Obama, o birrento

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 5 de janeiro de 2017.

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Nos regimes democráticos há um pressuposto básico de que todo governo é medido e avaliado por seu povo através do voto. Em outras palavras, se está bom, fica; se está ruim, vai embora. Por esse critério somente, Barack Obama já pode ser considerado um dos piores presidentes da história americana. Quando ele assumiu a presidência, em 2009, os democratas tinham uma maioria consistente no Senado (58 das 100 cadeiras), uma maioria acachapante no Congresso (256 das 441 cadeiras) e 28 governos estaduais. Quase oito anos depois, o estrago é considerável: o partido do presidente perdeu 63 cadeiras no Congresso e dez no Senado – agora é minoria nas duas casas –, além de 12 governos estaduais.

Ao leitor que costuma se informar pelos grandes portais de notícias do eixo Rio-São Paulo, essa situação pode parecer incompreensível, já que Obama é sempre mostrado e descrito como o melhor presidente que a América já teve, um exemplo a ser seguido, um líder moderno para o mundo caótico em que vivemos. Os americanos, que viveram oito anos sob o governo de um homem que não passa de uma versão intelectualmente melhorada e substancialmente mais perversa de Lula, não esconderam sua insatisfação e escorraçaram os democratas em todas as instâncias do poder político.

Ciente de tudo isso, Obama resolveu marcar seus últimos dias na Casa Branca com uma série de medidas perniciosas. A grande mídia, sempre favorável ao seu governo, tem descrito essa atitude como “o esforço de Obama para marcar seu legado”. A verdade está longe disso. Obama está usando a tática do inquilino raivoso, e pretende deixar a casa no pior estado possível para o próximo ocupante. É por isso, e somente por isso, que ele e os democratas estão enfiando barbaridades goela abaixo do povo americano. Destaco sete delas a seguir.

A expulsão de oficiais diplomáticos russos dos Estados Unidos e outras sanções alegadamente impostas em resposta à ação de hackers russos durante a eleição presidencial deixou muita gente de cabelo em pé em todo o mundo. O clima de Guerra Fria requentada só não ficou mais perceptível porque Putin e o restante da liderança russa sabem muito bem que Obama agiu como um fanfarrão, apenas para desestabilizar o novo governo. Tanto que a embaixada russa no Reino Unido publicou a seguinte mensagem em sua conta oficial do Twitter: “O presidente Obama expulsa 35 diplomatas russos, num deja vu da Guerra Fria. Assim como todo mundo, incluindo o povo americano, ficaremos felizes em ver o fim dessa administração infeliz”.

No Oriente Médio, além de nunca ter conseguido avançar um centímetro sequer em direção à paz entre Israel e Palestina, Obama endossou uma resolução absurda da ONU que condena novos assentamentos judeus na região. A posição de Obama é completamente contrária ao histórico de apoio que os EUA sempre tiveram para com Israel. A resposta de Trump não poderia ter sido melhor: “Vamos ver o que acontece depois de 20 de janeiro, certo? Acho que vocês vão ficar bem impressionados”.

Os democratas trabalharam como nunca em 2016 para aumentar o número de inscritos no Obamacare, o fracassado programa de saúde de Obama. Conseguiram a marca de 6,4 milhões de americanos inscritos, 400 mil a mais do que em 2015. A lógica que eles usaram é muito simples: quanto mais gente inscrita, mais difícil será para o próximo governo acabar com o programa. Mais uma mina explosiva no terreno de Trump.

Fazendo uso de uma lei obscura da década de 1950, Obama proibiu a exploração de petróleo em diversas partes do Ártico e do Oceano Atlântico. A coisa foi feita de modo a dificultar ao máximo uma reversão da medida pelo governo Trump. Dá até para imaginar o presidente raivoso falando com sua equipe: “Não me importa quantos anos tenha a lei, nem que ela nunca tenha sido usada. Façam o que for preciso para ferrar aquele cara”.

Obama ainda desmantelou um programa de rastreamento de imigrantes muçulmanos que havia sido estabelecido no governo Bush, o National Registry. O programa estava parado desde 2011, mas sua estrutura permanecia intacta, e Trump planejava usá-la para algumas de suas políticas antiterrorismo ligadas ao islamismo radical. Agora, caso queira montar algo parecido, o presidente eleito precisará criar tudo do zero novamente.

O presídio de Guantánamo sempre abrigou alguns dos piores criminosos capturados pelas forças policiais americanas. Obama, como todo esquerdista de coração, morre de amores por criminosos, e já colocou em andamento a transferência de até um terço dos 58 presos atuais para seus países de origem, onde poderão desfrutar de condições muito melhores e, quem sabe, voltar a cometer atentados e assassinatos.

E, ainda com relação ao seu amor profundo pelos bandidos, Obama já reduziu a sentença de mais de mil criminosos do tráfico de drogas e concedeu clemência a 231 criminosos em um único dia, 19 de dezembro de 2016. É praticamente a Maria do Rosário de cabelo curtinho, terno e gravata.

Fazia muito tempo que o mundo não via uma transição presidencial tão suja como a de Barack Obama. Mesmo no Brasil, onde Dilma saiu por impeachment – uma situação bem mais traumática que uma derrota eleitoral –, as birras se resumiram a roubar objetos de decoração e fazer papel de bobo nas redes sociais. A história se encarregará de colocar Obama ao lado de outros infames que já ocuparam o mesmo cargo. Ao agir de forma diametralmente oposta ao que a população de seu país espera, ele pavimenta cada vez mais seu caminho para o almejado título de pior presidente da história dos Estados Unidos. Carter, Nixon e Buchanan que se cuidem.

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e “Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

A opção nuclear

Como funciona a aprovação do indicado de Trump para a Suprema Corte?

Funciona assim: como os republicanos têm maioria simples no Senado (52 de 100), basta que a indicação do novo juiz seja votada para que seja aprovada. No entanto, para que haja a votação, é necessária uma supermaioria, ou seja, 60 senadores.

Se os democratas quiserem jogar duro, obstruindo a votação, os repnuclearublicanos podem usar a chamada “opção nuclear”. Nesse caso, eles votariam uma mudança nas regras, permitindo que uma maioria simples remova a obstrução à votação do novo juiz.

No entanto, caso isso aconteça, as regras ficarão alteradas para as próximas eventuais nomeações sob o governo Trump (assumindo que os republicanos manterão a maioria no Senado durante seu governo). Ou seja, no caso provável de mais um juiz atual bater as botas ou se aposentar, Trump nomeará o juiz que realmente desequilibrará a corte a favor dos conservadores, e valerá a regra da maioria mínima.

Assim, os democratas estão com um pepino gigantesco na mão. Neil Gorsuch é altamente respeitado, inclusive por alguns senadores democratas. Se decidirem obstruir esta indicação, gastarão a única bala que têm com um cara que foi aprovado por unanimidade para sua posição atual na corte se apelação, e abrirão caminho para que Trump escolha alguém ainda mais conservador na próxima oportunidade. Se concordarem em votar logo, guardarão a carta da obstrução para uma próxima oportunidade, mantendo a regra da supermaioria para juízes da Suprema Corte.

Enfim, será uma batalha interessante no Senado americano, mas com final já definido. O líder da maioria, Mitch McConnell, já indicou que fará uso da opção nuclear se for preciso. Vale lembrar que os democratas mudaram a regra da supermaioria para indicações de juízes de instâncias inferiores, e quando o fizeram tiveram de ouvir do próprio McConnell que aquilo os morderia no calcanhar antes mesmo que eles esperassem.

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e “Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

O roto falando do costurado

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 24 de novembro de 2016.

Nos últimos dias houve registros de diversos protestos de brasileiros contra Donald Trump. O motivo: sua política de imigração. Eu mesmo recebi diversas mensagens de amigos e conhecidos preocupados com seus planos de vir aos Estados Unidos como turistas ou estudantes, como se o novo presidente fosse baixar uma lei marcial mandando executar todos os estrangeiros em território americano.

Para nós, brasileiros, esse tema passa longe do senso comum – é difícil analisarmos o que acontece hoje em algumas nações do mundo por causa da diferença brutal entre a quantidade de imigrantes que entram a cada ano no Brasil e nesses países. Em 2015, por exemplo, a Polícia Federal registrou a entrada de 117.745 imigrantes no Brasil, ou seja, uma relação de um imigrante para cada 1.756 brasileiros. No mesmo período, a Suécia recebeu 163 mil imigrantes, perfazendo uma relação de um imigrante para cada 60 suecos. Isso significa que a Suécia recebe proporcionalmente quase 30 vezes mais imigrantes que o Brasil.

Quando se toma o número total de imigrantes vivendo no país, a situação é igualmente díspar. O Brasil apresenta a baixíssima taxa de 0,9% da população composta por imigrantes. A Austrália tem quase 28%, a Alemanha tem 15% e os Estados Unidos, pouco mais de 14%. Até mesmo nossos vizinhos da Argentina abrigam muito mais estrangeiros que nós: quase 5% de sua população, apesar de toda a pecha de bairristas e xenófobos que os brasileiros costumam colocar sobre eles.

Esses números são facilmente constatáveis no dia a dia das pessoas: tente se lembrar de quantas vezes você viu alguém no seu bairro, no supermercado, num shopping center ou mesmo na rua falando outro idioma ou parecendo que veio de outro país. A maioria das pessoas não se lembra de ninguém, ou no máximo de um ou dois casos. Pergunte o mesmo para um americano – não precisa nem ser de Nova York, onde se ouve dez idiomas diferentes em uma breve caminhada pelas ruas da cidade – ou para um europeu, e a resposta será completamente diferente.

A beleza da imigração está justamente na mistura das culturas. Quem chega traz um pouco da sua cultura a ser incorporado na sua nova pátria, mas por outro lado procura absorver o modo de vida e os valores locais. Eu – e falo aqui como imigrante – creio que a grande maioria dos que decidem mudar de país não o faz com o intuito de transformar o novo lar numa versão de sua terra de origem. Se fosse assim, nem se mudariam. E, para que isso aconteça, é necessário que a identidade nacional seja preservada, uma tarefa que exige a presença de fronteiras e a existência e o cumprimento de leis relacionadas ao tema. Afinal, uma nação só existe dentro de fronteiras, e uma fronteira só existe se houver alguma dificuldade em transpô-la.

Acaba sendo um tanto ridícula a posição desses brasileiros que veem os Estados Unidos como uma nação xenófoba. A receptividade de americanos, alemães, franceses, canadenses, suecos e tantos outros povos à imigração é dezenas de vezes maior que a dos brasileiros. Se mal conseguimos receber turistas do estrangeiro – o Brasil ocupa uma vergonhosa 43.ª posição no ranking do turismo internacional, atrás de países como Bulgária, Vietnã e Croácia –, quão patético é apontarmos o dedo para nações do mundo que são muito mais acolhedoras que nós.

Para os brasileiros que vivem achando que somos o suprassumo da miscigenação étnica e cultural, fica o pedido: por favor, menos.

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e “Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

Uma esperança para a vida

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 17 de novembro de 2016.

O dia 22 de janeiro de 1973 não é lembrado de forma especial por muita gente, mas isso não faz dele um dos mais tristes da história da humanidade. Foi o dia em que a Suprema Corte americana, no julgamento conhecido como “Roe versus Wade”, decidiu que as mulheres teriam o direito de abortar durante os dois primeiros trimestres de gravidez. Bastou uma votação entre nove juízes para selar o destino de milhões de crianças que, nas últimas quatro décadas, foram assassinadas antes mesmo de nascer, privadas do mais básico dos direitos humanos, o de viver.

Não existe guerra na história humana que tenha matado tanta gente quanto o flagelo do aborto. Nos diferentes lugares do mundo onde essa prática cruel é legalizada, sua passagem de crime a direito dá-se geralmente sob as mais descabidas justificativas. Para seus defensores, é uma questão de saúde pública, um direito da mulher sobre seu corpo, um rompimento com o patriarcado opressor, ou todas as alternativas anteriores juntas. O aborto jamais é retratado em sua realidade crua: um procedimento assassino com requintes de crueldade e cuja execução se assemelha a um filme de terror. Pintar essa prática amaldiçoada com cores suaves é essencial para conseguir o apoio do público leigo – quem assiste a uma filmagem de um aborto geralmente não consegue chegar ao final, tamanho é o mal-estar causado pelas imagens fortes e inacreditáveis – à criação de legislações favoráveis ao assunto.

Os políticos de esquerda, seja nos Estados Unidos, no Brasil ou no resto do mundo, defendem o aborto. E costumam fazê-lo com uma naturalidade ímpar, como a agora derrotada Hillary Clinton, que em sua campanha para a presidência prometia aumentar o financiamento público a organizações abortistas como a Planned Parenthood, além de ter se posicionado em diversas oportunidades a favor do aborto sem restrição de período, aquele que pode ser realizado até minutos antes do nascimento do bebê.

A eleição de Donald Trump abriu uma possibilidade nova e revigorante para quem luta contra o aborto. Uma de suas primeiras tarefas como presidente será apontar um juiz para substituir Antonin Scalia, falecido em fevereiro deste ano. Na ocasião, a liderança do Senado americano – a casa tem maioria republicana desde 2014 – rapidamente se pronunciou contra a indicação de um novo juiz pelo presidente Obama, que certamente apontaria alguém com posicionamento à esquerda e, por conseguinte, a favor do aborto. Quando perguntado sobre quem indicará, Trump disse que escolherá alguém com o mesmo perfil ideológico de Scalia e que defenda a Segunda Emenda, aquela que institui o direito à legítima defesa e ao armamento dos cidadãos. Além disso, Trump poderá indicar outros juízes em seus quatro ou oito anos como presidente. Dos juízes da composição atual, a mais velha é Ruth Bader Ginsburg, com 83 anos. Ela e Stephen G. Breyer (78 anos) foram indicados por Bill Clinton, e costumam votar como a esquerda gosta. No evento possível da aposentadoria ou morte de um ou ambos, Trump poderia levar a corte a uma composição majoritariamente conservadora, ou seja, uma que teria a disposição de reverter a decisão de Roe versus Wade.

Apesar de este cenário possuir diversos condicionais, cresce a esperança entre os defensores da vida de que a maior potência do mundo encerre o ciclo macabro dos abortos protegidos, financiados e incentivados pelo Estado – Trump declarou mais de uma vez que cortará o financiamento da Planned Parenthood e impedirá que o dinheiro arrecadado em forma de impostos seja usado para o pagamento de qualquer tipo de aborto. Caso se confirme, essa será uma vitória de proporções bíblicas. Literalmente.

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e “Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

Eu disse

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 10 de novembro de 2016.

10112016-site-quintelaEste que vos escreve declarou, seis semanas atrás, nesta mesma coluna, que Donald Trump seria o próximo presidente dos Estados Unidos. Na ocasião, eu disse que confiava no método preditivo do professor Helmut Norpoth, que indicava a vitória do republicano justamente pelo caráter plebiscitário da eleição americana.

As eleições desta terça-feira mostraram que o povo americano rejeitou o atual governo de todas as formas. Donald Trump levou a presidência, e os republicanos mantiveram as maiorias no Congresso e no Senado. De quebra, Trump indicará um juiz para a Suprema Corte, que deverá voltar a ter maioria conservadora. Foi uma verdadeira goleada, uma que calou quase toda a mídia brasileira e internacional. Os jornais televisivos brasileiros, na manhã seguinte à eleição, mostraram âncoras, repórteres e analistas que não conseguiam acreditar no que estavam falando e estampavam em seus rostos um lamento profundo.

Mas, afinal, por que os americanos elegeram Donald Trump? É simples: porque não querem deixar de ser americanos. Esta grande nação, fundada em fortes princípios democráticos e com um apreço pela liberdade como nenhuma outra, conseguiu resistir aos golpes desferidos continuamente pela administração de Barack Obama contra os fundamentos constitucionais que têm sustentado os Estados Unidos em sua posição de liderança do mundo livre. Obama, Hillary e a grande maioria dos democratas promoveram, nos últimos oito anos, uma agenda antiamericana, tentando minar diversos pilares de sua democracia, como o direito à legítima defesa, a liberdade religiosa, a propriedade privada e a primazia do indivíduo e da família, entre outros. Sob Obama, os americanos empobreceram, ficaram mais preguiçosos, aprenderam que ninguém vence apenas com os próprios esforços e quase foram convencidos a substituir o orgulho e o patriotismo pela vergonha.

Hillary Clinton, durante sua campanha, tentou convencer o eleitorado de que faria melhor que o seu antecessor, mas suas propostas não passaram de mais do mesmo: aumentar o salário mínimo, criar direitos para mulheres e minorias, desarmar a população, aumentar a entrada de refugiados e ser leniente com os imigrantes ilegais. Talvez ela não tenha reparado que mais da metade dos americanos está mais pobre hoje do que dez anos atrás – mesmo com um salário mínimo maior –; que ninguém além dos ativistas dá a mínima para essa conversa de direitos de minorias; que os terroristas do Estado Islâmico têm tocado o terror no mundo graças ao coração mole dos estadistas ocidentais; e que os imigrantes legais são os que votam, e eles não querem nem ver os ilegais por perto. Se tentasse, ela não conseguiria ser mais dissonante com a realidade do que foi.

A beleza da vitória de Trump está justamente na reação desse povo. O americano não é predominantemente cosmopolita, muito pelo contrário. O jeito californiano ou novaiorquino de ser passa longe do americano médio, aquele que quer ter uma vida boa e simples: família, casa, carro, igreja aos domingos, um pouco de diversão e menos governo metendo o nariz onde não é chamado. É o cara que fica indignado ao ver bebês inocentes sendo assassinados com a bênção do Estado, que é altruísta em sua comunidade, que tira do seu tempo para treinar o time local de basquete, que tem orgulho de todos os combatentes e policiais da nação, que não fica com um centavo sequer de troco errado, que sai de calça de moletom, meia e chinelo porque não está nem aí para o que os outros pensam. Foram esses americanos que elegeram Donald Trump. O país é deles, e eles souberam tomar a melhor decisão possível. Deus abençoe a América.

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e “Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

 

Presidente Trump

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 29 de setembro de 2016.

trump1Eu gosto de conversar com as pessoas. Podem me chamar de chato, mas puxo conversa na fila do mercado, no avião, na sala de espera, no táxi, na reunião de condomínio etc. Nesses últimos tempos, marcados pela proximidade da eleição para presidente, tento sempre abordar o assunto e tentar descobrir o que as pessoas comuns pensam a respeito de Donald Trump e Hillary Clinton. E o que tenho visto pode ser resumido em três afirmações básicas: a pessoa declara voto para o Trump porque gosta dele ou porque não suporta mais “os políticos de sempre”; a pessoa não gosta de nenhum dos dois, mas acha o Trump louco demais para ser presidente; ou a pessoa não gosta de nenhum dos dois, mas acha a Hillary criminosa demais para ser presidente.

Tive a sorte, em minhas incursões conversativas, de nunca topar com um democrata radical (o equivalente americano dos petistas), daqueles que amam Hillary apesar de tudo de ruim que ela representa. Pode parecer mentira, mas não conheci um único americano que veja em Hillary Clinton as qualidades para ser presidente deste país; ela é citada como “a opção menos pior” por alguns.

Depois de terminado o primeiro debate presidencial, na segunda-feira, li inúmeras análises que davam a Hillary a vitória. A mídia televisiva norte-americana chegou a mostrar um certo alvoroço pelo desempenho de sua candidata preferida, e muitos comentaristas isentos ou apoiadores de Trump seguiram pela mesma linha de raciocínio. Para mim – e para alguns outros poucos analistas –, Trump saiu vitorioso do debate justamente por ter mostrado que não é o louco-racista-misógino que Hillary vinha exibindo em sua propaganda eleitoral. Trump mostrou que não passa de um homem normal; profissionalmente, um empresário de sucesso com pouca atuação política. Enfim, alguém de fora do establishment, com uma postura muito mais de pessoa comum do que a robotizada Clinton, com seu sorriso falso sempre presente. Enquanto ele mostrava indignação diante das mentiras de Hillary, ela ria em tom de deboche de tudo o que ele falava – o tipo de atitude que os americanos não esperam de um presidente.

Mas será que os debates realmente terão um papel fundamental na eleição do próximo presidente americano? Será que as propagandas eleitorais mudarão o voto dos indecisos? Será que as pesquisas de intenção tirarão os preguiçosos de casa para votar contra o candidato que acham inaceitável para governar o país? De acordo com o professor Helmut Norpoth, da Stony Brook University, não. Norpoth é o desenvolvedor de um método preditivo que acertou o resultado das eleições presidenciais dos últimos 20 anos. O Modelo das Primárias, como ele o chama, é um método analítico que, ao ser aplicado a todas as eleições presidenciais americanas desde 1912, produz apenas um resultado errado (nas eleições de 1960) e acerta todos os outros. Ele se baseia em dois fatores principais – o movimento do pêndulo eleitoral e o resultado das primárias – para prever quem será o candidato vencedor. Em 2012, Norpoth aplicou seu método e previu a reeleição de Barack Obama; em 2016, ele mostra que o legado de Obama foi insuficiente para suscitar o desejo de “quero mais” na população. O pêndulo se moveu, e os democratas não têm mais o momento favorável. Em outras palavras, as eleições americanas têm um caráter plebiscitário, justamente por acontecerem dentro de um modelo marcado pelo bipartidarismo: se A foi bem, A recebe uma nova chance; se A não foi bem, é hora de trocar para B. E vice-versa.

Assim, a não ser que um escândalo de proporções lulopetísticas morda o calcanhar de Trump, o candidato republicano tem quase 90% de chance de ser o 45.º presidente dos Estados Unidos. Seria o primeiro a nunca ter ocupado um cargo eletivo ou uma posição de comando nas Forças Armadas. Aos que ainda acham loucura colocá-lo na cadeira mais importante do mundo, vale lembrar que insanidade é fazer as coisas da mesma maneira e esperar resultados diferentes. Espero que os americanos não refutem o método do professor Norpoth justamente nesta eleição, e mostrem que ainda são um povo bom da cabeça.

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e “Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

A força da Segunda Emenda

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 22 de setembro de 2016.

Volta e meia tenho de revisitar o assunto do desarmamento, pois a mídia e as organizações de esquerda insistem em atacar o direito à legítima defesa armada dos cidadãos. Dentre as falácias mais utilizadas por aqueles que defendem o desarmamento estão as menções ao caso australiano – sempre citando o país como exemplo mundial de uma política desarmamentista eficiente – e ao crescente apoio popular dos cidadãos americanos às políticas de restrição de posse e porte de armas. É claro que tudo não passa de mentiras.

Falemos um pouco do caso australiano. Barack Obama e Hillary Clinton são dois entusiastas do modelo de desarmamento utilizado pelo governo da Austrália, em vigor há quase 20 anos. Dizem eles e outros defensores do desarmamento que a terra dos cangurus e coalas experimentou uma diminuição excepcional nos casos de mortes por armas de fogo depois que as novas leis foram aprovadas, e que isso é evidência suficiente para que se busque a aprovação de leis semelhantes nos Estados Unidos e em outros países do mundo. O que eles não mencionam é que, apesar das quase 700 mil armas retiradas das mãos de cidadãos obedientes à lei, o número de crimes com armas de fogo na região de Melbourne dobrou nos últimos cinco anos. Também deixam passar o fato de que o número de pessoas pegas com armas ilegais em mãos quintuplicou no mesmo período, evidência de que a regra máxima dos criminosos continua em vigor: quem não respeita a lei não está nem aí para proibições de compra ou porte de armas. Criminosos não entram em lojas para comprar armas, e é justamente por isso que as leis de controle e banimento de armas só prejudicam os cidadãos de bem.

E o que dizer sobre o apoio popular dos americanos às leis de desarmamento? Uma passada de olhos nos principais canais televisivos e portais de notícias deixa evidente que grande parte da mídia americana assume uma posição claramente contrária à Segunda Emenda da Constituição americana, aquela que declara que “sendo necessária à segurança de um Estado livre a existência de uma milícia bem organizada, o direito do povo de possuir e usar armas não poderá ser infringido”. Pois bem, apesar de todos os ataques de políticos democratas à referida emenda, o povo americano continua a apoiar o armamento como direito básico do cidadão livre. Uma pesquisa da Pew Research divulgada em agosto deste ano mostra que a maioria dos americanos quer proteção ao direito de possuir armas, e apenas um terço dos participantes acredita que “possuir uma arma piora a segurança de uma pessoa”. A pesquisa também mostra que o apoio ao banimento das armas de assalto – um termo controverso e geralmente mal compreendido pelo público leigo – caiu de 57% para 52% no último ano, mostrando que a campanha obamista (que inclui até chorar de mentirinha) para banir fuzis e outras armas “de assalto” não tem surtido o efeito esperado, principalmente num momento em que os governos em todo o mundo fracassam em proteger seus cidadãos de terroristas e criminosos.

No front legal, as vitórias da Segunda Emenda continuam a superar suas derrotas com folga. Recentemente, o Senado do Missouri aprovou a lei SB 656, que torna aquele o 11.º estado americano a permitir o porte oculto de arma sem necessidade de licença especial – somente neste ano outros três estados já haviam aprovado leis semelhantes: Idaho, Mississippi e West Virginia. O governador democrata, Jay Nixon, vetou a lei, mas seu veto foi derrubado pela câmara legislativa. No ano de 2016 já foram aprovadas 44 leis favoráveis ao armamento e apenas 13 contrárias (sendo que nove delas foram aprovadas na Califórnia, o estado mais desarmamentista da federação). Isso significa que os legisladores estaduais, aqueles mais próximos dos eleitores e mais suscetíveis à pressão do voto popular, estão propondo e aprovando leis que protegem o direito do cidadão de ter e portar sua arma.

Quanto ao Brasil, não existe hoje uma pesquisa com a abrangência e qualidade da Pew Research sobre o tema. Mas existem muitas evidências de que a maioria da população brasileira quer a revogação do Estatuto do Desarmamento e o retorno de seu direito básico de legítima defesa armada: enquetes feitas pelo Senado Federal, pesquisas eletrônicas em grandes portais e outros tipos de consultas de opinião têm mostrado um grande apoio do povo brasileiro a qualquer iniciativa que facilite a compra e posse de armas por cidadãos de bem. O povo, ao contrário dos pseudointelectuais, políticos, jornalistas e artistas de meia tigela que defendem o desarmamento, sabe que a polícia nunca está em todos os lugares, e que é imoral tirar de um cidadão a possibilidade de defender sua família contra criminosos. Quem não tem carro blindado e seguranças particulares que atire a primeira pedra.

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e Mentiram para mim sobre o desarmamento”.