Os cavaleiros do Trumpocalipse

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 18 de maio de 2017.

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Está em curso, nos Estados Unidos, um ataque sem precedentes ao presidente da nação. Quatro cavaleiros do apocalipse trumpista juntaram forças para tentar dar um fim ao seu mandato: os democratas, a mídia esquerdista, o Estado ocupado e a banda podre do Partido Republicano. Todos têm lançado mão de estratagemas desleais e frequentemente ilegais para destruir Donald Trump.

Os democratas ainda não conseguiram assimilar a derrota eleitoral gigantesca que sofreram. O partido perdeu quase tudo o que disputou nos últimos anos: no Senado, caíram de 55 para 46 cadeiras, perdendo a maioria; no Congresso, caíram vertiginosamente de 256 para 194 cadeiras, também perdendo a maioria; nos governos estaduais, caíram de 28 para 16 estados, menos de um terço da federação; nas assembleias legislativas estaduais, perderam 958 cadeiras em todo o país; e, no Executivo, perderam a presidência. Diante de tantas derrotas, o partido tem se mostrado atordoado e incapaz de reagir com equilíbrio. Parece bastante óbvio que o povo americano não tem respondido positivamente às propostas e à ideologia de seus políticos; mas, como a grande maioria dos partidos de esquerda, os democratas optaram por jogar o jogo mais sujo possível, dar uma banana ao povo e tentar voltar ao poder por vias escusas.

Sobre a mídia americana há pouco a se dizer. Com exceção da Fox News e de alguns poucos jornais, o que se vê desde o primeiro dia em que Donald Trump anunciou que disputaria a indicação republicana são ataques de todos os tipos, quase sempre através de notícias fabricadas – as famosas fake news – e com uma parcialidade jamais vista desde que Gutenberg imprimiu a primeira folha em sua recém-inventada prensa móvel, quase seis séculos atrás. O bombardeio midiático é diário e inclui desde notícias falsas e manipuladas até reportagens ridículas, como fez recentemente a CNN, informando que o presidente Donald Trump tinha recebido duas bolas de sorvete enquanto o resto das pessoas em um determinado evento recebeu apenas uma. O jornalista típico de esquerda, seja nos Estados Unidos ou no Brasil, não pensa em informar ninguém; seu único objetivo é transformar a opinião das pessoas naquilo que ele acredita que é certo, por quaisquer meios que sejam necessários.

Eu chamo de Estado ocupado aquela parte do Poder Executivo que ainda é operada por gente da administração anterior. Barack Obama fez o que todo esquerdista faz no poder: aparelhou o Estado. No caso dos Estados Unidos, as consequências desse tipo de ação são potencialmente mais danosas que no Brasil, por exemplo, pois o aparelhamento se dá também em órgãos de inteligência e espionagem como a NSA, a CIA e outras 14 agências menos conhecidas. A esse corpo de inteligência e espionagem tem-se dado o nome de Deep State, aquela parte do Estado que age nos porões da nação, em grande parte das vezes sem nenhuma publicidade de seus atos. Parte do Deep State trabalha hoje contra Trump e é, sem dúvida, uma das maiores ameaças ao seu governo.

Por último, resta falar da banda podre dos republicanos. Esse pessoal lembra um pouco os tucanos brasileiros. Quando Geraldo Alckmin disputou o segundo turno com Lula, em 2006, o PSDB o abandonou numa disputa em que ele tinha reais condições de sair vitorioso, tudo por conta de rixas internas. No caso americano, os republicanos não conseguiram impedir Trump de receber a indicação e nem de vencer a eleição, mas não é por isso que desistiram de tirá-lo de lá. Fazendo uma oposição velada, desleal e covarde, gente como John McCain e Lindsey Graham tem trabalhado mais que muitos democratas para derrubar Trump.

Quais as chances do presidente contra esses cavaleiros apocalípticos? Uma de suas maiores vantagens é justamente não ter vindo da política. Trump é um bicho de hábitos pouco compreendidos por seus oponentes, acostumados a enfrentar políticos de carreira – seus semelhantes e coabitantes daquela dimensão paralela chamada Washington, DC. Além disso, o homem é um empresário e negociador hábil, e tem se cercado de conselheiros e estrategistas de primeira linha como Steve Bannon e Kellyanne Conway – tudo o que estou escrevendo aqui já deve ter sido previsto por esses dois há muito tempo. Enfim, não lhe faltam armas para vencer essa guerra interna.

Para o público brasileiro, que costuma acompanhar a política americana pelo Jornal Nacional e pela grande imprensa, pode parecer que há uma grande crise na Casa Branca e que Trump está isolado no Salão Oval, encurralado pelos sucessivos “escândalos” que a mídia vaza diariamente. A realidade, no entanto, é… (para ler o restante deste artigo, clique aqui).

O presidente da crise

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 4 de maio de 2017.

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Quando eu soube que Steve Bannon – estrategista-chefe da Casa Branca – carregava fortes influências do livro The Fourth Turning (ainda sem tradução para o português) em seus conselhos ao presidente Trump, entendi que seria bastante importante ler essa obra, e imediatamente me pus a fazê-lo.

O livro, escrito por William Strauss e Neil Howe, apresenta a interessante tese de que a história moderna acontece em ciclos, e que alguém bem treinado a observar o ciclo atual é capaz de antever a direção para a qual uma determinada sociedade está se movendo. Os autores falam mais especificamente da história americana, mas deixam claro que as tendências de globalização têm tornado os ciclos históricos cada vez mais abrangentes.

A obra começa com explicações sobre as diferentes percepções do tempo em diferentes épocas. No passado mais remoto, lá na Pré-História, o homem achava que o tempo era algo caótico, sem padrões ou repetições. Bastou um pouco de evolução para que a percepção mudasse para o conceito de tempo cíclico: estações, fases da lua, marés, mapas das estrelas, tudo se repetindo cíclica e infinitamente. Mais recentemente, especialmente após a chegada dos ideais iluministas, o homem adquiriu a noção equivocada de que o tempo é linear, ou seja, de que as coisas não se repetem e que cada novo dia é um novo tempo a ser criado por nós.

Os Estados Unidos da América são, desde sua criação, a nação do tempo linear. Em nenhum outro lugar do mundo essa noção foi tão incorporada por seus cidadãos, ainda que todo o mundo ocidental compartilhe grande parte desse modo de pensar. Mas, de acordo com os autores, o universo é intrinsecamente cíclico, e nosso pensamento moderno de linearidade temporal acaba criando um efeito condensador no processo de repetição da história. É mais ou menos assim: se a natureza impõe seus ciclos e nós reiteradamente os ignoramos com nossa percepção linear, esses ciclos nos serão impostos em “pacotes” mais espaçados, porém mais densos. Assim, podemos viver acreditando que estamos criando uma nova história a cada dia, mas, ao observarmos a história de uma perspectiva mais afastada, veremos que estamos nos repetindo a cada 80 a 100 anos.

A sequência do livro descreve primeiramente o conceito de saeculum, o período de vida da pessoa mais duradoura de uma geração, e os quatro períodos (ou “viradas”, que seria a tradução direta de turning) que ocorrem dentro desse tempo. Todo saeculum começa com um período de Alta, que é seguido por um período de Despertamento; em seguida vem um período de Desvendamento, e por último um período de Crise. A Crise fecha o saeculum e muda completamente o status quo da sociedade em questão. Em conjunto com os quatro períodos distintos, os autores identificam também quatro tipos de gerações, de acordo com o período em que cada uma nasceu. A análise da ocupação de posições importantes na sociedade por diferentes gerações em diferentes períodos é o ponto alto do livro, pois é justamente ela que define o caráter preditivo da obra.

A importância desse livro está justamente no fato de que Steve Bannon o leu e acredita piamente que Donald Trump será o presidente dos Estados Unidos quando o próximo período de crise chegar. A última crise terminou com a Segunda Guerra Mundial, evento que mudou completamente o mundo. Para enfrentar a próxima, Bannon buscou no modelo dos autores uma maneira de preparar o presidente dos Estados Unidos para conduzir o país de forma vencedora. Após ter lido o livro todo, posso dizer que é uma obra surpreendente. As análises são bem interessantes e até certo ponto assustadoras, no sentido de que mostram o quão repetitivos nós somos como humanidade. E, assim como o homem que está prestes a enfrentar o inverno a chegar, nossas memórias mais recentes são do último verão. A estação que se aproxima é sempre aquela que já foi há mais tempo. Exemplificando, a geração que lutou a última grande guerra faria de tudo para evitar uma próxima; a geração seguinte, que era criança durante a crise, também tem lembranças suficientes para querer evitar algo igual a todo custo; a geração seguinte, que só ouviu as histórias de seus avós, já não se preocupa tanto; e a próxima geração, já sem contato algum com aquele passado, acha que… (para ler o restante deste artigo, clique aqui).

Entre insights e catimbas

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 6 de abril de 2017.

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Existe uma palavra na língua inglesa que não tem uma tradução perfeita para o português. É a palavra insight. Se você perguntar ao Google Tradutor, ele responderá com as opções “discernimento”, “introspecção”, “compreensão” e “perspicácia”. O Michaelis também aposta em “discernimento” como a melhor tradução. Mas nenhuma dessas opções comunica com perfeição o real sentido da palavra: uma compreensão clara, profunda e por vezes repentina de um determinado problema ou situação, nas palavras do Dicionário Cambridge da língua inglesa.

O maior insight que a esquerda já teve em sua história foi entender que a Suprema Corte de um país com regras democráticas é o caminho mais direto para a consolidação legal de novos paradigmas ideológicos em uma sociedade, independentemente de esses paradigmas estarem consolidados de fato nas interações humanas entre aqueles que vivem sob esse mesmo aparato de leis. Em outras palavras, ainda que não seja majoritariamente aceito pelo povo, um determinado argumento ideológico torna-se norma legal através da caneta de meia dúzia de togados.

Daí o motivo de as esquerdas darem tanta importância à ocupação de espaços nessas cortes. Em alguns lugares, como na Venezuela, o processo avançou a ponto de a corte mais alta do país não passar de um mero apêndice de um Poder Executivo autoritário e despótico. Em outros, como no Brasil, a corte apresenta uma maioria clara e consistente de juízes ideologicamente alinhados à esquerda, mas que conservam um nível de independência em relação ao Executivo. Nos Estados Unidos, a Suprema Corte historicamente alterna momentos mais conservadores com momentos mais liberais – não confundir aqui o liberalismo político americano, que nada mais é do que a esquerda neste país, com o liberalismo econômico –, e se encontra atualmente num movimento em direção ao conservadorismo.

A mais alta corte americana é composta de nove juízes, bastando a presença de seis deles para que haja quórum. Até o início de 2016, cinco deles tinham sido apontados por presidentes republicanos – dois por Reagan, um por Bush pai e dois por Bush filho – e quatro, por presidentes democratas – dois por Clinton e dois por Obama. O fato de um juiz ser indicado por um presidente republicano ou democrata diz muito a seu respeito. Por exemplo, nas votações com respeito a direitos de minorias, uma pauta ideológica clássica da esquerda, juízes “republicanos” votam a favor da manutenção dos direitos individuais, enquanto juízes “democratas” votam a favor da intervenção do Estado em favor de grupos minoritários. O mesmo acontece quando o assunto é sindicalismo ou liberdade de expressão. Para melhor ilustrar esse abismo entre os juízes, deixo os números a seguir, todos calculados com base nas votações dos juízes atuais:

Quando o tema é ligado a direitos de minorias, “republicanos” votam em média 35% das vezes em favor das minorias e 65% em favor do indivíduo. “Democratas” votam em média 66% das vezes em favor das minorias e 34% em favor do indivíduo. Se o assunto é sindicalismo, “republicanos” votam em média 41% das vezes em favor dos sindicatos e 59% em favor do empregador. “Democratas” votam em média 81% das vezes em favor dos sindicatos e 19% em favor do empregador. Em julgamentos sobre liberdade de expressão, “republicanos” votam em média 68% das vezes em favor da liberdade de expressão e 32% em favor de alguma restrição a ela. “Democratas” votam em média 35% das vezes em favor da liberdade de expressão e 65% em favor de alguma restrição.

Quando Donald Trump indicou Neil Gorsuch para o lugar de Antonin Scalia, todos os democratas americanos tremeram e temeram. Em termos de ideologia política, Gorsuch é tão conservador quanto o mais conservador dos juízes atuais, Clarence Thomas. Sua idade – completará 50 anos em agosto deste ano – lhe permitirá julgar por mais três décadas, equivalentes a oito mandatos presidenciais, se permanecer na média atual da corte. Diante de uma derrota tão avassaladora, os senadores democratas decidiram usar uma técnica bem conhecida nos campos de futebol de nosso Brasil: a catimba.

Usando da prerrogativa de que um senador tem direito a expor suas considerações antes do voto a favor ou contra uma indicação para a Suprema Corte, os senadores democratas têm se revezado na maior procrastinação legislativa da história da América. Na última terça-feira houve até quebra de recorde. Jeff Merkeley, senador pelo estado do Oregon, fez um discurso com duração de mais de 15 horas, começando sua fala às 19 horas da terça-feira já com o aviso de que “falaria tanto quanto conseguisse”. Em resposta a toda a catimba democrata, o líder da maioria no Senado, Mitch McConnell, disse que não hesitará em mudar o regimento interno para permitir a aprovação de Gorsuch com uma maioria simples, manobra conhecida como “opção nuclear”. No entanto, caso isso aconteça, as regras ficarão alteradas para as próximas eventuais nomeações sob o governo Trump, assumindo que os republicanos manterão a maioria no Senado durante seu governo. Ou seja, no caso provável de mais um juiz atual abotoar o paletó de madeira ou se aposentar, Trump nomeará o juiz que realmente desequilibrará a corte a favor dos conservadores, e valerá a regra da maioria mínima.

Assim, os democratas estão com um pepino gigantesco nas mãos. Neil Gorsuch é altamente respeitado, inclusive por alguns políticos democratas. Não bastasse isso, senadores de estados em que Trump saiu vencedor – Joe Manchin (Virgínia Ocidental), Heidi Heitkamp (Dakota do Norte) e Joe Donnelly (Indiana) – já declararam que votarão pela aprovação do novo juiz a fim de agradar seu eleitorado. Se, mesmo assim, a minoria democrata no Senado decidir por obstruir esta indicação, gastará a única bala que têm com um homem que foi aprovado por unanimidade para sua posição atual na corte de apelação, e abrirá caminho para que Trump escolha alguém ainda mais conservador na próxima oportunidade.

Vale lembrar que os democratas mudaram a regra da supermaioria para… (para ler o restante deste artigo, clique aqui).

Um voyeur na presidência

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 9 de março de 2017.

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Algum tempo atrás, escrevi nesta mesma coluna que Barack Obama entraria para a história como um dos piores presidentes americanos. Ele ainda ocupava o cargo, e grande parte de suas sujeiras permanecia oculta debaixo dos tapetes da Casa Branca. Ao contrário dos criminosos petistas, que se lambuzam em suas empreitadas ilegais a ponto de serem retirados de cena quando ainda no poder, Obama escondeu seus crimes até o último dia de mandato.

Na última semana, aqui nos Estados Unidos, o assunto que vinha dominando as pautas da imprensa era a acusação do presidente Donald Trump de que Barack Obama tinha plantado escutas telefônicas em sua mais conhecida propriedade em Nova York, a Trump Tower. Como de praxe, quatro quintos da grande imprensa americana – CNN, MSNBC, ABC, NBC e outros – apressaram-se em encontrar pessoas ligadas ao governo anterior que negassem a acusação. Felizmente, essas negativas foram contestadas com veemência nas redes sociais, onde histórias como a de James Rosen, o repórter da Fox News que teve seus telefonemas ilegalmente grampeados durante a administração passada, ressurgiram com força, mostrando que o ex-presidente tem um passado que o condena.

No entanto, poucos esperavam que a verdade sobre o voyeurismo de Obama surgisse tão rapidamente. Na última terça-feira, o WikiLeaks, de Julian Assange, divulgou mais de 8 mil páginas de documentos confidenciais da CIA (chamados pelo próprio WikiLeaks de Vault 7), e o conteúdo é digno de uma ficção distópica. Os documentos mostram com clareza que a agência estava trabalhando diligentemente em projetos de espionagem baseados na tomada de controle de dispositivos pessoais ligados à internet. Em outras palavras, a CIA estava desenvolvendo diferentes versões de malware (malicious software – programas feitos para invadir sistemas alheios de forma ilícita e com propósitos danosos) para controlar o celular, o tablet, a smarTV e até mesmo o computador de bordo de seus “alvos”. Isso significa que, munida desses programas, a agência de inteligência americana teria (ou, numa hipótese assustadora, porém factível, já tem) acesso livre a conversas e imagens de qualquer pessoa conectada à internet através de um desses dispositivos. No caso de televisores Samsung, os documentos chegam a falar sobre um modo de “falso desligado”, onde a televisão parece estar desligada, mas continua transmitindo todo o áudio de seu redor para quem a estiver controlando remotamente. Como eu disse, coisa de filme.

Tão ruim ou pior que espionar as pessoas e jogar no lixo o direito dos cidadãos à privacidade é a possibilidade de invadir sistemas veiculares. Isso abre uma grande suspeita de que a agência tenha em seus planos a realização de assassinatos seletivos e praticamente indetectáveis por meio de uma investigação policial tradicional. Já há, inclusive, teorias da conspiração tentando ligar o conteúdo do Vault 7 à estranha morte do jornalista Michael Hastings, decorrente de um acidente automobilístico difícil de se explicar. A época da morte de Hastings coincide com o período de testes dos tais malwares, e há indícios de que ele estava sendo investigado por uma das agências de inteligência, deixando a coisa toda bastante malcheirosa.

Nas redes sociais, um novo termo surgiu para designar o Estado sob o governo Obama: Deep State. O nome é uma alusão ao termo Deep Web, denominação dada àquela… (para ler o restante deste artigo, clique aqui)

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e “Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

Empresários no poder

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 26 de janeiro de 2017.

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O ano de 2017 tem sido incrível, politicamente falando. Os inícios de mandato de João Dória e Donald Trump têm mantido a imprensa ocupada de todas as maneiras. Os setores esquerdistas da mídia se ocupam de fabricar difamações e distorções das medidas tomadas pelos dois gestores, e os de direita tentam manter o ritmo acelerado de novidades. Mas, imprensa à parte, vale a pena explorar um pouco o que esses dois empresários têm feito em tão pouco tempo de mandato, e o que está por trás dessa rapidez e eficiência.

À frente da prefeitura de São Paulo, comandando o terceiro maior orçamento do Brasil (R$ 54,69 bilhões), João Dória Júnior tem mostrado uma vitalidade fora do comum – ele, seu vice e seus secretários parecem estar em todo lugar, a toda hora. Eleito apesar do nariz torcido da cúpula tucana, que só apoiou sua candidatura após a vitória, Dória trabalha num ritmo alucinante, como todo bom gestor em início de empresa costuma fazer. Quem já abriu seu próprio negócio sabe do que estou falando: muitas horas de trabalho por dia, muitos problemas para resolver, múltiplos fatores de risco ao negócio, competidores de olhos arregalados com a chegada da novidade etc. Logo em seu primeiro dia, ele apareceu às 5h30 na Praça 14 Bis, vestido de gari, para iniciar o primeiro programa de seu governo, o Cidade Linda. Na sequência, ordenou a devolução de todos os carros alugados da prefeitura, gerando uma economia prevista de R$ 10 milhões por mês.

Em relação à sua equipe de trabalho, o novo prefeito aplica as mesmas regras às quais eu e você, leitor, temos de nos submeter em nossos empregos: penalidades para atrasos, ou seja, exigência de comprometimento e disciplina nas relações do trabalho. E, para o terror daqueles funcionários acostumados ao descaso da administração petista, ele tem aparecido de surpresa nos mais diversos locais, numa espécie de “flagra da vagabundagem”. Além disso, utilizando-se da premissa de que todo empresário busca obter o melhor resultado com o menor uso possível de recursos, Dória fechou diversas parcerias com a iniciativa privada, sem custo para o erário municipal, que resultaram em benefícios imediatos para a população paulistana. As intervenções do novo prefeito são diárias e repletas de cobertura tanto da mídia tradicional como das redes sociais, no intuito claro de provocar mudanças em curto período de tempo, ganhar o apoio da população e reduzir a pó o legado de seu antecessor.

E o que dizer de Donald Trump? O presidente americano, que tomou posse no último dia 20, tem dormido apenas três horas por dia e trabalhado no restante. Ao contrário de Barack Obama, que cumpriu menos de 50% das promessas que fez durante sua campanha em 2008, Donald Trump tem sinalizado que fará o máximo possível do que prometeu nos últimos meses. O empresário de Nova York já começou a chocar seus adversários políticos na primeira semana de mandato: emitiu uma ordem executiva para que as agências federais diminuam o fardo regulatório do Obamacare, exigindo que as mesmas renunciem, adiem ou concedam exceções à implementação de qualquer provisão ou requisito que incorra em custo sobre indivíduos, famílias e empresas da área de saúde; impôs o congelamento de contratações para o governo federal, com a exclusão das forças armadas; suspendeu a execução de toda e qualquer regulamentação em processo de aprovação, impedindo que diversas das ordens executivas assinadas por Obama em seus últimos dias de mandato permaneçam em vigor; restabeleceu a proibição de alocação de fundos federais para grupos que realizem abortos ou que atuem como lobistas para a legalização ou promoção do aborto; retirou os Estados Unidos da Parceria Transpacífico, um acordo comercial ineficiente e burocrático com nenhuma vantagem para os americanos; exigiu celeridade na aprovação de projetos de infraestrutura de alta prioridade por parte do Conselho de Qualidade Ambiental da Casa Branca; além de diversas outras ações que simplesmente não caberiam nesta coluna. A mais recente delas, logo antes do fechamento desta coluna, foi o pontapé inicial na construção do muro na fronteira com o México. Nos próximos dias ele deve anunciar a suspensão da admissão de refugiados provenientes de países que abriguem grupos radicais islâmicos e a indicação de um juiz conservador para a vaga de Antonin Scalia na Suprema Corte.

O brasileiro é ensinado, nas escolas públicas e privadas, que o capitalismo é ruim e que os empresários são maus e aproveitadores. Aprendemos que os ricos só se importam com dinheiro e que os bilionários são o câncer do mundo. Nenhuma escola ensina que toda a riqueza criada vem das mãos desses “malvadões”. Alguns dias atrás estava comentando isso com minha esposa. Estávamos tentando enxergar a vastidão da riqueza criada por Bill Gates, fundador da Microsoft. Quantas pessoas devem seu ganha-pão às ideias de Gates? Uma multidão de gente que instala, desenvolve e dá manutenção em softwares na plataforma Windows; uma miríade de técnicos que montam e consertam computadores pessoais; fabricantes de computadores, tablets e celulares; e muitas outras categorias de profissionais ligados à informática. Os quase US$ 100 bilhões de Bill Gates soam como uma imoralidade para os esquerdistas, mas os milhões de pessoas que têm hoje uma carreira, um emprego e um salário por causa desses US$ 100 bilhões são simplesmente ignorados por esse pessoal. O mercado faz essa “mágica”, criando um absurdo de riqueza de dentro de uma simples garagem. O Estado, inchado e ineficaz, faz o contrário.

Nosso planetinha, tão afetado pela ação irresponsável de governantes aproveitadores e incapazes, poderia se beneficiar muito da presença de mais empresários competentes na direção de cidades, estados e países. É claro que Dória e Trump não manterão um ritmo louco de novidades e realizações pelos próximos quatro anos. Mas, pelo que temos visto, devem fazer mais nos primeiros 100 dias do que seus antecessores em toda a extensão de seus mandatos. Se daqui a quatro anos, por causa do bom exemplo desses dois, mais pessoas entenderem que um bom gestor público é aquele que menos lhes atrapalha, que cria condições para que cada cidadão cuide de si mesmo e de seus dependentes sem nenhuma esmola do Estado, teremos muito a comemorar. Essa mentalidade é a única cura para o estatismo paralisante em que vivemos hoje.

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e “Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

Coluna do adeus

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 19 de janeiro de 2017.

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Adeus a Obama. Melhor, adeus a Barack Hussein Obama II.

Adeus ao mais infame dos presidentes americanos e à sua infame equipe.

Adeus ao vice-presidente, Joe Biden, e aos seus discursos que ninguém queria realmente ouvir.

Adeus ao secretário de Estado, John Kerry, e à sua postura covarde diante de um mundo perplexo com a expansão do terrorismo islâmico.

Adeus ao secretário do Tesouro, Jack Lew, e à política fiscal desastrosa que quase dobrou a dívida pública americana nos últimos oito anos.

Adeus ao secretário de Defesa, Ashton Carter, e ao seu descaso para com as forças armadas.

Adeus a Loretta Lynch, que conduziu o Departamento de Justiça mais injusto das últimas três décadas.

Adeus aos programas falidos deste governo que acaba nesta quinta-feira, programas cujo único propósito era transformar os Estados Unidos da América em uma nação de gente dependente do Estado.

Adeus ao Obamacare.

Adeus à distribuição sem critérios de food stamps, o Bolsa Família dos EUA.

Adeus ao antissemitismo como modo oficial de conduta.

Adeus à leniência para com traficantes de drogas.

Adeus ao perdão a bandidos perigosos e assassinos de policiais.

Adeus à instigação de negros contra brancos e de brancos contra negros.

Adeus ao apoio a grupos e organizações criminosas como Planned Parenthood e Black Lives Matter.

Adeus ao antipatriotismo na condução do país.

Adeus ao globalismo.

Adeus ao desrespeito aos milhões de imigrantes legais que fizeram desta nação a mais rica e mais livre do mundo.

Adeus ao desarmamentismo e às tentativas de destruir os pilares constitucionais que garantem a todo cidadão o direito de se defender contra criminosos e contra governos despóticos.

Aproveitando o tema e abrindo um parêntese, adeus à liberdade de expressão na rede social de Mark Zuckerberg. No início desta semana, me deparei com um comentário de um amigo dizendo que o Facebook estava bloqueando automaticamente qualquer texto que contivesse as palavras “veado”, “bicha”, “boiola” e similares. Não acreditando, fiz eu mesmo um texto de teste com duas dessas palavras. Menos de cinco minutos depois, o texto foi removido por “infringir as políticas do Facebook”. Pouco tempo atrás, escrevi nesta coluna semanal sobre o uso da novilíngua no jornalismo brasileiro. Parece que mais uma das profecias de Orwell, a supressão de palavras não aprovadas pelo “regime”, acaba de se tornar realidade. Hoje é o Facebook apenas apagando um texto e suspendendo a conta do “culpado”; amanhã pode se transformar em crime sujeito a pena de encarceramento. Fecha parêntese.

Nesta sexta-feira começa o mandato de Donald Trump como presidente dos Estados Unidos. A imprensa brasileira, em sua maioria, procura passar a imagem de catástrofe mundial sem precedentes, e não está sozinha nesse esforço. O clima chega a ser folclórico aqui na América: há relatos de garotas adolescentes preocupadíssimas porque alguém disse que o novo presidente tirará o direito de voto das mulheres; de estudantes universitários sendo dispensados das aulas para se recuperarem do choque da vitória de Trump; de ambientalistas desesperados com a hecatombe climática que o novo governo trará ao mundo, dentre outras lendas urbanas espalhadas pelo vasto arsenal de comunicação que nos une atualmente. Para esse pessoal, Trump é um tipo de Magneto ou Lex Luthor, o vilão diabólico; para outros ele é o Sauron moderno, a encarnação do mal (mas sem os anéis). Eu, que lhes disse nesta mesma coluna, um mês antes da eleição, que Donald Trump seria eleito, digo também que não há razão para preocupações desse tipo. O novo presidente tem tudo do que precisa para colocar os Estados Unidos de volta nos trilhos, amparado por uma maioria consistente nas duas casas legislativas e uma sólida base conservadora na maioria dos estados. Se fizer metade do que prometeu, Trump poderá entrar para a história como um dos maiores presidentes americanos. Seus maiores inimigos, hoje, estão dentro do Partido Republicano. Espero que ele tenha habilidade para domá-los ou reverter sua oposição.

No mais, agora é torcer para o melhor resultado possível. Afinal, o que se faz aqui afeta não só os americanos, mas também os brasileiros e o restante do mundo. Aguardemos os primeiros 100 dias do novo governo.

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e “Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

Não tem graça, Dooley (quer dizer, Meryl)

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 12 de janeiro de 2017.

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Escrevo esta coluna de um quarto de hotel em Albuquerque, Novo México, uma cidade que ganhou notoriedade por ser o local da trama de Breaking Bad.

Eu adorei Breaking Bad. Coloco ao lado de Seinfeld e The Office na minha lista de séries favoritas de todos os tempos. Aliás, Bryan Cranston, que alcançaria o auge da fama interpretando Walter White, entrou para o radar dos produtores justamente em Seinfeld, quando fez o papel do dentista Tim Whatley.

Sentado aqui na terra dos White e de Jesse Pinkman, me bateu uma tristeza ao ver meu druglord preferido aplaudindo em pé o discurso mentiroso e afetado de Meryl Streep, que escolheu usar seu tempo precioso no microfone do Globo de Ouro para propagar uma mentira ridícula sobre Donald Trump. Cranston, que já tinha entrado na minha lista de celebridades babacas quando participou de um vídeo anti-Trump-pró-Hillary, participou com entusiasmo de mais um episódio que corrobora uma conhecida tese: a de que a opinião de um ator sobre política é tão valiosa quanto a opinião de um metroviário sobre a existência ou não de matéria escura no universo. Ben Affleck e George Clooney, dois ícones da esquerda caviar artística, se juntaram à léria um dia depois, saindo em defesa da diaba que veste Prada.

Diz a sabedoria popular que futebol, religião e política não se discutem. Neste caso, concordo em chamar de sabedoria, porque esses temas são de fato destruidores da harmonia familiar e de amizades. E o são justamente porque qualquer um que os discuta geralmente o faz de uma posição de suposta autoridade no assunto. Assim, o sujeito que mal consegue entender o conceito de tática acha que pode contribuir em muito nas discussões sobre aquela substituição que resultou num gol adversário. E o outro, que nem sequer faz ideia de qual seja a etimologia da palavra “religião”, acha que pode desqualificar a fé alheia e fundar a sua própria com base em meia dúzia de mantras que decorou em seus anos de igreja.

Mas é na política que vemos a maior quantidade de pretensos especialistas falando todo tipo de asneira, tanto em pequenos grupos como nas redes sociais e em transmissões públicas. Para que estudar ciência política, ética, filosofia e história? Política não é nenhuma medicina, pensa o orgulhoso “comentarista político”, e qualquer um pode opinar livremente sobre isso. É claro que qualquer um pode opinar, até mesmo este que vos escreve, graças ao pouco de liberdade de expressão que nos resta. Mas, ao contrário do que parece ser o senso comum, os erros na política matam muito mais gente do que os erros médicos, e os astros de Hollywood (além dos “astros” brasileiros do Projac) parecem gostar de falar justamente disso. Curiosamente, não conheço um artista famoso que tenha expressado suas opiniões sobre fusão nuclear, movimentação tectônica ou transmissão de energia sem fio, temas tão alheios às suas especialidades artísticas quanto a política.

Dizem que, para podermos desfrutar do melhor da arte, precisamos separar o artista da pessoa. Eu tenho uma dificuldade muito grande com isso. Tipos como Wagner Moura, Chico Buarque, Benicio del Toro, Sean Penn, Bono Vox e Alec Baldwin, só para citar alguns, envolvem-se tão profundamente com uma agenda política que perdem todo e qualquer apelo artístico para mim. Simplesmente não consigo vê-los atuando sem me lembrar de suas posições radicais de esquerda. Meryl Streep acaba de entrar para a lista.

O fato é que está ficando cada vez mais difícil sentar em frente à televisão e passar um tempo agradável se divertindo sem que apareça alguém politizando até comerciais de sabonete. Sinto saudades da época em que Os Trapalhões eram minha diversão de domingo e o Pica-Pau não me ensinava nada além de como sacanear o Dooley. Só sobraram South Park e Clint Eastwood para contar a história.

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e “Mentiram para mim sobre o desarmamento”.