Mais uma redonda

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 1 de setembro de 2016.

O Brasil desanima, até quando anima. E desanima em grande estilo, com direito a absurdos nunca antes vistos na história nacional, quiçá mundial. Foi o que vimos nesta quarta-feira, no julgamento do impeachment de Dilma Rousseff no Senado. Os pizzaiolos da vez, Ricardo Lewandowski e Renan Calheiros – este último com vasta experiência na montagem de redondas italianas –, deixaram uma tremenda mancha num processo que poderia ter lavado a alma de muitos brasileiros. Dilma perde o mandato, mas não perde mais nada. É julgada culpada por crime, mas não recebe pena nenhuma. No país da impunidade, nem chega a ser muita surpresa; continua sendo, no entanto, extremamente difícil de engolir.

Esta coluna, que seria escrita em comemoração ao fim do governo mais incompetente e corrupto desde que Cabral atracou na costa brasileira, acaba dedicada aos momentos de comédia involuntária proporcionados pela senadora Kátia Abreu e pela própria Dilma. Dizem que devemos usar os limões da vida para fazer limonada; estou apenas tentando espremer a minha.

Kátia Abreu foi à tribuna do Senado depois de terminada a votação sobre o crime de responsabilidade cometido pela agora ex-presidente. Lá, teve a coragem de ser ridícula diante das milhões de pessoas que acompanhavam a transmissão da TV Senado: argumentou que a “pobre” Dilma estava a apenas um ano de se aposentar, e que tirar os seus direitos políticos acabaria impedindo nossa heroína tupiniquim de dar aulas em uma universidade pública ou de prestar um concurso em empresa, órgão ou autarquia estatal. É difícil escolher qual das interpretações é mais humorística, a de que Dilma é tão incompetente que só conseguiria arrumar emprego no serviço público, ou a de que Dilma teria condições de dar aula a alguém com mais de 4 anos de idade. Kátia Abreu completou seu discurso abilolado mencionando por diversas vezes os termos “presidenta honesta”, “mulher honrada” e coisas do tipo.

E depois, é claro, tivemos a própria Dilma fazendo seu discurso de despedida. Como seu estoque de argumentos já se extinguiu há muito tempo (desde sua infância, imagino), ela resolveu tirar o coringa da luta racial-social-sexual-indígena da lata do lixo. De acordo com Dilma, aqueles que a condenaram são, precisamente por terem-na condenado, racistas, machistas, homofóbicos, indiofóbicos, gordofóbicos, dentuçofóbicos etc. E, para rivalizar com sua grande amiga, senadora Kátia, Dilma disse que recorrerá da decisão em todas as instâncias possíveis – ainda não descobri se ela enviará o recurso para o Alto Conselho Jedi ou para a Federação dos Planetas Unidos – para reverter esse “golpe”. Senti falta de suas invenções engraçadas, como cachorros ocultos e pastas de dente que voltam ao tubo, mas acho que ela não estava no humor para esse tipo de coisa.

Piadas e pizzas à parte, a era PT chega ao seu tão esperado fim. Os picaretas que ainda sobraram no partido tentam descolar sua imagem da cor e do símbolo do mesmo. Anúncios multicoloridos (mas sempre sem vermelho) de diversos candidatos petistas deixam claro que ninguém mais quer apostar na sigla. O nome do partido sumiu das peças eleitorais, e a estrela com o 13 no centro caiu mais fundo que o diabo quando despencou do céu. É apenas uma questão de tempo para que o PT desapareça das câmaras municipais e estaduais, bem como dos gabinetes executivos e das duas casas de Brasília.

Eu queria muito ter escrito um artigo em clima de festa. Queria ter conseguido sentir um pouco de esperança, uma ponta de otimismo, uma nesga de luz em meio às trevas da política brasileira. Infelizmente, não foi assim. A manobra para evitar a perda dos direitos políticos de Dilma é apenas mais uma de tantas trambicagens que vemos todos os dias no Congresso. O Brasil sem Dilma e sem o PT no governo é, com certeza, um Brasil melhor, mas está muito longe de ser um Brasil decente. Quando o assunto é política, não somos nem sequer aceitáveis.

Termino com as palavras do ex-presidente Lula, para não dizerem que tenho preconceito com petistas: Tchau, querida.

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

Com o dinheiro dos outros é fácil

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 2 de junho de 2016.

Milton Friedman, economista genial que ganhou o Prêmio Nobel de Ciências Econômicas em 1976, dizia que há quatro maneiras de se gastar dinheiro:

  1. Gastar o próprio dinheiro consigo mesmo: ao gastar o recurso que foi conseguido com o próprio esforço e suor na compra de um bem que será usufruído por si mesma, a pessoa certamente será o mais criteriosa possível, buscando o melhor custo-benefício e o menor desperdício;
  2. Gastar o próprio dinheiro com outra pessoa: é o caso da compra de um presente, por exemplo. Como o recurso continua sendo fruto do próprio trabalho, a compra também é feita com o intuito de obter a melhor negociação, e o gasto é calculado em função da importância e merecimento que a pessoa presenteada tem para a compradora;
  3. Gastar o dinheiro de outra pessoa consigo mesmo: já não há a aplicação do critério de melhor custo-benefício. Na verdade, como o dinheiro não veio do próprio esforço e trabalho, a pessoa provavelmente se preocupará apenas em maximizar o benefício próprio, independente do custo;
  4. Gastar o dinheiro de outra pessoa com uma terceira: neste cenário não há a menor preocupação de se obter o melhor custo e nem o melhor benefício. O gasto está tão distante da escala de valores da pessoa que ela não se sente na obrigação de gastar seu próprio tempo e esforço em busca de negociações, descontos, qualidade etc.

Estas quatro maneiras servem para exemplificar com clareza o grande problema que é o assistencialismo social nas mãos do Estado. Aliás, servem para mostrar como todo o dinheiro gasto pelo Estado sempre cai no quarto caso, o mais perdulário e ineficaz de todos.

Nesta semana, o Ministério Público Federal identificou irregularidades no programa Bolsa Família – aquele que o PT insiste em chamar de “o maior programa de redistribuição de renda da história deste país” – da ordem de R$ 2,5 bilhões. As irregularidades abrangem cerca de 1,4 milhão de pessoas, e incluem beneficiários com diversos CPFs cadastrados para receberem múltiplos benefícios, servidores públicos, doadores de campanha, proprietários de empresas e outros picaretas mamadores das tetas estatais. Vale lembrar que no final de março deste ano o governo Dilma, ainda no poder, anunciou um corte de R$ 2,373 bilhões no orçamento do ministério da Saúde, ou seja, tirou recursos de uma das áreas que mais impacta a vida das pessoas para colocar nas mãos de falsários e vagabundos inscritos irregularmente no Bolsa Família.

O Estado brasileiro é voraz. Ele morde a riqueza gerada pelo trabalho genuíno por todos os lados, confiscando recursos por meio de impostos, impondo prejuízos por meio de regulamentações e burocracia, e acabando com a competitividade das empresas nacionais de todos os tamanhos. Os governos Lula e Dilma adicionaram à voracidade um elemento de crueldade: o Estado deixou de se inchar como a pessoa que engorda por comer desregradamente e passou a engordar como a pessoa que rouba comida para alimentar os inúmeros parasitas que vivem dentro de si. A quantidade de riqueza desperdiçada e utilizada para bancar a vida de gente que não trabalha, não produz nada e vive melhor do que a média da população brasileira é quase incalculável. Nas mãos de um governo liberal e pequeno, o PIB brasileiro poderia gerar uma situação econômica muito mais favorável e uma posição de destaque no cenário mundial.

Quando o Estado dá dinheiro às pessoas sem lhes pedir nada em troca, nem sequer que mantenham seus filhos na escola, não está lhes fazendo bem nenhum. Quando o Estado usa seus programas de esmola para financiar a perpetuação de um partido no poder, já não estamos mais falando de Estado, e sim de um grupo de criminosos travestido de governo. Cada dia com o PT fora da presidência é um dia de descobrir novos crimes e novos golpes aplicados diuturnamente pelos últimos 13 anos. Daria para construir um país inteiro do zero com o dinheiro todo que esse pessoal roubou. Infelizmente, nos restou chorar o leite derramado.

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

Uma pedra chamada Dilma

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 19 de maio de 2016.

Poucos dias depois da eleição de 2014, sofri com dores terríveis na região lateral lombar. Após uma tomografia e algumas radiografias, o diagnóstico foi de pedras no rim. Algumas pedras pequenas e uma bem grande, de 7 milímetros, alojada no rim direito. O médico brincou, disse para eu dar um nome para a grandona. Eu levei a brincadeira a sério e lhe dei o nome de Dilma.

Dilma me acompanhou desde então, causando muita dor e desconforto. Ela me fez voltar cinco vezes ao hospital, me fez urinar sangue e suar frio, e me impediu de trabalhar por vários dias. Dilma me fez gastar um dinheiro que eu não queria ter gasto, me fez perder um tempo precioso, me desequilibrou nos dias de dores mais fortes e acabou trazendo sofrimento para toda a minha família. Ninguém aqui em casa queria a Dilma, ninguém fez nada para colocá-la na posição em que estava, mas mesmo assim ela continuou implacável, com um único objetivo em sua vida de pedra: nos prejudicar.

Com o passar dos meses, Dilma foi descendo. Saiu do rim e começou seu trajeto rumo à excreção. No meio de 2015 ela estava a 7 centímetros da bexiga. O médico recomendou o que todos recomendam para expelir uma pedra desse tamanho: tomar muita água, água em quantidades diluvianas. O duro é que eu não gosto de beber água. Gosto de Coca-Cola, suco de maçã, limonada, chá gelado, vinho, Gatorade, mas água mesmo eu peno para beber. Assim, minha falta de atenção à recomendação médica fez com que Dilma demorasse muito mais para fazer seu trajeto.

Chegamos a maio de 2016, e Dilma aprontou mais uma. Passei o final de semana com dores fortes, e fui novamente ao médico. A famigerada está na curvinha do ureter, pertinho da bexiga. Ela fez um longo caminho de descida desde que foi alçada ao posto de presidente das minhas dores, e agora está a um passo de sofrer o impeachment deste corpo. Num esforço final para obter todos os votos, estou bebendo mais de 5 litros de água por dia. É um negócio brutal, você tem que ir ao banheiro uma vez por hora, tem que ingerir mais líquidos que um camelo no Saara, mas tenho certeza de que terá valido a pena quando eu finalmente vir Dilma a caminho do esgoto. Na verdade, eu até gostaria de castigá-la mandando-a descarga abaixo, mas o médico disse que preciso capturá-la para estudos, pois assim podemos saber como evitar a formação de futuras Dilmas.

E assim segue a votação apertada em meu corpo. Até o momento não conseguimos todos os votos de que precisamos, mas temos uma nova articuladora em campo, a excelentíssima tansulosina. Ela promete alargar os caminhos para que Dilma possa sair mais facilmente. Tem seus possíveis efeitos colaterais, mas ainda prefiro um remédio imperfeito a uma dor perfeita. De acordo com o médico, se isso não funcionar teremos que tentar algo mais invasivo e mais complicado, uma explosão a laser através de cirurgia, o tipo de golpe revolucionário que não gostaria de ter em meu organismo.

Assim, estou na torcida e na confiança de que minha Dilma sairá em breve. Cheguei a desanimar por um tempo, até que me disseram que uma outra Dilma, a de um caso bem mais grave que o meu, acabou saindo depois de muito esforço e paciência. É com essa esperança que termino este artigo. E peço licença, pois preciso beber mais água.

PS: A pedra saiu às 20h40 de quarta-feira, 18 de maio de 2016.

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

A presidente de Schroedinger

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 12 de maio de 2016.

O físico Erwin Rudolf Josef Alexander Schroedinger, ganhador do prêmio Nobel de Física em 1933, ficou famoso fora do contexto acadêmico por um experimento virtual chamado de “O Gato de Schroedinger”, um paradoxo que ele inventou para tentar explicar o problema da mecânica quântica aplicada à vida diária, em objetos e seres de dimensões não subatômicas.

Ele descreve o experimento da seguinte maneira: uma caixa fechada, dentro da qual há um gato, um detector de radioatividade e um frasco de veneno. Há também um mecanismo que, se ativado pelo detector de radioatividade, quebra o frasco de veneno, que por sua vez mata o gato. Schroedinger dizia que, usando a interpretação quântica de Copenhagen, como não se pode saber se surgirá ou não uma partícula radioativa a ser detectada, o gato deveria ser considerado vivo e morto ao mesmo tempo, num estado ambíguo. É claro que bastaria abrir a caixa para saber se o real estado do gato, e o experimento fictício foi uma maneira de Schroedinger criticar a interpretação de Copenhagen. Mal sabia ele que seu experimento seria comprovado no Brasil de 2016.

Temos hoje a presidente de Schroedinger, a morta-viva do Planalto. Graças a seus incansáveis companheiros de crime, Dilma vai tentando se manter no poder com manobras jurídicas e com ameaças de violência. No front jurídico ela conta com a defesa de José Eduardo Cardozo, o advogado-geral da União que se transformou em advogado pessoal de Dilma Vana. O homem que deveria defender a União passou a desempenhar o papel preferido dos políticos petistas: advogado de porta de cadeia – Better call Cardozo. No front da violência, ela conta com os bandidinhos de sempre: MST, MTST e sindicalistas pelegos. Como lhes falta coragem para um embate realmente violento e armado, esse pessoal acaba queimando pneus em rodovias, agredindo gente indefesa e tumultuando a vida do cidadão comum. Estão mais para mosquitos do que para leões.

Voltando a Schroedinger, se nosso gato é a presidente, nossa caixa é Brasília. O veneno já conhecemos, mas em nosso caso ele pode ser chamado de remédio ou de impeachment. O mecanismo, esse é mais complicado… Câmara, Senado, STF, todos fazem parte desse processo intricado que ativa o veneno e mata o gato. Olhando Brasília de fora, fica realmente a impressão de que a presidente está morta e viva ao mesmo tempo. Mas, basta fazer um furinho na caixa para perceber que ela já partiu desta para a melhor (ou pior, dependendo de Sérgio Moro).

A turma do PT age como uma criança que não suporta perder. Aliás, escrevendo isso, lembrei-me claramente de um episódio de infância que cai muito bem como ilustração. Estávamos em cinco amigos, todo mundo na faixa dos 12 anos de idade, jogando War em minha casa. Um dos garotos estava prestes a ser eliminado – só lhe restava a Austrália. Quando ele viu uma miríade de exércitos inimigos acumulados em Sumatra e Bornéu, percebeu que não resistiria à próxima rodada, arrancou o tênis do pé e jogou em cima do tabuleiro. Voaram pecinhas para todo lado, e tivemos que começar de novo (sem ele, é claro) porque ninguém conseguia lembrar onde estavam os exércitos de cada um. Tivesse ele jogado um punhado de cocô no tabuleiro, a analogia seria perfeita.

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

A lista do adeus

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 5 de maio de 2016.

Este colunista espera, do fundo do coração, que esta seja sua última coluna sob a presidência de Dilma Rousseff. Afinal, o plenário do Senado deverá votar pela abertura do inquérito contra a pior presidente deste canto da galáxia amanhã, dia 6 de abril, e a oposição tem todos os votos de que precisa para afastar a presidente por 180 dias (ou, em outras palavras, para sempre).

Assim, achei de bom tom elencar um pouco do que esse governo fez de ruim para o Brasil, caso alguém ainda pense que poderá sentir saudades. Com vocês, minha lista do adeus:

A expressão “mãe do povo” – esperamos que a mãe e o pai do povo (sim, estou falando daquele criminoso que não tem o dedo mindinho) sejam condenados e presos, e que o povo aprenda que é melhor ser órfão do que ser filho do Estado;

O PAC – em vez de acelerar o crescimento, esse grande programa de loteamento de obras superfaturadas para políticos e empresários corruptos só freou ainda mais a economia brasileira. Finalmente terá seu fim, pois o próximo presidente dificilmente manterá algo que foi vendido como o grande feito da então ministra Dilma;

Kátia Abreu – maior decepção política dos últimos anos, a senadora lambe-botas da atual presidente será finalmente defenestrada do governo. A oportunista de Tocantins terá bastante tempo para refletir sobre o que é escolher estar do lado errado da história. Sorte dela não precisar de uma bomba atômica na cabeça para isso;

Mais Médicos – será um grande alívio para os brasileiros de bem quando o governo parar de enviar dinheiro para um ditador sanguinário através deste programa de fachada. O Mais Médicos foi um dos maiores absurdos deste governo, uma imoralidade, uma vergonha para o Brasil;

O Itamaraty Vermelho – com a saída do PT do governo, ressurge a esperança de que nossa diplomacia volte a priorizar as relações com os países livres e democráticos e pare de desperdiçar recursos e de sujar nossa reputação com o apoio a ditadores pelo mundo afora;

Nunca antes na história deste país – que bom será nunca mais ter que ouvir a frase “nunca antes na história deste país” e nem comparações ridículas do tipo “mais do que nos últimos 500 anos”;

MST – embora esta organização criminosa esteja longe de ser extinta, só o fato de não poderem mais entrar e sair do Planalto quando bem entenderem, fazendo o governo de capacho, já é uma evolução. E ainda há a esperança de que o novo governo aperte o cerco e pare de financiar esses vagabundos que invadem terras produtivas e destroem centros de pesquisa de agricultura e pecuária;

Blogueiros chapa-branca – sem o financiamento do governo petista, centenas de blogueiros chapa-branca deixarão de mamar nas tetas do Estado e finalmente terão de arrumar um emprego digno, um que não inclua defender criminosos e exaltar ditadores (a não ser, é claro, que consigam uma vaguinha na Folha);

Discursos sem pé nem cabeça – finalmente estaremos livres da vergonha internacional que é ver Dilma Rousseff falando em público. Será um adeus aos cachorros ocultos, às mandiocas exaltadas, aos dentifrícios retornantes e a tantas outras expressões nunca antes utilizadas por um presidente da república na história deste país e deste planeta. Pensando bem, este último ponto fica tanto como positivo como negativo, pois perderemos uma fonte inesgotável de diversão e comédia.

Enfim, Dilma já vai tarde, tarde demais. Ela sai deixando o país na pior recessão da história e protagonizando aquele que é considerado o maior escândalo de corrupção do mundo moderno. De todos os recordes que ela poderia quebrar, escolheu os piores. Dilma Rousseff, não sentiremos saudades de você.

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

Lula, o chulo solitário

Artigo publicado no Senso Incomum em 21 de março de 2016.

Todo político eleito para um cargo do Executivo tem em suas mãos diversos cargos de confiança que frequentemente (estou sendo otimista com o frequentemente) são usados como moeda de troca. O mais alto cargo executivo do Brasil é a Presidência da República, e o presidente eleito possui uma quantidade imensa de indicações e nomeações ao seu dispor. É gente demais para ser “comprada” e “mantida refém”: eu lhe dou um emprego com um belo salário e uma boa dose de poder, e você fica na minha mão até o último dia do meu mandato.

Mas, uma das indicações que o presidente da república faz é bem diferente de todas as outras, e é justamente a indicação de ministro do Supremo Tribunal Federal. Esta é a única indicação para um cargo cujo mandato ultrapassa o da presidência – é para um mandato vitalício. Sendo assim, é a que tem a moeda de troca mais fraca. O presidente não pode ameaçar um ministro do STF com perda de mandato, e esta é justamente uma das características-chave de uma suprema corte, a de que seus componentes podem julgar qualquer assunto e qualquer pessoa sem influências externas, sejam elas de políticos, de partidos, de outras instituições ou do povo. É por isso que a escolha de ministros do STF com orientação ideológica semelhante à do presidente em exercício não é uma jogada de sucesso garantido. Exemplo disso foi o próprio Joaquim Barbosa, indicado por Lula em 2003, que em inúmeras oportunidades votou e julgou de forma completamente contrária ao esperado pelo governo petista.

lula-STF-totalmente-acovardadoLula, é claro, não é capaz de enxergar sua arrogância, torpeza e desprezo pelas outras pessoas. Seu ego gigantescamente inflado o impede de perceber que há pessoas no Brasil cujo poder é mais fundamentado e mais duradouro que o dele. O vilão clássico da literatura e do cinema sempre cai por causa do exagero de autoconfiança. Lula não foge à regra. Quem tudo pode, nada teme, e esse nada inclui investigações, grampos e vinganças. De guarda baixa, Lula foi pego em sua forma mais natural, a de ser desprezível e incrivelmente chulo em tudo o que diz. E, graças à inteligência de Sérgio Moro, os brasileiros puderam ouvir, no conforto de suas casas, as gravações em que Lula chama os magistrados do Supremo de covardes.

Eu não sei você, mas se eu tivesse um cargo vitalício, não respondesse para ninguém e fosse chamado de covarde publicamente por alguém, eu faria questão de aplicar a lei no limite mais rigoroso da letra a esse sujeito, caso algum de seus processos caísse em minhas mãos. Mas, como nem sempre o mal anda de braços dados com a sorte, as liminares pedindo a suspensão da nomeação de Lula como ministro foram cair justamente nas mãos de Gilmar Mendes, desafeto bem conhecido do ex-presidente. E Mendes não desapontou 97% dos brasileiros ao julgar a liminar procedente, frustrando os planos petistas e deixando Lula à mercê da operação Lava Jato.

Logo depois de sua decisão, Gilmar Mendes informou que levará a discussão voluntariamente ao plenário do STF. Muita gente recebeu esta afirmação como um sinal de que Lula está agindo por trás dos bastidores para que o colegiado do STF reverta a decisão de Mendes e ele possa tomar posse em definitivo como ministro. Eu não acredito nisso, e arrisco dizer que Gilmar Mendes adiantará a discussão em plenário porque tem certeza de que sua decisão será corroborada pelos colegas de tribunal, por um simples motivo: Lula passou dos limites e ofendeu todos eles. Não haverá misericórdia para o protoditador da Banânia, muito menos quando misericórdia significaria passar por cima das leis e permitir uma fraude que já virou piada internacional.

Enquanto isso, Dilma segue cada dia mais isolada, com olheiras cada vez mais profundas, sem ter mais nenhuma carta na manga. Boatos dizem que ela pensa em renunciar e uma vidente diz que ela tentará se matar. Qualquer que seja sua decisão, não mudará o fato de que seu governo acabou, junto com seu partido e seu mentor. Vão-se os presidentes, ficam os magistrados. Essa é a lição que Lula deveria ter aprendido e que, para nossa sorte, não aprendeu.

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

Conselhos para Dilma

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 31 de dezembro de 2015.

Pensei muito sobre o que escrever na última coluna de 2015. Pensei em ignorar o tema óbvio de fim de ano e introduzir um assunto completamente diverso das retrospectivas e análises tão comuns desta época. Não consegui – parece que a proximidade com o fim de um ciclo traz consigo a necessidade de relembrar o que aconteceu, reforçar o que deu certo e aprender com o que deu errado.

Sendo assim, preparei uma lista de sugestões para a presidente da República, já que os erros dela são os que afetam mais gente ao mesmo tempo.

Para Dilma Rousseff:

dilma-óculosNão confie mais no Lula – eu sei que foi ele que a colocou aí na Presidência, e que sem ele você não seria nada além de uma empresária mal sucedida do 1,99. Mas o fato é que ele não gosta de você de verdade. Se ainda não percebeu, ele passou a jogar contra você. Na verdade, ele nunca jogou a favor – Lula é o tipo de pessoa que só faz as coisas por interesse próprio, um grande egoísta. Faça como os brasileiros de caráter e evite esse tipo de amizade. Não faz bem andar por aí na companhia de gente desse tipo.

Não escolha novos ministros do STF – suas escolhas são muito ruins. Sei que lhe parecem boas, mas você tem de entender que o que é bom para você geralmente é ruim para os brasileiros. Evite escolher novos ministros no futuro. Quando chegar a hora de escolher algum, invente alguma história, diga que está com dor de barriga ou que sua avó morreu. Faça o que for preciso para não cometer esse erro de novo.

Não escolha ministros de governo – quem não sabe escolher para o STF também não sabe escolher para o governo. É hora de se conformar com isso e deixar esse tipo de decisão para pessoas competentes. Tudo bem, sei que vai dizer que não tem ninguém competente em seu governo para tomar essas decisões. Mesmo assim, é melhor não decidir nada do que decidir errado.

Não fale mais em público – você não tem capacidade para discursar, muito menos de improviso. Evite entrevistas, aparições em eventos, palanques, púlpitos, microfones, câmeras de televisão e situações similares. Quando sentir aquela necessidade incontrolável de falar sobre coisas sem sentido como a importância da mandioca e os cachorros ocultos, tampe os dois ouvidos com os dedos e repita, baixinho, “mandioca, cachorro, mandioca, cachorro, mandioca, cachorro” até passar a vontade.

Não se comunique – toda vez que você usa telefone, e-mail, correio, WhatsApp, bilhetinho, Skype ou sinais de fumaça, alguma coisa ruim acontece. Evite se comunicar. Pense na possibilidade de uma temporada monástica no Himalaia, uma experiência única em que você poderia aprender a comunicar-se consigo mesma e a crescer interiormente. Lembre-se de que esse tipo de experiência não costuma funcionar a menos que dure quatro ou cinco anos. É importante ter perseverança nessas horas e não desistir. Na dúvida, rasgue o passaporte.

Não assine mais nada – tudo o que você assinou prejudicou os brasileiros e piorou suas vidas. Evite canetas, lápis, carimbos, teclados, mouses e outros dispositivos que possam transformar o que lhe vem à mente em ações concretas. Se colocarem algo em sua frente para assinar, finja que não viu, derrame café em cima da folha ou faça aviõezinhos e jogue-os pela janela. Só não assine nada.

Não presida mais nada – sua experiência presidindo as coisas só causou transtorno e falência. Você conseguiu afundar uma das maiores economias do mundo e transformar um país como o Brasil em motivo de lamento. Evite ficar em Brasília. Na verdade, evite o Brasil. Evite-o como o alcóolatra deve evitar a bebida, como o viciado deve evitar as drogas. Sugiro China, Japão, Austrália ou Nova Zelândia como locais para passar uma longa temporada. Sei que gosta de Cuba, mas é perto demais.

Tenho certeza de que, se seguir os meus conselhos, o Brasil terá um 2016 muito melhor. Feliz ano novo.

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e Mentiram para mim sobre o desarmamento”.