País da fantasia

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 28 de abril de 2016.

tatuNo ano de 2011, houve uma série de explosões de bueiros na cidade do Rio de Janeiro. As explosões, na verdade, começaram dois anos antes, mas foi em 2011 que elas ganharam notoriedade na mídia, por causa do aumento no número de casos e dos feridos em sua decorrência.

Em dezembro de 2014, o menino Gabriel Martins de Oliveira Alves, de 2 anos, morreu depois de ser esquecido trancado dentro de um carro. O caso aconteceu em Vicente de Carvalho, zona norte do Rio de Janeiro, e trouxe à tona um problema grave, que tem tirado a vida de muitas crianças.

Qual é a relação entre bueiros explodindo e crianças esquecidas em carros? Normalmente, nenhuma. Mas, como normalidade não é o ponto forte do Rio de Janeiro, e nem do Brasil, os ocorridos acabam tendo muito a nos ensinar sobre a mentalidade que pauta as ações do Estado brasileiro, em todas as suas esferas.

Comecemos pelos bueiros. Em qualquer cidade brasileira, eles estão sob responsabilidade da Secretaria de Obras, e esta se encontra debaixo da administração do prefeito. Assim, como se costuma dizer nas empresas privadas, o problema tem um dono; no caso, o dono era Eduardo Paes. Um prefeito se assemelha, muitas vezes, a um presidente de empresa, no sentido de que deve assumir a responsabilidade por tudo o que acontece em sua organização – ele é louvado pelas coisas boas e cobrado pelas ruins, recebe o bônus do lucro e o ônus do prejuízo –, ainda que não tenha participação ativa em cada ato individual de setores, departamentos e empregados. Ou seja, se um bueiro explodiu e o prefeito ficou sabendo pelos noticiários, é dele o papel de reunir as pessoas certas e tomar medidas para que o problema seja sanado o quanto antes. Mas qual foi a atitude de Eduardo Paes, depois que o número de bueiros explodidos passou para dois dígitos? Se você pensou em “ele colocou suas equipes para trabalhar exaustivamente, contratou os melhores engenheiros e o problema foi resolvido”, está errado. Em janeiro de 2012, Eduardo Paes sancionou uma lei que proíbe o estacionamento de veículos sobre bueiros, ou “o bueiro pode até explodir, mas se pegar no teu carro a culpa não é minha, pois eu já te proibi de estacionar em cima dele”.

Vamos agora ao terrível caso do pequeno Gabriel. As investigações mostraram que ele tinha sido deixado no carro por uma criminosa, Cláudia Vidal da Silva, que fazia transporte escolar irregular e deixou o menino no carro para fazer as unhas em um salão de beleza. Qual foi o papel do Estado neste caso? Certamente, deveria ter sido o de processar e prender Cláudia, para que ela fosse punida por esse homicídio na medida da lei. Mas não foi isso o que aconteceu, pelo menos até agora. Passaram-se mais de dois meses até que Cláudia fosse indiciada; ela enfrentará, algum dia, um julgamento em tribunal, e não terá passado nem uma hora sequer na cadeia até que, eventualmente, seja condenada. Se condenada, terá diversas brechas jurídicas para permanecer o menor tempo possível presa; afinal, se até Suzane von Richthofen conseguiu passar ao regime semiaberto depois de assassinar os pais, não deve ser difícil para Cláudia fazer o mesmo.

Mas, para não decepcionar o público, a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro resolveu agir. A repercussão do caso levou o deputado Tio Carlos a propor um projeto de lei, já aprovado em segunda discussão, que garantirá que os bebês fluminenses estejam finalmente salvos e seguros (aviso que estou sendo irônico): o projeto pretende obrigar todos os estabelecimentos públicos e privados a alertar motoristas a não deixarem crianças trancadas dentro de veículos estacionados – como se Cláudia não soubesse o que estava fazendo quando escolheu deixar uma criança de 2 anos no carro enquanto cuidava de sua “emergência” pedicural. Quem não alertar será multado. O projeto aguarda a sanção ou o veto do governador.

E assim caminha o Brasil, o país onde o “a culpa não é minha” está legislado e institucionalizado. Um país onde bandidos não usam armas porque sua venda é proibida, onde as pessoas não morrem de hipertensão porque os restaurantes não podem colocar sal na mesa, onde crianças são salvas por cartazes e onde bueiros deixam de explodir porque ninguém estaciona sobre eles. É praticamente o país da fantasia. Só falta o Tatu.

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

O custo G

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 14 de abril de 2016.

Na semana que passou tive algumas experiências interessantes aqui nos Estados Unidos, que me levaram a esta reflexão. Elas aconteceram nos quatro dias em que estive numa feira de negócios, na Califórnia. Dentre elas destaco duas:

Durante a feira, não tínhamos toda a linha de produtos disponível para entrega imediata. Assim, ficamos de fazer o envio dos materiais faltantes para diversas pessoas, e nenhuma delas pediu nem sequer um comprovante de pagamento ou de compra. Elas apenas entregavam seu cartão de visita e pediam que a entrega fosse feita naquele endereço;

Na segunda noite, fomos jantar depois do fechamento da feira, e acabei levando minha mala com computador, produtos e recebimentos em dinheiro do dia, pois fomos diretamente ao restaurante. Jantamos, conversamos, pagamos e voltamos para o hotel, e só então lembrei de minha mala com tudo aquilo dentro. Voltei correndo ao local, já acometido de um certo desespero, e encontrei a mala exatamente no mesmo lugar, intocada.

Viver em um lugar onde a honestidade é muito mais regra do que exceção é muito bom. Você chega ao supermercado, informa que o caixa passou um pacote de cereal a mais na sua conta, e ninguém duvida de você; apenas devolvem o seu dinheiro, pois a sua palavra conta. Um grande amigo meu, em viagem recente a Orlando, deixou a carteira e o celular em cima do carro enquanto arrumava as filhas no banco de trás, e saiu dirigindo sem perceber. Dois quilômetros depois, se deu conta de que estava sem o celular e voltou ao hotel para refazer o caminho. Encontrou três carros de polícia parados, dois policiais na rua e uma terceira que veio ao seu encontro.

“Bom dia, policial, acho que perdi meu telefone por aqui; deixei em cima do teto do carro e deve ter caído.”

“Achamos este celular, que deve ter se espatifado na queda. É o do senhor?”

“É este mesmo. Muito obrigado!”

“O senhor não perdeu mais nada junto com o celular?”

“Não que me lembre.”

“Tem certeza?”

Nesse momento ele passa a mão no bolso e percebe que está sem a carteira.

“Pensando bem, não estou achando minha carteira.”

“Quanto dinheiro o senhor tinha nela?”

“Uns US$ 1,8 mil.”

“Nós tentamos pegar todas as notas que voaram quando sua carteira caiu. Por favor, confira se falta alguma coisa.”

Estava tudo lá.

Uma sociedade em que existe o que se chama de “confiança básica” é uma sociedade de benefícios, do ganha-ganha, da sinergia. A falta de confiança básica, como os brasileiros bem sabem, gera dissabores, aborrecimentos, retrabalhos e custos. É a assinatura que precisa ser reconhecida em cartório, é o documento de transferência do carro que precisa ser assinado na frente do escrivão, é a escritura que precisa ser registrada – os cartórios brasileiros consomem um dinheiro inútil, que poderia ser empregado em algo produtivo se não fosse a falta de confiança generalizada em vigência no Brasil. Mas não é só isso: golpes e furtos constantes destroem o pouco de confiança que resta em parte da população, alimentando ainda mais essa estrutura de múltiplas verificações e autenticações.

Se fosse possível somar todos os recursos que vão parar nas mãos do Estado – em todas as suas esferas – com tudo o que é gasto pela ausência de confiança básica, e também com as despesas relativas à infraestrutura precária de nosso país, creio que descobriríamos que mais de 70% de tudo o que produzimos vai parar no lixo. Esse é o custo G, o custo da aplicação sistemática e constante da Lei de Gérson na política e na vida diária. É o custo do egoísmo, da mentira e da desonestidade. É o custo do cada um por si e todos contra todos.

E, para não deixar em branco, este colunista quer registrar que estará torcendo pelo impeachment de Dilma, domingo que vem, mais do que torceu pelo Palmeiras na final da Libertadores de 1999.

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

Amigos na solidão

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 7 de abril de 2016.

amigossolidao“A ignorância é a condição necessária da felicidade dos homens.” (Anatole France)

Política é geralmente o assunto desta coluna, e é também o assunto predominante em meus perfis de redes sociais. Muitas pessoas reclamam que não aguentam mais ouvir falar disso. Será que estão certas? É melhor não falar de política, não se envolver com essa “coisa suja”? Para mim, viver hoje no Brasil, ignorando a situação do país e o governo que pesa suas mãos sobre cada um de nós, equivale a viver num sonho controlado, num simulacro de democracia. No filme Matrix, Neo é chamado a uma decisão que mudaria sua vida para sempre, uma decisão sem volta: movido por uma profunda inquietação com o mundo em que vivia e por um sentimento constante de não pertencimento, ele toma a pílula vermelha, que o leva a descobrir que não passava de um escravo manipulado pelas máquinas, criado e mantido vivo para fornecer aquilo de que elas precisavam.

A pílula vermelha é difícil. Muito tempo atrás, um grande amigo meu me deu um livro, o primeiro volume de História da Filosofia, de Giovanni Reale. Na primeira página, uma breve dedicatória, algo que jamais esqueci: “O conhecimento da realidade traz a verdade. A verdade liberta. O preço da liberdade? A solidão. Boa sorte.”

Ele não poderia estar mais certo. Nos anos seguintes, abri os olhos para a realidade em que eu vivia. Embora sempre achasse que o Brasil tinha inúmeros defeitos, a preferência por não investigar a realidade de um modo crítico me permitia continuar vivendo na “matrix” e nela ser feliz. Com o tempo, a dedicatória profética de meu amigo se cumpriu: as camadas de verniz e tinta que escondiam a realidade foram retiradas, como num minucioso trabalho de restauração, e o que eu vi por baixo delas não foi uma obra de arte maravilhosa, e sim um retrato cru e inóspito do Brasil em que eu vivia; já não era possível aceitar nenhuma informação sem uma dose considerável de análise e estudo. O fato é que sobram pouquíssimas pessoas em sua lista de “gente com opinião a respeitar” depois que você começa a passar todos os discursos pela peneira da razão. É justamente daí que vem a solidão da verdade, pois há uma multidão que prefere viver no sonho, na simulação, no autoengano e na ignorância.

Aonde quero chegar? Simples: o que o Brasil é hoje, o é em grande parte devido a esse apego à felicidade baseada na ignorância. Não há nada mais agradável do que viver num sonho, e o brasileiro é o campeão mundial de viver sonhando. A simpatia e a alegria dos brasileiros, cantadas e entoadas como nossa maior virtude, são fruto de nossa maior fraqueza: a recusa em ver a verdade. Desde frases populares como “Deus é brasileiro” até canções que dizem “Moro num país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza”, o brasileiro nasce, cresce, reproduz-se e morre achando que o seu país é o que há de melhor no mundo, e que viver aqui é ser abençoado, é ser especial, é ser o topo da pirâmide universal de felicidade.

Os últimos anos foram muito atípicos, a meu ver: por um lado, o governo petista se avolumou e tomou uma posição de ataque às liberdades individuais, principalmente a de expressão; por outro, parece que muita gente anda tomando a pílula vermelha e acordando do sonho dirigido. Falo aqui das pessoas que têm partido para o engajamento intelectual, que têm se preparado para o debate de ideias, que têm povoado a internet com bons artigos, que têm escrito livros, que têm lutado por ideais e princípios justos. Muitos que já haviam se conformado com a solidão intelectual permanente passaram a conhecer outros solitários, e mais outro, e mais um ali, e assim por diante. São amigos, mesmo os que não se conhecem pessoalmente, de uma maneira aristotélica: acreditam nas mesmas coisas, buscam as mesmas virtudes, abominam os mesmos males.

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

Não, ponto

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 3 de março de 2016.

Recentemente fui a uma loja de caça e pesca para comprar uma pistola. É uma loja enorme, de uma das maiores redes dos Estados Unidos, e vende desde fogãozinho para acampar até rifles de precisão. Como eu já tinha conversado com um atendente por telefone, e estava indo para fazer a aquisição, resolvi gravar um vídeo para mostrar como se compra uma arma por aqui. Chegando à loja, me dirigi ao departamento de armas e fui atendido por um senhor bastante simpático, um veterano de guerra. Puxei papo, disse que era brasileiro e que tinha escrito um livro contra o desarmamento, e que estava fazendo um vídeo sobre o assunto. Foi aí que lhe perguntei: posso filmá-lo falando sobre isso, sobre a importância das armas para a defesa própria? A resposta dele: não.

naoPara os brasileiros, falar “não” é tão difícil quanto escalar o Everest. Fosse no Brasil e eu teria ouvido algo do tipo “puxa, eu bem que queria, mas sabe como é, pode pegar mal com a gerência” ou “cara, seria um prazer te ajudar, mas eu não posso ir contra as normas da loja”. A nossa simpatia, tão difundida pelo mundo como a maior das qualidades brasileiras, não nos deixa falar um simples “não”. Não só isso, ela também nos faz interpretar um simples “não” como uma declaração de guerra, como uma negação pessoal, ainda que seja a primeira vez que falamos com a pessoa em nossa vida.

Não saber falar e ouvir “nãos” é um tremendo de um problema. É uma carga gigantesca que a pessoa leva nas costas e um convite à mentira. Falar “não” é o princípio primeiro do direito a ser deixado em paz. É com o “não” que evitamos aqueles tão famosos “programas de índio”, é com o “não” que nos livramos daquele colega aproveitador, é com o “não” que deixamos de fazer o que não nos agrada. Fulano, vamos para a festa de 80 anos da tia Zulmira, lá em Pirapora do Fim do Mundo? Não. Sicrano, você topa ser meu fiador? Não. Beltrano, preciso de alguém para me ajudar na mudança lá de casa, é coisa pequena. Não. É claro que não estou defendendo aqui que você se negue a ajudar qualquer um que lhe peça. O que estou defendendo é que você exerça a liberdade de fazê-lo quando bem entender, sem ficar se remoendo por ter magoado alguém.

Quando você fala “não” sem ressalvas, fica desobrigado de mentir. Afinal, o que dizer para seu primo que faz questão da sua presença no aniversário de 15 anos da filha, bem no dia em que você tinha marcado de ver o Super Bowl? Ou você diz um “não” sincero, ou inventa uma mentira, ou faz o que não quer e vai à festa. Parece que não, mas essa prática de mentir para se livrar do “não” acaba levando a um comportamento treinado e socialmente aceito. Quem já não esteve com alguém num bar ou restaurante e ouviu “só não posta no Facebook porque Fulano não pode saber que não estou doente”? Outra consequência bem desagradável desse comportamento é ser pego de surpresa. A pessoa não tem coragem de falar “não”, mas depois tem coragem de não cumprir um prazo acertado, ou de não entregar um trabalho importante. E dá-lhe mentira para justificar.

Não é preciso ser nenhum gênio para perceber que isso corrói a alma. Mentira é um negócio que destrói a integridade, e o fato de sermos um país de muitos mentirosos, a começar pela presidente da República, não diz muita coisa boa sobre nós. Lembremo-nos de que os políticos mentirosos são feitos da mesma matéria-prima que eu e você: de brasileiros. Por isso é tão importante que busquemos nos reformar moralmente, e parar de mentir por qualquer coisa é um bom começo. Que tal trocar o… (clique aqui para acessar o restante do artigo na página do jornal).

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

O mundo está chato mesmo

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 25 de fevereiro de 2016.

limoesO último comercial da Pepsi, em que dois limões reclamam da chatice mimizenta em vigor nos tempos atuais, é fantástico. Não só pelo humor irônico à disposição desde o primeiro segundo da peça, mas pelo poder de evidenciar o seu tema de forma tão viva: bastou sua veiculação para que os ofendidos de plantão, os paladinos do politicamente correto e todos os afetados por essa doença chamada vitimismo, fossem em seu combate.

No Twitter, comentários que vão desde moderados como “comercial de mau gosto” até absurdos doentios como “comercial da Pepsi > escravidão > Holocausto > 11 de Setembro” mostram que a temática da peça não só está corretíssima, mas que foi imediatamente aplicada a ela mesma. E a insanidade não parte apenas de alguns consumidores, mas também do Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (Conar), que levará o comercial a julgamento por possível deboche e depreciação de minorias, mesmo não havendo nenhuma menção a nenhuma minoria, a não ser a dos limões, grupo social cujos membros, até o momento, não se pronunciaram sobre o assunto.

O politicamente correto é uma das grandes desgraças desta geração. Embora possa parecer, de início, algo sem muita importância ou sem consequências graves, a aplicação sistemática da mentalidade de proteger as pessoas de suas ditas fraquezas à custa das liberdades individuais, nas últimas décadas, resultou numa geração de incapacitados para a vida adulta real. Por vida adulta real entenda-se aquela em que a pessoa tem momentos de alegria e de sofrimento, passa por injustiças e também por situações justas, é amada e odiada, tem amigos e gente que não a suporta, recebe elogios e xingamentos, é exaltada e ridicularizada. Mas, para viver a vida adulta real, é necessário ser adulto de verdade, o que pressupõe uma autoconfiança suficiente para resistir às provas diárias e uma autoestima que leve à mais libertadora de todas as experiências humanas: rir de si mesmo.

Se as pessoas forem incapazes de suportar as dificuldades mais simples da vida, aquelas que podem ser resolvidas apenas com uma mudança de atitude própria, o que farão diante de situações realmente desafiadoras, como um colapso financeiro, uma doença grave, um divórcio ou uma morte na família? Se precisam ser protegidas até mesmo de palavras que não lhes são pessoalmente direcionadas, como enfrentarão ameaças reais às suas vidas? A resposta a essas perguntas é a própria razão da existência dos governos assistencialistas de esquerda: você não precisa ser autossuficiente nem autoconfiante, porque o Estado está aqui para cuidar de você. O Estado não deixará que ninguém o ofenda, que ninguém tire seu emprego, que ninguém ameace seu mundo perfeito de paz e felicidade. O problema é que, ainda que esse mundo “perfeito” fosse possível, seu preço – a supressão das liberdades individuais – seria alto demais. Mas a situação ganha ares de ficção científica diante de uma análise da realidade: em troca do confisco de suas liberdades e de seu dinheiro, o povo recebe um pedaço de papel de pão com os dizeres “prometo que tudo vai ficar bem”, assinado pelo papai Estado.

É papel importantíssimo dos pais a orientação para que seus filhos aprendam que não são vítimas, mas protagonistas com vontade própria; que não são indefesos, mas resistentes e resilientes; que não são dependentes de nenhum governo, mas capazes de criar riqueza e bem-estar com suas próprias mãos. E, acima de tudo, ensiná-los a… (clique aqui para acessar o restante do artigo na página do jornal).

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

Aperta o botão, por favor

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 10 de dezembro de 2015.

Tenho visto diversos de meus amigos e conhecidos em estado de desânimo, decepcionados com quase tudo à sua volta: a política brasileira, as instituições, a doutrinação nas escolas em que seus filhos estudam – inclusive as particulares –, a crise econômica, a queda de padrão de vida, a violência, o desemprego, a crise moral, a pobreza intelectual da nação, a destruição da alta cultura e muitas outras coisas realmente lamentáveis. E não são apenas os que vivem no Brasil; muitos, como eu, moram nos Estados Unidos e acompanham de perto os absurdos que Barack Obama e sua turminha fazem por aqui, e acabam sofrendo pelos dois países ao mesmo tempo.

bomba-atomicaBem, eu já estive nessa mesma situação, já me senti desanimado ao extremo e com a vontade de jogar a toalha. São momentos em que você quer apagar da memória tudo o que sabe sobre o mundo como ele é e voltar para uma vida de ignorância; ou então bate o desejo de que alguém aperte o botão errado, lance um míssil nuclear de longo alcance e acabe de vez com o mundo. Quem nunca desejou o fim num momento de agonia que atire a primeira pedra.

Mas, pelo menos para mim, a esperança ainda é maior que o medo e o desgosto. Meu ponto de inflexão foi o nascimento de meu filho. É incrível como uma criança pode trazer uma nova perspectiva a um homem, e o Benjamin veio para me resgatar do fatalismo. Quando você tem uma família nuclear só sua, a qual tem de sustentar e defender, as lutas do mundo ficam em segundo plano e, com a medida certa de otimismo, é possível enxergar uma realidade muito mais agradável e desfrutar plenamente os momentos que realmente importam.

O governo é corrupto? O STF está aparelhado? Dilma é a pior presidente que já ocupou o Planalto? O Brasil caminha cada vez mais para o buraco econômico? Sim, sim, sim e sim. Mas nenhuma dessas realidades, e nem mesmo outras piores, devem nos tirar o desejo de buscar a felicidade, a capacidade de fazer planos e o hábito de cultivar as coisas altas da alma. Viktor Frankl, psiquiatra austríaco de origem judaica, pôde estudar de perto – e sofrer na própria pele – uma das maiores tragédias da história humana, o Holocausto, e dela tirar sua grande contribuição para a escola vienense de psicoterapia e para o mundo: a análise existencial e as terríveis implicações da falta de sentido para a vida. Frankl observou que, mesmo com as condições cruéis e desumanas impostas aos prisioneiros dos campos de concentração nazistas, algumas pessoas conseguiam manter a sanidade e a esperança, e outras simplesmente sucumbiam às circunstâncias. A diferença entre elas era a motivação de vida das primeiras, aquela posse interior de algo maior pelo que vale a pena viver.

A cada um de meus queridos amigos, colegas, conhecidos e leitores desta coluna, deixo uma mensagem de otimismo: não permita que as circunstâncias desanimadoras ao seu redor, incluindo toda a podridão e sujeira que a mídia expõe e denuncia diariamente, lhe tirem a alegria. O que vou dizer pode soar um tanto piegas e sentimentalista, mas a hora é de focar na família, nos princípios, na manutenção do caráter, na construção do intelecto e no cultivo da fé. Você será, com certeza, uma pessoa mais bem preparada para enfrentar essa lama toda se estiver com a mente e o coração funcionando bem. E são pessoas assim que fazem toda a diferença no mundo.

Termino com uma citação do próprio Frankl:

“Entre um estímulo e uma resposta há um espaço. Nesse espaço está o nosso poder de escolher a nossa resposta. Em nossa resposta está nosso crescimento e nossa liberdade.”

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

Mais Acácios, menos Gérsons

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 3 de dezembro de 2015.

Não era fácil viver no Brasil, e não é fácil visitá-lo. Depois de um tempo morando fora, você entende que a índole de boa parte dos brasileiros é algo a se lamentar. É gente demais tentando levar vantagem em tudo; um exército de Gérsons que acaba ocupando espaços em todos os setores da sociedade, fazendo de nossogerson país um campeão em desrespeito às leis, impunidade e banditismo. Felizmente, o Brasil não tem apenas Gérsons.

No último domingo eu tive de me deslocar de Campinas, interior de São Paulo, para a capital, com minha esposa, nosso bebê de 5 meses e um monte de malas. Um grande amigo se ofereceu para nos levar, e no horário combinado partimos em viagem. Uma hora depois, a cerca de 30 quilômetros do fim da Rodovia dos Bandeirantes, o carro simplesmente parou de funcionar. A inércia foi suficiente para nos levar a um posto de gasolina, e conseguimos parar no estacionamento de caminhões.

Como tínhamos hora para chegar a São Paulo, bateu um certo desespero diante daquela situação: a primeira impressão fora de correia dentada rompida, ou seja, nenhuma chance de o carro funcionar novamente. O guincho viria, mas para levar meu amigo e seu veículo defunto de volta a Campinas. Comecei a procurar um meio de continuarmos nossa viagem. Entrei na lanchonete e perguntei às três funcionárias se conheciam algum taxista ou motorista que pudesse nos levar. A última delas me deu um papelzinho com um telefone escrito à mão: “O senhor pode tentar esse moço, o Pixote. Ele faz carreto.” Não preciso dizer que o apelido do sujeito e a palavra “carreto” não me animaram muito, mas mesmo assim liguei para o Pixote, e ninguém atendeu. Continuei minha busca.

Andando até os frentistas, perguntei se conheciam algum taxista da região. Um deles me indicou o “seu Sérgio”, e fez a gentileza de ligar para o mesmo utilizando o telefone do posto. Seu Sérgio me disse que nos levaria pela bagatela de R$ 220, e que iria até o posto para ver se as malas caberiam no carro. Como eu tinha certeza de que não caberiam, pois ele me informara que o veículo era um Fiat Siena, fui até minha esposa e lhe disse que ficaríamos ali por algum tempo, até que eu conseguisse resolver a situação. Ela aproveitou e foi dar mamadeira para o nosso bebê.

Quando voltei ao carro, onde meu amigo aguardava pelo guincho, percebi um outro carro ao nosso lado, com apenas uma pessoa dentro. Num impulso, abaixei-me e perguntei ao homem que estava ao volante: “Com licença, você por acaso está indo para São Paulo?”. Ele me respondeu que sim. Continuei: “Se eu pagar o que o táxi está me cobrando, você nos levaria para a casa da minha sogra, na Zona Leste?”. A resposta foi inesperada: “Não precisa me pagar nada. Eu ajudo você e sua família a chegarem a São Paulo. Pode colocar suas coisas aqui e eu levo vocês.” Corri para dizer à minha esposa que tinha conseguido alguém para nos ajudar – recebi como resposta um “você está louco?” – e, depois de convencê-la de que era muito pouco provável que aquele homem nos matasse e roubasse nossas malas cheias de roupinhas de criança, carregamos o carro e fomos embora. A viagem foi bastante agradável, e tive a oportunidade de conhecer um pouco do Acácio, esse brasileiro tão fora do normal por fazer algo que deveria ser corriqueiro. Ao final, quando insisti novamente em lhe pagar algo, Acácio me disse simplesmente “Não precisa mesmo; se um dia aparecer alguém assim na sua frente, apenas faça o mesmo.”

Precisamos de mais Acácios – nas escolas, na política, nas empresas, nas igrejas, nos tribunais, na mídia – para neutralizar os Gérsons que pilham e destroem a nação. Pessoas que colocam seus interesses acima de tudo e de todos – um comportamento típico da psicopatia – não servem para liderar outras pessoas, e muito menos para governar um país.

Acácios, uni-vos.

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

Heróis de guerra

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 12 de novembro de 2015.

Nesta quarta-feira comemorou-se, nos Estados Unidos, o Veterans Day (“dia dos veteranos”). Foi um dia repleto de homenagens a todos os homens e mulheres que dedicaram parte de suas vidas em combates de guerra, defendendo a pátria americana. Apesar de todo o esforço da mídia internacional e da própria mídia americana em retratar o país como imperialista, intervencionista e injusto, o povo americano, em sua grande maioria, continua apoiando, respeitando e honrando seus heróis de guerra.

As cidades, grandes e pequenas, preparam festividades e homenagens. Os restaurantes oferecem refeições gratuitas a todos que comprovarem que são militares. Várias redes de televisão chamam ex-combatentes para participar de seus programas – assisti a uma versão especial de Chopped (programa de competição culinária) em que competiam quatro ex-integrantes do Exército, Marinha e Aeronáutica. Enfim, é um dILUSTRA-Quintela_VetDayia muito bonito, em que você sente no ar o patriotismo e o orgulho do povo americano.

Mas o respeito aos que lutaram fora do país não fica restrito a um dia. Em jogos de basquete, futebol americano ou beisebol, é muito comum que um combatente que tenha acabado de retornar ao país seja chamado para iniciar a partida, para cantar o hino nacional ou somente para ser aplaudido pelo público. Nos restaurantes é muito comum ver os garçons e garçonetes tratando veteranos idosos com o carinho de quem trata um avô, e oferecendo algum tipo de mimo como uma sobremesa, um desconto ou até mesmo a refeição inteira de graça. E esse respeito é passado tanto às novas gerações como aos imigrantes, pois muitos deles encontram nas forças armadas uma boa carreira, e lutam pelo país como se nele tivessem nascido.

Por mais que o governo de Barack Obama tente desqualificar os militares e a agenda esquerdista tente acabar com o patriotismo americano em nome de um multiculturalismo sem sentido, o povo americano continua colocando a bandeira nacional na porta de casa e tendo orgulho de fazer parte desta grande nação. Como potência mundial, os Estados Unidos são odiados por muita gente, principalmente pela esquerda, e sua política de “polícia do mundo” é geralmente criticada com veemência, como se o mundo estivesse preparado para uma era de paz, sem ninguém para interferir quando necessário. Vivemos numa época em que Estado Islâmico, Vladimir Putin, China, Irã e Coreia do Norte não são apenas verbetes de enciclopédia, mas ameaças reais à segurança e à liberdade de muita gente. Mais do que nunca, faz-se necessária uma força militar poderosa, controlada por uma nação democrática, que siga regras constitucionais e que tenha compromisso com a liberdade. Para satisfação de alguns e completo desgosto de outros, somente os Estados Unidos da América são capazes de proporcionar isso ao mundo hoje.

Enquanto isso, para minha tristeza como brasileiro em terras estrangeiras, o governo petista coloca sua guarda pretoriana, a Força Nacional, para combater seus próprios cidadãos. Doze anos de invasões, destruições de propriedade privada, assassinatos e ações criminosas do MST não foram suficientes para que o governo usasse as forças policiais e militares; dois dias de manifestações dos caminhoneiros, sim. A continuar assim, se um dia tivermos um “dia dos veteranos”, a comemoração ficará restrita à aristocracia petista, beneficiária única da proteção pelas Forças Armadas brasileiras. Assim fica difícil ser patriota.

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e Mentiram para mim sobre o desarmamento”.