Temeroso ou destemido, o que vai ser?

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 2 de fevereiro de 2017.

ivesgandraMichel Temer assumiu a Presidência com a aprovação de uma nação cansada do petismo, mas logo de início mostrou que governaria pautado por aqueles que o odeiam e que querem o seu fim. Foi o que aconteceu quando ele acertadamente extinguiu o Ministério da Cultura. A medida, apoiada por grande parte da população, foi bombardeada incansavelmente por artistas e jornalistas de esquerda, os mesmos que dias antes adotavam o “fora Temer” como frase de parachoque. Em vez de manter seu pulso, agradar o povo e economizar dinheiro de impostos, Temer optou por ceder terreno aos seus inimigos.

A decisão que paira sobre o presidente hoje é muito mais importante e impactante para o Brasil do que a existência ou não de um ministério. A indicação de um ministro para o lugar de Teori Zavascki é daquelas que ecoam por décadas, muitas vezes além do período de vida do próprio presidente. Foi o caso de Dias Toffoli, nomeado por Lula quando tinha apenas 42 anos de idade, e que poderá exercer seu cargo até 2042. Na composição atual, o Supremo Tribunal Federal tem nada menos que sete ministros indicados pelos petistas Lula e Dilma, e a atuação de alguns deles, em diversas oportunidades, deixou bem clara sua orientação ideológica de esquerda. Temer tem em mãos, portanto, a chance de devolver um pouco do equilíbrio ao STF.

Nos últimos dias, o nome de Ives Gandra Filho surgiu como possível indicação de Temer para a corte suprema. A quase totalidade da imprensa brasileira, ao se deparar com o currículo e com as posições de Gandra Filho sobre temas importantes – ele é favorável à revisão das atrasadíssimas leis trabalhistas brasileiras, é um crítico do excesso de tributos e do Estado inchado, é contra o ativismo judicial e, de quebra, é um cristão declarado –, entrou em estado de pânico com a possibilidade de que um conservador ocupe a vaga de Zavascki. Deu-se início, então, a uma campanha extremamente desonesta de difamação e desqualificação de Ives Gandra Filho e, ao mesmo tempo, a promoção incondicional de Alexandre de Moraes como a melhor opção para a vaga.

Dentre as táticas sujas utilizadas para denegrir Gandra Filho está a citação de trechos isolados de seus artigos, pinçados completamente fora de contexto e com o único propósito de criar uma impressão mentirosa sobre a linha de pensamento do jurista. Não colocarei aqui a prova completa da canalhice, porque alguém com muito mais conhecimento na área já o fez – o advogado e jornalista Taiguara Fernandes explicitou cada uma das citações pinçadas em excelente artigo publicado no portal Senso Incomum, no dia 26 de janeiro. Mas, a título de esclarecimento, farei um paralelo para você, leitor. Imagine o seguinte texto: “A noção de superioridade racial já variou bastante no decorrer da história humana. O homem branco é superior intelectualmente ao negro, acreditavam os nazistas. Mas, graças à evolução da ciência e aos avanços na área dos direitos humanos, esse tipo de discriminação sem fundamento faz parte de um passado já remoto”. Agora, imagine que alguém pinçou desse texto somente este pedaço: “O homem branco é superior intelectualmente ao negro”, e saiu falando por aí que o autor do texto é racista e que defende a mesma coisa que os nazistas. É exatamente isso que está sendo feito com Ives Gandra Filho. Note-se que esse tipo de atuação não é só moralmente reprovável, como também é crime previsto pelo Código Penal.

A melhor coisa que Michel Temer pode fazer é se espelhar em Donald Trump neste assunto. Trump anunciou na última terça-feira, 31 de janeiro, sua indicação para a vaga de Antonin Scalia: o conservador Neil Gorsuch. Respeitadas as proporções, Gorsuch é o Gandra Filho dos americanos. Fiel defensor da Constituição americana, ele tem um histórico de decisões favoráveis à vida, à propriedade privada, à liberdade de expressão e às liberdades individuais. Trump sabe que não pode governar para os que o odeiam, para os que o querem longe da Casa Branca; se fizer isso, será defenestrado rapidamente. Michel Temer parece não ter percebido isso; ou, pior, parece não ter a coragem necessária para governar em prol do povo brasileiro. Esse povo precisa de menos Estado em sua vida, menos regulação das relações de trabalho, menos interferência do governo nas empresas, menos impostos, menos leniência com criminosos etc. Indicar Alexandre de Moraes será apenas mais do mesmo. Se o presidente quiser deixar alguma marca positiva em seu governo, precisará de reformas profundas, e essas reformas precisarão de respaldo judiciário. Abrir mão de Ives Gandra Filho é abrir mão de um legado. Nesse caso, era melhor ter permanecido apenas como vice de Dilma. Afinal, do vice a gente não espera nada mesmo.

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e “Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

Empresários no poder

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 26 de janeiro de 2017.

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O ano de 2017 tem sido incrível, politicamente falando. Os inícios de mandato de João Dória e Donald Trump têm mantido a imprensa ocupada de todas as maneiras. Os setores esquerdistas da mídia se ocupam de fabricar difamações e distorções das medidas tomadas pelos dois gestores, e os de direita tentam manter o ritmo acelerado de novidades. Mas, imprensa à parte, vale a pena explorar um pouco o que esses dois empresários têm feito em tão pouco tempo de mandato, e o que está por trás dessa rapidez e eficiência.

À frente da prefeitura de São Paulo, comandando o terceiro maior orçamento do Brasil (R$ 54,69 bilhões), João Dória Júnior tem mostrado uma vitalidade fora do comum – ele, seu vice e seus secretários parecem estar em todo lugar, a toda hora. Eleito apesar do nariz torcido da cúpula tucana, que só apoiou sua candidatura após a vitória, Dória trabalha num ritmo alucinante, como todo bom gestor em início de empresa costuma fazer. Quem já abriu seu próprio negócio sabe do que estou falando: muitas horas de trabalho por dia, muitos problemas para resolver, múltiplos fatores de risco ao negócio, competidores de olhos arregalados com a chegada da novidade etc. Logo em seu primeiro dia, ele apareceu às 5h30 na Praça 14 Bis, vestido de gari, para iniciar o primeiro programa de seu governo, o Cidade Linda. Na sequência, ordenou a devolução de todos os carros alugados da prefeitura, gerando uma economia prevista de R$ 10 milhões por mês.

Em relação à sua equipe de trabalho, o novo prefeito aplica as mesmas regras às quais eu e você, leitor, temos de nos submeter em nossos empregos: penalidades para atrasos, ou seja, exigência de comprometimento e disciplina nas relações do trabalho. E, para o terror daqueles funcionários acostumados ao descaso da administração petista, ele tem aparecido de surpresa nos mais diversos locais, numa espécie de “flagra da vagabundagem”. Além disso, utilizando-se da premissa de que todo empresário busca obter o melhor resultado com o menor uso possível de recursos, Dória fechou diversas parcerias com a iniciativa privada, sem custo para o erário municipal, que resultaram em benefícios imediatos para a população paulistana. As intervenções do novo prefeito são diárias e repletas de cobertura tanto da mídia tradicional como das redes sociais, no intuito claro de provocar mudanças em curto período de tempo, ganhar o apoio da população e reduzir a pó o legado de seu antecessor.

E o que dizer de Donald Trump? O presidente americano, que tomou posse no último dia 20, tem dormido apenas três horas por dia e trabalhado no restante. Ao contrário de Barack Obama, que cumpriu menos de 50% das promessas que fez durante sua campanha em 2008, Donald Trump tem sinalizado que fará o máximo possível do que prometeu nos últimos meses. O empresário de Nova York já começou a chocar seus adversários políticos na primeira semana de mandato: emitiu uma ordem executiva para que as agências federais diminuam o fardo regulatório do Obamacare, exigindo que as mesmas renunciem, adiem ou concedam exceções à implementação de qualquer provisão ou requisito que incorra em custo sobre indivíduos, famílias e empresas da área de saúde; impôs o congelamento de contratações para o governo federal, com a exclusão das forças armadas; suspendeu a execução de toda e qualquer regulamentação em processo de aprovação, impedindo que diversas das ordens executivas assinadas por Obama em seus últimos dias de mandato permaneçam em vigor; restabeleceu a proibição de alocação de fundos federais para grupos que realizem abortos ou que atuem como lobistas para a legalização ou promoção do aborto; retirou os Estados Unidos da Parceria Transpacífico, um acordo comercial ineficiente e burocrático com nenhuma vantagem para os americanos; exigiu celeridade na aprovação de projetos de infraestrutura de alta prioridade por parte do Conselho de Qualidade Ambiental da Casa Branca; além de diversas outras ações que simplesmente não caberiam nesta coluna. A mais recente delas, logo antes do fechamento desta coluna, foi o pontapé inicial na construção do muro na fronteira com o México. Nos próximos dias ele deve anunciar a suspensão da admissão de refugiados provenientes de países que abriguem grupos radicais islâmicos e a indicação de um juiz conservador para a vaga de Antonin Scalia na Suprema Corte.

O brasileiro é ensinado, nas escolas públicas e privadas, que o capitalismo é ruim e que os empresários são maus e aproveitadores. Aprendemos que os ricos só se importam com dinheiro e que os bilionários são o câncer do mundo. Nenhuma escola ensina que toda a riqueza criada vem das mãos desses “malvadões”. Alguns dias atrás estava comentando isso com minha esposa. Estávamos tentando enxergar a vastidão da riqueza criada por Bill Gates, fundador da Microsoft. Quantas pessoas devem seu ganha-pão às ideias de Gates? Uma multidão de gente que instala, desenvolve e dá manutenção em softwares na plataforma Windows; uma miríade de técnicos que montam e consertam computadores pessoais; fabricantes de computadores, tablets e celulares; e muitas outras categorias de profissionais ligados à informática. Os quase US$ 100 bilhões de Bill Gates soam como uma imoralidade para os esquerdistas, mas os milhões de pessoas que têm hoje uma carreira, um emprego e um salário por causa desses US$ 100 bilhões são simplesmente ignorados por esse pessoal. O mercado faz essa “mágica”, criando um absurdo de riqueza de dentro de uma simples garagem. O Estado, inchado e ineficaz, faz o contrário.

Nosso planetinha, tão afetado pela ação irresponsável de governantes aproveitadores e incapazes, poderia se beneficiar muito da presença de mais empresários competentes na direção de cidades, estados e países. É claro que Dória e Trump não manterão um ritmo louco de novidades e realizações pelos próximos quatro anos. Mas, pelo que temos visto, devem fazer mais nos primeiros 100 dias do que seus antecessores em toda a extensão de seus mandatos. Se daqui a quatro anos, por causa do bom exemplo desses dois, mais pessoas entenderem que um bom gestor público é aquele que menos lhes atrapalha, que cria condições para que cada cidadão cuide de si mesmo e de seus dependentes sem nenhuma esmola do Estado, teremos muito a comemorar. Essa mentalidade é a única cura para o estatismo paralisante em que vivemos hoje.

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e “Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

Nota de falecimento

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 3 de novembro de 2016.

Faleceu neste domingo último o Partido dos Trabalhadores, vulgo PT, aos 36 anos de idade. A autópsia revelou a causa mortis: concussão eleitoral agravada por uma infecção parasitária generalizada. O falecido deixa um filho, Partido Socialismo e Liberdade, 12 anos de idade, e milhares de viúvas espalhadas pelos bairros nobres, redações, universidades e escolas do país.

Durante a autópsia, ao abrirem o crânio, os médicos encontraram evidências de uma malformação congênita que impede o desenvolvimento do cérebro e causa danos irreparáveis na criança. Não há ainda uma explicação de como o falecido conseguiu sobreviver até a idade adulta carregando essa condição, mas uma equipe de pesquisadores tenta no momento correlacionar esta anomalia ao local onde ele nasceu e viveu – eles esperam provar que em nenhum outro país do mundo alguém com uma condição dessas passaria do primeiro ano de vida.

Durante a abertura do tórax e da investigação das vísceras, os médicos encontraram uma quantidade de parasitas extremamente anormal, algo nunca antes registrado na história da medicina. De acordo com o médico-legista responsável, “uma pessoa não consegue viver com tantos parasitas sugando os suprimentos energéticos que deveriam alimentar todo o corpo. Esta morte era inevitável. Não existe cura para um estágio tão absurdamente avançado de infecção”.

A análise do conteúdo do estômago comprovou algo que relatos anteriores já tinham registrado: o falecido tinha um transtorno alimentar sério, e só se alimentava de dinheiro sujo. Parentes próximos disseram que, alguns anos atrás, na época do mensalão, o falecido tinha dito que iria se tratar, que procuraria uma clínica e ajuda psicológica, mas que tudo não passou de encenação. O hábito vicioso de se alimentar com dinheiro sujo causou uma falência do sistema gastrointestinal, além da destruição do fígado por toxinas. Nem mesmo uma equipe de médicos cubanos, especialista no assunto, foi capaz de salvar o moribundo.

O infortúnio familiar se completou com a notícia de que o filho do falecido (conhecido pelos amigos como PSol) se encontra em coma, respirando por aparelhos. Os médicos dizem que o menino apresenta uma malformação congênita semelhante à do pai, e que suas chances de sobrevivência são muito pequenas. De acordo com os registros médicos, PSol apresenta um índice de crescimento negativo – está menor aos 12 anos de idade do que era aos 8 – e sofreu um trauma extenso durante sua última viagem ao Rio de Janeiro. Uma fonte sigilosa de dentro do hospital disse que “estão tentando esconder, mas o menino já está morto”.

Enquanto isso, milhares de viúvas choram inconsoláveis, principalmente depois de terem descoberto que o falecido deixou apenas dívidas, e que não haverá mais mesada para nenhuma delas. Curiosamente, consultórios de psiquiatria da zona sul do Rio de Janeiro apresentaram um aumento de 80% em número de pacientes. Houve também diversos atendimentos a suicidas feitos pela linha de emergência da polícia, muitos deles usando nomes de artistas brasileiros famosos. O delegado responsável não quis se pronunciar sobre o caso quando perguntado se os suicidas eram realmente artistas famosos ou se apenas usaram os nomes para ocultar sua identidade. Disse ele: “Não vou comentar sobre o caso, não vou confirmar para vocês que são artistas de verdade, porque minha mulher não vive sem novela. Entendam o que quiserem”.

O enterro está marcado para 1.º de janeiro de 2017, em local ainda a ser divulgado.

Sem mais.

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e “Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

Brazil Bizarro

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 27 de outubro de 2016.

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O Mundo Bizarro é um lugar bem conhecido daqueles que acompanham os quadrinhos da DC. É um planeta chamado htraE (Earth de trás para frente), quadrado em vez de redondo, onde tudo acontece ao contrário do que aconteceria na Terra: a feiúra é exaltada em vez da beleza, o objetivo dos empresários é perder dinheiro em vez de ganhá-lo, Aquaman não sabe nadar, Flash é o homem mais lento do mundo e Batzarro (o Batman de lá) é o pior detetive do mundo.

Quem quiser conhecer um mundo bizarro fora dos quadrinhos pode vir ao Brasil. Nós somos, sem sombra de dúvida, um país onde as coisas todas acontecem ao contrário. É no Brasil que os cidadãos são proibidos de portar um revólver sequer, enquanto os criminosos fazem uso de armamentos mais poderosos que os do Exército. É no Brasil que uma pessoa de bem, respeitadora da lei, é processada por homicídio por salvar seus familiares das mãos de criminosos, enquanto bandidos condenados e presos são soltos para passar o Natal com a família. É no Brasil que a presidente da República perde seu mandato, mas não perde os direitos políticos.

Mas é na área da educação que o Brasil consegue ser o mais bizarro dos lugares bizarros. Afinal, em que outro lugar o Estado aloca R$ 60 bilhões anualmente para a educação pública e consegue a façanha de ocupar as últimas posições em todos os exames comparativos entre alunos do mundo todo? Em que outro lugar o Estado investe em universidades públicas gratuitas e faz um trabalho porco no ensino básico e médio? Em que outro lugar os alunos saem quase analfabetos da escola, e apenas 8% deles atingem a proficiência na língua portuguesa? Em que outro lugar apenas 16% dos profissionais da educação possuem alto nível de alfabetização?

As ocupações de escolas em protesto contra a PEC são a cereja do bolo de nossa bizarrice. A situação parece até fictícia: alunos semianalfabetos, parte de um sistema educacional falido e ideologizado, ocupam escolas para protestar contra algo que não fazem a mínima ideia do que seja. Como escrevi nesta mesma coluna, na semana passada, a PEC 241 é de uma lógica e coerência ímpares no cenário legislativo brasileiro, e qualquer pessoa dotada de uma capacidade mediana de interpretação de texto, de um conhecimento básico da realidade brasileira e desprovida de uma agenda ideológica chegará à conclusão de que não há nada de errado com a proposta, e de que ela não afetará as verbas alocadas para a área educacional. Mas os nossos alunos, que passaram mais tempo aprendendo a colocar preservativos em pênis do que decorando a tabuada, e que não conseguem escrever um texto de duas linhas sem cometer menos de dez erros, acham que estão aptos a opinar e a agir contra essa rara iniciativa de boa administração pública. Inflamados muitas vezes por professores cujo objetivo único de estar em sala de aula é transmitir sua doutrina política, esses meninos e meninas, na grande maioria incapazes de entender um texto curto de jornal, agem como se fossem especialistas da lei e salvadores da pátria.

No mundo normal, a polícia entraria nas escolas, tiraria os baderneiros e instauraria a ordem. No Brasil Bizarro, ninguém faz nada, nem mesmo quando os alunos se matam dentro das escolas. No mundo normal, os pais ensinariam aos filhos os valores morais e teriam aquela conversa sobre sexo quando achassem apropriado; a escola, por sua vez, daria a base intelectual – a língua materna em sua forma culta e as ciências naturais. No Brasil Bizarro, o Estado quer falar de sexo desde o ensino primário, os alunos passam de um ano para o outro sem saber o que é uma prova ou avaliação, e escrever errado não passa de uma outra realidade cultural.

Todos os países que passaram por grandes surtos de desenvolvimento tiveram uma coisa em comum: um investimento inteligente e efetivo em educação. Quando eu estava na escola, pública por sinal, era a vez dos Tigres Asiáticos. A Coreia do Sul era o caso mais incrível: de país pobre a país desenvolvido em apenas duas décadas. O contrário também é verdadeiro. Os Estados Unidos têm feito as mesmas apostas erradas do Brasil – as universidades americanas são hoje um celeiro de professores marxistas, e têm formado uma geração de jovens extremamente mal preparados e incapazes de ocupar posições produtivas na sociedade. A diferença é que eles têm mais de 80% das melhores universidades do mundo em seu território, e isso funciona como um colchão protetor, que adia a chegada a uma situação de calamidade como a nossa. O nosso colchão já arriou faz muito tempo.

Não há governo neste país que comece um mandato sem dizer que focará seus esforços na educação. Quem parar de mentir sobre isso poderá realmente marcar a nossa história.

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e “Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

Ah, se eu ganhasse mais…

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 20 de outubro de 2016.

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Quem nunca disse ou nunca ouviu alguém dizer “ah, se eu ganhasse mais dinheiro, não teria tantas dívidas”? Todo endividado pensa isso, porque todo endividado pensa que o problema é não ter dinheiro suficiente, quando na verdade, na grande maioria das vezes, o problema é ter despesas demais. Isso vale para brasileiros e americanos, para pessoas, empresas e governos, para pobres e ricos.

No quesito gente, a coisa não anda nada bem. Um artigo recente da revista Forbes mostra que uma pessoa que tenha US$ 10 no bolso e nenhuma dívida contraída – nenhuma parcela de casa, carro, crediário ou cartão de crédito – é mais rica que 15% dos americanos. Isso significa que há mais de 45 milhões de pessoas, só nos Estados Unidos, que possuem patrimônio líquido negativo. No Brasil, a situação não é muito mais bonita. Segundo dados do Banco Central, 46,3% da renda média das famílias brasileiras está comprometida com dívidas.

Apesar dos números preocupantes, quando fazemos uma comparação com a situação do nosso governo, dá até vergonha de criticar o povo: a dívida pública brasileira chegou ao patamar de 73% do PIB neste ano. E, apesar desse porcentual assustador, muita gente se posicionou contrariamente à PEC 241 – proposta de emenda constitucional que fixa um limite máximo para os gastos públicos –, aprovada em primeira votação no plenário da Câmara no último dia 10. A PEC define que os gastos públicos de um determinado ano não poderão exceder os do ano anterior (valendo a partir de 2017, com valores corrigidos por conta da inflação), ou seja, congela os gastos públicos no patamar atual, que já é monstruosamente alto.

O pessoal que anda escrevendo contra a PEC 241 bate na tecla de que o congelamento dos gastos significará o corte de verbas importantes para o bem-estar social. A lógica que usam é a mesma do cidadão endividado: o problema é não ter dinheiro. Mas, quando se fala de governo, o problema é realmente não saber como gastar o dinheiro. A quantidade de recursos que some nos ralos do aparato governamental é incalculável. Ineficiência, burocracia, má administração, corrupção, falta de inteligência e incapacidade técnica – estas são apenas algumas das razões pelas quais o dinheiro dos impostos não é aproveitado de uma forma minimamente decente.

A imagem figurativa mais clara que me vem à mente é a de um cofre cheio de buracos. Os que se declararam contrários à PEC 241 – faço menção desonrosa ao vídeo do Mídia Ninja, narrado por Gregório Duvivier e recomendado no perfil de Dilma Rousseff no Twitter – são os loucos que querem encher o cofre jogando mais dinheiro. Eles acham que dinheiro dá em árvore (aposto que você já ouviu isso de sua mãe ou de seu pai) e que basta encher o cofre mais rapidamente do que os buracos o esvaziam para que tudo esteja certo. Para os seres pensantes, é óbvio que não adianta fazer nada enquanto os buracos estiverem drenando tudo o que se joga ali dentro.

E não adianta ganhar mais dinheiro. Países como Estados Unidos, Japão, Espanha e França têm dívidas públicas ainda maiores que a do Brasil. Lá, como aqui, o governo só sabe fazer uma coisa melhor que as pessoas: desperdiçar recursos. Se é para desperdiçar, que seja com limite.

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e “Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

Fofocalismo

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 13 de outubro de 2016.

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A capacidade que as pessoas têm de prestar atenção e gastar seu tempo com coisas menores e/ou inúteis tende ao infinito. As redes sociais são uma das provas modernas disso: perde-se uma quantidade imensurável de tempo olhando-se postagens de outros e comentando-se sobre textos e temas que não adicionam nem um centavo sequer ao bolso de ninguém (exceto dos CEOs dessas redes), muito menos um pensamento ou um conceito que valha a pena ser guardado na memória.

Esse tipo de comportamento não é exclusividade da era atual. Revistas e jornais de fofocas existem há bastante tempo, e a curiosidade sobre a vida dos outros faz parte da vida em sociedade desde que se tem registro histórico dela. Muitos dirão que, apesar da imbecilização que isso pode causar nas pessoas, agir assim é algo que traz prejuízos ou atrasos somente para a pessoa que o faz. Eu até poderia concordar com isso, não fosse um aspecto pernicioso desse foco nas coisas inúteis: o seu uso intencionalmente maldoso pela imprensa, especialmente pela imprensa esquerdista.

Nos últimos dias, vi dois exemplos de como um jornalista é capaz de usar banalidades e fatos de menor importância relativa para dar força à sua pauta ideológica. O primeiro caso foi o da primeira-dama Marcela Temer. Reportagens dos maiores portais de notícias do país insistiram em noticiar que Marcela usava um vestido de R$ 1.689 em seu discurso para o lançamento do programa Criança Feliz, como se isso fosse o maior pecado cometido por uma mulher desde que Eva comeu aquela maldita maçã. Ora, seu marido, Michel Temer, tem um patrimônio declarado de R$ 7,5 milhões, mais do que suficiente para comprar vestidos desse preço. Aliás, qualquer terno de preço mediano custa mais que o vestido de Marcela. Ou seja, esses jornalistas que costumam ser tão engajados em denunciar o machismo da sociedade brasileira – seja lá o que eles entendam por isso – ficam calados sobre os ternos Ermenegildo Zegna que muitos políticos usam, mas apontam o dedo para a primeira-dama e seu vestido que custa menos que um iPhone. Parece óbvio que, por trás dessa perseguição disfarçada de indignação, a real motivação desses “jornalistas” seja destruir a imagem da primeira-dama que, por sua beleza, juventude e feminilidade, deixa indignada aquela parcela majoritária da esquerda que tem aversão a tudo o que é bonito e tradicional, e a toda mulher que não seja feia, descabelada e com muitos pelos debaixo dos braços.

O segundo exemplo foi na mídia americana, em ataques ao presidenciável republicano. Mesmo diante de uma candidata como Hillary Clinton, que acumula em sua carreira episódios como a defesa imoral de um estuprador de adolescentes e o casamento com um predador sexual do quilate de Bill Clinton, todos os jornalistas da esquerda americana (além de vários da direita) resolveram achincalhar Donald Trump por causa de um vídeo onde ele fala bobagens de cunho sexual, daquelas que todo homem já ouviu um dia numa mesa de bar ou num vestiário de academia. Com a conivência dos idiotas úteis, que propagam essas reportagens e dão audiência a esses pseudojornalistas, a fala de Trump ganhou proporções totalmente descabidas, e a estratégia por trás disso é tão clara que eu, pessoalmente, não consigo entender como alguém não consiga enxergar: Hillary tem tantos escândalos e episódios moral e criminalmente reprováveis que somente o desvio da atenção de todos é capaz de dar algum espaço de manobra para sua campanha. Ela discursa ao lado do marido, que a traiu com uma estagiária e que é acusado de molestar sexualmente diversas mulheres, no maior show de hipocrisia deste nosso planeta azul. Quem inventou o ditado “faça o que eu digo, não faça o que eu faço” não imaginava que algo assim um dia existiria. Se a imprensa americana desse a mesma atenção aos escândalos de Hillary, ela já estaria na cadeia há muito tempo.

E o cidadão comum, que culpa tem nisso tudo? Bem, toda vez que ele replica um conteúdo podre desses ou que dá audiência para essa parte suja da imprensa, ajuda a disseminar e a encorajar esse comportamento. O jornalismo que vive de fofocas e inutilidades só consegue sobreviver porque é muito bem alimentado. Está na hora de matar esse pessoal por inanição.

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e “Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

PT – Partido em exTinção

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 6 de outubro de 2016.

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As eleições de domingo passado mostraram que o povo brasileiro, no fim das contas, está atento ao que acontece no cenário político nacional. Em um ano no qual tivemos a votação do impeachment de Dilma Rousseff e a saída do PT do comando da nação, eleitores de todo o Brasil deixaram claro que não querem mais esse pessoal em nenhuma esfera governamental. Uma passada rápida pelos resultados é mais que suficiente para entender o que estou dizendo.

Nas 26 capitais, a situação foi de quase eliminação completa dos candidatos petistas. Marcos Alexandre foi o único eleito já em primeiro turno (reeleito, na verdade), em Rio Branco, no Acre. O outro petista que restou foi João Paulo, que vai para o segundo turno em Recife com uma votação inexpressiva de 23,76% dos votos válidos. As demais 24 capitais são oficialmente PT-free.

Quando a abordagem é por maiores cidades do Brasil, outra lavada. De acordo com os dados do Censo IBGE de 2013, há 39 municípios com mais de 500 mil habitantes no Brasil – apenas 20 deles são capitais. O PT não levou nenhum de primeira; vai ao segundo turno em Recife, caso já mencionado acima, e em mais duas cidades: Santo André (SP) e Juiz de Fora (MG). Em Santo André, Carlos Grana tentava a reeleição e ficou em segundo lugar, com 20,3% dos votos, contra 35,9% de Paulinho Serra, do PSDB. Em Juiz de Fora, Margarida Salomão liderava as pesquisas, mas acabou ficando em segundo lugar, com 22,38% dos votos – muito atrás dos 39,07% de Bruno Siqueira, do PMDB. Não parece que nenhum dos dois tenha muitas chances de eleição.

Se olharmos para o ABC paulista, reduto histórico do partido e quartel-general de Lula, mais uma derrota significativa. O PT vai ao segundo turno somente em Santo André, como foi dito acima. São Bernardo do Campo, São Caetano do Sul e Diadema não quiseram nenhum petista na prefeitura. E, para coroar o desempenho pífio, o filho de Lula, que concorria a uma vaga de vereador em São Bernardo, teve apenas 1.504 votos – foi apenas o 58.º mais votado.

Por último, vale a pena dar uma olhada nos deputados federais que votaram contra o impeachment de Dilma Rousseff e se candidataram a alguma prefeitura neste pleito. Foram 25 casos, dos quais apenas dois venceram em primeiro turno, e somente três vão disputar o segundo turno. Nem todos são do PT, mas todos faziam parte do bloco governista que tentou salvar Dilma a todo custo.

Escorraçado das capitais e das grandes cidades brasileiras (no jargão petista, aquelas com maior potencial de roubo), o PT sai desta eleição, independentemente dos resultados do segundo turno, como um partido em processo de extinção. Algo certamente extraordinário se nos lembrarmos do cenário político de apenas seis anos atrás. Foi em 2010, durante um comício de Dilma Rousseff, que Lula defendeu que o DEM fosse extirpado da política brasileira. O DEM, que vinha perdendo prefeituras vertiginosamente – eram 1.028 prefeituras em 2000, depois 790 em 2004 (quando a sigla ainda era PFL), 496 em 2008 e 278 em 2012 –, conseguiu garantir 265 prefeituras no primeiro turno deste ano, e pode ganhar mais três depois do segundo turno. O PT de Lula foi menor que o “extirpável” DEM: apenas 256 prefeituras. Mesmo que ganhe as sete disputas de que participará no segundo turno, não chegaria a 265.

Quem é que parece mais perto de ser extirpado agora?

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e “Mentiram para mim sobre o desarmamento”.