Ah, se eu ganhasse mais…

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 20 de outubro de 2016.

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Quem nunca disse ou nunca ouviu alguém dizer “ah, se eu ganhasse mais dinheiro, não teria tantas dívidas”? Todo endividado pensa isso, porque todo endividado pensa que o problema é não ter dinheiro suficiente, quando na verdade, na grande maioria das vezes, o problema é ter despesas demais. Isso vale para brasileiros e americanos, para pessoas, empresas e governos, para pobres e ricos.

No quesito gente, a coisa não anda nada bem. Um artigo recente da revista Forbes mostra que uma pessoa que tenha US$ 10 no bolso e nenhuma dívida contraída – nenhuma parcela de casa, carro, crediário ou cartão de crédito – é mais rica que 15% dos americanos. Isso significa que há mais de 45 milhões de pessoas, só nos Estados Unidos, que possuem patrimônio líquido negativo. No Brasil, a situação não é muito mais bonita. Segundo dados do Banco Central, 46,3% da renda média das famílias brasileiras está comprometida com dívidas.

Apesar dos números preocupantes, quando fazemos uma comparação com a situação do nosso governo, dá até vergonha de criticar o povo: a dívida pública brasileira chegou ao patamar de 73% do PIB neste ano. E, apesar desse porcentual assustador, muita gente se posicionou contrariamente à PEC 241 – proposta de emenda constitucional que fixa um limite máximo para os gastos públicos –, aprovada em primeira votação no plenário da Câmara no último dia 10. A PEC define que os gastos públicos de um determinado ano não poderão exceder os do ano anterior (valendo a partir de 2017, com valores corrigidos por conta da inflação), ou seja, congela os gastos públicos no patamar atual, que já é monstruosamente alto.

O pessoal que anda escrevendo contra a PEC 241 bate na tecla de que o congelamento dos gastos significará o corte de verbas importantes para o bem-estar social. A lógica que usam é a mesma do cidadão endividado: o problema é não ter dinheiro. Mas, quando se fala de governo, o problema é realmente não saber como gastar o dinheiro. A quantidade de recursos que some nos ralos do aparato governamental é incalculável. Ineficiência, burocracia, má administração, corrupção, falta de inteligência e incapacidade técnica – estas são apenas algumas das razões pelas quais o dinheiro dos impostos não é aproveitado de uma forma minimamente decente.

A imagem figurativa mais clara que me vem à mente é a de um cofre cheio de buracos. Os que se declararam contrários à PEC 241 – faço menção desonrosa ao vídeo do Mídia Ninja, narrado por Gregório Duvivier e recomendado no perfil de Dilma Rousseff no Twitter – são os loucos que querem encher o cofre jogando mais dinheiro. Eles acham que dinheiro dá em árvore (aposto que você já ouviu isso de sua mãe ou de seu pai) e que basta encher o cofre mais rapidamente do que os buracos o esvaziam para que tudo esteja certo. Para os seres pensantes, é óbvio que não adianta fazer nada enquanto os buracos estiverem drenando tudo o que se joga ali dentro.

E não adianta ganhar mais dinheiro. Países como Estados Unidos, Japão, Espanha e França têm dívidas públicas ainda maiores que a do Brasil. Lá, como aqui, o governo só sabe fazer uma coisa melhor que as pessoas: desperdiçar recursos. Se é para desperdiçar, que seja com limite.

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e “Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

Fofocalismo

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 13 de outubro de 2016.

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A capacidade que as pessoas têm de prestar atenção e gastar seu tempo com coisas menores e/ou inúteis tende ao infinito. As redes sociais são uma das provas modernas disso: perde-se uma quantidade imensurável de tempo olhando-se postagens de outros e comentando-se sobre textos e temas que não adicionam nem um centavo sequer ao bolso de ninguém (exceto dos CEOs dessas redes), muito menos um pensamento ou um conceito que valha a pena ser guardado na memória.

Esse tipo de comportamento não é exclusividade da era atual. Revistas e jornais de fofocas existem há bastante tempo, e a curiosidade sobre a vida dos outros faz parte da vida em sociedade desde que se tem registro histórico dela. Muitos dirão que, apesar da imbecilização que isso pode causar nas pessoas, agir assim é algo que traz prejuízos ou atrasos somente para a pessoa que o faz. Eu até poderia concordar com isso, não fosse um aspecto pernicioso desse foco nas coisas inúteis: o seu uso intencionalmente maldoso pela imprensa, especialmente pela imprensa esquerdista.

Nos últimos dias, vi dois exemplos de como um jornalista é capaz de usar banalidades e fatos de menor importância relativa para dar força à sua pauta ideológica. O primeiro caso foi o da primeira-dama Marcela Temer. Reportagens dos maiores portais de notícias do país insistiram em noticiar que Marcela usava um vestido de R$ 1.689 em seu discurso para o lançamento do programa Criança Feliz, como se isso fosse o maior pecado cometido por uma mulher desde que Eva comeu aquela maldita maçã. Ora, seu marido, Michel Temer, tem um patrimônio declarado de R$ 7,5 milhões, mais do que suficiente para comprar vestidos desse preço. Aliás, qualquer terno de preço mediano custa mais que o vestido de Marcela. Ou seja, esses jornalistas que costumam ser tão engajados em denunciar o machismo da sociedade brasileira – seja lá o que eles entendam por isso – ficam calados sobre os ternos Ermenegildo Zegna que muitos políticos usam, mas apontam o dedo para a primeira-dama e seu vestido que custa menos que um iPhone. Parece óbvio que, por trás dessa perseguição disfarçada de indignação, a real motivação desses “jornalistas” seja destruir a imagem da primeira-dama que, por sua beleza, juventude e feminilidade, deixa indignada aquela parcela majoritária da esquerda que tem aversão a tudo o que é bonito e tradicional, e a toda mulher que não seja feia, descabelada e com muitos pelos debaixo dos braços.

O segundo exemplo foi na mídia americana, em ataques ao presidenciável republicano. Mesmo diante de uma candidata como Hillary Clinton, que acumula em sua carreira episódios como a defesa imoral de um estuprador de adolescentes e o casamento com um predador sexual do quilate de Bill Clinton, todos os jornalistas da esquerda americana (além de vários da direita) resolveram achincalhar Donald Trump por causa de um vídeo onde ele fala bobagens de cunho sexual, daquelas que todo homem já ouviu um dia numa mesa de bar ou num vestiário de academia. Com a conivência dos idiotas úteis, que propagam essas reportagens e dão audiência a esses pseudojornalistas, a fala de Trump ganhou proporções totalmente descabidas, e a estratégia por trás disso é tão clara que eu, pessoalmente, não consigo entender como alguém não consiga enxergar: Hillary tem tantos escândalos e episódios moral e criminalmente reprováveis que somente o desvio da atenção de todos é capaz de dar algum espaço de manobra para sua campanha. Ela discursa ao lado do marido, que a traiu com uma estagiária e que é acusado de molestar sexualmente diversas mulheres, no maior show de hipocrisia deste nosso planeta azul. Quem inventou o ditado “faça o que eu digo, não faça o que eu faço” não imaginava que algo assim um dia existiria. Se a imprensa americana desse a mesma atenção aos escândalos de Hillary, ela já estaria na cadeia há muito tempo.

E o cidadão comum, que culpa tem nisso tudo? Bem, toda vez que ele replica um conteúdo podre desses ou que dá audiência para essa parte suja da imprensa, ajuda a disseminar e a encorajar esse comportamento. O jornalismo que vive de fofocas e inutilidades só consegue sobreviver porque é muito bem alimentado. Está na hora de matar esse pessoal por inanição.

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e “Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

PT – Partido em exTinção

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 6 de outubro de 2016.

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As eleições de domingo passado mostraram que o povo brasileiro, no fim das contas, está atento ao que acontece no cenário político nacional. Em um ano no qual tivemos a votação do impeachment de Dilma Rousseff e a saída do PT do comando da nação, eleitores de todo o Brasil deixaram claro que não querem mais esse pessoal em nenhuma esfera governamental. Uma passada rápida pelos resultados é mais que suficiente para entender o que estou dizendo.

Nas 26 capitais, a situação foi de quase eliminação completa dos candidatos petistas. Marcos Alexandre foi o único eleito já em primeiro turno (reeleito, na verdade), em Rio Branco, no Acre. O outro petista que restou foi João Paulo, que vai para o segundo turno em Recife com uma votação inexpressiva de 23,76% dos votos válidos. As demais 24 capitais são oficialmente PT-free.

Quando a abordagem é por maiores cidades do Brasil, outra lavada. De acordo com os dados do Censo IBGE de 2013, há 39 municípios com mais de 500 mil habitantes no Brasil – apenas 20 deles são capitais. O PT não levou nenhum de primeira; vai ao segundo turno em Recife, caso já mencionado acima, e em mais duas cidades: Santo André (SP) e Juiz de Fora (MG). Em Santo André, Carlos Grana tentava a reeleição e ficou em segundo lugar, com 20,3% dos votos, contra 35,9% de Paulinho Serra, do PSDB. Em Juiz de Fora, Margarida Salomão liderava as pesquisas, mas acabou ficando em segundo lugar, com 22,38% dos votos – muito atrás dos 39,07% de Bruno Siqueira, do PMDB. Não parece que nenhum dos dois tenha muitas chances de eleição.

Se olharmos para o ABC paulista, reduto histórico do partido e quartel-general de Lula, mais uma derrota significativa. O PT vai ao segundo turno somente em Santo André, como foi dito acima. São Bernardo do Campo, São Caetano do Sul e Diadema não quiseram nenhum petista na prefeitura. E, para coroar o desempenho pífio, o filho de Lula, que concorria a uma vaga de vereador em São Bernardo, teve apenas 1.504 votos – foi apenas o 58.º mais votado.

Por último, vale a pena dar uma olhada nos deputados federais que votaram contra o impeachment de Dilma Rousseff e se candidataram a alguma prefeitura neste pleito. Foram 25 casos, dos quais apenas dois venceram em primeiro turno, e somente três vão disputar o segundo turno. Nem todos são do PT, mas todos faziam parte do bloco governista que tentou salvar Dilma a todo custo.

Escorraçado das capitais e das grandes cidades brasileiras (no jargão petista, aquelas com maior potencial de roubo), o PT sai desta eleição, independentemente dos resultados do segundo turno, como um partido em processo de extinção. Algo certamente extraordinário se nos lembrarmos do cenário político de apenas seis anos atrás. Foi em 2010, durante um comício de Dilma Rousseff, que Lula defendeu que o DEM fosse extirpado da política brasileira. O DEM, que vinha perdendo prefeituras vertiginosamente – eram 1.028 prefeituras em 2000, depois 790 em 2004 (quando a sigla ainda era PFL), 496 em 2008 e 278 em 2012 –, conseguiu garantir 265 prefeituras no primeiro turno deste ano, e pode ganhar mais três depois do segundo turno. O PT de Lula foi menor que o “extirpável” DEM: apenas 256 prefeituras. Mesmo que ganhe as sete disputas de que participará no segundo turno, não chegaria a 265.

Quem é que parece mais perto de ser extirpado agora?

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e “Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

Sai pra lá, ditador!

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 15 de setembro de 2016.

O Mercosul foi fundado em 1991 – na época, Collor presidia o Brasil e Carlos Menem, a Argentina. Mas foi somente em 1994, após a assinatura do Protocolo de Ouro Preto (documento que estabelece a estrutura de operação do Mercosul), que o bloco começou a funcionar de fato. O Brasil de três anos depois já tinha saído da rápida presidência de Collor – que, apesar de rápida, deixou um importante legado na abertura da economia brasileira – e estava nas mãos de Itamar Franco; a Argentina continuava sob o mesmo comando.

Esses dois presidentes e seus sucessores diretos, em conjunto com os governantes de Paraguai e Uruguai, deram volume ao jovem Mercosul nos anos que se seguiram. O bloco desenvolveu suas políticas alfandegárias e manteve a independência monetária e fiscal dos países participantes. Nesse sentido, sou muito mais simpático ao Mercosul que à União Europeia, que tentou unificar o que não era unificável e hoje sofre as consequências disso. Em outras palavras, o Mercosul não ajudou tanto assim, mas também não atrapalhou.

É claro que a chegada da esquerda bolivariana ao poder nos dois países mais fortes do bloco causou o que toda esquerda causa quando chega ao poder: fracasso e falência. Lula começou os 13 anos de governo petista em 2003, assim como Nestor Kirchner na Argentina. Nessa época, Hugo Chávez já governava a Venezuela havia cinco anos e deixava bem claro os rumos ditatoriais que seu governo tomaria. Chávez faria, nos anos seguintes (e, depois dele, Nicolás Maduro), tudo o que um respeitador da democracia e da liberdade jamais pensaria em fazer: desmonte das instituições democráticas, fraudes eleitorais, populismo em níveis estratosféricos, enfraquecimento da tripartição do poder, ocupação da Suprema Corte, aumento exponencial da intervenção estatal na economia e na vida da população, aproximação com forças criminosas como cartéis de drogas e guerrilheiros, perseguição de inimigos políticos, supressão da liberdade de expressão e, por fim, prisão e assassinato de cidadãos e políticos contrários ao regime vigente. E o Mercosul do PT e dos Kirchner optaria, cada vez que o governo venezuelano cometesse um crime, entre defender, aplaudir ou ficar calado.

Para quem não se lembra, foi assim em 2005, quando Lula disse que “na Venezuela há excesso de democracia”; em 2007, quando defendeu Chávez em meio à situação polêmica com o rei da Espanha, dizendo que “Hugo Chávez é um democrata”; em 2009, quando apoiou a reeleição ilimitada de Chávez, dizendo que “precisamos respeitar a cultura de cada país”; e em 2014, quando gravou vídeo de apoio a Nicolás Maduro, dizendo que o mesmo “ama o povo venezuelano e luta pelos pobres”. Nem preciso dizer que a pobreza aumentou como nunca antes em todos esses anos de Chávez/Maduro em nossos vizinhos a noroeste. Os Kirchner, principalmente Cristina, também foram aliados fiéis do regime chavista, e tentaram a todo custo seguir o seu exemplo na Argentina.

Mas, como todo inverno acaba, como toda noite dá à luz uma nova manhã (poético isso, não?), a América do Sul conseguiu sair do coma em que se encontrava, e revigorou-se com a saída dos bolivarianos dos governos do Brasil e da Argentina. Macri e Temer comandam os dois maiores países do continente e, com o apoio do Paraguai e a anuência do Uruguai, tomaram nesta semana uma decisão muito importante para o bloco econômico: a Venezuela está impedida de exercer a presidência do Mercosul neste semestre, posição que ocuparia pela rotação alfabética. De acordo com a declaração assinada pelos quatro países, o governo venezuelano falhou em cumprir com diversas normas e acordos indispensáveis a qualquer país do bloco, entre eles o Protocolo de Proteção aos Direitos Humanos do Mercosul, que exige “a plena vigência das instituições democráticas e o respeito dos direitos humanos e das liberdades fundamentais” nos países participantes. A declaração vai além, e ameaça suspender a Venezuela se não houver o cumprimento dessas normas e acordos até 1.º de dezembro deste ano.

Esta é a postura que todo cidadão que respeita e luta pela liberdade gostaria de ver. É a postura que queríamos ter visto tantas vezes nos últimos 13 anos. A história de Maduro indica que não haverá nenhuma melhoria no aparato jurídico da Venezuela que resulte em algum respeito aos direitos humanos ou às liberdades individuais. Nossa torcida e pressão agora devem estar sobre o Itamaraty, para que o Brasil defenda com toda a sua força de potência regional a suspensão e, quem sabe num futuro próximo, e expulsão definitiva da Venezuela. Maduro precisa saber que, enquanto governar como um criminoso, seu país sofrerá sanções de todos os vizinhos. Que ele fique sozinho no lixo da história.

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

Mais uma redonda

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 1 de setembro de 2016.

O Brasil desanima, até quando anima. E desanima em grande estilo, com direito a absurdos nunca antes vistos na história nacional, quiçá mundial. Foi o que vimos nesta quarta-feira, no julgamento do impeachment de Dilma Rousseff no Senado. Os pizzaiolos da vez, Ricardo Lewandowski e Renan Calheiros – este último com vasta experiência na montagem de redondas italianas –, deixaram uma tremenda mancha num processo que poderia ter lavado a alma de muitos brasileiros. Dilma perde o mandato, mas não perde mais nada. É julgada culpada por crime, mas não recebe pena nenhuma. No país da impunidade, nem chega a ser muita surpresa; continua sendo, no entanto, extremamente difícil de engolir.

Esta coluna, que seria escrita em comemoração ao fim do governo mais incompetente e corrupto desde que Cabral atracou na costa brasileira, acaba dedicada aos momentos de comédia involuntária proporcionados pela senadora Kátia Abreu e pela própria Dilma. Dizem que devemos usar os limões da vida para fazer limonada; estou apenas tentando espremer a minha.

Kátia Abreu foi à tribuna do Senado depois de terminada a votação sobre o crime de responsabilidade cometido pela agora ex-presidente. Lá, teve a coragem de ser ridícula diante das milhões de pessoas que acompanhavam a transmissão da TV Senado: argumentou que a “pobre” Dilma estava a apenas um ano de se aposentar, e que tirar os seus direitos políticos acabaria impedindo nossa heroína tupiniquim de dar aulas em uma universidade pública ou de prestar um concurso em empresa, órgão ou autarquia estatal. É difícil escolher qual das interpretações é mais humorística, a de que Dilma é tão incompetente que só conseguiria arrumar emprego no serviço público, ou a de que Dilma teria condições de dar aula a alguém com mais de 4 anos de idade. Kátia Abreu completou seu discurso abilolado mencionando por diversas vezes os termos “presidenta honesta”, “mulher honrada” e coisas do tipo.

E depois, é claro, tivemos a própria Dilma fazendo seu discurso de despedida. Como seu estoque de argumentos já se extinguiu há muito tempo (desde sua infância, imagino), ela resolveu tirar o coringa da luta racial-social-sexual-indígena da lata do lixo. De acordo com Dilma, aqueles que a condenaram são, precisamente por terem-na condenado, racistas, machistas, homofóbicos, indiofóbicos, gordofóbicos, dentuçofóbicos etc. E, para rivalizar com sua grande amiga, senadora Kátia, Dilma disse que recorrerá da decisão em todas as instâncias possíveis – ainda não descobri se ela enviará o recurso para o Alto Conselho Jedi ou para a Federação dos Planetas Unidos – para reverter esse “golpe”. Senti falta de suas invenções engraçadas, como cachorros ocultos e pastas de dente que voltam ao tubo, mas acho que ela não estava no humor para esse tipo de coisa.

Piadas e pizzas à parte, a era PT chega ao seu tão esperado fim. Os picaretas que ainda sobraram no partido tentam descolar sua imagem da cor e do símbolo do mesmo. Anúncios multicoloridos (mas sempre sem vermelho) de diversos candidatos petistas deixam claro que ninguém mais quer apostar na sigla. O nome do partido sumiu das peças eleitorais, e a estrela com o 13 no centro caiu mais fundo que o diabo quando despencou do céu. É apenas uma questão de tempo para que o PT desapareça das câmaras municipais e estaduais, bem como dos gabinetes executivos e das duas casas de Brasília.

Eu queria muito ter escrito um artigo em clima de festa. Queria ter conseguido sentir um pouco de esperança, uma ponta de otimismo, uma nesga de luz em meio às trevas da política brasileira. Infelizmente, não foi assim. A manobra para evitar a perda dos direitos políticos de Dilma é apenas mais uma de tantas trambicagens que vemos todos os dias no Congresso. O Brasil sem Dilma e sem o PT no governo é, com certeza, um Brasil melhor, mas está muito longe de ser um Brasil decente. Quando o assunto é política, não somos nem sequer aceitáveis.

Termino com as palavras do ex-presidente Lula, para não dizerem que tenho preconceito com petistas: Tchau, querida.

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

Pesquisa para quê?

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 25 de agosto de 2016.

Terminados os jogos olímpicos, o Brasil se volta para o assunto óbvio: as eleições. Candidatos a vereador pipocam a cada esquina, tanto nas reais como nas virtuais, e as matérias sobre os concorrentes às grandes prefeituras aparecem diariamente nos jornais e portais de notícias.

Época de eleições é também época de uma das coisas mais inúteis de nossos tempos, a pesquisa eleitoral. Aqui nos Estados Unidos, a mídia tradicional aponta todas as suas armas para Donald Trump, com base nos resultados de diversas pesquisas. Esquecem-se de mencionar que Reagan e Bush tinham números iguais ou piores na mesma etapa do processo eleitoral, mesmo assim foram eleitos com tranquilidade. No Brasil, temos alguns institutos de pesquisa que acertam menos do que aqueles gurus de virada de ano.

Lembremos das eleições de 2014. Na última fornada de pesquisas antes do pleito presidencial, um dos institutos mostrava 26% das intenções de voto para Aécio Neves. O candidato obteve 33,6% dos votos, um resultado completamente fora da margem de erro da pesquisa e também de qualquer explicação lógica e estatística. Pior ainda foi o resultado do mesmo instituto para o governo do Rio Grande do Sul. A pesquisa dizia que José Ivo Sartori tinha 29% das intenções de votos, e o candidato chegou a 40,4% dos votos, um erro ridículo de mais de 30%. Até uma cartomante caolha chegaria a um resultado mais próximo.

O interessante é que os candidatos e partidos têm em suas mãos pesquisas muito mais precisas. Sei disso por experiência própria: no ano de 2008, participei ativamente das eleições municipais numa cidade do interior de São Paulo. Além de concorrer a vereador, estive envolvido de perto na campanha para prefeito. Na época, o candidato da situação tinha uma relação muito próxima com um instituto local, cujas pesquisas o mostravam à frente com uma boa margem. Na última semana antes do pleito, chegou até nós o resultado de uma pesquisa interna, feita por um instituto de confiança, que mostrava a vitória do nosso candidato com 40,5% dos votos. O resultado oficial foi de 42%.

A pesquisa é uma aplicação da estatística, uma ciência exata e geralmente pouco compreendida pela maioria das pessoas. O problema é que os mesmos dados podem ser manipulados de diversas formas, e auditar um trabalho desses seria custoso e demorado. Imagine auditar todos eles.

Se as pesquisas divulgadas ao público erram mais do que acertam, e as pesquisas mais precisas são divulgadas apenas internamente, para que você precisa da pesquisa? Em minha opinião (e este é um artigo de opinião), para nada. O próprio conceito de “voto útil” que é tão presente no eleitor brasileiro em geral, aquela ideia de “não jogar o voto fora”, é um ponto que considero bastante negativo. O que as pesquisas fazem é mexer com a cabeça de quem vota assim. Afinal, se fulano escolhe o candidato exclusivamente por suas propostas e vida pública, o que importa se ele está um, dois ou dez pontos atrás do outro? Pode parecer inacreditável, mas uma das coisas que mais ouvi quando fiz campanha porta a porta foi “não quero votar em quem vai perder”. Ora, estamos falando de eleição ou de uma corrida de cavalos?

Enfim, nestas eleições não poderei votar, pois quem mora no exterior vota apenas para presidente. Mas, se pudesse, votaria sem levar as pesquisas em consideração. Fica a sugestão.

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

Síndrome de Estocolmo

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 28 de julho de 2016.

No dia 13 de setembro de 2007, encerrou-se o prazo de inscrições para cidade-sede dos Jogos Olímpicos de 2016. Sete cidades foram inscritas: Rio de Janeiro, Chicago, Madri, Baku, Praga, Doha e Tóquio. Naquele momento, quando a cidade brasileira começava seu processo de candidatura, qualquer administrador mediano saberia que era hora de se mexer. Apesar da forte concorrência das outras seis cidades e das péssimas condições de transporte e acomodação da cidade, no dia 2 de outubro de 2009 – exatamente 2,5 mil dias antes do início dos jogos – o Comitê Olímpico Internacional concedeu ao Rio a honra de ser a primeira cidade sul-americana a sediar os Jogos Olímpicos.

Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, desistiu de concorrer aos Jogos de 2020. Lá, o arranha-céu Burj Khalifa, maior estrutura já construída pelo ser humano – 828 metros de altura e 160 andares –, ficou pronto em menos de 2 mil dias, com um custo total de US$ 1,5 bilhão. Enquanto isso, num país chamado Brasil, um complexo de prédios comuns e de construção simples não conseguiu ser erguido e inaugurado dentro do dilatadíssimo prazo de quase sete anos. O custo final, financiado integralmente pela Caixa Econômica Federal, deve chegar bem perto de US$ 1 bilhão.

A Vila Olímpica foi apenas a mais recente das vergonhas que o Brasil tem passado no tocante aos Jogos Olímpicos do Rio. Depois de sermos manchete em diversos países pela nojeira das “águas olímpicas” brasileiras (o nome mais adequado seria esgoto olímpico), a novidade em cena são as delegações estrangeiras tendo de pagar reformas do próprio bolso e manter seus atletas em hotéis por causa do estado deplorável em que foram entregues os apartamentos. Sim, mesmo com R$ 3 bilhões gastos, sobraram vazamentos, falhas elétricas, acabamento defeituoso e sujeira nas obras tocadas por Carvalho Hosken e Odebrecht. Australianos, americanos, suecos, argentinos, quenianos e até mesmo os venezuelanos, acostumados à penúria imposta pelo regime de Maduro, reclamaram com razão das condições ridículas que encontraram quando foram se instalar na Vila.

Seria culpa da incompetência das construtoras? Difícil. A Odebrecht, por exemplo, tem obras espalhadas pelo mundo todo, e costuma entregar construções de alta qualidade, feitas dentro de um orçamento muito mais enxuto e controlado que o da famigerada Vila Olímpica. Seria culpa da indisponibilidade de materiais ou de mão de obra qualificada? Certamente que não. Todos os dias são entregues prédios de todos os tipos nas mãos da iniciativa privada, verdadeiras obras de arte de acabamento luxuoso. Não estando o problema na competência técnica e nem nos materiais usados, só sobra um culpado possível: aquele que criou as regras, contratou as empreiteiras e supervisionou a obra, o Estado, sobre o qual Milton Friedman disse: “Se colocarem o governo para administrar o Deserto do Saara, em cinco anos faltará areia”. Detalhe: ele dizia isso tendo em mente governos muito mais eficientes que o brasileiro.

Ao mesmo tempo em que os governantes brasileiros dão provas diárias de sua incompetência e incapacidade de gestão, a população média deseja cada vez mais Estado. Pesquisa recente feita pelo instituto Paraná Pesquisas mostrou que mais de 61% dos brasileiros são contra privatizações. É quase uma Síndrome de Estocolmo coletiva – trancado em seu cativeiro tupiniquim, o povo sofre diariamente com hospitais caindo aos pedaços, transporte público horroroso, estradas perigosas e esburacadas, repartições públicas ineficientes, combustível caro e uma das piores educações do mundo, só para citar os principais fiascos, e continua pedindo que o Estado assuma mais responsabilidades, que regule mais a economia, que faça mais leis e que tome mais dinheiro em forma de impostos.

Precisamos urgentemente de um esforço nacional de atendimento psiquiátrico. Os brasileiros só podem estar loucos.

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e Mentiram para mim sobre o desarmamento”.