Entre insights e catimbas

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 6 de abril de 2017.

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Existe uma palavra na língua inglesa que não tem uma tradução perfeita para o português. É a palavra insight. Se você perguntar ao Google Tradutor, ele responderá com as opções “discernimento”, “introspecção”, “compreensão” e “perspicácia”. O Michaelis também aposta em “discernimento” como a melhor tradução. Mas nenhuma dessas opções comunica com perfeição o real sentido da palavra: uma compreensão clara, profunda e por vezes repentina de um determinado problema ou situação, nas palavras do Dicionário Cambridge da língua inglesa.

O maior insight que a esquerda já teve em sua história foi entender que a Suprema Corte de um país com regras democráticas é o caminho mais direto para a consolidação legal de novos paradigmas ideológicos em uma sociedade, independentemente de esses paradigmas estarem consolidados de fato nas interações humanas entre aqueles que vivem sob esse mesmo aparato de leis. Em outras palavras, ainda que não seja majoritariamente aceito pelo povo, um determinado argumento ideológico torna-se norma legal através da caneta de meia dúzia de togados.

Daí o motivo de as esquerdas darem tanta importância à ocupação de espaços nessas cortes. Em alguns lugares, como na Venezuela, o processo avançou a ponto de a corte mais alta do país não passar de um mero apêndice de um Poder Executivo autoritário e despótico. Em outros, como no Brasil, a corte apresenta uma maioria clara e consistente de juízes ideologicamente alinhados à esquerda, mas que conservam um nível de independência em relação ao Executivo. Nos Estados Unidos, a Suprema Corte historicamente alterna momentos mais conservadores com momentos mais liberais – não confundir aqui o liberalismo político americano, que nada mais é do que a esquerda neste país, com o liberalismo econômico –, e se encontra atualmente num movimento em direção ao conservadorismo.

A mais alta corte americana é composta de nove juízes, bastando a presença de seis deles para que haja quórum. Até o início de 2016, cinco deles tinham sido apontados por presidentes republicanos – dois por Reagan, um por Bush pai e dois por Bush filho – e quatro, por presidentes democratas – dois por Clinton e dois por Obama. O fato de um juiz ser indicado por um presidente republicano ou democrata diz muito a seu respeito. Por exemplo, nas votações com respeito a direitos de minorias, uma pauta ideológica clássica da esquerda, juízes “republicanos” votam a favor da manutenção dos direitos individuais, enquanto juízes “democratas” votam a favor da intervenção do Estado em favor de grupos minoritários. O mesmo acontece quando o assunto é sindicalismo ou liberdade de expressão. Para melhor ilustrar esse abismo entre os juízes, deixo os números a seguir, todos calculados com base nas votações dos juízes atuais:

Quando o tema é ligado a direitos de minorias, “republicanos” votam em média 35% das vezes em favor das minorias e 65% em favor do indivíduo. “Democratas” votam em média 66% das vezes em favor das minorias e 34% em favor do indivíduo. Se o assunto é sindicalismo, “republicanos” votam em média 41% das vezes em favor dos sindicatos e 59% em favor do empregador. “Democratas” votam em média 81% das vezes em favor dos sindicatos e 19% em favor do empregador. Em julgamentos sobre liberdade de expressão, “republicanos” votam em média 68% das vezes em favor da liberdade de expressão e 32% em favor de alguma restrição a ela. “Democratas” votam em média 35% das vezes em favor da liberdade de expressão e 65% em favor de alguma restrição.

Quando Donald Trump indicou Neil Gorsuch para o lugar de Antonin Scalia, todos os democratas americanos tremeram e temeram. Em termos de ideologia política, Gorsuch é tão conservador quanto o mais conservador dos juízes atuais, Clarence Thomas. Sua idade – completará 50 anos em agosto deste ano – lhe permitirá julgar por mais três décadas, equivalentes a oito mandatos presidenciais, se permanecer na média atual da corte. Diante de uma derrota tão avassaladora, os senadores democratas decidiram usar uma técnica bem conhecida nos campos de futebol de nosso Brasil: a catimba.

Usando da prerrogativa de que um senador tem direito a expor suas considerações antes do voto a favor ou contra uma indicação para a Suprema Corte, os senadores democratas têm se revezado na maior procrastinação legislativa da história da América. Na última terça-feira houve até quebra de recorde. Jeff Merkeley, senador pelo estado do Oregon, fez um discurso com duração de mais de 15 horas, começando sua fala às 19 horas da terça-feira já com o aviso de que “falaria tanto quanto conseguisse”. Em resposta a toda a catimba democrata, o líder da maioria no Senado, Mitch McConnell, disse que não hesitará em mudar o regimento interno para permitir a aprovação de Gorsuch com uma maioria simples, manobra conhecida como “opção nuclear”. No entanto, caso isso aconteça, as regras ficarão alteradas para as próximas eventuais nomeações sob o governo Trump, assumindo que os republicanos manterão a maioria no Senado durante seu governo. Ou seja, no caso provável de mais um juiz atual abotoar o paletó de madeira ou se aposentar, Trump nomeará o juiz que realmente desequilibrará a corte a favor dos conservadores, e valerá a regra da maioria mínima.

Assim, os democratas estão com um pepino gigantesco nas mãos. Neil Gorsuch é altamente respeitado, inclusive por alguns políticos democratas. Não bastasse isso, senadores de estados em que Trump saiu vencedor – Joe Manchin (Virgínia Ocidental), Heidi Heitkamp (Dakota do Norte) e Joe Donnelly (Indiana) – já declararam que votarão pela aprovação do novo juiz a fim de agradar seu eleitorado. Se, mesmo assim, a minoria democrata no Senado decidir por obstruir esta indicação, gastará a única bala que têm com um homem que foi aprovado por unanimidade para sua posição atual na corte de apelação, e abrirá caminho para que Trump escolha alguém ainda mais conservador na próxima oportunidade.

Vale lembrar que os democratas mudaram a regra da supermaioria para… (para ler o restante deste artigo, clique aqui).

DNA brazuca

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 30 de março de 2017.

sushi

O dia é quarta-feira. Entro num restaurante italiano próximo ao meu escritório. O restaurante faz parte de uma rede e tem algumas lojas na região. Sento-me com minha esposa após sermos muito bem recebidos pela hostess. O lugar é bem arrumado, mas não é chique ou requintado. Na verdade, uma placa na entrada anuncia alguns especiais de almoço por US$ 7, uma pechincha para a realidade local. Após estudarmos o cardápio, ela resolve pedir um torteloni de abóbora com pancetta, e eu decido por um fettuccine com molho de camarão.

Chegados os pratos, dou aquela garfada matrimonial no prato de minha esposa e descubro que ela fez uma escolha muito melhor que a minha. A garçonete passa por nossa mesa dois minutos depois e pergunta se gostamos da comida. Segue-se o diálogo:

“Gostamos, sim. Na verdade, eu gostei bem mais do que ela pediu que do meu prato.”

“Senhor, eu posso trocar o seu prato por um igual ao dela.”

“Sério? Puxa, obrigado, mas não precisa, não.”

“Não quero que saia daqui sem que sua experiência tenha sido a melhor possível. Será um prazer trazer um torteloni para o senhor.”

“Tudo bem, então. Aceito a cortesia.”

Após me deliciar com aquele torteloni cheio de pancetta, saio do restaurante ainda sem acreditar que aquilo tinha acontecido. Estávamos em nossos primeiros meses na América, e mal sabíamos que aquilo aconteceria com frequência em diversos outros lugares. Estávamos descobrindo a beleza de ser cliente numa terra em que cliente é rei.

O dia agora é domingo. A descoberta de que um novo restaurante japonês com DNA brazuca abriu na região nos leva a marcar o almoço de domingo num lugarzinho bastante descolado e muito bem frequentado na cidade vizinha à nossa. O local lembra um micromercado municipal, com uma cervejaria, uma padaria francesa, um café, um açougue mais sofisticado, uma barraca de sucos e lanches naturais, uma chocolateria e uma casa de chá. E ali, no meio de todo esse pessoal gringo, um japonês quase que 100% brasileiro. Dono brasileiro, atendente brasileiro e sushiman brasileiro. Não fosse o cardápio em inglês, poderíamos nos imaginar comendo sushi no Brasil.

Após analisarmos as opções, fazemos o pedido: ceviche e sushis variados, com uma única ressalva: tirar o cream cheese do hot roll porque nosso amigo Eduardo, fresco, não gosta. Com o pedido anotado e pago – o preço, mesmo sendo um restaurante sem serviço de mesa, já deixou todos menos entusiasmados e de carteiras vazias –, seguimos para uma das mesas do mercado e aguardamos a mensagem de texto no celular avisando que os pratos estão prontos para serem retirados. Quase meia hora depois, chega a mensagem. Vou até o balcão, pego os pratos com a ajuda do meu amigo e voltamos à mesa. Provo o ceviche e tenho a impressão de estar comendo limonada de peixe. Eduardo vai com voracidade para cima do hot roll e descobre que está cheio de cream cheese. Voltamos ao balcão, eu imaginando que seria tratado como daquela vez no italiano. Segue-se o diálogo:

“Amigo, o ceviche só tem gosto de limão.”

“É a nossa receita, senhor.”

“Eu não gostei. É possível trocar por alguma outra entrada?”

“Não, senhor. Não posso trocar por outra coisa, a não ser que queira comprar um novo prato.”

“Certo. Deixa pra lá. Outra coisa: pedimos o hot roll sem cream cheese e vocês colocaram cream cheese.”

“Vamos fazer outro. Por favor, me entregue o que veio errado.”

Dois hot rolls com cream cheese depois e completamente insatisfeitos com o serviço, saímos dali para nunca mais voltarmos.

Há um ditado entre os brasileiros imigrantes que explica muito bem a diferença entre os dois casos que contei: tem brasileiro que sai do Brasil, mas não deixa o Brasil sair dele. Em vez de enriquecer a cultura local com as boas características de um brasileiro – simpatia, calor humano, versatilidade, adaptatividade etc. –, o sujeito traz as práticas ruins que tinha em sua terra natal. Fazendo isso, cancela a maior vantagem da imigração, a sinergia de culturas. Entendo que algumas práticas comerciais comuns aqui nos Estados Unidos sejam impraticáveis no Brasil, pois os clientes simplesmente abusariam delas. Dou um exemplo: muitos restaurantes daqui deixam copos menores ao lado das máquinas de refrigerante, para que o cliente possa beber água sem pagar. Ninguém fica fiscalizando para ver se você pegou água ou Sprite, mas as pessoas respeitam e pegam somente água (pelo menos a grande maioria delas). Consegue imaginar isso no Brasil? Agora, se você se dispôs a abrir um negócio em terras estrangeiras, seria pedir muito que os bons costumes locais sejam seguidos?

A mentalidade gersoniana ainda tem muita influência na vida diária de muitos brasileiros. Quem tenta levar vantagem em tudo não consegue enxergar a vida como… (para ler o restante deste artigo, clique aqui)

Notificados Anônimos

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 23 de março de 2017.

Durante grande parte de minha vida, a palavra “notificação” sempre trouxe uma sensação de problema. É impossível não pensar em encrenca ou em dor de cabeça quando se recebe uma notificação judicial ou uma notificação da Receita Federal. Afinal, ninguém é notificado por ter sido um funcionário ou um patrão exemplar ou por ter pago os impostos em dia.

Já atualmente, notificação passou a significar aquela bolinha vermelha nos aplicativos do celular. Se antes era temida, agora passou a ser parte do cotidiano das pessoas. E todo aplicativo quer ter o direito de nos notificar; tanto que, na hora de instalá-los, geralmente somos indagados se queremos ligar as notificações, e a maioria de nós aperta o “sim” de forma quase automática.

De aplicativo em aplicativo, o celular é dominado, e com ele a vida de seu hospedeiro. A tela acende e você vê, mesmo de longe, que chegou um novo e-mail. Ou que alguém comentou seu post no Facebook. Ou que fulano, Sicrano e Beltrano retuitaram a mesma coisa. Ou que seu irmão mandou um vídeo no WhatsApp. Ou que acabou de cair um débito automático na conta bancária. Ou que um amigo curtiu sua foto no Instagram. Ou que seu cartão de crédito ultrapassou o limite pré-estabelecido de gastos no mês. Ou que um dos restaurantes em que você costuma comer está com uma promoção. Ou que a zona quatro do seu alarme disparou. Ou que, ou que, ou que. A lista é quase infinita.

Dois dias atrás, estava conversando com um amigo; ele é cristão, como eu. Estava lhe perguntando se ele já havia passado por aqueles momentos em que parece que Deus se cala por completo. Sua ótima resposta: “já passei, sim, várias vezes, até aprender que era eu que estava fazendo muito barulho para ouvir”. Parece até aquelas frases de autoajuda, mas esse fenômeno é bem real e intimamente ligado à nossa constante inquietação produzida pela carga de notificações à qual somos submetidos. Como muitas pessoas dormem com o celular carregando sobre o criado-mudo, esse frenesi eletrônico não para nem durante a madrugada.

O momento em que conversamos com Deus, em que ouvimos Sua voz, é também o momento em que olhamos para dentro de nós mesmos e fazemos uma reflexão de nossos erros e acertos, de nossos vícios e virtudes. É o momento em que reavaliamos o dia que passou e planejamos o que em breve começará. É como a canção de Gilberto Gil: “Se eu quiser falar com Deus, tenho que ficar a sós, tenho que apagar a luz, tenho que calar a voz”. Na era das notificações e das redes sociais, nosso grande desafio é perceber que algumas conexões impedem outras; e, sabendo disso, conseguir escolher a conexão certa na hora certa. A constatação mais comum, no entanto, é que muitos têm fracassado nessa questão. Você entra em um restaurante, passa os olhos pelas mesas e vê alguns casais de hospedeiros dando total atenção aos seus smartphones parasitas; ou mesmo pais totalmente absortos em suas telinhas enquanto seus filhos os observam sem saber o que fazer (isso quando não estão eles mesmos já com os seus). E o que dizer daquele amigo que não tira os olhos das notificações que pipocam a cada 20 segundos na tela do celular, ao mesmo tempo em que participa de forma meio zumbi da conversa que está acontecendo ao vivo?

Em que momento passamos a entender que aquilo que acontece a quilômetros de distância tem prioridade sobre o que está acontecendo diante de nossos olhos? Eu escrevo estas linhas na condição de alguém em recuperação de um vício. Não consegui achar um Notificados Anônimos para frequentar, mas alguns textos que andei lendo e algumas conversas que tive com minha esposa levantaram bandeiras de sinalização em meu dia a dia. Antes de começar a escrever este artigo, já tinha desligado quase todas as notificações em meu celular. Ficaram apenas as do telefone, das mensagens de texto e dos aplicativos de companhias aéreas. Também tenho cultivado o hábito de só abrir algum aplicativo de e-mail ou rede social depois de ter acordado, meditado, dado bom dia à minha esposa e ter tomado café da manhã com ela e com nosso filhinho. O resultado, depois de duas semanas agindo dessa maneira, é muito positivo: não deixei de atender nenhum cliente, não perdi nenhuma comunicação importante, o apocalipse digital não aconteceu em minha casa e absolutamente ninguém foi prejudicado por causa disso. Afinal, o mundo funcionava perfeitamente antes dos e-mails e dos celulares e, por incrível que pareça, havia vida antes de existirem Google e GPS. As pessoas tiravam extrato bancário no caixa eletrônico, mandavam cartas, pesquisavam em bibliotecas, guiavam-se com mapas impressos e conversavam mais com a boca que com os dedos. E pasmem: elas tinham mais tempo de sobra, ainda… (para ler o restante deste artigo, clique aqui)

Je suis Dilma

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 16 de março de 2017.

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Eu moro há três anos nos Estados Unidos e falo inglês com fluência. Aliás, a língua inglesa sempre foi uma de minhas paixões, tanto que fui franqueado de uma rede de ensino de idiomas por quase dez anos no Brasil. Além disso, trabalhei em várias multinacionais americanas, onde volta e meia tinha de desfiar o idioma saxão em telefonemas e reuniões. E eis que, mesmo com esse histórico, ainda não me sentiria à vontade para dar uma entrevista em inglês. Seria certamente algo que me tiraria o sono na noite anterior.

Mas com Dilma Rousseff tudo é diferente. A ex-presidente, apesar de sua “heterodoxia” ao se comunicar em sua língua-mãe, resolveu que seria uma boa ideia conceder entrevista em francês durante sua recente viagem à Suíça. O resultado não poderia ter sido mais previsível: Dilma envergonhou o Brasil novamente. Se já andava na corda bamba ao discursar em português, misturando cachorros ocultos com crianças, estocando vento e fazendo poesia moderna com pasta de dente, em francês ela cruzou fronteiras. Nem mesmo os grandes comediantes que passaram por este planeta conseguiriam superar o esquete da dentuça francófona.

Ser ridículo é uma decisão pessoal, sempre. O problema de Dilma é, por algum capricho do divino, ter conseguido um dia ser eleita e reeleita presidente de um país com mais de 200 milhões de habitantes. Ou seja, ela faz parte de um grupo seleto de pessoas – e que fique claro que, no Brasil, ele é seleto apenas por seu diminuto tamanho e não pela qualidade de seus integrantes – e essa membresia, por assim dizer, requer uma etiqueta específica, completamente ignorada por ela. Dilma não só pisoteou o idioma alheio; ela o fez para transmitir uma mensagem inadequada e mentirosa, enlameando de vez sua já manchada história. Seguindo a linha “Napoleão de hospício”, a ex-presidente usou seu tempo de entrevista para denunciar um complô antidemocrático em curso no Brasil, cujo objetivo principal seria impedir a candidatura de Lula à Presidência em 2018. Tivesse mais alguns minutos e conhecesse mais algumas palavras do francês, Dilma poderia ter abordado a questão dos alienígenas que já vivem entre nós ou defendido que a Terra é, na verdade, plana. Sua opção foi, claramente, pelo maior dos três absurdos.

Ironicamente, poucos dias depois do vexame na Suíça, Dilma e Lula apareceram juntos em mais uma notícia: a divulgação da lista de Janot. Os dois ex-presidentes constam neste grupo não tão seleto de criminosos em potencial, ao lado de outros estrupícios como Aécio Neves, Aloysio Nunes, Antônio Palocci e Guido Mantega. A famigerada lista expõe o horror que é a política brasileira e nos deixa com a sensação de que estamos andando em círculos, em que o próximo escândalo é apenas uma versão mais recente da falcatrua anterior. Seu autor acertou em cheio quando disse que a democracia foi tomada pela corrupção no Brasil. Meu temor é que essa realidade seja irreversível em virtude de a corrupção estar tão alastrada e amalgamada na estrutura de… (para ler o restante deste artigo, clique aqui)

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e “Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

Um voyeur na presidência

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 9 de março de 2017.

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Algum tempo atrás, escrevi nesta mesma coluna que Barack Obama entraria para a história como um dos piores presidentes americanos. Ele ainda ocupava o cargo, e grande parte de suas sujeiras permanecia oculta debaixo dos tapetes da Casa Branca. Ao contrário dos criminosos petistas, que se lambuzam em suas empreitadas ilegais a ponto de serem retirados de cena quando ainda no poder, Obama escondeu seus crimes até o último dia de mandato.

Na última semana, aqui nos Estados Unidos, o assunto que vinha dominando as pautas da imprensa era a acusação do presidente Donald Trump de que Barack Obama tinha plantado escutas telefônicas em sua mais conhecida propriedade em Nova York, a Trump Tower. Como de praxe, quatro quintos da grande imprensa americana – CNN, MSNBC, ABC, NBC e outros – apressaram-se em encontrar pessoas ligadas ao governo anterior que negassem a acusação. Felizmente, essas negativas foram contestadas com veemência nas redes sociais, onde histórias como a de James Rosen, o repórter da Fox News que teve seus telefonemas ilegalmente grampeados durante a administração passada, ressurgiram com força, mostrando que o ex-presidente tem um passado que o condena.

No entanto, poucos esperavam que a verdade sobre o voyeurismo de Obama surgisse tão rapidamente. Na última terça-feira, o WikiLeaks, de Julian Assange, divulgou mais de 8 mil páginas de documentos confidenciais da CIA (chamados pelo próprio WikiLeaks de Vault 7), e o conteúdo é digno de uma ficção distópica. Os documentos mostram com clareza que a agência estava trabalhando diligentemente em projetos de espionagem baseados na tomada de controle de dispositivos pessoais ligados à internet. Em outras palavras, a CIA estava desenvolvendo diferentes versões de malware (malicious software – programas feitos para invadir sistemas alheios de forma ilícita e com propósitos danosos) para controlar o celular, o tablet, a smarTV e até mesmo o computador de bordo de seus “alvos”. Isso significa que, munida desses programas, a agência de inteligência americana teria (ou, numa hipótese assustadora, porém factível, já tem) acesso livre a conversas e imagens de qualquer pessoa conectada à internet através de um desses dispositivos. No caso de televisores Samsung, os documentos chegam a falar sobre um modo de “falso desligado”, onde a televisão parece estar desligada, mas continua transmitindo todo o áudio de seu redor para quem a estiver controlando remotamente. Como eu disse, coisa de filme.

Tão ruim ou pior que espionar as pessoas e jogar no lixo o direito dos cidadãos à privacidade é a possibilidade de invadir sistemas veiculares. Isso abre uma grande suspeita de que a agência tenha em seus planos a realização de assassinatos seletivos e praticamente indetectáveis por meio de uma investigação policial tradicional. Já há, inclusive, teorias da conspiração tentando ligar o conteúdo do Vault 7 à estranha morte do jornalista Michael Hastings, decorrente de um acidente automobilístico difícil de se explicar. A época da morte de Hastings coincide com o período de testes dos tais malwares, e há indícios de que ele estava sendo investigado por uma das agências de inteligência, deixando a coisa toda bastante malcheirosa.

Nas redes sociais, um novo termo surgiu para designar o Estado sob o governo Obama: Deep State. O nome é uma alusão ao termo Deep Web, denominação dada àquela… (para ler o restante deste artigo, clique aqui)

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e “Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

Saudades dos revolucionários

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 2 de março de 2017.

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Uma das coisas mais engraçadas dos últimos tempos no mundo virtual são os memes “raiz/Nutella”. Para quem não viu, são apresentadas duas épocas de uma mesma profissão e suas diferenças marcantes, geralmente embaixo de fotos que estereotipam os dois lados. Um dos que mais gostei foi o “vendedor raiz” versus “vendedor Nutella”. O vendedor raiz, com foto de cabelo e bigodinho típicos dos anos 80, andava de Uno Mille, ficava em hotel de 35 mangos, fazia happy hour das 18 às 4 horas, saía com as secretárias e com as clientes, jogava sinuca, fumava Derby, tomava Brahma e vendia muito. Já o vendedor Nutella anda de HB20, só fica em hotel com academia, almoça salada com grelhado, só sai com cliente a negócios, bebe Heineken ou Corona, não fuma de jeito nenhum e não vende quase nada. Essas tiradas de bom humor exemplificam com muita clareza a diferença entre as gerações dos que já estão chegando aos 50 e a dos que estão atravessando os 20.

Na política também é possível fazer um meme raiz/Nutella. Eu não era nascido quando a esquerda revolucionária tentava transformar o Brasil no “paraíso comunista” do Hemisfério Sul. Mesmo assim, posso dizer: bons tempos aqueles de esquerda raiz. Eram tempos em que eles se assumiam pelo que eram – gostavam de ser chamados de comunistas, tinham orgulho de defender o comunismo, cantavam a Internacional com lágrimas de emoção e acreditavam que a utopia de Marx transformaria o mundo-cão do capitalismo (pelo menos os mais ingênuos pensavam assim). Por amor ao comunismo eles plantavam bombas, sequestravam autoridades, faziam reuniões secretas e planejavam a tomada revolucionária do poder. Ainda que não fossem o suprassumo da coragem – a maioria debandou como um bando de baratas diante da resposta militar em 1964 –, qualquer tentativa de comparação com a esquerda Nutella de hoje é simplesmente ridícula.

Estamos em 2017, e a nova geração de comunistas – os que preferem ser chamados de progressistas – está tão distante da esquerda raiz quando o oriente do ocidente. A galerinha progressista não acredita mais na revolução armada. Na verdade, a maioria deles nem sequer sabe como usar uma simples pistola. Nem o bom e velho coquetel Molotov faz parte do arsenal desse pessoal, que prefere mostrar as nádegas desnudas em forma de protesto. Os jovens universitários, que antes compunham canções de protesto e dominavam os grêmios estudantis, agora invadem reitorias para fumar maconha e fazer sexo livre, sempre com a exigência de que a polícia repressora não os incomode enquanto engajados nessas atividades “revolucionárias”. Em vez de sequestrarem autoridades, os progressistas de hoje preferem quebrar o tabu e usar o banheiro do sexo oposto, ou então se engajam na difamação de oponentes em redes sociais. E, quando recebem alguma resposta à altura, preferem bloquear qualquer um que discorde de suas posições, pois não têm a capacidade e nem a paciência de debater. A esquerda Nutella não lê, não estuda, não escreve bem, não discute e não costuma raciocinar. E, ainda assim, escolhe ser mais radical que a esquerda raiz em quase todos os pontos de sua agenda ideológica.

Que fique claro que não estou desejando a volta de atentados ou sequestros. Estou somente tentando mostrar a nossa triste realidade. A nova geração de esquerdistas politicamente engajados é uma piada de mau gosto. As pautas… (para ler o restante deste artigo, clique aqui)

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e “Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

O protesto que desapareceu

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 23 de fevereiro de 2017.

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Lembro-me muito bem da época em que Dilma ainda era presidente. Bastava que meia dúzia de manifestantes aparecessem em frente ao Masp, em São Paulo, munidos de faixas vermelhas e sanduíches de mortadela, para que a imprensa noticiasse o protesto. Tudo bem, posso ter exagerado ao dizer “meia dúzia”, mas cheguei a ver chamadas de primeira página nos grandes portais paulistas mostrando manifestações com menos de 100 pessoas.

Pois bem, no último domingo o povo foi às ruas em diversas cidades do país para pedir o fim do Estatuto do Desarmamento. As fotos do evento de São Paulo mostram milhares de pessoas, mas nem uma linha sequer foi publicada a respeito. Silêncio total da imprensa.

É muito difícil entender o tipo de raciocínio que impera na maioria das redações brasileiras quando o assunto é desarmamento. Quase todos os repórteres e colunistas dos grandes jornais e portais de nosso país defendem o desarmamento e as leis que o implantaram no Brasil como se fossem a melhor coisa que já nos aconteceu. No entanto, publicam quase que diariamente notícias que evidenciam a falência total dessas mesmas leis, numa espécie de esquizofrenia jornalística. A cada nova notícia sobre o assunto, a coisa toma mais ares de insanidade mental.

Nessa linha de “raciocínio”, os mesmos portais jornalísticos que ignoraram os protestos contrários ao Estatuto do Desarmamento noticiaram um ataque criminoso na última terça-feira, dia 21. Bandidos armados com fuzis de categoria militar, calibre .50, atacaram dois carros-fortes na Rodovia dos Bandeirantes. Houve tiroteio entre os criminosos e os seguranças, e aqueles ainda conseguiram roubar duas viaturas policiais e fugir para São Paulo. Já na capital, os bandidos foram encurralados em um posto de gasolina em plena Marginal Tietê, tomaram frentistas como reféns e acabaram presos no final. Esse tipo de notícia – de criminosos armados com equipamentos de nível militar e venda proibida no país – é a prova cabal de que as leis de desarmamento em vigência no Brasil não funcionam. Os repórteres que publicam essas narrativas são os mesmos que fazem matérias contra as iniciativas recentes de revogar o Estatuto do Desarmamento, e que tentam a todo custo convencer o seu público de que armas são coisas do demônio, que só fazem piorar os já rampantes índices de criminalidade no Brasil.

Tentarei resumir o encadeamento de ideias desses jornalistas que têm pavor de armas nas mãos de cidadãos respeitadores da lei:

1. Armas matam e por isso devem ser proibidas – quanto mais armas, mais violência;

2. Os cidadãos obedientes à lei não podem ter armas, porque não sabem usá-las e porque alimentam o mercado de armas para os criminosos;

3. Os criminosos, se não puderem roubar as armas dos cidadãos, também ficarão sem armas;

4. Uma vez eliminadas as armas da sociedade brasileira, ninguém mais matará ninguém.

Por mais incoerente e ilógico que seja um raciocínio desses, é assim que pensam os defensores do desarmamento. É claro que estão errados, pois, se desarmar o povo funcionasse, o Brasil seria hoje um país livre de crimes violentos. O mais incrível é que nem os questionamentos mais básicos são feitos para colocar o atual modelo de desarmamento em uso no Brasil sob crítica. Basta uma única pergunta para desmontar toda essa falácia: se o Estatuto do Desarmamento já está em vigor há mais de dez anos, e a quantidade de armas nas mãos dos cidadãos diminuiu drasticamente no período, como é que os criminosos conseguem armas em maior quantidade e de calibres mais destrutivos do que antes? Fica óbvio que o principal meio de obtenção de armas pelos criminosos nunca foi roubá-las de cidadãos, e sim trazê-las por contrabando ou comprá-las de policiais e militares corruptos. E é óbvio ululante que o Estatuto não tornou o Brasil um país mais seguro – muito pelo contrário.

Ao decidir ocultar notícias como a da manifestação do último domingo, grande parte da imprensa brasileira continua… (para ler o restante deste artigo, clique aqui)

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e “Mentiram para mim sobre o desarmamento”.