Aqui de boas, parasitando

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 30 de junho de 2016.

“Programa bem-sucedido do Ministério da Ciência e Tecnologia coloca o Brasil finalmente na lista de ganhadores do Prêmio Nobel”

“Vinte anos depois de reformular a matriz educacional, governo colhe os louros: a educação brasileira está entre as dez melhores do mundo”

“Minha Casa, Minha Vida recebe menções internacionais por ter praticamente zerado o déficit habitacional do Brasil”

“Globo admite perda de liderança de audiência para a TV Brasil”

“Ministro da Saúde recebe prêmio internacional em reconhecimento à excelência do sistema público brasileiro, o melhor entre as 20 maiores economias do mundo”

“Gastos do governo para preparar os Jogos Olímpicos do Rio são os menores das últimas 12 edições dos jogos. Japão pede nossa ajuda para repetir o sucesso em 2020”

“Lei Rouanet completa 25 anos de sucesso: o cinema brasileiro recebe seu quarto Oscar e Steven Spielberg lidera movimento nos EUA pedindo a adoção de uma legislação semelhante para Hollywood”

O que as sete manchetes acima têm em comum? Resposta fácil: são todas fictícias. Mas por que o governo não consegue ter sucesso em suas políticas e intervenções nos mais diversos campos de atuação? Resposta mais fácil ainda (e em destaque, para que você nunca mais se esqueça disso):

O Estado não sabe fazer quase nada direito.

As investigações mostrando os desvios de dinheiro proveniente da Lei Rouanet são mais uma prova de que todo o dinheiro que o Estado tira de nosso bolso é mal empregado – é gasto sem cuidado, sem responsabilidade e para benefício dos “amigos do rei”.

Em 1991, quando foi sancionada por Fernando Collor de Mello, a Lei 8.313 – Lei Federal de Incentivo à Cultura – foi recebida como se fosse um ato de genialidade. Que ideia fantástica! Já que vamos pagar imposto de qualquer jeito, pelo menos uma parte dele vai, de forma garantida, ajudar a cultura brasileira. Não tem como dar errado! Pois bem, só esqueceram que o dinheiro todo vai para as mãos do Estado, e é o Estado que decide quais serão os projetos culturais beneficiados pela lei. Esta premissa já é ruim por si só – a ideia de ter alguém do governo decidindo que “essa cultura é mais merecedora de financiamento do que aquela” é repugnante para mim –, mas, quando nas mãos de um governo fortemente ideológico como o do PT, ela resultou em um grande desastre.

A investigação da Polícia Federal em curso tem como foco os desvios de recursos, seu uso fora da finalidade e da regulamentação da lei. É o caso do casamento suntuoso de Felipe Amorim e Caroline Monteiro, bancado com dinheiro da Lei Rouanet e celebrado na elitizada praia de Jurerê Internacional, com direito a show sertanejo particular, hotel cinco estrelas e boca livre gourmet. Mas existe um aspecto que a PF não investigará, e que é mais pernicioso que um casalzinho de corruptos se esbaldando com dinheiro alheio: durante os governos petistas, a Lei Rouanet foi usada como instrumento para beneficiar artistas de orientação ideológica alinhada à do partido, no intuito de difundi-la em massa através do aparato cultural. Esse é um crime que deixará consequências por gerações, e seus responsáveis provavelmente não serão julgados e nem punidos. Terão um destino muito melhor que o de Goebbels.

Por fim, antes que eu exceda o espaço desta coluna, convém explicar o “quase” da minha frase destacada ali de cima. Ele se refere justamente àquela prática que tanto nos prejudica e que drena grande parte da riqueza produzida para o ralo do governo: o Estado sabe, como ninguém, promover sua ideologia e enriquecer sua rede de privilegiados com dinheiro alheio. Em outras palavras, o Estado é perito em parasitar o povo. É uma solitária gigantesca no intestino do país. E o vermífugo somos nós.

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

Inveja à esquerda

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 23 de junho de 2016.

A vida de um ser humano mentalmente capaz é definida por suas escolhas. Duas pessoas, diante das mesmas circunstâncias, podem optar por agir de forma distinta, obtendo resultados distintos. Mesmo em situações nas quais aparentemente não há escolha – como em um acidente, uma doença grave ou uma morte na família –, cada um é responsável por reagir de acordo com suas escolhas, e esta reação resultará em um futuro específico e único.

Se tivéssemos apenas de decidir coisas banais como a roupa que vestiremos de manhã, o que comeremos no almoço, para quem ligaremos, se levantaremos ou não para beber água, ou que caminho usaremos para chegar ao trabalho, já teríamos mais de dez decisões por dia a serem tomadas. Mas elas são muito mais numerosas, e abrangem todos os aspectos de nossas vidas: como reagiremos a um insulto, como falaremos com nosso superior no trabalho, que faculdade faremos, qual bairro escolheremos para viver, quantos filhos teremos, se seremos honestos ou não nas mais diversas situações, se agiremos com amor ou com ressentimento, se correremos para passar no amarelo ou se frearemos para esperar o próximo verde, e assim por diante. Acho que não cometerei um exagero se disser que tomamos pelo menos 50 decisões em um dia típico.

Considerando somente os primeiros 60 anos de vida de uma pessoa, a quantidade de decisões tomadas ultrapassa 1 milhão. E aonde quero chegar com isso? Ora, se uma pessoa é definida por suas decisões, para que duas pessoas tivessem a mesma vida elas precisariam ter tomado mais de 1 milhão de decisões iguais, em circunstâncias iguais. As chances de algo assim acontecer são tão remotas que seria mais provável alguém ganhar toda semana na Mega-Sena do que duas pessoas tomarem exatamente as mesmas decisões durante os primeiros 30 anos de vida. E aqui quero fazer uma pergunta pertinente e central a este texto: por que as pessoas insistem em comparar suas vidas às de outras pessoas, tentando medir o próprio sucesso e a própria felicidade com a régua da vida alheia?

Esta questão não é apenas uma retórica de autoajuda ou um mantra hippie do tipo “seja feliz com sua vida”, mas está no cerne mesmo de toda a ideologia de esquerda. Afinal, o que é a busca da igualdade total senão a negação completa do aspecto consequencial da vida? O que é o Estado moderno de esquerda senão um gigante opressor cujo único propósito é esmagar a tomada individual de decisões debaixo de um esquema coletivista e autoritário?

Ludwig von Mises, em seu excelente A Mentalidade Anticapitalista, expõe com clareza o principal motivo pelo qual muitas pessoas odeiam o capitalismo e, por conseguinte, abraçam o socialismo e outras porcarias semelhantes: por causa de inveja e despeito. Aquele que não se deu tão bem, que não foi promovido ou que não enriqueceu por falta de mérito olha para o outro, que conseguiu essas coisas, e resolve tirar a responsabilidade de si mesmo e jogá-la sobre o sistema econômico vigente. A conectividade social dos dias de hoje só fez multiplicar esse fenômeno – se antes o sujeito olhava pela janela e sabia apenas o que se passava com os vizinhos próximos, hoje basta que pegue seu smartphone para espiar as “vidas maravilhosas” de milhares de amigos nas redes sociais. Ficou muito mais fácil ter inveja do próximo, ainda mais quando este exibe apenas o que lhe acontece de bom, muitas vezes com uma maquiagem pesada.

Enfim, dizem que um texto só é virtuoso quando causa uma boa reflexão. Se este texto fizer você, leitor ou leitora, refletir sobre a falta de lógica e o desperdício de energia que é tentar viver a vida de outra pessoa, ele terá cumprido seu propósito. Isso não significa se acomodar ou se resignar com tudo o que lhe acontece, mas tentar criar sua satisfação e felicidade a partir de suas próprias escolhas e reações. É tentar viver a sua melhor vida. Se isso acontecer, se cada um tentar viver o seu melhor, não sobrará espaço para o coletivismo ou para o igualitarismo; e quando essas coisas desaparecerem, a ideologia de esquerda desaparecerá junto. Utopia? Talvez. Mas pelo menos é uma que vale a pena perseguir.

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

Coragem?

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 9 de junho de 2016.

Outro dia estava jantando com nossos vizinhos, e surgiu o assunto das reclamações mal-educadas vindas de clientes. Minha vizinha, que é uma mulher sensível, disse que fica muito mal quando recebe reclamações ou e-mails ríspidos. Naquele mesmo dia eu havia recebido uma mensagem em meu contato desta coluna, e resolvi mostrar a ela, até mesmo para animá-la em relação às suas clientes. Ela chegou a corar de vergonha, de tantos palavrões e xingamentos que me foram enviados, e ao fim me disse: “Não sei como você consegue ler isso e não ficar arrasado. É por coisas assim que não tenho coragem de escrever o que penso”.

Esta frase de minha vizinha já me tinha sido dita por diversas outras pessoas, em mensagens de agradecimento e congratulações que costumo receber dos leitores desta coluna e de meus livros. E sempre foi uma coisa que me intrigou, pois nunca considerei um ato de coragem escrever algo, a não ser que seja alguém escrevendo contra os Castro em plena Cuba. Quando penso em coragem, a primeira coisa que me vem à mente são imagens dos soldados aliados na Normandia.

Enfim, pensei que o assunto daria um bom tema para esta coluna. E aqui estou, escrevendo exatamente o que penso num espaço nobre da mídia nacional (graças à Gazeta, que me dá total liberdade para isso). E eu penso o seguinte: a militância de esquerda dominou por completo o aparato educacional e midiático brasileiro nas últimas cinco décadas em parte por falta de gente inteligente e intelectualmente preparada que não tenha medo de dizer e escrever o que pensa. Infelizmente, os idiotas não costumam ter esse tipo de medo; eles são capazes de transmitir suas idiotices em cadeia nacional, se houver oportunidade, sem nenhuma vergonha ou receio de que suas palavras sejam mal interpretadas, criticadas ou combatidas. Já aqueles que ponderam suas afirmações, que pensam em como serão interpretados, que dão importância ao embasamento de seus discursos, estes muitas vezes preferem se calar a enfrentar possíveis críticas – tanto as genuínas e fundamentadas como as hidrófobas e irracionais – e com isso privam a sociedade de sua contribuição importante para o debate de ideias.

Mas o que há de tão temeroso em expor a própria opinião? Seria a reprovação dos que pensam de maneira diametralmente oposta? Ora, isso seria algo deveras irracional, já que pessoas com opiniões tão divergentes geralmente não fazem parte do grupo de pessoas que elegemos como as que mais nos importam na vida (em meu caso, minha esposa e meus melhores amigos). Bom, talvez seja a reprovação de nossos familiares; afinal, não escolhemos nossa família, e no meio dela pode haver muita gente que pensa bem diferente de nós. Mas isso também não seria um bom motivo, pois a família é justamente o grupo social onde o exercício da tolerância deveria prevalecer sobre o exercício da crítica. Resta o medo de ser criticado pelos pares, pelos que pensam da mesma forma, mas neste caso a crítica será provavelmente pontual, já que se compartilha um núcleo de valores, e pode ser benéfica ao indivíduo no fim das contas.

Não sendo possível explicar o medo de se expressar por motivos racionais, restam os motivos emocionais, que eu pessoalmente considero os únicos responsáveis pelo comportamento em questão. O fato é que a maioria das pessoas dá muito valor e importância ao que os outros pensam a seu respeito. Jamais me esquecerei de uma das primeiras aulas que ouvi do professor Olavo de Carvalho, na qual ele dizia que a única opinião que realmente nos importa neste plano terreno é o de nosso cônjuge. Afinal, é com ele ou ela que passaremos o restante de nossas vidas e, se faltar o respeito e a admiração no casamento, ele caminhará para o fracasso ou para a frustração. Filhos não precisam nos admirar, pais não precisam nos admirar, amigos não precisam nos admirar. Não estou dizendo que ser admirado é ruim – na verdade é bem gostoso –, mas a necessidade de ser admirado em si é algo ruim. Aquele que consegue se livrar do peso de ser aprovado pelos outros recebe em troca uma liberdade ímpar na vida, a liberdade de ser o que bem quiser e se expressar como bem entender. Vale a pena experimentar.

Quanto aos julgamentos, o único que realmente importa é o divino, e Deus não depende de ler suas palavras para conhecer seu pensamento.

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

País da fantasia

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 28 de abril de 2016.

tatuNo ano de 2011, houve uma série de explosões de bueiros na cidade do Rio de Janeiro. As explosões, na verdade, começaram dois anos antes, mas foi em 2011 que elas ganharam notoriedade na mídia, por causa do aumento no número de casos e dos feridos em sua decorrência.

Em dezembro de 2014, o menino Gabriel Martins de Oliveira Alves, de 2 anos, morreu depois de ser esquecido trancado dentro de um carro. O caso aconteceu em Vicente de Carvalho, zona norte do Rio de Janeiro, e trouxe à tona um problema grave, que tem tirado a vida de muitas crianças.

Qual é a relação entre bueiros explodindo e crianças esquecidas em carros? Normalmente, nenhuma. Mas, como normalidade não é o ponto forte do Rio de Janeiro, e nem do Brasil, os ocorridos acabam tendo muito a nos ensinar sobre a mentalidade que pauta as ações do Estado brasileiro, em todas as suas esferas.

Comecemos pelos bueiros. Em qualquer cidade brasileira, eles estão sob responsabilidade da Secretaria de Obras, e esta se encontra debaixo da administração do prefeito. Assim, como se costuma dizer nas empresas privadas, o problema tem um dono; no caso, o dono era Eduardo Paes. Um prefeito se assemelha, muitas vezes, a um presidente de empresa, no sentido de que deve assumir a responsabilidade por tudo o que acontece em sua organização – ele é louvado pelas coisas boas e cobrado pelas ruins, recebe o bônus do lucro e o ônus do prejuízo –, ainda que não tenha participação ativa em cada ato individual de setores, departamentos e empregados. Ou seja, se um bueiro explodiu e o prefeito ficou sabendo pelos noticiários, é dele o papel de reunir as pessoas certas e tomar medidas para que o problema seja sanado o quanto antes. Mas qual foi a atitude de Eduardo Paes, depois que o número de bueiros explodidos passou para dois dígitos? Se você pensou em “ele colocou suas equipes para trabalhar exaustivamente, contratou os melhores engenheiros e o problema foi resolvido”, está errado. Em janeiro de 2012, Eduardo Paes sancionou uma lei que proíbe o estacionamento de veículos sobre bueiros, ou “o bueiro pode até explodir, mas se pegar no teu carro a culpa não é minha, pois eu já te proibi de estacionar em cima dele”.

Vamos agora ao terrível caso do pequeno Gabriel. As investigações mostraram que ele tinha sido deixado no carro por uma criminosa, Cláudia Vidal da Silva, que fazia transporte escolar irregular e deixou o menino no carro para fazer as unhas em um salão de beleza. Qual foi o papel do Estado neste caso? Certamente, deveria ter sido o de processar e prender Cláudia, para que ela fosse punida por esse homicídio na medida da lei. Mas não foi isso o que aconteceu, pelo menos até agora. Passaram-se mais de dois meses até que Cláudia fosse indiciada; ela enfrentará, algum dia, um julgamento em tribunal, e não terá passado nem uma hora sequer na cadeia até que, eventualmente, seja condenada. Se condenada, terá diversas brechas jurídicas para permanecer o menor tempo possível presa; afinal, se até Suzane von Richthofen conseguiu passar ao regime semiaberto depois de assassinar os pais, não deve ser difícil para Cláudia fazer o mesmo.

Mas, para não decepcionar o público, a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro resolveu agir. A repercussão do caso levou o deputado Tio Carlos a propor um projeto de lei, já aprovado em segunda discussão, que garantirá que os bebês fluminenses estejam finalmente salvos e seguros (aviso que estou sendo irônico): o projeto pretende obrigar todos os estabelecimentos públicos e privados a alertar motoristas a não deixarem crianças trancadas dentro de veículos estacionados – como se Cláudia não soubesse o que estava fazendo quando escolheu deixar uma criança de 2 anos no carro enquanto cuidava de sua “emergência” pedicural. Quem não alertar será multado. O projeto aguarda a sanção ou o veto do governador.

E assim caminha o Brasil, o país onde o “a culpa não é minha” está legislado e institucionalizado. Um país onde bandidos não usam armas porque sua venda é proibida, onde as pessoas não morrem de hipertensão porque os restaurantes não podem colocar sal na mesa, onde crianças são salvas por cartazes e onde bueiros deixam de explodir porque ninguém estaciona sobre eles. É praticamente o país da fantasia. Só falta o Tatu.

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

O custo G

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 14 de abril de 2016.

Na semana que passou tive algumas experiências interessantes aqui nos Estados Unidos, que me levaram a esta reflexão. Elas aconteceram nos quatro dias em que estive numa feira de negócios, na Califórnia. Dentre elas destaco duas:

Durante a feira, não tínhamos toda a linha de produtos disponível para entrega imediata. Assim, ficamos de fazer o envio dos materiais faltantes para diversas pessoas, e nenhuma delas pediu nem sequer um comprovante de pagamento ou de compra. Elas apenas entregavam seu cartão de visita e pediam que a entrega fosse feita naquele endereço;

Na segunda noite, fomos jantar depois do fechamento da feira, e acabei levando minha mala com computador, produtos e recebimentos em dinheiro do dia, pois fomos diretamente ao restaurante. Jantamos, conversamos, pagamos e voltamos para o hotel, e só então lembrei de minha mala com tudo aquilo dentro. Voltei correndo ao local, já acometido de um certo desespero, e encontrei a mala exatamente no mesmo lugar, intocada.

Viver em um lugar onde a honestidade é muito mais regra do que exceção é muito bom. Você chega ao supermercado, informa que o caixa passou um pacote de cereal a mais na sua conta, e ninguém duvida de você; apenas devolvem o seu dinheiro, pois a sua palavra conta. Um grande amigo meu, em viagem recente a Orlando, deixou a carteira e o celular em cima do carro enquanto arrumava as filhas no banco de trás, e saiu dirigindo sem perceber. Dois quilômetros depois, se deu conta de que estava sem o celular e voltou ao hotel para refazer o caminho. Encontrou três carros de polícia parados, dois policiais na rua e uma terceira que veio ao seu encontro.

“Bom dia, policial, acho que perdi meu telefone por aqui; deixei em cima do teto do carro e deve ter caído.”

“Achamos este celular, que deve ter se espatifado na queda. É o do senhor?”

“É este mesmo. Muito obrigado!”

“O senhor não perdeu mais nada junto com o celular?”

“Não que me lembre.”

“Tem certeza?”

Nesse momento ele passa a mão no bolso e percebe que está sem a carteira.

“Pensando bem, não estou achando minha carteira.”

“Quanto dinheiro o senhor tinha nela?”

“Uns US$ 1,8 mil.”

“Nós tentamos pegar todas as notas que voaram quando sua carteira caiu. Por favor, confira se falta alguma coisa.”

Estava tudo lá.

Uma sociedade em que existe o que se chama de “confiança básica” é uma sociedade de benefícios, do ganha-ganha, da sinergia. A falta de confiança básica, como os brasileiros bem sabem, gera dissabores, aborrecimentos, retrabalhos e custos. É a assinatura que precisa ser reconhecida em cartório, é o documento de transferência do carro que precisa ser assinado na frente do escrivão, é a escritura que precisa ser registrada – os cartórios brasileiros consomem um dinheiro inútil, que poderia ser empregado em algo produtivo se não fosse a falta de confiança generalizada em vigência no Brasil. Mas não é só isso: golpes e furtos constantes destroem o pouco de confiança que resta em parte da população, alimentando ainda mais essa estrutura de múltiplas verificações e autenticações.

Se fosse possível somar todos os recursos que vão parar nas mãos do Estado – em todas as suas esferas – com tudo o que é gasto pela ausência de confiança básica, e também com as despesas relativas à infraestrutura precária de nosso país, creio que descobriríamos que mais de 70% de tudo o que produzimos vai parar no lixo. Esse é o custo G, o custo da aplicação sistemática e constante da Lei de Gérson na política e na vida diária. É o custo do egoísmo, da mentira e da desonestidade. É o custo do cada um por si e todos contra todos.

E, para não deixar em branco, este colunista quer registrar que estará torcendo pelo impeachment de Dilma, domingo que vem, mais do que torceu pelo Palmeiras na final da Libertadores de 1999.

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

Amigos na solidão

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 7 de abril de 2016.

amigossolidao“A ignorância é a condição necessária da felicidade dos homens.” (Anatole France)

Política é geralmente o assunto desta coluna, e é também o assunto predominante em meus perfis de redes sociais. Muitas pessoas reclamam que não aguentam mais ouvir falar disso. Será que estão certas? É melhor não falar de política, não se envolver com essa “coisa suja”? Para mim, viver hoje no Brasil, ignorando a situação do país e o governo que pesa suas mãos sobre cada um de nós, equivale a viver num sonho controlado, num simulacro de democracia. No filme Matrix, Neo é chamado a uma decisão que mudaria sua vida para sempre, uma decisão sem volta: movido por uma profunda inquietação com o mundo em que vivia e por um sentimento constante de não pertencimento, ele toma a pílula vermelha, que o leva a descobrir que não passava de um escravo manipulado pelas máquinas, criado e mantido vivo para fornecer aquilo de que elas precisavam.

A pílula vermelha é difícil. Muito tempo atrás, um grande amigo meu me deu um livro, o primeiro volume de História da Filosofia, de Giovanni Reale. Na primeira página, uma breve dedicatória, algo que jamais esqueci: “O conhecimento da realidade traz a verdade. A verdade liberta. O preço da liberdade? A solidão. Boa sorte.”

Ele não poderia estar mais certo. Nos anos seguintes, abri os olhos para a realidade em que eu vivia. Embora sempre achasse que o Brasil tinha inúmeros defeitos, a preferência por não investigar a realidade de um modo crítico me permitia continuar vivendo na “matrix” e nela ser feliz. Com o tempo, a dedicatória profética de meu amigo se cumpriu: as camadas de verniz e tinta que escondiam a realidade foram retiradas, como num minucioso trabalho de restauração, e o que eu vi por baixo delas não foi uma obra de arte maravilhosa, e sim um retrato cru e inóspito do Brasil em que eu vivia; já não era possível aceitar nenhuma informação sem uma dose considerável de análise e estudo. O fato é que sobram pouquíssimas pessoas em sua lista de “gente com opinião a respeitar” depois que você começa a passar todos os discursos pela peneira da razão. É justamente daí que vem a solidão da verdade, pois há uma multidão que prefere viver no sonho, na simulação, no autoengano e na ignorância.

Aonde quero chegar? Simples: o que o Brasil é hoje, o é em grande parte devido a esse apego à felicidade baseada na ignorância. Não há nada mais agradável do que viver num sonho, e o brasileiro é o campeão mundial de viver sonhando. A simpatia e a alegria dos brasileiros, cantadas e entoadas como nossa maior virtude, são fruto de nossa maior fraqueza: a recusa em ver a verdade. Desde frases populares como “Deus é brasileiro” até canções que dizem “Moro num país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza”, o brasileiro nasce, cresce, reproduz-se e morre achando que o seu país é o que há de melhor no mundo, e que viver aqui é ser abençoado, é ser especial, é ser o topo da pirâmide universal de felicidade.

Os últimos anos foram muito atípicos, a meu ver: por um lado, o governo petista se avolumou e tomou uma posição de ataque às liberdades individuais, principalmente a de expressão; por outro, parece que muita gente anda tomando a pílula vermelha e acordando do sonho dirigido. Falo aqui das pessoas que têm partido para o engajamento intelectual, que têm se preparado para o debate de ideias, que têm povoado a internet com bons artigos, que têm escrito livros, que têm lutado por ideais e princípios justos. Muitos que já haviam se conformado com a solidão intelectual permanente passaram a conhecer outros solitários, e mais outro, e mais um ali, e assim por diante. São amigos, mesmo os que não se conhecem pessoalmente, de uma maneira aristotélica: acreditam nas mesmas coisas, buscam as mesmas virtudes, abominam os mesmos males.

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

Não, ponto

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 3 de março de 2016.

Recentemente fui a uma loja de caça e pesca para comprar uma pistola. É uma loja enorme, de uma das maiores redes dos Estados Unidos, e vende desde fogãozinho para acampar até rifles de precisão. Como eu já tinha conversado com um atendente por telefone, e estava indo para fazer a aquisição, resolvi gravar um vídeo para mostrar como se compra uma arma por aqui. Chegando à loja, me dirigi ao departamento de armas e fui atendido por um senhor bastante simpático, um veterano de guerra. Puxei papo, disse que era brasileiro e que tinha escrito um livro contra o desarmamento, e que estava fazendo um vídeo sobre o assunto. Foi aí que lhe perguntei: posso filmá-lo falando sobre isso, sobre a importância das armas para a defesa própria? A resposta dele: não.

naoPara os brasileiros, falar “não” é tão difícil quanto escalar o Everest. Fosse no Brasil e eu teria ouvido algo do tipo “puxa, eu bem que queria, mas sabe como é, pode pegar mal com a gerência” ou “cara, seria um prazer te ajudar, mas eu não posso ir contra as normas da loja”. A nossa simpatia, tão difundida pelo mundo como a maior das qualidades brasileiras, não nos deixa falar um simples “não”. Não só isso, ela também nos faz interpretar um simples “não” como uma declaração de guerra, como uma negação pessoal, ainda que seja a primeira vez que falamos com a pessoa em nossa vida.

Não saber falar e ouvir “nãos” é um tremendo de um problema. É uma carga gigantesca que a pessoa leva nas costas e um convite à mentira. Falar “não” é o princípio primeiro do direito a ser deixado em paz. É com o “não” que evitamos aqueles tão famosos “programas de índio”, é com o “não” que nos livramos daquele colega aproveitador, é com o “não” que deixamos de fazer o que não nos agrada. Fulano, vamos para a festa de 80 anos da tia Zulmira, lá em Pirapora do Fim do Mundo? Não. Sicrano, você topa ser meu fiador? Não. Beltrano, preciso de alguém para me ajudar na mudança lá de casa, é coisa pequena. Não. É claro que não estou defendendo aqui que você se negue a ajudar qualquer um que lhe peça. O que estou defendendo é que você exerça a liberdade de fazê-lo quando bem entender, sem ficar se remoendo por ter magoado alguém.

Quando você fala “não” sem ressalvas, fica desobrigado de mentir. Afinal, o que dizer para seu primo que faz questão da sua presença no aniversário de 15 anos da filha, bem no dia em que você tinha marcado de ver o Super Bowl? Ou você diz um “não” sincero, ou inventa uma mentira, ou faz o que não quer e vai à festa. Parece que não, mas essa prática de mentir para se livrar do “não” acaba levando a um comportamento treinado e socialmente aceito. Quem já não esteve com alguém num bar ou restaurante e ouviu “só não posta no Facebook porque Fulano não pode saber que não estou doente”? Outra consequência bem desagradável desse comportamento é ser pego de surpresa. A pessoa não tem coragem de falar “não”, mas depois tem coragem de não cumprir um prazo acertado, ou de não entregar um trabalho importante. E dá-lhe mentira para justificar.

Não é preciso ser nenhum gênio para perceber que isso corrói a alma. Mentira é um negócio que destrói a integridade, e o fato de sermos um país de muitos mentirosos, a começar pela presidente da República, não diz muita coisa boa sobre nós. Lembremo-nos de que os políticos mentirosos são feitos da mesma matéria-prima que eu e você: de brasileiros. Por isso é tão importante que busquemos nos reformar moralmente, e parar de mentir por qualquer coisa é um bom começo. Que tal trocar o… (clique aqui para acessar o restante do artigo na página do jornal).

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e Mentiram para mim sobre o desarmamento”.