Gramsci vive

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 15 de dezembro de 2016.

gramsciQuando os militares tomaram o poder, em 1964, a esquerda brasileira lançou mão da estratégia mais inteligente e eficaz possível: ocupar todos os espaços deixados disponíveis e negligenciados pelos generais. Às pessoas com uma visão limitada, focada no curto prazo, a estratégia pareceu nascer fadada ao fracasso, justamente por não ter sido capaz de produzir resultados palpáveis pelos 15 anos seguintes. No Brasil, país onde raramente se vê um governo tomar decisões de longo prazo, a esquerda fez o planejamento mais paciente e cadenciado já visto em nossa história. Seu objetivo: ocupar toda e qualquer posição que tenha a ver com educação, mídia, comunicação e cultura. Sua estratégia: transformar as gerações vindouras em uma massa doutrinada, apta a fornecer tanto políticos como eleitores para a utopia socialista. As décadas que se seguiram testemunharam os resultados concretos da mais bem-sucedida implementação da doutrina de Gramsci já executada no mundo.

Antonio Gramsci foi um filósofo marxista italiano que disse coisas como “Os jornais são aparelhos ideológicos cuja função é transformar uma verdade de classe num senso comum, assimilado pelas demais classes como verdade coletiva – isto é, exerce o papel cultural de propagador de ideologia”. Sua ideia de revolução cultural cativou a esquerda brasileira, que já vinha se mostrando incompetente para pegar em armas e acovardada pela reação militar. Por que arriscar ser preso durante um sequestro ou um atentado quando é bem mais fácil e agradável sentar na frente de uma sala de aula cheia de cabecinhas frescas e enchê-las com as bobagens do marxismo? Por que lutar contra uma máquina militar quando é possível infectar os órgãos de imprensa e educação desde suas menores ramificações, construindo um caminho factível para tomar suas posições de liderança em uma ou duas décadas?

O fim da história nós todos conhecemos. A tartaruga venceu o leão. A sociedade brasileira foi moldada durante meio século para aceitar e repetir toda a pauta ideológica da esquerda. A imprensa brasileira foi perdendo, um a um, seus editores e jornalistas conservadores; as universidades passaram a privilegiar professores e pesquisadores com viés marxista; as escolas se encheram de falsos educadores preocupados apenas em formar a próxima geração de odiadores da elite. Deu no que deu: 21 anos sob governos de esquerda, de FHC a Lula, de Lula à impensável (e impensante) Dilma. E agora, mais uma vez, a esquerda se agarra à sua estratégia vencedora e empurra goela abaixo a obrigatoriedade das disciplinas de Filosofia e Sociologia no ensino médio. Deputados do PT, da Rede e do PSol se movimentaram para incluir essa alteração à proposta original da reforma do ensino médio, e conseguiram o que queriam. Com a bênção da negligência e da concordância tácita de outros partidos, mantiveram intacto um dos pilares da estrutura de influência ideológica que vem sendo usada há mais de 60 anos para gerar massa de manobra marxista.

A prova de que o modelo educacional implementado pela esquerda é extremamente ineficiente e só funciona para gerar mais ignorância é o desempenho dos alunos brasileiros nos testes comparativos internacionais. A preocupação em equipar o aparato educacional com uma vasta gama de disciplinas da área de humanas e relegar as importantes Língua Portuguesa e Matemática a meras coadjuvantes – quando não a figurantes – nos colocou em posições ridículas e inaceitáveis nas classificações mundiais. No Pisa, que avalia justamente os conhecimentos de leitura, matemática e ciências dos alunos, o Brasil ficou em 60.º lugar entre 76 países participantes no ano de 2015, uma posição nada honrosa e certamente indigna de orgulho. Por outro lado, a quantidade de partidos políticos de esquerda em nosso país é inigualável, nossos grêmios estudantis estão repletos de revolucionários mirins e nossas universidades e escolas são frequentemente ocupadas por meninos e meninas que mal sabem escrever um parágrafo coeso de texto em sua língua materna.

Chegamos perto do fim de 2016 com mais um desempenho negativo de nossos parlamentares. Por melhor que tenha sido este ano para o mundo, em termos políticos – nos livramos de Dilma Rousseff, a Grã-Bretanha saiu da União Europeia, Trump foi eleito nos Estados Unidos e Fidel Castro encerrou sua carreira de ditador –, nosso Congresso sempre tem uma carta na manga para impedir os brasileiros de comemorar. É como se tivéssemos um Papai Noel ao contrário. Ho, ho, ho, Brasil.

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e “Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

Ignorância abençoada

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 18 de agosto de 2016.

Estava relendo uns artigos que escrevi tempos atrás e, quando cheguei neste, achei que merecia ser compartilhado com vocês nesta coluna. Era minha opinião quando escrevi, continua sendo hoje.

O final do século 20 nos trouxe uma das mais poderosas ferramentas de disseminação de conhecimento já vistas pelo homem, a internet. Desde o primeiro e-mail que enviei, quando ainda estava na faculdade, até hoje, passaram-se apenas 20 anos, mas a quantidade de avanços tecnológicos na área de telecomunicações foi imensa, permitindo que atualmente qualquer pessoa que possua um celular com plano de dados acesse desde o último vídeo do funkeiro do momento até as obras da maior biblioteca do mundo, a Biblioteca do Congresso, nos Estados Unidos. E é justamente esse amplo acesso à informação, jamais presente na história do homem em épocas anteriores, que se apresenta a nós como um paradoxo: mesmo diante de um oceano quase infinito de livros, dados, reportagens, aulas, poemas, contos, canções etc., todos a alguns toques de dedos de distância, muitas pessoas se aprofundaram na ignorância, num movimento completamente oposto ao que o senso comum nos levaria a esperar.

Existe um ditado popular na língua inglesa que diz “A ignorância é uma bênção”. Esse ditado nunca pareceu tão verdadeiro como hoje. Parece que essa massa de dados e informações atingiu o homem comum como um grande peso sobre seu peito. Talvez uma analogia mais clara seja a de uma pessoa que está morrendo de sede e é jogada em um grande tanque de água, mas sem saber nadar. Assim como a água é o desejo físico do corpo sedento, a informação é o desejo da mente submetida à aridez de ideias. Mas assim como o corpo não treinado para nadar se afoga na abundância da água, também se afoga a mente não treinada na abundância de informações. E ali, circundada por algo que não pode vencer, ou que não acredita que pode vencer, a pessoa se agarra a qualquer coisa que a mantenha flutuando, e constrói sua ilha de ignorância. Afinal, a ignorância só pode ser uma bênção se ela for de alguma forma salvadora.

Mas há mais. Essa ilha não é deserta, de forma alguma. Uma das grandes atrações da ignorância é seu caráter inclusivo: sempre há espaço para mais gente, e lá nunca se está sozinho. Muitas pessoas que conseguem romper barreiras e ascender intelectualmente experimentam em seguida um sentimento de solidão. Acabam descobrindo que aquele ilha era na verdade um continente populoso, e que a viagem agora é através de lugares bem mais ermos. A busca pelo conhecimento acaba se tornando uma busca pela verdade, e a busca pela verdade se dá em caminhos cada vez mais solitários. Cada nova descoberta, cada esclarecimento que penetra a mente e depois a alma, traz consigo um pouco mais dessa solidão mental. E por mais que alguém nessa jornada queira se manter próximo a todos os que sempre estiveram ao seu lado, essa proximidade se torna cada vez mais predominantemente física. E então é chegado o ponto em que todo viajante intelectual já enfrentou ou irá enfrentar, quando aquela pergunta vem à mente: essa busca vale a pena? É realmente melhor buscar o conhecimento e a verdade, e fazer parte de um grupo cada vez menor? Não seria melhor simplesmente aceitar a bênção universal da ignorância e viver feliz com as coisas mais simples da vida?

Tenho uma notícia boa e uma ruim para você que já fez essas perguntas. Vamos primeiro à ruim: não há como voltar atrás. É como o cego que passa a enxergar e não consegue mais viver de olhos fechados. Mas não há porque se desesperar. A notícia boa é que você foi feito para isso. Nossa diferença para os outros animais é a capacidade de questionarmos nossa própria existência, e com isso mudarmos tudo ao nosso redor. Criamos coisas belíssimas em nossa breve história, tesouros radiantes que conseguem refletir o toque de divindade que nos foi dado em nossa criação. A humanidade tem muito de que se envergonhar, não há dúvida, mas há tanto mais para se orgulhar, na arte, na ciência, na filosofia. E o que foi produzido de melhor por aqueles que hoje chamamos de gênios, só o foi por uma simples razão: eles se dispuseram a abandonar o conforto da ignorância e se aventuraram pelo desafio solitário de conhecer, de superar, de exceder, de fazer jus à condição de ser humano.

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

Os jogos da individualidade

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 4 de agosto de 2016.

Nesta sexta-feira (5) começam os Jogos Olímpicos, a celebração mundial do esporte e da competitividade do ser humano. Quem sintonizar o televisor na transmissão do evento certamente não verá cachorros apostando corrida ou cangurus competindo para ver quem pula mais alto; competir pelo simples prazer de competir é algo humano, assim como o é superar os próprios limites pelo simples prazer de superá-los.

Ser um esportista profissional, ou melhor ainda, ser um atleta olímpico, não é “bolinho”, como diz um amigo meu de Piracicaba. Certo tempo atrás eu li uma entrevista com Oscar Schmidt, o maior nome na história do basquete brasileiro, e nela o jogador dizia que sua vida era marcada por uma característica constante: a dor. Outros atletas de alto nível já deram testemunho do mesmo. É o preço cobrado por anos de submissão do corpo a treinos pesadíssimos e extremamente exigentes; é o preço do sucesso e da vitória, que não admitem empréstimos ou transferências de dívida.

Em tempos onde as pessoas se consideram “no direito” de tantas coisas – tempos onde professores defendem que não se corrija os alunos em sala de aula para não constrangê-los, onde um criminoso é tratado com leniência porque nasceu em uma favela, ou onde a cor ou a orientação sexual de uma pessoa aumentam suas chances oficiais de frequentar uma faculdade ou de exercer um cargo público –, tempos sombrios para o sucesso individual, as Olimpíadas são um lembrete quadrienal de que uma pessoa pode tomar as rédeas de sua vida e perseguir a vitória apesar de todas as dificuldades ao seu redor.

A beleza do esporte não está na esperança de confraternização entre os povos; esta é apenas uma mensagem externa à realidade dos atletas, que chegaram ao Rio de Janeiro para competir e vencer. E, para isso, cada um deles conta apenas consigo mesmo ou, no máximo, com os companheiros de equipe. No esporte, pelo menos até o momento, não há cotas, não há direito de ser feliz, não há mãozinha na cabeça. As regras são as mesmas e valem para todos: você tem o direito a participar, é proibido de usar substâncias que lhe deem uma vantagem injusta sobre seus competidores e, caso seja melhor que todos os outros, receberá o reconhecimento público e mundial por isso. É o individualismo em todo o seu esplendor e glória.

O povo brasileiro, atualmente tão acostumado a ser “cuidado” pelo Estado, vivendo sob uma Constituição que garante direitos absurdos e impraticáveis, pode fazer bom proveito do próximo mês e usar o exemplo olímpico para mudar seu modo de pensar. Muitos atletas que receberão medalhas nestes jogos são de origem humilde ou de países pobres; um outro tanto vêm de famílias desestruturadas, e alguns certamente sofreram bullying em seu tempo de escola. São, por assim dizer, representantes perfeitos de muitas das “minorias” que hoje demandam direitos e privilégios. No entanto, graças somente à força que um indivíduo possui dentro de si, e não a políticas coletivistas, nada disso os impedirá de chegar ao topo em suas modalidades.

Que estes não sejam os jogos da diversidade; que sejam os jogos da individualidade. Que o vitimismo pereça sob o metal das medalhas, entregues aos verdadeiros vencedores, aqueles que não vencem apenas seus competidores, mas a si mesmos. E que, em vez do vírus zika, esse espírito de superação seja o verdadeiro contágio na Rio 2016.

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

Aqui de boas, parasitando

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 30 de junho de 2016.

“Programa bem-sucedido do Ministério da Ciência e Tecnologia coloca o Brasil finalmente na lista de ganhadores do Prêmio Nobel”

“Vinte anos depois de reformular a matriz educacional, governo colhe os louros: a educação brasileira está entre as dez melhores do mundo”

“Minha Casa, Minha Vida recebe menções internacionais por ter praticamente zerado o déficit habitacional do Brasil”

“Globo admite perda de liderança de audiência para a TV Brasil”

“Ministro da Saúde recebe prêmio internacional em reconhecimento à excelência do sistema público brasileiro, o melhor entre as 20 maiores economias do mundo”

“Gastos do governo para preparar os Jogos Olímpicos do Rio são os menores das últimas 12 edições dos jogos. Japão pede nossa ajuda para repetir o sucesso em 2020”

“Lei Rouanet completa 25 anos de sucesso: o cinema brasileiro recebe seu quarto Oscar e Steven Spielberg lidera movimento nos EUA pedindo a adoção de uma legislação semelhante para Hollywood”

O que as sete manchetes acima têm em comum? Resposta fácil: são todas fictícias. Mas por que o governo não consegue ter sucesso em suas políticas e intervenções nos mais diversos campos de atuação? Resposta mais fácil ainda (e em destaque, para que você nunca mais se esqueça disso):

O Estado não sabe fazer quase nada direito.

As investigações mostrando os desvios de dinheiro proveniente da Lei Rouanet são mais uma prova de que todo o dinheiro que o Estado tira de nosso bolso é mal empregado – é gasto sem cuidado, sem responsabilidade e para benefício dos “amigos do rei”.

Em 1991, quando foi sancionada por Fernando Collor de Mello, a Lei 8.313 – Lei Federal de Incentivo à Cultura – foi recebida como se fosse um ato de genialidade. Que ideia fantástica! Já que vamos pagar imposto de qualquer jeito, pelo menos uma parte dele vai, de forma garantida, ajudar a cultura brasileira. Não tem como dar errado! Pois bem, só esqueceram que o dinheiro todo vai para as mãos do Estado, e é o Estado que decide quais serão os projetos culturais beneficiados pela lei. Esta premissa já é ruim por si só – a ideia de ter alguém do governo decidindo que “essa cultura é mais merecedora de financiamento do que aquela” é repugnante para mim –, mas, quando nas mãos de um governo fortemente ideológico como o do PT, ela resultou em um grande desastre.

A investigação da Polícia Federal em curso tem como foco os desvios de recursos, seu uso fora da finalidade e da regulamentação da lei. É o caso do casamento suntuoso de Felipe Amorim e Caroline Monteiro, bancado com dinheiro da Lei Rouanet e celebrado na elitizada praia de Jurerê Internacional, com direito a show sertanejo particular, hotel cinco estrelas e boca livre gourmet. Mas existe um aspecto que a PF não investigará, e que é mais pernicioso que um casalzinho de corruptos se esbaldando com dinheiro alheio: durante os governos petistas, a Lei Rouanet foi usada como instrumento para beneficiar artistas de orientação ideológica alinhada à do partido, no intuito de difundi-la em massa através do aparato cultural. Esse é um crime que deixará consequências por gerações, e seus responsáveis provavelmente não serão julgados e nem punidos. Terão um destino muito melhor que o de Goebbels.

Por fim, antes que eu exceda o espaço desta coluna, convém explicar o “quase” da minha frase destacada ali de cima. Ele se refere justamente àquela prática que tanto nos prejudica e que drena grande parte da riqueza produzida para o ralo do governo: o Estado sabe, como ninguém, promover sua ideologia e enriquecer sua rede de privilegiados com dinheiro alheio. Em outras palavras, o Estado é perito em parasitar o povo. É uma solitária gigantesca no intestino do país. E o vermífugo somos nós.

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

Inveja à esquerda

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 23 de junho de 2016.

A vida de um ser humano mentalmente capaz é definida por suas escolhas. Duas pessoas, diante das mesmas circunstâncias, podem optar por agir de forma distinta, obtendo resultados distintos. Mesmo em situações nas quais aparentemente não há escolha – como em um acidente, uma doença grave ou uma morte na família –, cada um é responsável por reagir de acordo com suas escolhas, e esta reação resultará em um futuro específico e único.

Se tivéssemos apenas de decidir coisas banais como a roupa que vestiremos de manhã, o que comeremos no almoço, para quem ligaremos, se levantaremos ou não para beber água, ou que caminho usaremos para chegar ao trabalho, já teríamos mais de dez decisões por dia a serem tomadas. Mas elas são muito mais numerosas, e abrangem todos os aspectos de nossas vidas: como reagiremos a um insulto, como falaremos com nosso superior no trabalho, que faculdade faremos, qual bairro escolheremos para viver, quantos filhos teremos, se seremos honestos ou não nas mais diversas situações, se agiremos com amor ou com ressentimento, se correremos para passar no amarelo ou se frearemos para esperar o próximo verde, e assim por diante. Acho que não cometerei um exagero se disser que tomamos pelo menos 50 decisões em um dia típico.

Considerando somente os primeiros 60 anos de vida de uma pessoa, a quantidade de decisões tomadas ultrapassa 1 milhão. E aonde quero chegar com isso? Ora, se uma pessoa é definida por suas decisões, para que duas pessoas tivessem a mesma vida elas precisariam ter tomado mais de 1 milhão de decisões iguais, em circunstâncias iguais. As chances de algo assim acontecer são tão remotas que seria mais provável alguém ganhar toda semana na Mega-Sena do que duas pessoas tomarem exatamente as mesmas decisões durante os primeiros 30 anos de vida. E aqui quero fazer uma pergunta pertinente e central a este texto: por que as pessoas insistem em comparar suas vidas às de outras pessoas, tentando medir o próprio sucesso e a própria felicidade com a régua da vida alheia?

Esta questão não é apenas uma retórica de autoajuda ou um mantra hippie do tipo “seja feliz com sua vida”, mas está no cerne mesmo de toda a ideologia de esquerda. Afinal, o que é a busca da igualdade total senão a negação completa do aspecto consequencial da vida? O que é o Estado moderno de esquerda senão um gigante opressor cujo único propósito é esmagar a tomada individual de decisões debaixo de um esquema coletivista e autoritário?

Ludwig von Mises, em seu excelente A Mentalidade Anticapitalista, expõe com clareza o principal motivo pelo qual muitas pessoas odeiam o capitalismo e, por conseguinte, abraçam o socialismo e outras porcarias semelhantes: por causa de inveja e despeito. Aquele que não se deu tão bem, que não foi promovido ou que não enriqueceu por falta de mérito olha para o outro, que conseguiu essas coisas, e resolve tirar a responsabilidade de si mesmo e jogá-la sobre o sistema econômico vigente. A conectividade social dos dias de hoje só fez multiplicar esse fenômeno – se antes o sujeito olhava pela janela e sabia apenas o que se passava com os vizinhos próximos, hoje basta que pegue seu smartphone para espiar as “vidas maravilhosas” de milhares de amigos nas redes sociais. Ficou muito mais fácil ter inveja do próximo, ainda mais quando este exibe apenas o que lhe acontece de bom, muitas vezes com uma maquiagem pesada.

Enfim, dizem que um texto só é virtuoso quando causa uma boa reflexão. Se este texto fizer você, leitor ou leitora, refletir sobre a falta de lógica e o desperdício de energia que é tentar viver a vida de outra pessoa, ele terá cumprido seu propósito. Isso não significa se acomodar ou se resignar com tudo o que lhe acontece, mas tentar criar sua satisfação e felicidade a partir de suas próprias escolhas e reações. É tentar viver a sua melhor vida. Se isso acontecer, se cada um tentar viver o seu melhor, não sobrará espaço para o coletivismo ou para o igualitarismo; e quando essas coisas desaparecerem, a ideologia de esquerda desaparecerá junto. Utopia? Talvez. Mas pelo menos é uma que vale a pena perseguir.

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

Coragem?

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 9 de junho de 2016.

Outro dia estava jantando com nossos vizinhos, e surgiu o assunto das reclamações mal-educadas vindas de clientes. Minha vizinha, que é uma mulher sensível, disse que fica muito mal quando recebe reclamações ou e-mails ríspidos. Naquele mesmo dia eu havia recebido uma mensagem em meu contato desta coluna, e resolvi mostrar a ela, até mesmo para animá-la em relação às suas clientes. Ela chegou a corar de vergonha, de tantos palavrões e xingamentos que me foram enviados, e ao fim me disse: “Não sei como você consegue ler isso e não ficar arrasado. É por coisas assim que não tenho coragem de escrever o que penso”.

Esta frase de minha vizinha já me tinha sido dita por diversas outras pessoas, em mensagens de agradecimento e congratulações que costumo receber dos leitores desta coluna e de meus livros. E sempre foi uma coisa que me intrigou, pois nunca considerei um ato de coragem escrever algo, a não ser que seja alguém escrevendo contra os Castro em plena Cuba. Quando penso em coragem, a primeira coisa que me vem à mente são imagens dos soldados aliados na Normandia.

Enfim, pensei que o assunto daria um bom tema para esta coluna. E aqui estou, escrevendo exatamente o que penso num espaço nobre da mídia nacional (graças à Gazeta, que me dá total liberdade para isso). E eu penso o seguinte: a militância de esquerda dominou por completo o aparato educacional e midiático brasileiro nas últimas cinco décadas em parte por falta de gente inteligente e intelectualmente preparada que não tenha medo de dizer e escrever o que pensa. Infelizmente, os idiotas não costumam ter esse tipo de medo; eles são capazes de transmitir suas idiotices em cadeia nacional, se houver oportunidade, sem nenhuma vergonha ou receio de que suas palavras sejam mal interpretadas, criticadas ou combatidas. Já aqueles que ponderam suas afirmações, que pensam em como serão interpretados, que dão importância ao embasamento de seus discursos, estes muitas vezes preferem se calar a enfrentar possíveis críticas – tanto as genuínas e fundamentadas como as hidrófobas e irracionais – e com isso privam a sociedade de sua contribuição importante para o debate de ideias.

Mas o que há de tão temeroso em expor a própria opinião? Seria a reprovação dos que pensam de maneira diametralmente oposta? Ora, isso seria algo deveras irracional, já que pessoas com opiniões tão divergentes geralmente não fazem parte do grupo de pessoas que elegemos como as que mais nos importam na vida (em meu caso, minha esposa e meus melhores amigos). Bom, talvez seja a reprovação de nossos familiares; afinal, não escolhemos nossa família, e no meio dela pode haver muita gente que pensa bem diferente de nós. Mas isso também não seria um bom motivo, pois a família é justamente o grupo social onde o exercício da tolerância deveria prevalecer sobre o exercício da crítica. Resta o medo de ser criticado pelos pares, pelos que pensam da mesma forma, mas neste caso a crítica será provavelmente pontual, já que se compartilha um núcleo de valores, e pode ser benéfica ao indivíduo no fim das contas.

Não sendo possível explicar o medo de se expressar por motivos racionais, restam os motivos emocionais, que eu pessoalmente considero os únicos responsáveis pelo comportamento em questão. O fato é que a maioria das pessoas dá muito valor e importância ao que os outros pensam a seu respeito. Jamais me esquecerei de uma das primeiras aulas que ouvi do professor Olavo de Carvalho, na qual ele dizia que a única opinião que realmente nos importa neste plano terreno é o de nosso cônjuge. Afinal, é com ele ou ela que passaremos o restante de nossas vidas e, se faltar o respeito e a admiração no casamento, ele caminhará para o fracasso ou para a frustração. Filhos não precisam nos admirar, pais não precisam nos admirar, amigos não precisam nos admirar. Não estou dizendo que ser admirado é ruim – na verdade é bem gostoso –, mas a necessidade de ser admirado em si é algo ruim. Aquele que consegue se livrar do peso de ser aprovado pelos outros recebe em troca uma liberdade ímpar na vida, a liberdade de ser o que bem quiser e se expressar como bem entender. Vale a pena experimentar.

Quanto aos julgamentos, o único que realmente importa é o divino, e Deus não depende de ler suas palavras para conhecer seu pensamento.

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

Uma andorinha só

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 8 de outubro de 2015.

Há um ditado popular que diz: “uma andorinha só não faz verão”. É o ditado popular que eu mais odeio. Uma andorinha sozinha pode não fazer verão, mas um homem sozinho faz muita coisa e influencia muita gente, e esta mensagem é o oposto da ideia por trás do tal ditado.

O mundo dos séculandorinhaos 20 e 21 é o mundo das massas. Ortega y Gasset descreveu essa realidade com maestria em sua magnífica obra A Rebelião das Massas. Vivemos ameaçados pela ousadia cada vez maior de bandos cada vez menos capazes, que acabam conduzindo o curso da história da mesma forma que uma mula conduz uma carroça. São as massas que votam e decidem quem as governará – ou pelo menos é o que elas acham. Mas é o aparato do Estado, tão grande e com tentáculos espalhados por toda a trama do tecido social, que as manipula como quer, conduzindo sua “mula” com o chicote dos impostos, a cenoura do assistencialismo e as esporas da força armada.

É por isso que eu desprezo o ditado da andorinha. Se há algo que o Brasil não precisa é de pessoas que queiram andar, agir e pensar em bandos. A mentalidade coletivista já ultrapassou qualquer limite tolerável em nosso país, e o individualismo tem definhado cada vez mais sob os governos de esquerda que ocupam o Planalto há mais de 20 anos. Aliás, a própria palavra “individualismo” soa quase como um palavrão aos ouvidos dos brasileiros; é interpretada como um sinônimo de egoísmo, de vileza, de falta de caráter. Uma pena, pois somente através do individualismo é que evoluiu a civilização humana. A história das conquistas e avanços da humanidade é escrita por indivíduos notáveis, que através da mentalidade e ação individualista revolucionaram seus campos de atuação, suas comunidades, suas pátrias e suas gerações. Seus feitos ressoam na história e inspiram outros a agir da mesma maneira.

É importante notar que o individualismo, de forma alguma, significa o desprezo pelo coletivo, pela sociedade ou pelos menos favorecidos. Ser individualista significa buscar as melhores situações para si mesmo, partindo sempre do pressuposto de que todas as interações entre indivíduos devem ser voluntárias e consensuais. Justamente o oposto do coletivismo, que tenta atribuir às massas uma entidade mágica e folclórica, o pensamento coletivo. Como pode o coletivo pensar se os cérebros são individuais? Ora, não pode; quem pensa por ele é o Estado, que por sua vez é comandado por alguns poucos indivíduos com grande poder, os quais impõem interações não voluntárias e não consensuais a todos os “cidadãos livres”. E o Estado brasileiro gosta de pensar nos mínimos detalhes de nossas vidas: quer regular como criamos nossos filhos, o que podemos comer, o que podemos beber, o que devemos falar, como devemos pensar, com quem devemos nos relacionar, como devemos nos divertir e de que forma podemos gastar nosso dinheiro. É um Estado intrometido, castrador, pernicioso, voraz e impiedoso. Ele quer regular tudo, confiscar o máximo possível e devolver migalhas. É nosso pior pesadelo, um peso morto nos ombros de uma sociedade exausta.

Como se quebra essa hegemonia do Estado? Como se diminui esse gigante que ocupa cada vez mais espaço em nossas vidas, que nos tira a liberdade e nos faz democraticamente cativos? Só existe uma maneira: resgatando-se cada vez mais indivíduos de dentro das massas. A tirania se alimenta do coletivismo; devemos matá-la por inanição.

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e Mentiram para mim sobre o desarmamento”.