentro do hospital disse que “estão tentando esconder, mas o menino já está morto”.

Enquanto isso, milhares de viúvas choram inconsoláveis, principalmente depois de terem descoberto que o falecido deixou apenas dívidas, e que não haverá mais mesada para nenhuma delas. Curiosamente, consultórios de psiquiatria da zona sul do Rio de Janeiro apresentaram um aumento de 80% em número de pacientes. Houve também diversos atendimentos a suicidas feitos pela linha de emergência da polícia, muitos deles usando nomes de artistas brasileiros famosos. O delegado responsável não quis se pronunciar sobre o caso quando perguntado se os suicidas eram realmente artistas famosos ou se apenas usaram os nomes para ocultar sua identidade. Disse ele: “Não vou comentar sobre o caso, não vou confirmar para vocês que são artistas de verdade, porque minha mulher não vive sem novela. Entendam o que quiserem”.

O enterro está marcado para 1.º de janeiro de 2017, em local ainda a ser divulgado.

Sem mais.

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e “Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

Brazil Bizarro

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 27 de outubro de 2016.

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O Mundo Bizarro é um lugar bem conhecido daqueles que acompanham os quadrinhos da DC. É um planeta chamado htraE (Earth de trás para frente), quadrado em vez de redondo, onde tudo acontece ao contrário do que aconteceria na Terra: a feiúra é exaltada em vez da beleza, o objetivo dos empresários é perder dinheiro em vez de ganhá-lo, Aquaman não sabe nadar, Flash é o homem mais lento do mundo e Batzarro (o Batman de lá) é o pior detetive do mundo.

Quem quiser conhecer um mundo bizarro fora dos quadrinhos pode vir ao Brasil. Nós somos, sem sombra de dúvida, um país onde as coisas todas acontecem ao contrário. É no Brasil que os cidadãos são proibidos de portar um revólver sequer, enquanto os criminosos fazem uso de armamentos mais poderosos que os do Exército. É no Brasil que uma pessoa de bem, respeitadora da lei, é processada por homicídio por salvar seus familiares das mãos de criminosos, enquanto bandidos condenados e presos são soltos para passar o Natal com a família. É no Brasil que a presidente da República perde seu mandato, mas não perde os direitos políticos.

Mas é na área da educação que o Brasil consegue ser o mais bizarro dos lugares bizarros. Afinal, em que outro lugar o Estado aloca R$ 60 bilhões anualmente para a educação pública e consegue a façanha de ocupar as últimas posições em todos os exames comparativos entre alunos do mundo todo? Em que outro lugar o Estado investe em universidades públicas gratuitas e faz um trabalho porco no ensino básico e médio? Em que outro lugar os alunos saem quase analfabetos da escola, e apenas 8% deles atingem a proficiência na língua portuguesa? Em que outro lugar apenas 16% dos profissionais da educação possuem alto nível de alfabetização?

As ocupações de escolas em protesto contra a PEC são a cereja do bolo de nossa bizarrice. A situação parece até fictícia: alunos semianalfabetos, parte de um sistema educacional falido e ideologizado, ocupam escolas para protestar contra algo que não fazem a mínima ideia do que seja. Como escrevi nesta mesma coluna, na semana passada, a PEC 241 é de uma lógica e coerência ímpares no cenário legislativo brasileiro, e qualquer pessoa dotada de uma capacidade mediana de interpretação de texto, de um conhecimento básico da realidade brasileira e desprovida de uma agenda ideológica chegará à conclusão de que não há nada de errado com a proposta, e de que ela não afetará as verbas alocadas para a área educacional. Mas os nossos alunos, que passaram mais tempo aprendendo a colocar preservativos em pênis do que decorando a tabuada, e que não conseguem escrever um texto de duas linhas sem cometer menos de dez erros, acham que estão aptos a opinar e a agir contra essa rara iniciativa de boa administração pública. Inflamados muitas vezes por professores cujo objetivo único de estar em sala de aula é transmitir sua doutrina política, esses meninos e meninas, na grande maioria incapazes de entender um texto curto de jornal, agem como se fossem especialistas da lei e salvadores da pátria.

No mundo normal, a polícia entraria nas escolas, tiraria os baderneiros e instauraria a ordem. No Brasil Bizarro, ninguém faz nada, nem mesmo quando os alunos se matam dentro das escolas. No mundo normal, os pais ensinariam aos filhos os valores morais e teriam aquela conversa sobre sexo quando achassem apropriado; a escola, por sua vez, daria a base intelectual – a língua materna em sua forma culta e as ciências naturais. No Brasil Bizarro, o Estado quer falar de sexo desde o ensino primário, os alunos passam de um ano para o outro sem saber o que é uma prova ou avaliação, e escrever errado não passa de uma outra realidade cultural.

Todos os países que passaram por grandes surtos de desenvolvimento tiveram uma coisa em comum: um investimento inteligente e efetivo em educação. Quando eu estava na escola, pública por sinal, era a vez dos Tigres Asiáticos. A Coreia do Sul era o caso mais incrível: de país pobre a país desenvolvido em apenas duas décadas. O contrário também é verdadeiro. Os Estados Unidos têm feito as mesmas apostas erradas do Brasil – as universidades americanas são hoje um celeiro de professores marxistas, e têm formado uma geração de jovens extremamente mal preparados e incapazes de ocupar posições produtivas na sociedade. A diferença é que eles têm mais de 80% das melhores universidades do mundo em seu território, e isso funciona como um colchão protetor, que adia a chegada a uma situação de calamidade como a nossa. O nosso colchão já arriou faz muito tempo.

Não há governo neste país que comece um mandato sem dizer que focará seus esforços na educação. Quem parar de mentir sobre isso poderá realmente marcar a nossa história.

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e “Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

Ah, se eu ganhasse mais…

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 20 de outubro de 2016.

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Quem nunca disse ou nunca ouviu alguém dizer “ah, se eu ganhasse mais dinheiro, não teria tantas dívidas”? Todo endividado pensa isso, porque todo endividado pensa que o problema é não ter dinheiro suficiente, quando na verdade, na grande maioria das vezes, o problema é ter despesas demais. Isso vale para brasileiros e americanos, para pessoas, empresas e governos, para pobres e ricos.

No quesito gente, a coisa não anda nada bem. Um artigo recente da revista Forbes mostra que uma pessoa que tenha US$ 10 no bolso e nenhuma dívida contraída – nenhuma parcela de casa, carro, crediário ou cartão de crédito – é mais rica que 15% dos americanos. Isso significa que há mais de 45 milhões de pessoas, só nos Estados Unidos, que possuem patrimônio líquido negativo. No Brasil, a situação não é muito mais bonita. Segundo dados do Banco Central, 46,3% da renda média das famílias brasileiras está comprometida com dívidas.

Apesar dos números preocupantes, quando fazemos uma comparação com a situação do nosso governo, dá até vergonha de criticar o povo: a dívida pública brasileira chegou ao patamar de 73% do PIB neste ano. E, apesar desse porcentual assustador, muita gente se posicionou contrariamente à PEC 241 – proposta de emenda constitucional que fixa um limite máximo para os gastos públicos –, aprovada em primeira votação no plenário da Câmara no último dia 10. A PEC define que os gastos públicos de um determinado ano não poderão exceder os do ano anterior (valendo a partir de 2017, com valores corrigidos por conta da inflação), ou seja, congela os gastos públicos no patamar atual, que já é monstruosamente alto.

O pessoal que anda escrevendo contra a PEC 241 bate na tecla de que o congelamento dos gastos significará o corte de verbas importantes para o bem-estar social. A lógica que usam é a mesma do cidadão endividado: o problema é não ter dinheiro. Mas, quando se fala de governo, o problema é realmente não saber como gastar o dinheiro. A quantidade de recursos que some nos ralos do aparato governamental é incalculável. Ineficiência, burocracia, má administração, corrupção, falta de inteligência e incapacidade técnica – estas são apenas algumas das razões pelas quais o dinheiro dos impostos não é aproveitado de uma forma minimamente decente.

A imagem figurativa mais clara que me vem à mente é a de um cofre cheio de buracos. Os que se declararam contrários à PEC 241 – faço menção desonrosa ao vídeo do Mídia Ninja, narrado por Gregório Duvivier e recomendado no perfil de Dilma Rousseff no Twitter – são os loucos que querem encher o cofre jogando mais dinheiro. Eles acham que dinheiro dá em árvore (aposto que você já ouviu isso de sua mãe ou de seu pai) e que basta encher o cofre mais rapidamente do que os buracos o esvaziam para que tudo esteja certo. Para os seres pensantes, é óbvio que não adianta fazer nada enquanto os buracos estiverem drenando tudo o que se joga ali dentro.

E não adianta ganhar mais dinheiro. Países como Estados Unidos, Japão, Espanha e França têm dívidas públicas ainda maiores que a do Brasil. Lá, como aqui, o governo só sabe fazer uma coisa melhor que as pessoas: desperdiçar recursos. Se é para desperdiçar, que seja com limite.

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e “Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

Fofocalismo

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 13 de outubro de 2016.

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A capacidade que as pessoas têm de prestar atenção e gastar seu tempo com coisas menores e/ou inúteis tende ao infinito. As redes sociais são uma das provas modernas disso: perde-se uma quantidade imensurável de tempo olhando-se postagens de outros e comentando-se sobre textos e temas que não adicionam nem um centavo sequer ao bolso de ninguém (exceto dos CEOs dessas redes), muito menos um pensamento ou um conceito que valha a pena ser guardado na memória.

Esse tipo de comportamento não é exclusividade da era atual. Revistas e jornais de fofocas existem há bastante tempo, e a curiosidade sobre a vida dos outros faz parte da vida em sociedade desde que se tem registro histórico dela. Muitos dirão que, apesar da imbecilização que isso pode causar nas pessoas, agir assim é algo que traz prejuízos ou atrasos somente para a pessoa que o faz. Eu até poderia concordar com isso, não fosse um aspecto pernicioso desse foco nas coisas inúteis: o seu uso intencionalmente maldoso pela imprensa, especialmente pela imprensa esquerdista.

Nos últimos dias, vi dois exemplos de como um jornalista é capaz de usar banalidades e fatos de menor importância relativa para dar força à sua pauta ideológica. O primeiro caso foi o da primeira-dama Marcela Temer. Reportagens dos maiores portais de notícias do país insistiram em noticiar que Marcela usava um vestido de R$ 1.689 em seu discurso para o lançamento do programa Criança Feliz, como se isso fosse o maior pecado cometido por uma mulher desde que Eva comeu aquela maldita maçã. Ora, seu marido, Michel Temer, tem um patrimônio declarado de R$ 7,5 milhões, mais do que suficiente para comprar vestidos desse preço. Aliás, qualquer terno de preço mediano custa mais que o vestido de Marcela. Ou seja, esses jornalistas que costumam ser tão engajados em denunciar o machismo da sociedade brasileira – seja lá o que eles entendam por isso – ficam calados sobre os ternos Ermenegildo Zegna que muitos políticos usam, mas apontam o dedo para a primeira-dama e seu vestido que custa menos que um iPhone. Parece óbvio que, por trás dessa perseguição disfarçada de indignação, a real motivação desses “jornalistas” seja destruir a imagem da primeira-dama que, por sua beleza, juventude e feminilidade, deixa indignada aquela parcela majoritária da esquerda que tem aversão a tudo o que é bonito e tradicional, e a toda mulher que não seja feia, descabelada e com muitos pelos debaixo dos braços.

O segundo exemplo foi na mídia americana, em ataques ao presidenciável republicano. Mesmo diante de uma candidata como Hillary Clinton, que acumula em sua carreira episódios como a defesa imoral de um estuprador de adolescentes e o casamento com um predador sexual do quilate de Bill Clinton, todos os jornalistas da esquerda americana (além de vários da direita) resolveram achincalhar Donald Trump por causa de um vídeo onde ele fala bobagens de cunho sexual, daquelas que todo homem já ouviu um dia numa mesa de bar ou num vestiário de academia. Com a conivência dos idiotas úteis, que propagam essas reportagens e dão audiência a esses pseudojornalistas, a fala de Trump ganhou proporções totalmente descabidas, e a estratégia por trás disso é tão clara que eu, pessoalmente, não consigo entender como alguém não consiga enxergar: Hillary tem tantos escândalos e episódios moral e criminalmente reprováveis que somente o desvio da atenção de todos é capaz de dar algum espaço de manobra para sua campanha. Ela discursa ao lado do marido, que a traiu com uma estagiária e que é acusado de molestar sexualmente diversas mulheres, no maior show de hipocrisia deste nosso planeta azul. Quem inventou o ditado “faça o que eu digo, não faça o que eu faço” não imaginava que algo assim um dia existiria. Se a imprensa americana desse a mesma atenção aos escândalos de Hillary, ela já estaria na cadeia há muito tempo.

E o cidadão comum, que culpa tem nisso tudo? Bem, toda vez que ele replica um conteúdo podre desses ou que dá audiência para essa parte suja da imprensa, ajuda a disseminar e a encorajar esse comportamento. O jornalismo que vive de fofocas e inutilidades só consegue sobreviver porque é muito bem alimentado. Está na hora de matar esse pessoal por inanição.

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e “Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

PT – Partido em exTinção

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 6 de outubro de 2016.

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As eleições de domingo passado mostraram que o povo brasileiro, no fim das contas, está atento ao que acontece no cenário político nacional. Em um ano no qual tivemos a votação do impeachment de Dilma Rousseff e a saída do PT do comando da nação, eleitores de todo o Brasil deixaram claro que não querem mais esse pessoal em nenhuma esfera governamental. Uma passada rápida pelos resultados é mais que suficiente para entender o que estou dizendo.

Nas 26 capitais, a situação foi de quase eliminação completa dos candidatos petistas. Marcos Alexandre foi o único eleito já em primeiro turno (reeleito, na verdade), em Rio Branco, no Acre. O outro petista que restou foi João Paulo, que vai para o segundo turno em Recife com uma votação inexpressiva de 23,76% dos votos válidos. As demais 24 capitais são oficialmente PT-free.

Quando a abordagem é por maiores cidades do Brasil, outra lavada. De acordo com os dados do Censo IBGE de 2013, há 39 municípios com mais de 500 mil habitantes no Brasil – apenas 20 deles são capitais. O PT não levou nenhum de primeira; vai ao segundo turno em Recife, caso já mencionado acima, e em mais duas cidades: Santo André (SP) e Juiz de Fora (MG). Em Santo André, Carlos Grana tentava a reeleição e ficou em segundo lugar, com 20,3% dos votos, contra 35,9% de Paulinho Serra, do PSDB. Em Juiz de Fora, Margarida Salomão liderava as pesquisas, mas acabou ficando em segundo lugar, com 22,38% dos votos – muito atrás dos 39,07% de Bruno Siqueira, do PMDB. Não parece que nenhum dos dois tenha muitas chances de eleição.

Se olharmos para o ABC paulista, reduto histórico do partido e quartel-general de Lula, mais uma derrota significativa. O PT vai ao segundo turno somente em Santo André, como foi dito acima. São Bernardo do Campo, São Caetano do Sul e Diadema não quiseram nenhum petista na prefeitura. E, para coroar o desempenho pífio, o filho de Lula, que concorria a uma vaga de vereador em São Bernardo, teve apenas 1.504 votos – foi apenas o 58.º mais votado.

Por último, vale a pena dar uma olhada nos deputados federais que votaram contra o impeachment de Dilma Rousseff e se candidataram a alguma prefeitura neste pleito. Foram 25 casos, dos quais apenas dois venceram em primeiro turno, e somente três vão disputar o segundo turno. Nem todos são do PT, mas todos faziam parte do bloco governista que tentou salvar Dilma a todo custo.

Escorraçado das capitais e das grandes cidades brasileiras (no jargão petista, aquelas com maior potencial de roubo), o PT sai desta eleição, independentemente dos resultados do segundo turno, como um partido em processo de extinção. Algo certamente extraordinário se nos lembrarmos do cenário político de apenas seis anos atrás. Foi em 2010, durante um comício de Dilma Rousseff, que Lula defendeu que o DEM fosse extirpado da política brasileira. O DEM, que vinha perdendo prefeituras vertiginosamente – eram 1.028 prefeituras em 2000, depois 790 em 2004 (quando a sigla ainda era PFL), 496 em 2008 e 278 em 2012 –, conseguiu garantir 265 prefeituras no primeiro turno deste ano, e pode ganhar mais três depois do segundo turno. O PT de Lula foi menor que o “extirpável” DEM: apenas 256 prefeituras. Mesmo que ganhe as sete disputas de que participará no segundo turno, não chegaria a 265.

Quem é que parece mais perto de ser extirpado agora?

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e “Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

Presidente Trump

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 29 de setembro de 2016.

trump1Eu gosto de conversar com as pessoas. Podem me chamar de chato, mas puxo conversa na fila do mercado, no avião, na sala de espera, no táxi, na reunião de condomínio etc. Nesses últimos tempos, marcados pela proximidade da eleição para presidente, tento sempre abordar o assunto e tentar descobrir o que as pessoas comuns pensam a respeito de Donald Trump e Hillary Clinton. E o que tenho visto pode ser resumido em três afirmações básicas: a pessoa declara voto para o Trump porque gosta dele ou porque não suporta mais “os políticos de sempre”; a pessoa não gosta de nenhum dos dois, mas acha o Trump louco demais para ser presidente; ou a pessoa não gosta de nenhum dos dois, mas acha a Hillary criminosa demais para ser presidente.

Tive a sorte, em minhas incursões conversativas, de nunca topar com um democrata radical (o equivalente americano dos petistas), daqueles que amam Hillary apesar de tudo de ruim que ela representa. Pode parecer mentira, mas não conheci um único americano que veja em Hillary Clinton as qualidades para ser presidente deste país; ela é citada como “a opção menos pior” por alguns.

Depois de terminado o primeiro debate presidencial, na segunda-feira, li inúmeras análises que davam a Hillary a vitória. A mídia televisiva norte-americana chegou a mostrar um certo alvoroço pelo desempenho de sua candidata preferida, e muitos comentaristas isentos ou apoiadores de Trump seguiram pela mesma linha de raciocínio. Para mim – e para alguns outros poucos analistas –, Trump saiu vitorioso do debate justamente por ter mostrado que não é o louco-racista-misógino que Hillary vinha exibindo em sua propaganda eleitoral. Trump mostrou que não passa de um homem normal; profissionalmente, um empresário de sucesso com pouca atuação política. Enfim, alguém de fora do establishment, com uma postura muito mais de pessoa comum do que a robotizada Clinton, com seu sorriso falso sempre presente. Enquanto ele mostrava indignação diante das mentiras de Hillary, ela ria em tom de deboche de tudo o que ele falava – o tipo de atitude que os americanos não esperam de um presidente.

Mas será que os debates realmente terão um papel fundamental na eleição do próximo presidente americano? Será que as propagandas eleitorais mudarão o voto dos indecisos? Será que as pesquisas de intenção tirarão os preguiçosos de casa para votar contra o candidato que acham inaceitável para governar o país? De acordo com o professor Helmut Norpoth, da Stony Brook University, não. Norpoth é o desenvolvedor de um método preditivo que acertou o resultado das eleições presidenciais dos últimos 20 anos. O Modelo das Primárias, como ele o chama, é um método analítico que, ao ser aplicado a todas as eleições presidenciais americanas desde 1912, produz apenas um resultado errado (nas eleições de 1960) e acerta todos os outros. Ele se baseia em dois fatores principais – o movimento do pêndulo eleitoral e o resultado das primárias – para prever quem será o candidato vencedor. Em 2012, Norpoth aplicou seu método e previu a reeleição de Barack Obama; em 2016, ele mostra que o legado de Obama foi insuficiente para suscitar o desejo de “quero mais” na população. O pêndulo se moveu, e os democratas não têm mais o momento favorável. Em outras palavras, as eleições americanas têm um caráter plebiscitário, justamente por acontecerem dentro de um modelo marcado pelo bipartidarismo: se A foi bem, A recebe uma nova chance; se A não foi bem, é hora de trocar para B. E vice-versa.

Assim, a não ser que um escândalo de proporções lulopetísticas morda o calcanhar de Trump, o candidato republicano tem quase 90% de chance de ser o 45.º presidente dos Estados Unidos. Seria o primeiro a nunca ter ocupado um cargo eletivo ou uma posição de comando nas Forças Armadas. Aos que ainda acham loucura colocá-lo na cadeira mais importante do mundo, vale lembrar que insanidade é fazer as coisas da mesma maneira e esperar resultados diferentes. Espero que os americanos não refutem o método do professor Norpoth justamente nesta eleição, e mostrem que ainda são um povo bom da cabeça.

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e “Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

A força da Segunda Emenda

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 22 de setembro de 2016.

Volta e meia tenho de revisitar o assunto do desarmamento, pois a mídia e as organizações de esquerda insistem em atacar o direito à legítima defesa armada dos cidadãos. Dentre as falácias mais utilizadas por aqueles que defendem o desarmamento estão as menções ao caso australiano – sempre citando o país como exemplo mundial de uma política desarmamentista eficiente – e ao crescente apoio popular dos cidadãos americanos às políticas de restrição de posse e porte de armas. É claro que tudo não passa de mentiras.

Falemos um pouco do caso australiano. Barack Obama e Hillary Clinton são dois entusiastas do modelo de desarmamento utilizado pelo governo da Austrália, em vigor há quase 20 anos. Dizem eles e outros defensores do desarmamento que a terra dos cangurus e coalas experimentou uma diminuição excepcional nos casos de mortes por armas de fogo depois que as novas leis foram aprovadas, e que isso é evidência suficiente para que se busque a aprovação de leis semelhantes nos Estados Unidos e em outros países do mundo. O que eles não mencionam é que, apesar das quase 700 mil armas retiradas das mãos de cidadãos obedientes à lei, o número de crimes com armas de fogo na região de Melbourne dobrou nos últimos cinco anos. Também deixam passar o fato de que o número de pessoas pegas com armas ilegais em mãos quintuplicou no mesmo período, evidência de que a regra máxima dos criminosos continua em vigor: quem não respeita a lei não está nem aí para proibições de compra ou porte de armas. Criminosos não entram em lojas para comprar armas, e é justamente por isso que as leis de controle e banimento de armas só prejudicam os cidadãos de bem.

E o que dizer sobre o apoio popular dos americanos às leis de desarmamento? Uma passada de olhos nos principais canais televisivos e portais de notícias deixa evidente que grande parte da mídia americana assume uma posição claramente contrária à Segunda Emenda da Constituição americana, aquela que declara que “sendo necessária à segurança de um Estado livre a existência de uma milícia bem organizada, o direito do povo de possuir e usar armas não poderá ser infringido”. Pois bem, apesar de todos os ataques de políticos democratas à referida emenda, o povo americano continua a apoiar o armamento como direito básico do cidadão livre. Uma pesquisa da Pew Research divulgada em agosto deste ano mostra que a maioria dos americanos quer proteção ao direito de possuir armas, e apenas um terço dos participantes acredita que “possuir uma arma piora a segurança de uma pessoa”. A pesquisa também mostra que o apoio ao banimento das armas de assalto – um termo controverso e geralmente mal compreendido pelo público leigo – caiu de 57% para 52% no último ano, mostrando que a campanha obamista (que inclui até chorar de mentirinha) para banir fuzis e outras armas “de assalto” não tem surtido o efeito esperado, principalmente num momento em que os governos em todo o mundo fracassam em proteger seus cidadãos de terroristas e criminosos.

No front legal, as vitórias da Segunda Emenda continuam a superar suas derrotas com folga. Recentemente, o Senado do Missouri aprovou a lei SB 656, que torna aquele o 11.º estado americano a permitir o porte oculto de arma sem necessidade de licença especial – somente neste ano outros três estados já haviam aprovado leis semelhantes: Idaho, Mississippi e West Virginia. O governador democrata, Jay Nixon, vetou a lei, mas seu veto foi derrubado pela câmara legislativa. No ano de 2016 já foram aprovadas 44 leis favoráveis ao armamento e apenas 13 contrárias (sendo que nove delas foram aprovadas na Califórnia, o estado mais desarmamentista da federação). Isso significa que os legisladores estaduais, aqueles mais próximos dos eleitores e mais suscetíveis à pressão do voto popular, estão propondo e aprovando leis que protegem o direito do cidadão de ter e portar sua arma.

Quanto ao Brasil, não existe hoje uma pesquisa com a abrangência e qualidade da Pew Research sobre o tema. Mas existem muitas evidências de que a maioria da população brasileira quer a revogação do Estatuto do Desarmamento e o retorno de seu direito básico de legítima defesa armada: enquetes feitas pelo Senado Federal, pesquisas eletrônicas em grandes portais e outros tipos de consultas de opinião têm mostrado um grande apoio do povo brasileiro a qualquer iniciativa que facilite a compra e posse de armas por cidadãos de bem. O povo, ao contrário dos pseudointelectuais, políticos, jornalistas e artistas de meia tigela que defendem o desarmamento, sabe que a polícia nunca está em todos os lugares, e que é imoral tirar de um cidadão a possibilidade de defender sua família contra criminosos. Quem não tem carro blindado e seguranças particulares que atire a primeira pedra.

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e Mentiram para mim sobre o desarmamento”.