O protesto que desapareceu

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 23 de fevereiro de 2017.

14149566

Lembro-me muito bem da época em que Dilma ainda era presidente. Bastava que meia dúzia de manifestantes aparecessem em frente ao Masp, em São Paulo, munidos de faixas vermelhas e sanduíches de mortadela, para que a imprensa noticiasse o protesto. Tudo bem, posso ter exagerado ao dizer “meia dúzia”, mas cheguei a ver chamadas de primeira página nos grandes portais paulistas mostrando manifestações com menos de 100 pessoas.

Pois bem, no último domingo o povo foi às ruas em diversas cidades do país para pedir o fim do Estatuto do Desarmamento. As fotos do evento de São Paulo mostram milhares de pessoas, mas nem uma linha sequer foi publicada a respeito. Silêncio total da imprensa.

É muito difícil entender o tipo de raciocínio que impera na maioria das redações brasileiras quando o assunto é desarmamento. Quase todos os repórteres e colunistas dos grandes jornais e portais de nosso país defendem o desarmamento e as leis que o implantaram no Brasil como se fossem a melhor coisa que já nos aconteceu. No entanto, publicam quase que diariamente notícias que evidenciam a falência total dessas mesmas leis, numa espécie de esquizofrenia jornalística. A cada nova notícia sobre o assunto, a coisa toma mais ares de insanidade mental.

Nessa linha de “raciocínio”, os mesmos portais jornalísticos que ignoraram os protestos contrários ao Estatuto do Desarmamento noticiaram um ataque criminoso na última terça-feira, dia 21. Bandidos armados com fuzis de categoria militar, calibre .50, atacaram dois carros-fortes na Rodovia dos Bandeirantes. Houve tiroteio entre os criminosos e os seguranças, e aqueles ainda conseguiram roubar duas viaturas policiais e fugir para São Paulo. Já na capital, os bandidos foram encurralados em um posto de gasolina em plena Marginal Tietê, tomaram frentistas como reféns e acabaram presos no final. Esse tipo de notícia – de criminosos armados com equipamentos de nível militar e venda proibida no país – é a prova cabal de que as leis de desarmamento em vigência no Brasil não funcionam. Os repórteres que publicam essas narrativas são os mesmos que fazem matérias contra as iniciativas recentes de revogar o Estatuto do Desarmamento, e que tentam a todo custo convencer o seu público de que armas são coisas do demônio, que só fazem piorar os já rampantes índices de criminalidade no Brasil.

Tentarei resumir o encadeamento de ideias desses jornalistas que têm pavor de armas nas mãos de cidadãos respeitadores da lei:

1. Armas matam e por isso devem ser proibidas – quanto mais armas, mais violência;

2. Os cidadãos obedientes à lei não podem ter armas, porque não sabem usá-las e porque alimentam o mercado de armas para os criminosos;

3. Os criminosos, se não puderem roubar as armas dos cidadãos, também ficarão sem armas;

4. Uma vez eliminadas as armas da sociedade brasileira, ninguém mais matará ninguém.

Por mais incoerente e ilógico que seja um raciocínio desses, é assim que pensam os defensores do desarmamento. É claro que estão errados, pois, se desarmar o povo funcionasse, o Brasil seria hoje um país livre de crimes violentos. O mais incrível é que nem os questionamentos mais básicos são feitos para colocar o atual modelo de desarmamento em uso no Brasil sob crítica. Basta uma única pergunta para desmontar toda essa falácia: se o Estatuto do Desarmamento já está em vigor há mais de dez anos, e a quantidade de armas nas mãos dos cidadãos diminuiu drasticamente no período, como é que os criminosos conseguem armas em maior quantidade e de calibres mais destrutivos do que antes? Fica óbvio que o principal meio de obtenção de armas pelos criminosos nunca foi roubá-las de cidadãos, e sim trazê-las por contrabando ou comprá-las de policiais e militares corruptos. E é óbvio ululante que o Estatuto não tornou o Brasil um país mais seguro – muito pelo contrário.

Ao decidir ocultar notícias como a da manifestação do último domingo, grande parte da imprensa brasileira continua… (para ler o restante deste artigo, clique aqui)

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e “Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

A força da Segunda Emenda

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 22 de setembro de 2016.

Volta e meia tenho de revisitar o assunto do desarmamento, pois a mídia e as organizações de esquerda insistem em atacar o direito à legítima defesa armada dos cidadãos. Dentre as falácias mais utilizadas por aqueles que defendem o desarmamento estão as menções ao caso australiano – sempre citando o país como exemplo mundial de uma política desarmamentista eficiente – e ao crescente apoio popular dos cidadãos americanos às políticas de restrição de posse e porte de armas. É claro que tudo não passa de mentiras.

Falemos um pouco do caso australiano. Barack Obama e Hillary Clinton são dois entusiastas do modelo de desarmamento utilizado pelo governo da Austrália, em vigor há quase 20 anos. Dizem eles e outros defensores do desarmamento que a terra dos cangurus e coalas experimentou uma diminuição excepcional nos casos de mortes por armas de fogo depois que as novas leis foram aprovadas, e que isso é evidência suficiente para que se busque a aprovação de leis semelhantes nos Estados Unidos e em outros países do mundo. O que eles não mencionam é que, apesar das quase 700 mil armas retiradas das mãos de cidadãos obedientes à lei, o número de crimes com armas de fogo na região de Melbourne dobrou nos últimos cinco anos. Também deixam passar o fato de que o número de pessoas pegas com armas ilegais em mãos quintuplicou no mesmo período, evidência de que a regra máxima dos criminosos continua em vigor: quem não respeita a lei não está nem aí para proibições de compra ou porte de armas. Criminosos não entram em lojas para comprar armas, e é justamente por isso que as leis de controle e banimento de armas só prejudicam os cidadãos de bem.

E o que dizer sobre o apoio popular dos americanos às leis de desarmamento? Uma passada de olhos nos principais canais televisivos e portais de notícias deixa evidente que grande parte da mídia americana assume uma posição claramente contrária à Segunda Emenda da Constituição americana, aquela que declara que “sendo necessária à segurança de um Estado livre a existência de uma milícia bem organizada, o direito do povo de possuir e usar armas não poderá ser infringido”. Pois bem, apesar de todos os ataques de políticos democratas à referida emenda, o povo americano continua a apoiar o armamento como direito básico do cidadão livre. Uma pesquisa da Pew Research divulgada em agosto deste ano mostra que a maioria dos americanos quer proteção ao direito de possuir armas, e apenas um terço dos participantes acredita que “possuir uma arma piora a segurança de uma pessoa”. A pesquisa também mostra que o apoio ao banimento das armas de assalto – um termo controverso e geralmente mal compreendido pelo público leigo – caiu de 57% para 52% no último ano, mostrando que a campanha obamista (que inclui até chorar de mentirinha) para banir fuzis e outras armas “de assalto” não tem surtido o efeito esperado, principalmente num momento em que os governos em todo o mundo fracassam em proteger seus cidadãos de terroristas e criminosos.

No front legal, as vitórias da Segunda Emenda continuam a superar suas derrotas com folga. Recentemente, o Senado do Missouri aprovou a lei SB 656, que torna aquele o 11.º estado americano a permitir o porte oculto de arma sem necessidade de licença especial – somente neste ano outros três estados já haviam aprovado leis semelhantes: Idaho, Mississippi e West Virginia. O governador democrata, Jay Nixon, vetou a lei, mas seu veto foi derrubado pela câmara legislativa. No ano de 2016 já foram aprovadas 44 leis favoráveis ao armamento e apenas 13 contrárias (sendo que nove delas foram aprovadas na Califórnia, o estado mais desarmamentista da federação). Isso significa que os legisladores estaduais, aqueles mais próximos dos eleitores e mais suscetíveis à pressão do voto popular, estão propondo e aprovando leis que protegem o direito do cidadão de ter e portar sua arma.

Quanto ao Brasil, não existe hoje uma pesquisa com a abrangência e qualidade da Pew Research sobre o tema. Mas existem muitas evidências de que a maioria da população brasileira quer a revogação do Estatuto do Desarmamento e o retorno de seu direito básico de legítima defesa armada: enquetes feitas pelo Senado Federal, pesquisas eletrônicas em grandes portais e outros tipos de consultas de opinião têm mostrado um grande apoio do povo brasileiro a qualquer iniciativa que facilite a compra e posse de armas por cidadãos de bem. O povo, ao contrário dos pseudointelectuais, políticos, jornalistas e artistas de meia tigela que defendem o desarmamento, sabe que a polícia nunca está em todos os lugares, e que é imoral tirar de um cidadão a possibilidade de defender sua família contra criminosos. Quem não tem carro blindado e seguranças particulares que atire a primeira pedra.

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

Desarma mais que está pouco

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 7 de julho de 2016.

Uma busca rápida no Google com as palavras “idoso”, “posse” e “arma” retorna inúmeros resultados, muitos com notícias de idosos de 70, 80 e até 90 anos de idade que foram presos porque tinham uma espingarda ou um revólver em casa. Alguns desses criminosos perigosíssimos foram mantidos presos porque não tiveram recursos para pagar fiança e aguardar seu julgamento em liberdade. Ainda bem que temos uma legislação fantástica, que remove efetivamente essas ameaças à ordem pública de circulação. Não sei o que seria do Brasil se todos esses vovôs continuassem com suas armas em casa. Imagino que poderíamos chegar a níveis absurdos de assassinatos, algo como 60 mil mortes por ano, para chutar um número.

Mas chega de piada. No início desta semana, em Ribeirão Preto, um assalto hollywoodiano aterrorizou a população da Califórnia brasileira. Homens fortemente armados – chegaram a utilizar fuzis de calibre .50, aqueles que você saca do porta-malas quando precisa parar um blindado de guerra – explodiram uma empresa de segurança de valores e roubaram dezenas de milhões de reais de lá. Vídeos gravados pela população que mora perto do ocorrido mostram civis e policiais amedrontados e perdidos, sem saber o que fazer com tamanho poder de fogo. Ninguém foi preso até agora.

Os fatos que se descortinam diante de nós, brasileiros, mostram que os defensores do desarmamento erraram, definitivamente. Quando pregam que a população não deve poder ter e muito menos portar armas, sua argumentação se baseia inteiramente na premissa de que a polícia e as Forças Armadas devem ser os únicos grupos armados em um país. Não tenho a intenção de abordar o aspecto tirânico dessa proposta neste artigo de hoje, mas basta dizer que, se todas as armas estiverem sob o poder do Estado, ele não precisará temer o seu povo desarmado. Gostaria, no entanto, de destacar um outro aspecto, que é o da qualidade, poder de fogo e quantidade de armas à disposição da polícia em comparação aos criminosos.

O caso de Ribeirão Preto é apenas o mais recente de uma série incontável de embates entre policiais munidos de pistolas e revólveres contra criminosos armados com fuzis de alto calibre – fuzis semiautomáticos e automáticos que têm o comércio proibido pelo Estatuto do Desarmamento – utilizando quantidades de munição indisponíveis até mesmo nos melhores quartéis do Exército Brasileiro. É também mais uma prova clara e cabal de que o Estatuto do Desarmamento nunca funcionou e nunca funcionará. É uma lei que tira as armas apenas das pessoas de bem – aquelas que se dispõem a cumprir leis, por mais cretinas que sejam – e não adiciona nenhuma dificuldade à obtenção de armas por criminosos. Aliás, por ter quase extinto as lojas de armas do Brasil, a Lei 10.826/2003 foi na verdade um estímulo ao contrabando e ao comércio ilegal de armas que, sem o combate efetivo por parte do aparato policial do Estado, cresceu a ponto de fornecer peças de uso supostamente exclusivo das Forças Armadas a qualquer traficante pé-de-chinelo.

A população, como sempre, é quem sofre as piores consequências das políticas desastrosas e ilógicas do Estado. Um dos vídeos exibidos nos portais de notícias mostra uma família que se desespera ao perceber que os tiros estão ficando cada vez mais altos, ou seja, que estão cada vez mais perto de sua casa. A essas pessoas, e a quase todos os brasileiros, foi negado todo e qualquer direito à defesa própria. Elas não podem contar com a polícia e nem com suas próprias armas. Estão à mercê de criminosos que sabem muito bem que a probabilidade de encontrar resistência armada é irrisória.

Para completar a semana, diversos militares receberam nos últimos dias uma comunicação das Forças Armadas recomendando medidas de segurança aos que pretendem viajar ao Rio de Janeiro. As medidas incluem esconder a identidade militar, retirar fotos que identifiquem a pessoa como militar das redes sociais, retirar adesivos de carros que façam referência a alguma academia ou organização militar e evitar andar em certas áreas da cidade – áreas que foram designadas por traficantes como de tolerância zero a qualquer agente policial ou militar. É o Estado de joelhos diante do crime.

Com tudo isso em mente, deixo uma pergunta: você vai confiar sua vida a esse pessoal, ou vai lutar para ter de volta seu direito de se armar?

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

É hora de falar de armas

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 16 de junho de 2016.

Muitos brasileiros têm pavor de armas, como se fossem uma coisa intrinsecamente má. Infelizmente, nos últimos 25 anos o Estado e a mídia conseguiram colar nas armas a culpa pela violência, quando na verdade foi o banimento delas que deixou os brasileiros indefesos e à mercê de criminosos que atacam com a certeza de que não haverá resistência da vítima. Quando eu tinha meus 10 anos, lembro muito bem que meu tio andava armado, e meu pai sempre falava em comprar a dele. Lembro de ter entrado numa loja com ele e ver as armas expostas, que podiam ser compradas por cidadãos obedientes à lei. Isso soa hoje como fantasia no Brasil, depois que o governo conseguiu desarmar grande parte da população – mas não tirou nem uma pistola sequer das mãos dos criminosos.

Quando acontecem tragédias como a de Orlando – a menos de 25 quilômetros de minha casa –, a loucura sobe a níveis absurdos, e as redes de televisão começam a despejar uma quantidade tão grande de mentiras a ponto de o cidadão comum não saber mais em que acreditar. Mas, quando escrevo aqui, o faço como alguém que estudou o assunto a fundo, baseado em centenas de tabelas estatísticas – contendo dados dos últimos 400 anos, de países diferentes – e em estudos sérios feitos por professores de grandes universidades. Eu entendo que essa é a maneira correta de alguém se informar sobre um assunto, e não lendo três reportagens tendenciosas num jornal qualquer ou assistindo a alguns ignorantes no assunto discutirem em certos canais exclusivos de notícias.

A mídia engana demais. Como exemplo, posso citar os casos de tiroteios em escolas americanas, que são tratados como a coisa mais mortífera do mundo. Se você pegar qualquer ano como exemplo, de 1995 até hoje, o número de estudantes mortos em ataques como esses é menor que o número de estudantes mortos por esforço excessivo nas práticas de educação física. Mas ninguém verá uma reportagem sobre isso, porque o que interessa é pintar as armas como vilãs supremas. Em casa é a mesma coisa: quando uma criança morre por um disparo acidental da arma de seus pais, vira notícia no mundo inteiro; mas não há nem uma menção sequer às mortes por ingestão de produtos de limpeza, que acontecem 90 vezes mais que as mortes com armas. O que pensar sobre isso?

Para mim é bastante óbvio. Se existisse um interesse real do governo e da mídia de evitar mortes infantis, por exemplo, eles deveriam se preocupar muito mais em instruir os pais sobre como guardar seus produtos de limpeza do que tentar tirar o instrumento de defesa de suas mãos. Deveriam alardear os riscos de se andar de bicicleta, atividade que mata mais jovens que todos os atiradores dementes juntos. Mais que isso, deveriam mostrar os inúmeros casos documentados de pessoas que estão vivas hoje porque alguém próximo (ou elas mesmas) tinha uma arma numa situação de confronto com um criminoso.

Perceba a diferença: muitas pessoas morrem de bicicleta, mas não se tem notícia de que uma bicicleta tenha salvo uma vida, e ninguém sai por aí pedindo o banimento das bicicletas. Muitas pessoas morrem pelo uso de armas, mas muitas mais vivem por causa delas – as armas que matam são apenas as que estão nas mãos de criminosos – e todo mundo sai pedindo seu banimento generalizado. Um estudo recente da Universidade de Chicago sobre o uso defensivo de armas mostrou que em 99% dos confrontos com criminosos a pessoa só precisa sacar a arma para assustar o bandido e impedir o crime, e que menos de 0,1% dos crimes com armas de fogo foram cometidos por cidadãos que possuem uma arma legalizada.

A quem tem um preconceito infundado sobre as armas de fogo, convido a conhecer mais sobre o assunto. Ainda que você nunca compre uma para si, é importante saber que o direito de tê-las deve ser garantido a todos os cidadãos de bem, e que você estará mais seguro se houver alguém de bem armado por perto. Lembre-se de que a polícia chega sempre depois do crime. Bastaria uma pessoa armada dentro daquele clube em Orlando para evitar que o terrorista ceifasse tantas vidas. Há dezenas de relatos de situações semelhantes, em que um civil armado evitou diversas mortes ao abater um atirador; infelizmente eles são deixados no limbo pelos jornalistas militantes do desarmamentismo. E as zonas onde não se permite o porte oculto de armas curtas continuam sendo os alvos preferidos dos maníacos, terroristas e malucos em geral. Afinal, qual é a dificuldade de se infringir uma pequena proibição para quem já planeja o pior dos crimes?

Cidadãos de bem do Brasil e do mundo – brancos, negros, héteros, gays, homens, mulheres, jovens, idosos –, armai-vos!

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

Liberdade ou bala

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 17 de dezembro de 2015.

constitution_gun“Uma milícia bem regulada, sendo necessária à segurança de um Estado livre, o direito das pessoas de possuir e carregar armas não deve ser infringido”, diz a Segunda Emenda à Constituição dos Estados Unidos. Os primeiros legisladores americanos tinham uma noção bem clara de quanto pode ser perigoso dar poder ao Estado. Embora a maioria das pessoas tenha a ideia de que o direito de possuir e portar armas serve unicamente para a defesa própria, a grande contribuição desse direito para a liberdade de uma nação consiste justamente em deixar nas mãos do povo a capacidade de resposta armada em caso de um governo despótico. A história já deu muitas provas de que o maior temor dos ditadores são os cidadãos armados. Hitler, Stalin, Fidel, Chávez – todos fizeram exatamente a mesma coisa: conduziram programas extensivos de desarmamento da população, seguidos do domínio autoritário sem resistência.

A Segunda Emenda à Constituição dos Estados Unidos tem sido a grande trincheira de defesa da liberdade disponível ao povo americano. Barack Obama é o mais antiamericano de todos os presidentes, e exibe sua agenda desarmamentista em público cada vez que um incidente com armas ocupa a mídia. Qualquer tiroteio é a deixa para que Obama desfie seu discurso liberticida e tente empurrar medidas de restrição e proibição relativas ao armamento de civis. Mas, em se tratando do povo americano, a reação costuma ser bastante diversa do que se vê no Brasil. Deixarei mais claro com dois exemplos.

Os últimos três presidentes brasileiros empenharam-se em passar leis de controle sobre armas, as quais jogaram dezenas de milhares de proprietários de armas na ilegalidade – ao mudar critérios e condições para a obtenção e manutenção de uma licença, as novas leis transformaram de imediato esses cidadãos de bem em “criminosos”. A solução escolhida pela maioria dos brasileiros foi entregar suas armas de fogo nas incontáveis campanhas promovidas em todas as esferas do governo e assistir, inermes, aos rolos compressores passando por cima de revólveres, pistolas, fuzis, espingardas e, por que não dizer, de sua liberdade.

Trago o leitor agora para a realidade americana. O ano é 2015, o mês é novembro. Depois dos atentados de Paris e de San Bernardino, Barack Obama fala em público diversas vezes sobre o controle de armas, deixando clara sua intenção de desarmar o povo americano – um povo que tem em suas mãos algo próximo a 350 milhões de armas de fogo. Com o feriado de Ação de Graças se aproximando, todo o comércio se prepara para a grande liquidação do ano, a Black Friday. O americano típico, aquele que desconfia do Estado e prefere se prevenir do que lamentar, ao ver que o presidente da república pretende lhe tirar a liberdade, vai até a loja mais próxima, aproveita os descontos e arma-se mais ainda. A mensagem é bem clara: você pode tentar me tirar esse direito, mas eu terei como lutar por ele; você pode tentar me tirar a liberdade, mas terá de ser por cima de meu cadáver armado até os dentes.

Não afirmo isso sem dados. Em conversa com um executivo de uma das maiores redes de lojas de armamento dos EUA, recebo a informação de que a última Black Friday foi recorde: suas 152 lojas venderam mais de 250 mil armas de fogo num único dia. Sabendo que há mais duas ou três redes grandes, além de inúmeras lojas menores espalhadas por todo o país, eu não me surpreenderia se os números gerais ultrapassarem um milhão de armas compradas.

Essa é a resposta do povo americano ao esforços autoritários de seu presidente; diga-se de passagem, uma tremenda resposta. Que sirva de exemplo ao povo brasileiro.

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

Pr. Pinóquio

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 29 de outubro de 2015.

Qual é a função de um sacerdote ou líder espiritual? Não me refiro aqui às atribuições eclesiásticas, pois estas dependem da religião, mas sim à função dessas pessoas na comunidade da qual fazem parte. Em geral, o que se espera deles é alento, conforto e orientação aos seus fiéis e seguidores, e uma vida exemplar e inspiradora. É uma tarefa das mais difíceis quando tomada com seriedade e honestidade; e justamente por isso juntar religião e política torna-se algo tão complicado.

Ora, o sacerdote ou líder que ingressa na política – tanto por meio de cargo eletivo como pela militância ativa junto aos agentes políticos – está fazendo uma escolha muito clara: a de deixar de cuidar de sua comunidade num nível micro para cuidar de assuntos comunitários em nível macro. Ao mesmo tempo, assumindo-se que a integridade e honestidade serão mantidas, a tarefa de servir de exemplo torna-se muito mais pesada, já que o escrutínio de sua vida não é mais feito por alguns poucos olhos locais, mas sim por toda uma população, seja ela de uma cidade, estado ou mesmo o país inteiro.

ILUSTRA-QuintelaNesses últimos dias, temos assistido às declarações estapafúrdias de dois líderes religiosos engajados na política sobre um assunto que não dominam: o armamento civil. Os pastores Silas Malafaia e Magno Malta – este, senador pelo estado do Espírito Santo; aquele, um evangelista de massas com um forte trânsito entre parlamentares da bancada evangélica – lançaram-se num ataque direto ao PL 3722 (aquele que reforma o Estatuto do Desarmamento), que foi aprovado pela comissão especial da Câmara dos Deputados na terça-feira passada. E o fizeram da pior forma possível: mentindo sobre o assunto. Não é possível saber o que os motivou a fazer suas declarações, mas é bastante provável que os esquemas de favores tão comuns na política brasileira sejam a razão por trás das mentiras. Afinal, como explicar que duas pessoas comumente engajadas em boas causas coloquem suas figuras públicas ao dispor de uma causa contrária à liberdade, um assunto altamente técnico em que não cabe o senso comum e nem os chavões da esquerda liberticida?

Ambos, em seus vídeos, dizem que o novo projeto de lei permitirá uma maior quantidade de armas e munições por pessoa, e que permitirá aos professores darem aulas com uma arma na cintura – afirmações muito distantes da realidade do texto do projeto. Ambos batem na tecla errada de que somente a força policial deve possuir e portar armas, como se a polícia fosse onisciente, onipotente e onipresente. Ambos tentam pintar um quadro de caos e guerra civil no caso de a população se armar, desprezando os fatos e a história: o Brasil era um país muito mais seguro quando a população possuía armas de fogo, e não há registros de países em que a implementação de leis de posse e porte de armas tenha causado aumento de criminalidade – muito pelo contrário. Ambos tentam associar o cristianismo e a paz ao desarmamento, quando a história mostra que os ditadores mais sanguinários foram justamente os que mais desarmaram populações. Ambos repetem a argumentação mentirosa que a esquerda costuma usar para combater o direito mais básico de um cidadão, o de defender sua integridade, sua vida e a de seus familiares. Ambos alinham-se aos que dizem combater, fazendo coro com a ala mais retrógrada da política brasileira.

Aos senhores Malafaia e Malta, fica meu pedido público: informem-se sobre o assunto e revejam suas posições. Sua influência sobre as pessoas é muito grande para que ajam de forma tão irresponsável com um tema importante como esse. O que está em jogo é a liberdade e a segurança das pessoas, as mesmas que não possuem a mínima condição de manter guarda-costas como os senhores mantêm, e que saem de suas casas todos os dias sob o peso de quase 60 mil assassinatos anuais neste Brasil em guerra.

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e Mentiram para mim sobre o desarmamento”.