Empresários no poder

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 26 de janeiro de 2017.

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O ano de 2017 tem sido incrível, politicamente falando. Os inícios de mandato de João Dória e Donald Trump têm mantido a imprensa ocupada de todas as maneiras. Os setores esquerdistas da mídia se ocupam de fabricar difamações e distorções das medidas tomadas pelos dois gestores, e os de direita tentam manter o ritmo acelerado de novidades. Mas, imprensa à parte, vale a pena explorar um pouco o que esses dois empresários têm feito em tão pouco tempo de mandato, e o que está por trás dessa rapidez e eficiência.

À frente da prefeitura de São Paulo, comandando o terceiro maior orçamento do Brasil (R$ 54,69 bilhões), João Dória Júnior tem mostrado uma vitalidade fora do comum – ele, seu vice e seus secretários parecem estar em todo lugar, a toda hora. Eleito apesar do nariz torcido da cúpula tucana, que só apoiou sua candidatura após a vitória, Dória trabalha num ritmo alucinante, como todo bom gestor em início de empresa costuma fazer. Quem já abriu seu próprio negócio sabe do que estou falando: muitas horas de trabalho por dia, muitos problemas para resolver, múltiplos fatores de risco ao negócio, competidores de olhos arregalados com a chegada da novidade etc. Logo em seu primeiro dia, ele apareceu às 5h30 na Praça 14 Bis, vestido de gari, para iniciar o primeiro programa de seu governo, o Cidade Linda. Na sequência, ordenou a devolução de todos os carros alugados da prefeitura, gerando uma economia prevista de R$ 10 milhões por mês.

Em relação à sua equipe de trabalho, o novo prefeito aplica as mesmas regras às quais eu e você, leitor, temos de nos submeter em nossos empregos: penalidades para atrasos, ou seja, exigência de comprometimento e disciplina nas relações do trabalho. E, para o terror daqueles funcionários acostumados ao descaso da administração petista, ele tem aparecido de surpresa nos mais diversos locais, numa espécie de “flagra da vagabundagem”. Além disso, utilizando-se da premissa de que todo empresário busca obter o melhor resultado com o menor uso possível de recursos, Dória fechou diversas parcerias com a iniciativa privada, sem custo para o erário municipal, que resultaram em benefícios imediatos para a população paulistana. As intervenções do novo prefeito são diárias e repletas de cobertura tanto da mídia tradicional como das redes sociais, no intuito claro de provocar mudanças em curto período de tempo, ganhar o apoio da população e reduzir a pó o legado de seu antecessor.

E o que dizer de Donald Trump? O presidente americano, que tomou posse no último dia 20, tem dormido apenas três horas por dia e trabalhado no restante. Ao contrário de Barack Obama, que cumpriu menos de 50% das promessas que fez durante sua campanha em 2008, Donald Trump tem sinalizado que fará o máximo possível do que prometeu nos últimos meses. O empresário de Nova York já começou a chocar seus adversários políticos na primeira semana de mandato: emitiu uma ordem executiva para que as agências federais diminuam o fardo regulatório do Obamacare, exigindo que as mesmas renunciem, adiem ou concedam exceções à implementação de qualquer provisão ou requisito que incorra em custo sobre indivíduos, famílias e empresas da área de saúde; impôs o congelamento de contratações para o governo federal, com a exclusão das forças armadas; suspendeu a execução de toda e qualquer regulamentação em processo de aprovação, impedindo que diversas das ordens executivas assinadas por Obama em seus últimos dias de mandato permaneçam em vigor; restabeleceu a proibição de alocação de fundos federais para grupos que realizem abortos ou que atuem como lobistas para a legalização ou promoção do aborto; retirou os Estados Unidos da Parceria Transpacífico, um acordo comercial ineficiente e burocrático com nenhuma vantagem para os americanos; exigiu celeridade na aprovação de projetos de infraestrutura de alta prioridade por parte do Conselho de Qualidade Ambiental da Casa Branca; além de diversas outras ações que simplesmente não caberiam nesta coluna. A mais recente delas, logo antes do fechamento desta coluna, foi o pontapé inicial na construção do muro na fronteira com o México. Nos próximos dias ele deve anunciar a suspensão da admissão de refugiados provenientes de países que abriguem grupos radicais islâmicos e a indicação de um juiz conservador para a vaga de Antonin Scalia na Suprema Corte.

O brasileiro é ensinado, nas escolas públicas e privadas, que o capitalismo é ruim e que os empresários são maus e aproveitadores. Aprendemos que os ricos só se importam com dinheiro e que os bilionários são o câncer do mundo. Nenhuma escola ensina que toda a riqueza criada vem das mãos desses “malvadões”. Alguns dias atrás estava comentando isso com minha esposa. Estávamos tentando enxergar a vastidão da riqueza criada por Bill Gates, fundador da Microsoft. Quantas pessoas devem seu ganha-pão às ideias de Gates? Uma multidão de gente que instala, desenvolve e dá manutenção em softwares na plataforma Windows; uma miríade de técnicos que montam e consertam computadores pessoais; fabricantes de computadores, tablets e celulares; e muitas outras categorias de profissionais ligados à informática. Os quase US$ 100 bilhões de Bill Gates soam como uma imoralidade para os esquerdistas, mas os milhões de pessoas que têm hoje uma carreira, um emprego e um salário por causa desses US$ 100 bilhões são simplesmente ignorados por esse pessoal. O mercado faz essa “mágica”, criando um absurdo de riqueza de dentro de uma simples garagem. O Estado, inchado e ineficaz, faz o contrário.

Nosso planetinha, tão afetado pela ação irresponsável de governantes aproveitadores e incapazes, poderia se beneficiar muito da presença de mais empresários competentes na direção de cidades, estados e países. É claro que Dória e Trump não manterão um ritmo louco de novidades e realizações pelos próximos quatro anos. Mas, pelo que temos visto, devem fazer mais nos primeiros 100 dias do que seus antecessores em toda a extensão de seus mandatos. Se daqui a quatro anos, por causa do bom exemplo desses dois, mais pessoas entenderem que um bom gestor público é aquele que menos lhes atrapalha, que cria condições para que cada cidadão cuide de si mesmo e de seus dependentes sem nenhuma esmola do Estado, teremos muito a comemorar. Essa mentalidade é a única cura para o estatismo paralisante em que vivemos hoje.

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e “Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

Coluna do adeus

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 19 de janeiro de 2017.

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Adeus a Obama. Melhor, adeus a Barack Hussein Obama II.

Adeus ao mais infame dos presidentes americanos e à sua infame equipe.

Adeus ao vice-presidente, Joe Biden, e aos seus discursos que ninguém queria realmente ouvir.

Adeus ao secretário de Estado, John Kerry, e à sua postura covarde diante de um mundo perplexo com a expansão do terrorismo islâmico.

Adeus ao secretário do Tesouro, Jack Lew, e à política fiscal desastrosa que quase dobrou a dívida pública americana nos últimos oito anos.

Adeus ao secretário de Defesa, Ashton Carter, e ao seu descaso para com as forças armadas.

Adeus a Loretta Lynch, que conduziu o Departamento de Justiça mais injusto das últimas três décadas.

Adeus aos programas falidos deste governo que acaba nesta quinta-feira, programas cujo único propósito era transformar os Estados Unidos da América em uma nação de gente dependente do Estado.

Adeus ao Obamacare.

Adeus à distribuição sem critérios de food stamps, o Bolsa Família dos EUA.

Adeus ao antissemitismo como modo oficial de conduta.

Adeus à leniência para com traficantes de drogas.

Adeus ao perdão a bandidos perigosos e assassinos de policiais.

Adeus à instigação de negros contra brancos e de brancos contra negros.

Adeus ao apoio a grupos e organizações criminosas como Planned Parenthood e Black Lives Matter.

Adeus ao antipatriotismo na condução do país.

Adeus ao globalismo.

Adeus ao desrespeito aos milhões de imigrantes legais que fizeram desta nação a mais rica e mais livre do mundo.

Adeus ao desarmamentismo e às tentativas de destruir os pilares constitucionais que garantem a todo cidadão o direito de se defender contra criminosos e contra governos despóticos.

Aproveitando o tema e abrindo um parêntese, adeus à liberdade de expressão na rede social de Mark Zuckerberg. No início desta semana, me deparei com um comentário de um amigo dizendo que o Facebook estava bloqueando automaticamente qualquer texto que contivesse as palavras “veado”, “bicha”, “boiola” e similares. Não acreditando, fiz eu mesmo um texto de teste com duas dessas palavras. Menos de cinco minutos depois, o texto foi removido por “infringir as políticas do Facebook”. Pouco tempo atrás, escrevi nesta coluna semanal sobre o uso da novilíngua no jornalismo brasileiro. Parece que mais uma das profecias de Orwell, a supressão de palavras não aprovadas pelo “regime”, acaba de se tornar realidade. Hoje é o Facebook apenas apagando um texto e suspendendo a conta do “culpado”; amanhã pode se transformar em crime sujeito a pena de encarceramento. Fecha parêntese.

Nesta sexta-feira começa o mandato de Donald Trump como presidente dos Estados Unidos. A imprensa brasileira, em sua maioria, procura passar a imagem de catástrofe mundial sem precedentes, e não está sozinha nesse esforço. O clima chega a ser folclórico aqui na América: há relatos de garotas adolescentes preocupadíssimas porque alguém disse que o novo presidente tirará o direito de voto das mulheres; de estudantes universitários sendo dispensados das aulas para se recuperarem do choque da vitória de Trump; de ambientalistas desesperados com a hecatombe climática que o novo governo trará ao mundo, dentre outras lendas urbanas espalhadas pelo vasto arsenal de comunicação que nos une atualmente. Para esse pessoal, Trump é um tipo de Magneto ou Lex Luthor, o vilão diabólico; para outros ele é o Sauron moderno, a encarnação do mal (mas sem os anéis). Eu, que lhes disse nesta mesma coluna, um mês antes da eleição, que Donald Trump seria eleito, digo também que não há razão para preocupações desse tipo. O novo presidente tem tudo do que precisa para colocar os Estados Unidos de volta nos trilhos, amparado por uma maioria consistente nas duas casas legislativas e uma sólida base conservadora na maioria dos estados. Se fizer metade do que prometeu, Trump poderá entrar para a história como um dos maiores presidentes americanos. Seus maiores inimigos, hoje, estão dentro do Partido Republicano. Espero que ele tenha habilidade para domá-los ou reverter sua oposição.

No mais, agora é torcer para o melhor resultado possível. Afinal, o que se faz aqui afeta não só os americanos, mas também os brasileiros e o restante do mundo. Aguardemos os primeiros 100 dias do novo governo.

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e “Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

Não tem graça, Dooley (quer dizer, Meryl)

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 12 de janeiro de 2017.

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Escrevo esta coluna de um quarto de hotel em Albuquerque, Novo México, uma cidade que ganhou notoriedade por ser o local da trama de Breaking Bad.

Eu adorei Breaking Bad. Coloco ao lado de Seinfeld e The Office na minha lista de séries favoritas de todos os tempos. Aliás, Bryan Cranston, que alcançaria o auge da fama interpretando Walter White, entrou para o radar dos produtores justamente em Seinfeld, quando fez o papel do dentista Tim Whatley.

Sentado aqui na terra dos White e de Jesse Pinkman, me bateu uma tristeza ao ver meu druglord preferido aplaudindo em pé o discurso mentiroso e afetado de Meryl Streep, que escolheu usar seu tempo precioso no microfone do Globo de Ouro para propagar uma mentira ridícula sobre Donald Trump. Cranston, que já tinha entrado na minha lista de celebridades babacas quando participou de um vídeo anti-Trump-pró-Hillary, participou com entusiasmo de mais um episódio que corrobora uma conhecida tese: a de que a opinião de um ator sobre política é tão valiosa quanto a opinião de um metroviário sobre a existência ou não de matéria escura no universo. Ben Affleck e George Clooney, dois ícones da esquerda caviar artística, se juntaram à léria um dia depois, saindo em defesa da diaba que veste Prada.

Diz a sabedoria popular que futebol, religião e política não se discutem. Neste caso, concordo em chamar de sabedoria, porque esses temas são de fato destruidores da harmonia familiar e de amizades. E o são justamente porque qualquer um que os discuta geralmente o faz de uma posição de suposta autoridade no assunto. Assim, o sujeito que mal consegue entender o conceito de tática acha que pode contribuir em muito nas discussões sobre aquela substituição que resultou num gol adversário. E o outro, que nem sequer faz ideia de qual seja a etimologia da palavra “religião”, acha que pode desqualificar a fé alheia e fundar a sua própria com base em meia dúzia de mantras que decorou em seus anos de igreja.

Mas é na política que vemos a maior quantidade de pretensos especialistas falando todo tipo de asneira, tanto em pequenos grupos como nas redes sociais e em transmissões públicas. Para que estudar ciência política, ética, filosofia e história? Política não é nenhuma medicina, pensa o orgulhoso “comentarista político”, e qualquer um pode opinar livremente sobre isso. É claro que qualquer um pode opinar, até mesmo este que vos escreve, graças ao pouco de liberdade de expressão que nos resta. Mas, ao contrário do que parece ser o senso comum, os erros na política matam muito mais gente do que os erros médicos, e os astros de Hollywood (além dos “astros” brasileiros do Projac) parecem gostar de falar justamente disso. Curiosamente, não conheço um artista famoso que tenha expressado suas opiniões sobre fusão nuclear, movimentação tectônica ou transmissão de energia sem fio, temas tão alheios às suas especialidades artísticas quanto a política.

Dizem que, para podermos desfrutar do melhor da arte, precisamos separar o artista da pessoa. Eu tenho uma dificuldade muito grande com isso. Tipos como Wagner Moura, Chico Buarque, Benicio del Toro, Sean Penn, Bono Vox e Alec Baldwin, só para citar alguns, envolvem-se tão profundamente com uma agenda política que perdem todo e qualquer apelo artístico para mim. Simplesmente não consigo vê-los atuando sem me lembrar de suas posições radicais de esquerda. Meryl Streep acaba de entrar para a lista.

O fato é que está ficando cada vez mais difícil sentar em frente à televisão e passar um tempo agradável se divertindo sem que apareça alguém politizando até comerciais de sabonete. Sinto saudades da época em que Os Trapalhões eram minha diversão de domingo e o Pica-Pau não me ensinava nada além de como sacanear o Dooley. Só sobraram South Park e Clint Eastwood para contar a história.

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e “Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

Obama, o birrento

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 5 de janeiro de 2017.

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Nos regimes democráticos há um pressuposto básico de que todo governo é medido e avaliado por seu povo através do voto. Em outras palavras, se está bom, fica; se está ruim, vai embora. Por esse critério somente, Barack Obama já pode ser considerado um dos piores presidentes da história americana. Quando ele assumiu a presidência, em 2009, os democratas tinham uma maioria consistente no Senado (58 das 100 cadeiras), uma maioria acachapante no Congresso (256 das 441 cadeiras) e 28 governos estaduais. Quase oito anos depois, o estrago é considerável: o partido do presidente perdeu 63 cadeiras no Congresso e dez no Senado – agora é minoria nas duas casas –, além de 12 governos estaduais.

Ao leitor que costuma se informar pelos grandes portais de notícias do eixo Rio-São Paulo, essa situação pode parecer incompreensível, já que Obama é sempre mostrado e descrito como o melhor presidente que a América já teve, um exemplo a ser seguido, um líder moderno para o mundo caótico em que vivemos. Os americanos, que viveram oito anos sob o governo de um homem que não passa de uma versão intelectualmente melhorada e substancialmente mais perversa de Lula, não esconderam sua insatisfação e escorraçaram os democratas em todas as instâncias do poder político.

Ciente de tudo isso, Obama resolveu marcar seus últimos dias na Casa Branca com uma série de medidas perniciosas. A grande mídia, sempre favorável ao seu governo, tem descrito essa atitude como “o esforço de Obama para marcar seu legado”. A verdade está longe disso. Obama está usando a tática do inquilino raivoso, e pretende deixar a casa no pior estado possível para o próximo ocupante. É por isso, e somente por isso, que ele e os democratas estão enfiando barbaridades goela abaixo do povo americano. Destaco sete delas a seguir.

A expulsão de oficiais diplomáticos russos dos Estados Unidos e outras sanções alegadamente impostas em resposta à ação de hackers russos durante a eleição presidencial deixou muita gente de cabelo em pé em todo o mundo. O clima de Guerra Fria requentada só não ficou mais perceptível porque Putin e o restante da liderança russa sabem muito bem que Obama agiu como um fanfarrão, apenas para desestabilizar o novo governo. Tanto que a embaixada russa no Reino Unido publicou a seguinte mensagem em sua conta oficial do Twitter: “O presidente Obama expulsa 35 diplomatas russos, num deja vu da Guerra Fria. Assim como todo mundo, incluindo o povo americano, ficaremos felizes em ver o fim dessa administração infeliz”.

No Oriente Médio, além de nunca ter conseguido avançar um centímetro sequer em direção à paz entre Israel e Palestina, Obama endossou uma resolução absurda da ONU que condena novos assentamentos judeus na região. A posição de Obama é completamente contrária ao histórico de apoio que os EUA sempre tiveram para com Israel. A resposta de Trump não poderia ter sido melhor: “Vamos ver o que acontece depois de 20 de janeiro, certo? Acho que vocês vão ficar bem impressionados”.

Os democratas trabalharam como nunca em 2016 para aumentar o número de inscritos no Obamacare, o fracassado programa de saúde de Obama. Conseguiram a marca de 6,4 milhões de americanos inscritos, 400 mil a mais do que em 2015. A lógica que eles usaram é muito simples: quanto mais gente inscrita, mais difícil será para o próximo governo acabar com o programa. Mais uma mina explosiva no terreno de Trump.

Fazendo uso de uma lei obscura da década de 1950, Obama proibiu a exploração de petróleo em diversas partes do Ártico e do Oceano Atlântico. A coisa foi feita de modo a dificultar ao máximo uma reversão da medida pelo governo Trump. Dá até para imaginar o presidente raivoso falando com sua equipe: “Não me importa quantos anos tenha a lei, nem que ela nunca tenha sido usada. Façam o que for preciso para ferrar aquele cara”.

Obama ainda desmantelou um programa de rastreamento de imigrantes muçulmanos que havia sido estabelecido no governo Bush, o National Registry. O programa estava parado desde 2011, mas sua estrutura permanecia intacta, e Trump planejava usá-la para algumas de suas políticas antiterrorismo ligadas ao islamismo radical. Agora, caso queira montar algo parecido, o presidente eleito precisará criar tudo do zero novamente.

O presídio de Guantánamo sempre abrigou alguns dos piores criminosos capturados pelas forças policiais americanas. Obama, como todo esquerdista de coração, morre de amores por criminosos, e já colocou em andamento a transferência de até um terço dos 58 presos atuais para seus países de origem, onde poderão desfrutar de condições muito melhores e, quem sabe, voltar a cometer atentados e assassinatos.

E, ainda com relação ao seu amor profundo pelos bandidos, Obama já reduziu a sentença de mais de mil criminosos do tráfico de drogas e concedeu clemência a 231 criminosos em um único dia, 19 de dezembro de 2016. É praticamente a Maria do Rosário de cabelo curtinho, terno e gravata.

Fazia muito tempo que o mundo não via uma transição presidencial tão suja como a de Barack Obama. Mesmo no Brasil, onde Dilma saiu por impeachment – uma situação bem mais traumática que uma derrota eleitoral –, as birras se resumiram a roubar objetos de decoração e fazer papel de bobo nas redes sociais. A história se encarregará de colocar Obama ao lado de outros infames que já ocuparam o mesmo cargo. Ao agir de forma diametralmente oposta ao que a população de seu país espera, ele pavimenta cada vez mais seu caminho para o almejado título de pior presidente da história dos Estados Unidos. Carter, Nixon e Buchanan que se cuidem.

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e “Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

É o amor

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 29 de dezembro de 2016.

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Pensei bastante no tema a que dedicaria minha última coluna de 2016. Tentei achar algo realmente relevante no cenário nacional, mas o máximo que encontrei foram discussões infrutíferas sobre a legitimidade ou não de um presidente da República se deleitar com sorvetes importados. No cenário americano, o mesmo do mesmo: democratas e mídia mainstream tentando de todas as maneiras desqualificar Donald Trump, desesperados com as escolhas acertadas e conservadoras que ele tem feito para seu gabinete.

O fato é que eu não queria abordar nenhuma dessas picuinhas políticas nesta última vez em que me dirijo a você, leitor, no ano de 2016. Por isso, depois de meditar um tanto a respeito, resolvi falar daquilo que, em minha opinião, mais faz falta no mundo de hoje: o amor. Antes que você desista de ler o restante deste texto, saiba que não pretendo ser piegas, tampouco sentimentalista nesta reflexão. Caso essa percepção lhe ocorra, será mais por conta da desconexão que esse vocábulo tem com a realidade corrente do que por culpa de minha abordagem do mesmo.

A falta de amor é algo que me incomoda e me machuca diariamente. Tanto em coisas pequenas, como o vizinho que ouve música em volume altíssimo sem considerar as pessoas na casa ao lado, quanto em monstruosidades, como o ataque terrorista de Berlim, o principal problema deste mundo é a falta de amor. E que ninguém ache que a religiosidade é a cura para esse mal: cansei de acompanhar discussões entre católicos e protestantes nas mídias sociais que fariam o próprio Jesus Cristo virar as costas e sair envergonhado. E o que dizer do islamismo? Uma religião cuja forma mais radical é responsável atualmente pela quase totalidade dos ataques terroristas e pelo assassinato de inocentes que não professam a mesma fé, ou seja, que de amor não tem nada.

A falta de amor está nas coisas corriqueiras, no e-mail raivoso de quem não concorda com sua opinião, no sujeito que corta a fila, no atendente que trata mal os clientes, no cônjuge que dá uma patada no outro, no nervosinho que lhe mostra o dedo médio no trânsito, naquela puxada de tapete do colega de trabalho e em cada ato desonesto praticado por quem quer que seja. Longe de querer endossar a tese descabida de muita gente da esquerda, de que alguém que cola numa prova é tão sujo quanto quem recebe milhões em propina, creio que a falta de amor nas pequenas coisas é condição sine qua non para a falta de amor nas grandes. Aliás, este é o grande problema do marxismo e da esquerda em geral: achar que é possível amar as multidões e odiar os indivíduos ao mesmo tempo.

A Bíblia possui muitíssimas passagens em que o amor é o tema principal. Talvez a mais conhecida seja aquela escrita por Paulo, em sua Carta aos Coríntios, aquela que Renato Russo utilizou como letra de uma canção, a mesma que é lida e repetida em casamentos ao redor de todo o globo: “Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver amor, serei como o sino que ressoa ou como o prato que retine. Ainda que eu tenha o dom de profecia e saiba todos os mistérios e todo o conhecimento, e tenha uma fé capaz de mover montanhas, mas não tiver amor, nada serei. Ainda que eu dê aos pobres tudo o que possuo e entregue o meu corpo para ser queimado, mas não tiver amor, nada disso me valerá. O amor é paciente, o amor é bondoso. Não inveja, não se vangloria, não se orgulha. Não maltrata, não procura seus interesses, não se ira facilmente, não guarda rancor. O amor não se alegra com a injustiça, mas se alegra com a verdade. Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta”.

O texto é magistral. É claro como água: amigão, você pode fazer o que quiser, pode parecer legal, fingir ser honesto, fazer pose de justo e se declarar o defensor dos pobres e oprimidos; se não tiver amor, não vale nada. Você pode ser petista, tucano, conservador, libertário, progressista, bolsonarete, olavete, religioso, ateu, palmeirense, corintiano, branco, preto, amarelo, índio, gay, hétero, casado, solteiro, rico, pobre, ignorante ou letrado; se não tiver amor, não vale nada. É na hora de verdadeiramente amar que caem todas as máscaras e que ficamos completamente nus. O problema é que ninguém mais parece se importar com essa nudez, e ser cruel e desagradável tem passado de ofensivo a desejável.

Eu disse que você poderia achar este artigo piegas, porque no fundo ele tem uma só conclusão: a solução para tudo é o amor. Falando assim, pode até parecer que eu sou algum tipo de hippie pós-moderno, mas o fato é que se essa não fosse a solução, ela não teria sido adotada por Deus. Quando comemoramos o Natal, no domingo passado, comemoramos o nascimento de Jesus Cristo, ou seja, do Deus que, por amor, se encarnou e morreu pela humanidade. Esse amor nos está disponível, ao alcance de qualquer ser humano. Nossa natureza difícil e egoísta nos afasta, muitas vezes, de amar. Mas ela não pode servir de desculpa eterna. Se há uma coisa que posso desejar para 2017 é que você ame muito mais do que amou neste ano. Se fizer isso, certamente terá dias melhores. Feliz 2017!

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e “Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

A novilíngua no jornalismo brasileiro

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 22 de dezembro de 2016.

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Em minha modesta opinião, uma das grandes obras de arte do século 20 foi 1984, de George Orwell. O autor foi profético e visionário em sua descrição dos mecanismos autoritários usados pelo governo da fictícia Oceania – é por demasiado fácil encontrar os paralelos em nossos dias, espalhados por todo o mundo. Dentre esses mecanismos, um dos mais poderosos era a novilíngua, uma linguagem controlada pelo governo, destinada a limitar a liberdade de pensamento e expressão e a conter ameaças ao regime. A motivação e o objetivo da novilíngua ficam claros quando analisamos alguns de seus verbetes. “Crimideia”, por exemplo, define o ato de ter e divulgar pensamentos ilegais. Já alguém que “duplipensa” é a pessoa que sabe que está errada, mas se convence de que está certa.

O Brasil, conforme mencionei em meu artigo da semana passada, teve seu aparato educacional e jornalístico dominado por marxistas e gramscistas, gente usualmente bem versada na manipulação linguística. Esse fenômeno, aliás, não é exclusivo do Brasil. Nos Estados Unidos, as universidades estão fortemente aparelhadas com catedráticos marxistas, que há décadas utilizam suas cadeiras para subverter a juventude americana. Não é surpresa nenhuma, portanto, que já vivamos no tempo em que as crimideias são punidas com execração pública, ameaças de morte e terrorismo psicológico. E o que dizer do duplipensar? Só o fato de termos sido governados durante oito anos por um homem que se dizia defensor dos pobres ao mesmo tempo em que vivia como um milionário já diz muito sobre como esse conceito está presente em nosso cotidiano.

Mas, é óbvio, a novilíngua se apresenta de forma mais clara e escancarada na imprensa. Pautar e moldar a divulgação de notícias é um dos pilares de qualquer governo autoritário, juntamente com o desarmamento da população e o domínio das forças policiais. Nessa perspectiva, dominar a mídia é geralmente o primeiro passo do processo, pois facilita que futuras ações autoritárias sejam impostas debaixo de uma falsa sensação de democracia. A esquerda é, por natureza, autoritária – não há como existir um Estado do tamanho que querem os marxistas, socialistas, fabianos, comunistas e progressistas sem que não haja autoritarismo. E a melhor maneira de convencer as pessoas de que elas precisam desse Estado gigantesco é evitando que elas pensem, argumentem e discutam. Em outras palavras, novilíngua nelas.

Nesta semana, o mundo se deparou com dois atentados terroristas perpetrados por muçulmanos radicais. A maior parte de nossa mídia, no entanto, preferiu usar a novilíngua para tentar manter as pessoas numa realidade alternativa. Isso fica muito claro quando observamos as manchetes sobre o atentado da Alemanha. A maioria dos portais de notícias usou como manchete variantes do texto “caminhão invade feira natalina e atropela dezenas em Berlim”, como se caminhões tivessem vida própria e saíssem atropelando pessoas por aí. Essa é a mesma técnica usada há tempos para descrever incidentes com armas de fogo – armas matam, armas disparam etc. –, como já mostrei em meu livro Mentiram para mim sobre o desarmamento. Depois, forçados a noticiar algo sobre quem estava ao volante, preferiram usar disfarces linguísticos do tipo “suposto atentado terrorista” e “supostamente ligado a grupos terroristas” em vez de retratar a verdade com clareza.

O mais interessante é que esse tipo de comportamento é seletivo: se a suspeita é de que um muçulmano está por trás de alguma tragédia, novilíngua; se o suspeito for ou parecer cristão, fatos crus e diretos. Foi assim há pouco mais de cinco anos, nos atentados de 22 de julho na Noruega. O responsável confesso, Anders Breivik, foi descrito em todas as reportagens e artigos como “terrorista cristão radical de extrema-direita”. Para deixar a comparação ainda mais interessante, basta um acesso aos arquivos digitais dos três maiores portais de notícias do Brasil, buscando as matérias sobre o ataque ao jornalistas do Charlie Hebdo, em Paris. Em todas elas, os terroristas muçulmanos radicais são tratados como “agressores” ou “extremistas” apenas – nada de grandes nomes compostos que deixem clara a religião ou a ideologia política dos mesmos.

A manipulação da verdade é pior que a simples mentira. Mentiras são facilmente identificáveis; verdades manipuladas e processadas passam despercebidas aos olhos da maioria das pessoas, e a linguagem com que são escritas é incorporada paulatinamente pela população. Quando Thomas Jefferson disse que “se me coubesse decidir entre ter um governo sem jornais ou jornais sem um governo, não hesitaria nem um momento em optar pela última”, ele tinha em mente o grande poder libertador de uma imprensa verdadeira. Gente sem escrúpulos e sem caráter vem usando esse poder para enfraquecer as bases e apodrecer as práticas do jornalismo. Cabe a nós fazer uso do mesmo poder para reiterar suas virtudes e combater as manipulações. É a única maneira de fomentar a liberdade.

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e “Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

A opção nuclear

Como funciona a aprovação do indicado de Trump para a Suprema Corte?

Funciona assim: como os republicanos têm maioria simples no Senado (52 de 100), basta que a indicação do novo juiz seja votada para que seja aprovada. No entanto, para que haja a votação, é necessária uma supermaioria, ou seja, 60 senadores.

Se os democratas quiserem jogar duro, obstruindo a votação, os repnuclearublicanos podem usar a chamada “opção nuclear”. Nesse caso, eles votariam uma mudança nas regras, permitindo que uma maioria simples remova a obstrução à votação do novo juiz.

No entanto, caso isso aconteça, as regras ficarão alteradas para as próximas eventuais nomeações sob o governo Trump (assumindo que os republicanos manterão a maioria no Senado durante seu governo). Ou seja, no caso provável de mais um juiz atual bater as botas ou se aposentar, Trump nomeará o juiz que realmente desequilibrará a corte a favor dos conservadores, e valerá a regra da maioria mínima.

Assim, os democratas estão com um pepino gigantesco na mão. Neil Gorsuch é altamente respeitado, inclusive por alguns senadores democratas. Se decidirem obstruir esta indicação, gastarão a única bala que têm com um cara que foi aprovado por unanimidade para sua posição atual na corte se apelação, e abrirão caminho para que Trump escolha alguém ainda mais conservador na próxima oportunidade. Se concordarem em votar logo, guardarão a carta da obstrução para uma próxima oportunidade, mantendo a regra da supermaioria para juízes da Suprema Corte.

Enfim, será uma batalha interessante no Senado americano, mas com final já definido. O líder da maioria, Mitch McConnell, já indicou que fará uso da opção nuclear se for preciso. Vale lembrar que os democratas mudaram a regra da supermaioria para indicações de juízes de instâncias inferiores, e quando o fizeram tiveram de ouvir do próprio McConnell que aquilo os morderia no calcanhar antes mesmo que eles esperassem.

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e “Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

Gramsci vive

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 15 de dezembro de 2016.

gramsciQuando os militares tomaram o poder, em 1964, a esquerda brasileira lançou mão da estratégia mais inteligente e eficaz possível: ocupar todos os espaços deixados disponíveis e negligenciados pelos generais. Às pessoas com uma visão limitada, focada no curto prazo, a estratégia pareceu nascer fadada ao fracasso, justamente por não ter sido capaz de produzir resultados palpáveis pelos 15 anos seguintes. No Brasil, país onde raramente se vê um governo tomar decisões de longo prazo, a esquerda fez o planejamento mais paciente e cadenciado já visto em nossa história. Seu objetivo: ocupar toda e qualquer posição que tenha a ver com educação, mídia, comunicação e cultura. Sua estratégia: transformar as gerações vindouras em uma massa doutrinada, apta a fornecer tanto políticos como eleitores para a utopia socialista. As décadas que se seguiram testemunharam os resultados concretos da mais bem-sucedida implementação da doutrina de Gramsci já executada no mundo.

Antonio Gramsci foi um filósofo marxista italiano que disse coisas como “Os jornais são aparelhos ideológicos cuja função é transformar uma verdade de classe num senso comum, assimilado pelas demais classes como verdade coletiva – isto é, exerce o papel cultural de propagador de ideologia”. Sua ideia de revolução cultural cativou a esquerda brasileira, que já vinha se mostrando incompetente para pegar em armas e acovardada pela reação militar. Por que arriscar ser preso durante um sequestro ou um atentado quando é bem mais fácil e agradável sentar na frente de uma sala de aula cheia de cabecinhas frescas e enchê-las com as bobagens do marxismo? Por que lutar contra uma máquina militar quando é possível infectar os órgãos de imprensa e educação desde suas menores ramificações, construindo um caminho factível para tomar suas posições de liderança em uma ou duas décadas?

O fim da história nós todos conhecemos. A tartaruga venceu o leão. A sociedade brasileira foi moldada durante meio século para aceitar e repetir toda a pauta ideológica da esquerda. A imprensa brasileira foi perdendo, um a um, seus editores e jornalistas conservadores; as universidades passaram a privilegiar professores e pesquisadores com viés marxista; as escolas se encheram de falsos educadores preocupados apenas em formar a próxima geração de odiadores da elite. Deu no que deu: 21 anos sob governos de esquerda, de FHC a Lula, de Lula à impensável (e impensante) Dilma. E agora, mais uma vez, a esquerda se agarra à sua estratégia vencedora e empurra goela abaixo a obrigatoriedade das disciplinas de Filosofia e Sociologia no ensino médio. Deputados do PT, da Rede e do PSol se movimentaram para incluir essa alteração à proposta original da reforma do ensino médio, e conseguiram o que queriam. Com a bênção da negligência e da concordância tácita de outros partidos, mantiveram intacto um dos pilares da estrutura de influência ideológica que vem sendo usada há mais de 60 anos para gerar massa de manobra marxista.

A prova de que o modelo educacional implementado pela esquerda é extremamente ineficiente e só funciona para gerar mais ignorância é o desempenho dos alunos brasileiros nos testes comparativos internacionais. A preocupação em equipar o aparato educacional com uma vasta gama de disciplinas da área de humanas e relegar as importantes Língua Portuguesa e Matemática a meras coadjuvantes – quando não a figurantes – nos colocou em posições ridículas e inaceitáveis nas classificações mundiais. No Pisa, que avalia justamente os conhecimentos de leitura, matemática e ciências dos alunos, o Brasil ficou em 60.º lugar entre 76 países participantes no ano de 2015, uma posição nada honrosa e certamente indigna de orgulho. Por outro lado, a quantidade de partidos políticos de esquerda em nosso país é inigualável, nossos grêmios estudantis estão repletos de revolucionários mirins e nossas universidades e escolas são frequentemente ocupadas por meninos e meninas que mal sabem escrever um parágrafo coeso de texto em sua língua materna.

Chegamos perto do fim de 2016 com mais um desempenho negativo de nossos parlamentares. Por melhor que tenha sido este ano para o mundo, em termos políticos – nos livramos de Dilma Rousseff, a Grã-Bretanha saiu da União Europeia, Trump foi eleito nos Estados Unidos e Fidel Castro encerrou sua carreira de ditador –, nosso Congresso sempre tem uma carta na manga para impedir os brasileiros de comemorar. É como se tivéssemos um Papai Noel ao contrário. Ho, ho, ho, Brasil.

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e “Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

Precogs do ventre alheio

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 8 de dezembro de 2016.

precogs

Desde o dia 29 de novembro passado, quando o STF legislou sobre o aborto até o terceiro mês de gravidez, o assunto tem estado entre os mais discutidos nas redes sociais e nas seções de comentários de diversos portais de notícias, incluindo o desta Gazeta do Povo. Os defensores dessa crueldade o fazem apoiados nas mais esdrúxulas argumentações, sobre as quais falo um pouco aqui.

Uma parte dos abortistas – usarei este termo aqui com o sentido de qualquer pessoa que acredite que o aborto é moralmente justificável – defende a prática dentro do prisma da saúde pública. Dizem eles que, já que a mãe vai abortar de qualquer maneira, que o faça legalmente, amparada pelo Estado, para minimizar o seu risco de morte. Para justificar essa lógica absurda, eles invocam estatísticas mentirosas e números simplesmente impossíveis de se comprovar. É claro que, se não se prestam nem ao serviço de utilizar dados verdadeiros, por que deveriam ser levados a sério quando o assunto é a vida de um ser indefeso? E ainda, se não são capazes de medir um evento factual como a quantidade de abortos terminados em morte da mãe, como podem definir o momento em que a vida passa a ser vida?

Uma outra parte dos abortistas defende a morte de bebês no útero com base no direito da mãe sobre seu corpo. Essa parte geralmente inclui feministas radicais que gritam “se não tem útero, não opine” para qualquer homem que, como eu, resolva opinar sobre o assunto. Fazem isso como se fosse necessário viver uma situação para se ter uma opinião balizada e fundamentada sobre a mesma. E defendem sua autonomia corporal como se um bebê dentro do útero não tivesse um DNA distinto do da mãe, ou seja, como se não fosse um ser completamente único. O bebê é tão distinto da mãe no início da gravidez quanto no dia de seu nascimento, ou mesmo no seu primeiro aniversário, e jamais pode ser tratado como um apêndice de outro corpo. Autonomia corporal é poder fazer lipo, é poder aumentar os seios, é poder trocar de sexo. Matar um bebê é assassinato.

Uma terceira parte dos abortistas, e desses vem o título deste artigo, gosta de brincar de prever o futuro. Em 2002, o filme Minority Report foi lançado, com Tom Cruise em seu papel principal. A história do filme é muito interessante: três jovenzinhos com faculdades sensoriais elevadas – os precogs – são mantidos numa espécie de transe utilitarista pelo órgão policial-judiciário da época (o filme se passa em 2054), e suas capacidades preditivas são usadas para prender criminosos pouco antes de cometerem um crime. No filme, essa divisão da polícia é conhecida como “pré-crime”. Mesmo na ficção de Hollywood, o aviso de que alguém estava prestes a cometer um delito grave chegava minutos antes da ocorrência do mesmo, e era comum o pré-criminoso ser pego já na cena em que cumpriria seu destino.

No nosso Brasil, e no resto do mundo também, os precogs do ventre alheio conseguem prever a desgraça de uma vida desde seu primeiro mês de gestação. Dizem eles que, se uma mãe optar por rejeitar seu bebê, melhor mesmo será matá-lo antes de nascer, porque do contrário o seu futuro certamente se resumirá a crimes e a uma vida à margem da sociedade. Ignoram a bondade e a caridade, ignoram todas as histórias de órfãos que superaram dificuldades e venceram, ignoram a vida humana no que ela tem de mais belo. Seu fatalismo cruel ecoa nos ventres defraudados e ocos das milhões de mulheres que abortam a cada ano em todo o mundo. Futuros médicos, garçons, engenheiros, atores, músicos, dentistas, aviadores, atendentes, enfermeiros e advogados, entre outros, são reduzidos a um amontoado mórbido de minicadáveres de pretensos futuros criminosos. Vidas que seriam vividas, desfrutadas e abençoadas são jogadas no lixo e apagadas antes de seu início em nome de uma prevenção socioeugênica digna do Terceiro Reich.

Aliás, a única coisa que separa os abortistas do nazismo das décadas de 1930 e 1940 são algumas décadas. A crueldade é a mesma, o desprezo para com a vida é o mesmo, a pretensão de julgar o valor alheio é o mesmo. Em uma coisa são piores, no entanto: os nazistas daquela época levantavam suas mãos inflamados pelo discurso apaixonado de seu líder; os abortistas de hoje defendem o indefensável por si mesmos, sem Hitler, sem SS e sem coação. Não poderão nem sequer alegar ignorância se um dia forem confrontados por conta de seu pecado diante de um tribunal divino de cuja existência duvidam e fazem troça. Não há nada que leiam, nem este texto e nenhum outro, que os faça abandonar o posicionamento em favor da morte.

Para quem defende a vida, esta foi uma semana de luto.

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e “Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

Tarde demais

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 1 de dezembro de 2016.

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Fico sabendo de um colega que acaba de voltar de Cuba. Suas palavras: “Não dá para descrever muito bem o que vi. Não tive coragem de fotografar a casa deles porque era algo degradante demais. Um animal de zoológico tem uma vida mais digna, com certeza”. A experiência parece tê-lo marcado para o resto da vida. Ele resolveu não ficar apenas na área turística de Havana – foi ver como vivem os cubanos de verdade, algo muito diferente do que nossa esquerda festiva prega por aí. E essa história está longe de ser um caso isolado ou único. O escritor Patrick Symmes publicou, em 2010, um relato detalhado, impressionante e desolador sobre os 30 dias em que viveu como um cubano. Letters From Havana – Thirty Days as a Cuban é uma história que convida ao choro e à revolta.

A Cuba de Fidel é essa. É a Cuba dos paupérrimos, dos famintos, dos assassinados, dos escravos, das adolescentes prostitutas e dos presos políticos – uma ilha da qual se foge, mas para a qual ninguém quer fugir. É a Cuba dos quase 6 mil fuzilamentos ordenados pelo regime castrista. É a Cuba de um povo miserável que viveu 49 anos sob a mão cruel de um ditador multimilionário.

Diante de um regime como esse, que só fez por destruir o país e escravizar seu povo, qual é o sentido de se enviar um representante oficial ao velório de Fidel Castro? A que ponto chegou a falta de coragem dos “estadistas” de hoje, para que não se constranjam em participar desse ritual macabro, uma homenagem a um dos homens mais diabólicos que já pisou neste mundo?

No Brasil, nossos políticos não deixaram por menos. Aécio Neves chamou Fidel de “grande líder” e de “afável no trato e eloquente, (…) que deixa o legado do sonho por uma sociedade igualitária”. Renan Calheiros lamentou sua morte e disse que ele “marcou a história mundial” e que “posições políticas diferentes, desde que respeitados os valores democráticos, contribuem para enriquecer nossa história”. Fernando Henrique Cardoso disse que Fidel simbolizava a luta dos pequenos contra os poderosos. Lula disse que perdê-lo foi como perder um irmão. Rodrigo Maia disse que é preciso reconhecer a importância de Fidel para o povo de Cuba.

Enquanto isso, todos os que se compadecem do povo cubano e que sonham com um pouco de justiça neste planeta esperavam por uma declaração como a de Donald Trump, que chamou Fidel de “ditador brutal que oprimiu seu povo por quase seis décadas”, cujo legado compõe-se de “pelotões de fuzilamento, roubos, sofrimentos inimagináveis, pobreza e negação dos direitos humanos”.

Como é difícil para a esquerda reconhecer seus erros. Mesmo diante de uma realidade bem conhecida e documentada, insiste em tentar disfarçar a feiura de suas crias, protegendo assassinos e louvando ditadores. Pouco lhe importa a tragédia de um povo, desde que seja preservada a narrativa utópica da busca pela igualdade e da revolução do proletariado contra a burguesia. O proletariado tem de se virar com meio ovo por dia? Tudo bem. O trabalhador tem de viver com US$ 15 por mês? Não tem problema. O governante magnânimo está na lista dos homens mais ricos do mundo? Não importa. Afinal, esse homem santo lutou contra os ianques e libertou sua nação do imperialismo americano. Salve, Fidel.

Eu prefiro viver na realidade e ficar em paz com a morte de alguém tão desprezível assim. O meu planeta amanheceu melhor no dia seguinte à morte de Fidel. Os meus amigos de ascendência cubana também pensam dessa maneira, e seus pais viveram a desgraça do castrismo na pele. Estão todos felizes e comemorando.

Adeus, Fidel. Já foi tarde demais.

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e “Mentiram para mim sobre o desarmamento”.