DNA brazuca

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 30 de março de 2017.

sushi

O dia é quarta-feira. Entro num restaurante italiano próximo ao meu escritório. O restaurante faz parte de uma rede e tem algumas lojas na região. Sento-me com minha esposa após sermos muito bem recebidos pela hostess. O lugar é bem arrumado, mas não é chique ou requintado. Na verdade, uma placa na entrada anuncia alguns especiais de almoço por US$ 7, uma pechincha para a realidade local. Após estudarmos o cardápio, ela resolve pedir um torteloni de abóbora com pancetta, e eu decido por um fettuccine com molho de camarão.

Chegados os pratos, dou aquela garfada matrimonial no prato de minha esposa e descubro que ela fez uma escolha muito melhor que a minha. A garçonete passa por nossa mesa dois minutos depois e pergunta se gostamos da comida. Segue-se o diálogo:

“Gostamos, sim. Na verdade, eu gostei bem mais do que ela pediu que do meu prato.”

“Senhor, eu posso trocar o seu prato por um igual ao dela.”

“Sério? Puxa, obrigado, mas não precisa, não.”

“Não quero que saia daqui sem que sua experiência tenha sido a melhor possível. Será um prazer trazer um torteloni para o senhor.”

“Tudo bem, então. Aceito a cortesia.”

Após me deliciar com aquele torteloni cheio de pancetta, saio do restaurante ainda sem acreditar que aquilo tinha acontecido. Estávamos em nossos primeiros meses na América, e mal sabíamos que aquilo aconteceria com frequência em diversos outros lugares. Estávamos descobrindo a beleza de ser cliente numa terra em que cliente é rei.

O dia agora é domingo. A descoberta de que um novo restaurante japonês com DNA brazuca abriu na região nos leva a marcar o almoço de domingo num lugarzinho bastante descolado e muito bem frequentado na cidade vizinha à nossa. O local lembra um micromercado municipal, com uma cervejaria, uma padaria francesa, um café, um açougue mais sofisticado, uma barraca de sucos e lanches naturais, uma chocolateria e uma casa de chá. E ali, no meio de todo esse pessoal gringo, um japonês quase que 100% brasileiro. Dono brasileiro, atendente brasileiro e sushiman brasileiro. Não fosse o cardápio em inglês, poderíamos nos imaginar comendo sushi no Brasil.

Após analisarmos as opções, fazemos o pedido: ceviche e sushis variados, com uma única ressalva: tirar o cream cheese do hot roll porque nosso amigo Eduardo, fresco, não gosta. Com o pedido anotado e pago – o preço, mesmo sendo um restaurante sem serviço de mesa, já deixou todos menos entusiasmados e de carteiras vazias –, seguimos para uma das mesas do mercado e aguardamos a mensagem de texto no celular avisando que os pratos estão prontos para serem retirados. Quase meia hora depois, chega a mensagem. Vou até o balcão, pego os pratos com a ajuda do meu amigo e voltamos à mesa. Provo o ceviche e tenho a impressão de estar comendo limonada de peixe. Eduardo vai com voracidade para cima do hot roll e descobre que está cheio de cream cheese. Voltamos ao balcão, eu imaginando que seria tratado como daquela vez no italiano. Segue-se o diálogo:

“Amigo, o ceviche só tem gosto de limão.”

“É a nossa receita, senhor.”

“Eu não gostei. É possível trocar por alguma outra entrada?”

“Não, senhor. Não posso trocar por outra coisa, a não ser que queira comprar um novo prato.”

“Certo. Deixa pra lá. Outra coisa: pedimos o hot roll sem cream cheese e vocês colocaram cream cheese.”

“Vamos fazer outro. Por favor, me entregue o que veio errado.”

Dois hot rolls com cream cheese depois e completamente insatisfeitos com o serviço, saímos dali para nunca mais voltarmos.

Há um ditado entre os brasileiros imigrantes que explica muito bem a diferença entre os dois casos que contei: tem brasileiro que sai do Brasil, mas não deixa o Brasil sair dele. Em vez de enriquecer a cultura local com as boas características de um brasileiro – simpatia, calor humano, versatilidade, adaptatividade etc. –, o sujeito traz as práticas ruins que tinha em sua terra natal. Fazendo isso, cancela a maior vantagem da imigração, a sinergia de culturas. Entendo que algumas práticas comerciais comuns aqui nos Estados Unidos sejam impraticáveis no Brasil, pois os clientes simplesmente abusariam delas. Dou um exemplo: muitos restaurantes daqui deixam copos menores ao lado das máquinas de refrigerante, para que o cliente possa beber água sem pagar. Ninguém fica fiscalizando para ver se você pegou água ou Sprite, mas as pessoas respeitam e pegam somente água (pelo menos a grande maioria delas). Consegue imaginar isso no Brasil? Agora, se você se dispôs a abrir um negócio em terras estrangeiras, seria pedir muito que os bons costumes locais sejam seguidos?

A mentalidade gersoniana ainda tem muita influência na vida diária de muitos brasileiros. Quem tenta levar vantagem em tudo não consegue enxergar a vida como… (para ler o restante deste artigo, clique aqui)

Notificados Anônimos

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 23 de março de 2017.

Durante grande parte de minha vida, a palavra “notificação” sempre trouxe uma sensação de problema. É impossível não pensar em encrenca ou em dor de cabeça quando se recebe uma notificação judicial ou uma notificação da Receita Federal. Afinal, ninguém é notificado por ter sido um funcionário ou um patrão exemplar ou por ter pago os impostos em dia.

Já atualmente, notificação passou a significar aquela bolinha vermelha nos aplicativos do celular. Se antes era temida, agora passou a ser parte do cotidiano das pessoas. E todo aplicativo quer ter o direito de nos notificar; tanto que, na hora de instalá-los, geralmente somos indagados se queremos ligar as notificações, e a maioria de nós aperta o “sim” de forma quase automática.

De aplicativo em aplicativo, o celular é dominado, e com ele a vida de seu hospedeiro. A tela acende e você vê, mesmo de longe, que chegou um novo e-mail. Ou que alguém comentou seu post no Facebook. Ou que fulano, Sicrano e Beltrano retuitaram a mesma coisa. Ou que seu irmão mandou um vídeo no WhatsApp. Ou que acabou de cair um débito automático na conta bancária. Ou que um amigo curtiu sua foto no Instagram. Ou que seu cartão de crédito ultrapassou o limite pré-estabelecido de gastos no mês. Ou que um dos restaurantes em que você costuma comer está com uma promoção. Ou que a zona quatro do seu alarme disparou. Ou que, ou que, ou que. A lista é quase infinita.

Dois dias atrás, estava conversando com um amigo; ele é cristão, como eu. Estava lhe perguntando se ele já havia passado por aqueles momentos em que parece que Deus se cala por completo. Sua ótima resposta: “já passei, sim, várias vezes, até aprender que era eu que estava fazendo muito barulho para ouvir”. Parece até aquelas frases de autoajuda, mas esse fenômeno é bem real e intimamente ligado à nossa constante inquietação produzida pela carga de notificações à qual somos submetidos. Como muitas pessoas dormem com o celular carregando sobre o criado-mudo, esse frenesi eletrônico não para nem durante a madrugada.

O momento em que conversamos com Deus, em que ouvimos Sua voz, é também o momento em que olhamos para dentro de nós mesmos e fazemos uma reflexão de nossos erros e acertos, de nossos vícios e virtudes. É o momento em que reavaliamos o dia que passou e planejamos o que em breve começará. É como a canção de Gilberto Gil: “Se eu quiser falar com Deus, tenho que ficar a sós, tenho que apagar a luz, tenho que calar a voz”. Na era das notificações e das redes sociais, nosso grande desafio é perceber que algumas conexões impedem outras; e, sabendo disso, conseguir escolher a conexão certa na hora certa. A constatação mais comum, no entanto, é que muitos têm fracassado nessa questão. Você entra em um restaurante, passa os olhos pelas mesas e vê alguns casais de hospedeiros dando total atenção aos seus smartphones parasitas; ou mesmo pais totalmente absortos em suas telinhas enquanto seus filhos os observam sem saber o que fazer (isso quando não estão eles mesmos já com os seus). E o que dizer daquele amigo que não tira os olhos das notificações que pipocam a cada 20 segundos na tela do celular, ao mesmo tempo em que participa de forma meio zumbi da conversa que está acontecendo ao vivo?

Em que momento passamos a entender que aquilo que acontece a quilômetros de distância tem prioridade sobre o que está acontecendo diante de nossos olhos? Eu escrevo estas linhas na condição de alguém em recuperação de um vício. Não consegui achar um Notificados Anônimos para frequentar, mas alguns textos que andei lendo e algumas conversas que tive com minha esposa levantaram bandeiras de sinalização em meu dia a dia. Antes de começar a escrever este artigo, já tinha desligado quase todas as notificações em meu celular. Ficaram apenas as do telefone, das mensagens de texto e dos aplicativos de companhias aéreas. Também tenho cultivado o hábito de só abrir algum aplicativo de e-mail ou rede social depois de ter acordado, meditado, dado bom dia à minha esposa e ter tomado café da manhã com ela e com nosso filhinho. O resultado, depois de duas semanas agindo dessa maneira, é muito positivo: não deixei de atender nenhum cliente, não perdi nenhuma comunicação importante, o apocalipse digital não aconteceu em minha casa e absolutamente ninguém foi prejudicado por causa disso. Afinal, o mundo funcionava perfeitamente antes dos e-mails e dos celulares e, por incrível que pareça, havia vida antes de existirem Google e GPS. As pessoas tiravam extrato bancário no caixa eletrônico, mandavam cartas, pesquisavam em bibliotecas, guiavam-se com mapas impressos e conversavam mais com a boca que com os dedos. E pasmem: elas tinham mais tempo de sobra, ainda… (para ler o restante deste artigo, clique aqui)

Apropriador cultural, com muito orgulho

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 16 de fevereiro de 2017.

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Outro dia eu estava no parquinho aqui perto de casa, cuidando do meu filho e vendo as outras crianças brincarem. Num determinado momento, um garotinho tentou pegar o carrinho das mãos de outro; este segurou o carrinho com força e falou, meio gritado: “It’s mine!” (“É meu!”). Cerca de duas horas depois, já em casa, me deparei com um texto sobre apropriação cultural em um certo blog de esquerda e me lembrei imediatamente das duas crianças. Pensei comigo que os esquerdistas são como crianças mimadas, mas bastou um pouco mais de reflexão para chegar à conclusão de que esquerdistas são ainda mais infantis que crianças mimadas.

A questão da tal apropriação cultural chega a ser ridícula quando analisada de um ponto de vista lógico. Afinal, a não ser que vivêssemos em uma sociedade completamente pura no tocante à imigração – algo como um país completamente cercado por muros, onde ninguém entra e de onde ninguém sai, cujos meios de comunicação com o mundo exterior sejam cortados e proibidos –, a mistura de culturas é um fenômeno que acontece todos os dias, e é na maioria das vezes bidirecional. Essa mistura não acontece somente em épocas de paz, mas também em momentos de guerra e dominação – povos dominados absorvem a cultura dos dominadores e vice-versa. Ninguém está imune a isso.

O caso que andou rodando pela internet foi da moça que usava um turbante para cobrir sua cabeça, calva por causa de um tratamento de câncer, e que foi molestada por alguém que se incomodou com o fato de a moça ser branca e o tal turbante ser um costume supostamente exclusivo de mulheres negras. A coisa tomou proporções por causa da condição de saúde da “apropriadora cultural”, mas, ainda que ela estivesse usando um turbante apenas porque acha bonito, não haveria problema algum do ponto de vista adulto. Adultos sabem que esse tipo de preocupação – se o outro está vestindo, usando ou comendo algo criado por um outro povo, em um outro tempo – não lhes cabe. Adultos sabem que o amanhã lhes cobrará com base em suas prioridades de hoje. Quem tem como prioridade estudar, trabalhar, tomar conta de si mesmo e crescer individualmente tem muito mais chances de uma boa colheita futura que aquele que passa os dias procurando chifre em cabeça de cavalo, como dizia minha mãe quando eu era criança.

Se o raciocínio dos que condenam a apropriação cultural fosse realmente lógico e válido, o mundo entraria em colapso. Muitas fábricas ocidentais teriam de fechar as portas porque suas linhas de produção se baseiam em técnicas japonesas de eficiência e qualidade. Por outro lado, todas as fábricas orientais teriam de fechar as portas porque têm linhas de produção, invenção de Henry Ford, americano. O mundo inteiro, com exceção do México, deveria parar de cultivar e utilizar o milho, já que foi o povo asteca que descobriu a planta, desenvolveu seu cultivo e criou a cultura do seu consumo. Ou, para usar um exemplo bem brasileiro, deveriam ser suspensas todas as feijoadas para brancos, orientais ou mesmo indígenas – somente os afrodescendentes devem ter permissão para desfrutar de tal iguaria. Estes, por sua vez, não poderão mais saborear uma deliciosa lasanha ou… (para ler o restante deste artigo, clique aqui)

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e “Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

É o amor

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 29 de dezembro de 2016.

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Pensei bastante no tema a que dedicaria minha última coluna de 2016. Tentei achar algo realmente relevante no cenário nacional, mas o máximo que encontrei foram discussões infrutíferas sobre a legitimidade ou não de um presidente da República se deleitar com sorvetes importados. No cenário americano, o mesmo do mesmo: democratas e mídia mainstream tentando de todas as maneiras desqualificar Donald Trump, desesperados com as escolhas acertadas e conservadoras que ele tem feito para seu gabinete.

O fato é que eu não queria abordar nenhuma dessas picuinhas políticas nesta última vez em que me dirijo a você, leitor, no ano de 2016. Por isso, depois de meditar um tanto a respeito, resolvi falar daquilo que, em minha opinião, mais faz falta no mundo de hoje: o amor. Antes que você desista de ler o restante deste texto, saiba que não pretendo ser piegas, tampouco sentimentalista nesta reflexão. Caso essa percepção lhe ocorra, será mais por conta da desconexão que esse vocábulo tem com a realidade corrente do que por culpa de minha abordagem do mesmo.

A falta de amor é algo que me incomoda e me machuca diariamente. Tanto em coisas pequenas, como o vizinho que ouve música em volume altíssimo sem considerar as pessoas na casa ao lado, quanto em monstruosidades, como o ataque terrorista de Berlim, o principal problema deste mundo é a falta de amor. E que ninguém ache que a religiosidade é a cura para esse mal: cansei de acompanhar discussões entre católicos e protestantes nas mídias sociais que fariam o próprio Jesus Cristo virar as costas e sair envergonhado. E o que dizer do islamismo? Uma religião cuja forma mais radical é responsável atualmente pela quase totalidade dos ataques terroristas e pelo assassinato de inocentes que não professam a mesma fé, ou seja, que de amor não tem nada.

A falta de amor está nas coisas corriqueiras, no e-mail raivoso de quem não concorda com sua opinião, no sujeito que corta a fila, no atendente que trata mal os clientes, no cônjuge que dá uma patada no outro, no nervosinho que lhe mostra o dedo médio no trânsito, naquela puxada de tapete do colega de trabalho e em cada ato desonesto praticado por quem quer que seja. Longe de querer endossar a tese descabida de muita gente da esquerda, de que alguém que cola numa prova é tão sujo quanto quem recebe milhões em propina, creio que a falta de amor nas pequenas coisas é condição sine qua non para a falta de amor nas grandes. Aliás, este é o grande problema do marxismo e da esquerda em geral: achar que é possível amar as multidões e odiar os indivíduos ao mesmo tempo.

A Bíblia possui muitíssimas passagens em que o amor é o tema principal. Talvez a mais conhecida seja aquela escrita por Paulo, em sua Carta aos Coríntios, aquela que Renato Russo utilizou como letra de uma canção, a mesma que é lida e repetida em casamentos ao redor de todo o globo: “Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver amor, serei como o sino que ressoa ou como o prato que retine. Ainda que eu tenha o dom de profecia e saiba todos os mistérios e todo o conhecimento, e tenha uma fé capaz de mover montanhas, mas não tiver amor, nada serei. Ainda que eu dê aos pobres tudo o que possuo e entregue o meu corpo para ser queimado, mas não tiver amor, nada disso me valerá. O amor é paciente, o amor é bondoso. Não inveja, não se vangloria, não se orgulha. Não maltrata, não procura seus interesses, não se ira facilmente, não guarda rancor. O amor não se alegra com a injustiça, mas se alegra com a verdade. Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta”.

O texto é magistral. É claro como água: amigão, você pode fazer o que quiser, pode parecer legal, fingir ser honesto, fazer pose de justo e se declarar o defensor dos pobres e oprimidos; se não tiver amor, não vale nada. Você pode ser petista, tucano, conservador, libertário, progressista, bolsonarete, olavete, religioso, ateu, palmeirense, corintiano, branco, preto, amarelo, índio, gay, hétero, casado, solteiro, rico, pobre, ignorante ou letrado; se não tiver amor, não vale nada. É na hora de verdadeiramente amar que caem todas as máscaras e que ficamos completamente nus. O problema é que ninguém mais parece se importar com essa nudez, e ser cruel e desagradável tem passado de ofensivo a desejável.

Eu disse que você poderia achar este artigo piegas, porque no fundo ele tem uma só conclusão: a solução para tudo é o amor. Falando assim, pode até parecer que eu sou algum tipo de hippie pós-moderno, mas o fato é que se essa não fosse a solução, ela não teria sido adotada por Deus. Quando comemoramos o Natal, no domingo passado, comemoramos o nascimento de Jesus Cristo, ou seja, do Deus que, por amor, se encarnou e morreu pela humanidade. Esse amor nos está disponível, ao alcance de qualquer ser humano. Nossa natureza difícil e egoísta nos afasta, muitas vezes, de amar. Mas ela não pode servir de desculpa eterna. Se há uma coisa que posso desejar para 2017 é que você ame muito mais do que amou neste ano. Se fizer isso, certamente terá dias melhores. Feliz 2017!

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e “Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

A novilíngua no jornalismo brasileiro

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 22 de dezembro de 2016.

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Em minha modesta opinião, uma das grandes obras de arte do século 20 foi 1984, de George Orwell. O autor foi profético e visionário em sua descrição dos mecanismos autoritários usados pelo governo da fictícia Oceania – é por demasiado fácil encontrar os paralelos em nossos dias, espalhados por todo o mundo. Dentre esses mecanismos, um dos mais poderosos era a novilíngua, uma linguagem controlada pelo governo, destinada a limitar a liberdade de pensamento e expressão e a conter ameaças ao regime. A motivação e o objetivo da novilíngua ficam claros quando analisamos alguns de seus verbetes. “Crimideia”, por exemplo, define o ato de ter e divulgar pensamentos ilegais. Já alguém que “duplipensa” é a pessoa que sabe que está errada, mas se convence de que está certa.

O Brasil, conforme mencionei em meu artigo da semana passada, teve seu aparato educacional e jornalístico dominado por marxistas e gramscistas, gente usualmente bem versada na manipulação linguística. Esse fenômeno, aliás, não é exclusivo do Brasil. Nos Estados Unidos, as universidades estão fortemente aparelhadas com catedráticos marxistas, que há décadas utilizam suas cadeiras para subverter a juventude americana. Não é surpresa nenhuma, portanto, que já vivamos no tempo em que as crimideias são punidas com execração pública, ameaças de morte e terrorismo psicológico. E o que dizer do duplipensar? Só o fato de termos sido governados durante oito anos por um homem que se dizia defensor dos pobres ao mesmo tempo em que vivia como um milionário já diz muito sobre como esse conceito está presente em nosso cotidiano.

Mas, é óbvio, a novilíngua se apresenta de forma mais clara e escancarada na imprensa. Pautar e moldar a divulgação de notícias é um dos pilares de qualquer governo autoritário, juntamente com o desarmamento da população e o domínio das forças policiais. Nessa perspectiva, dominar a mídia é geralmente o primeiro passo do processo, pois facilita que futuras ações autoritárias sejam impostas debaixo de uma falsa sensação de democracia. A esquerda é, por natureza, autoritária – não há como existir um Estado do tamanho que querem os marxistas, socialistas, fabianos, comunistas e progressistas sem que não haja autoritarismo. E a melhor maneira de convencer as pessoas de que elas precisam desse Estado gigantesco é evitando que elas pensem, argumentem e discutam. Em outras palavras, novilíngua nelas.

Nesta semana, o mundo se deparou com dois atentados terroristas perpetrados por muçulmanos radicais. A maior parte de nossa mídia, no entanto, preferiu usar a novilíngua para tentar manter as pessoas numa realidade alternativa. Isso fica muito claro quando observamos as manchetes sobre o atentado da Alemanha. A maioria dos portais de notícias usou como manchete variantes do texto “caminhão invade feira natalina e atropela dezenas em Berlim”, como se caminhões tivessem vida própria e saíssem atropelando pessoas por aí. Essa é a mesma técnica usada há tempos para descrever incidentes com armas de fogo – armas matam, armas disparam etc. –, como já mostrei em meu livro Mentiram para mim sobre o desarmamento. Depois, forçados a noticiar algo sobre quem estava ao volante, preferiram usar disfarces linguísticos do tipo “suposto atentado terrorista” e “supostamente ligado a grupos terroristas” em vez de retratar a verdade com clareza.

O mais interessante é que esse tipo de comportamento é seletivo: se a suspeita é de que um muçulmano está por trás de alguma tragédia, novilíngua; se o suspeito for ou parecer cristão, fatos crus e diretos. Foi assim há pouco mais de cinco anos, nos atentados de 22 de julho na Noruega. O responsável confesso, Anders Breivik, foi descrito em todas as reportagens e artigos como “terrorista cristão radical de extrema-direita”. Para deixar a comparação ainda mais interessante, basta um acesso aos arquivos digitais dos três maiores portais de notícias do Brasil, buscando as matérias sobre o ataque ao jornalistas do Charlie Hebdo, em Paris. Em todas elas, os terroristas muçulmanos radicais são tratados como “agressores” ou “extremistas” apenas – nada de grandes nomes compostos que deixem clara a religião ou a ideologia política dos mesmos.

A manipulação da verdade é pior que a simples mentira. Mentiras são facilmente identificáveis; verdades manipuladas e processadas passam despercebidas aos olhos da maioria das pessoas, e a linguagem com que são escritas é incorporada paulatinamente pela população. Quando Thomas Jefferson disse que “se me coubesse decidir entre ter um governo sem jornais ou jornais sem um governo, não hesitaria nem um momento em optar pela última”, ele tinha em mente o grande poder libertador de uma imprensa verdadeira. Gente sem escrúpulos e sem caráter vem usando esse poder para enfraquecer as bases e apodrecer as práticas do jornalismo. Cabe a nós fazer uso do mesmo poder para reiterar suas virtudes e combater as manipulações. É a única maneira de fomentar a liberdade.

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e “Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

Ignorância abençoada

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 18 de agosto de 2016.

Estava relendo uns artigos que escrevi tempos atrás e, quando cheguei neste, achei que merecia ser compartilhado com vocês nesta coluna. Era minha opinião quando escrevi, continua sendo hoje.

O final do século 20 nos trouxe uma das mais poderosas ferramentas de disseminação de conhecimento já vistas pelo homem, a internet. Desde o primeiro e-mail que enviei, quando ainda estava na faculdade, até hoje, passaram-se apenas 20 anos, mas a quantidade de avanços tecnológicos na área de telecomunicações foi imensa, permitindo que atualmente qualquer pessoa que possua um celular com plano de dados acesse desde o último vídeo do funkeiro do momento até as obras da maior biblioteca do mundo, a Biblioteca do Congresso, nos Estados Unidos. E é justamente esse amplo acesso à informação, jamais presente na história do homem em épocas anteriores, que se apresenta a nós como um paradoxo: mesmo diante de um oceano quase infinito de livros, dados, reportagens, aulas, poemas, contos, canções etc., todos a alguns toques de dedos de distância, muitas pessoas se aprofundaram na ignorância, num movimento completamente oposto ao que o senso comum nos levaria a esperar.

Existe um ditado popular na língua inglesa que diz “A ignorância é uma bênção”. Esse ditado nunca pareceu tão verdadeiro como hoje. Parece que essa massa de dados e informações atingiu o homem comum como um grande peso sobre seu peito. Talvez uma analogia mais clara seja a de uma pessoa que está morrendo de sede e é jogada em um grande tanque de água, mas sem saber nadar. Assim como a água é o desejo físico do corpo sedento, a informação é o desejo da mente submetida à aridez de ideias. Mas assim como o corpo não treinado para nadar se afoga na abundância da água, também se afoga a mente não treinada na abundância de informações. E ali, circundada por algo que não pode vencer, ou que não acredita que pode vencer, a pessoa se agarra a qualquer coisa que a mantenha flutuando, e constrói sua ilha de ignorância. Afinal, a ignorância só pode ser uma bênção se ela for de alguma forma salvadora.

Mas há mais. Essa ilha não é deserta, de forma alguma. Uma das grandes atrações da ignorância é seu caráter inclusivo: sempre há espaço para mais gente, e lá nunca se está sozinho. Muitas pessoas que conseguem romper barreiras e ascender intelectualmente experimentam em seguida um sentimento de solidão. Acabam descobrindo que aquele ilha era na verdade um continente populoso, e que a viagem agora é através de lugares bem mais ermos. A busca pelo conhecimento acaba se tornando uma busca pela verdade, e a busca pela verdade se dá em caminhos cada vez mais solitários. Cada nova descoberta, cada esclarecimento que penetra a mente e depois a alma, traz consigo um pouco mais dessa solidão mental. E por mais que alguém nessa jornada queira se manter próximo a todos os que sempre estiveram ao seu lado, essa proximidade se torna cada vez mais predominantemente física. E então é chegado o ponto em que todo viajante intelectual já enfrentou ou irá enfrentar, quando aquela pergunta vem à mente: essa busca vale a pena? É realmente melhor buscar o conhecimento e a verdade, e fazer parte de um grupo cada vez menor? Não seria melhor simplesmente aceitar a bênção universal da ignorância e viver feliz com as coisas mais simples da vida?

Tenho uma notícia boa e uma ruim para você que já fez essas perguntas. Vamos primeiro à ruim: não há como voltar atrás. É como o cego que passa a enxergar e não consegue mais viver de olhos fechados. Mas não há porque se desesperar. A notícia boa é que você foi feito para isso. Nossa diferença para os outros animais é a capacidade de questionarmos nossa própria existência, e com isso mudarmos tudo ao nosso redor. Criamos coisas belíssimas em nossa breve história, tesouros radiantes que conseguem refletir o toque de divindade que nos foi dado em nossa criação. A humanidade tem muito de que se envergonhar, não há dúvida, mas há tanto mais para se orgulhar, na arte, na ciência, na filosofia. E o que foi produzido de melhor por aqueles que hoje chamamos de gênios, só o foi por uma simples razão: eles se dispuseram a abandonar o conforto da ignorância e se aventuraram pelo desafio solitário de conhecer, de superar, de exceder, de fazer jus à condição de ser humano.

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

Os jogos da individualidade

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 4 de agosto de 2016.

Nesta sexta-feira (5) começam os Jogos Olímpicos, a celebração mundial do esporte e da competitividade do ser humano. Quem sintonizar o televisor na transmissão do evento certamente não verá cachorros apostando corrida ou cangurus competindo para ver quem pula mais alto; competir pelo simples prazer de competir é algo humano, assim como o é superar os próprios limites pelo simples prazer de superá-los.

Ser um esportista profissional, ou melhor ainda, ser um atleta olímpico, não é “bolinho”, como diz um amigo meu de Piracicaba. Certo tempo atrás eu li uma entrevista com Oscar Schmidt, o maior nome na história do basquete brasileiro, e nela o jogador dizia que sua vida era marcada por uma característica constante: a dor. Outros atletas de alto nível já deram testemunho do mesmo. É o preço cobrado por anos de submissão do corpo a treinos pesadíssimos e extremamente exigentes; é o preço do sucesso e da vitória, que não admitem empréstimos ou transferências de dívida.

Em tempos onde as pessoas se consideram “no direito” de tantas coisas – tempos onde professores defendem que não se corrija os alunos em sala de aula para não constrangê-los, onde um criminoso é tratado com leniência porque nasceu em uma favela, ou onde a cor ou a orientação sexual de uma pessoa aumentam suas chances oficiais de frequentar uma faculdade ou de exercer um cargo público –, tempos sombrios para o sucesso individual, as Olimpíadas são um lembrete quadrienal de que uma pessoa pode tomar as rédeas de sua vida e perseguir a vitória apesar de todas as dificuldades ao seu redor.

A beleza do esporte não está na esperança de confraternização entre os povos; esta é apenas uma mensagem externa à realidade dos atletas, que chegaram ao Rio de Janeiro para competir e vencer. E, para isso, cada um deles conta apenas consigo mesmo ou, no máximo, com os companheiros de equipe. No esporte, pelo menos até o momento, não há cotas, não há direito de ser feliz, não há mãozinha na cabeça. As regras são as mesmas e valem para todos: você tem o direito a participar, é proibido de usar substâncias que lhe deem uma vantagem injusta sobre seus competidores e, caso seja melhor que todos os outros, receberá o reconhecimento público e mundial por isso. É o individualismo em todo o seu esplendor e glória.

O povo brasileiro, atualmente tão acostumado a ser “cuidado” pelo Estado, vivendo sob uma Constituição que garante direitos absurdos e impraticáveis, pode fazer bom proveito do próximo mês e usar o exemplo olímpico para mudar seu modo de pensar. Muitos atletas que receberão medalhas nestes jogos são de origem humilde ou de países pobres; um outro tanto vêm de famílias desestruturadas, e alguns certamente sofreram bullying em seu tempo de escola. São, por assim dizer, representantes perfeitos de muitas das “minorias” que hoje demandam direitos e privilégios. No entanto, graças somente à força que um indivíduo possui dentro de si, e não a políticas coletivistas, nada disso os impedirá de chegar ao topo em suas modalidades.

Que estes não sejam os jogos da diversidade; que sejam os jogos da individualidade. Que o vitimismo pereça sob o metal das medalhas, entregues aos verdadeiros vencedores, aqueles que não vencem apenas seus competidores, mas a si mesmos. E que, em vez do vírus zika, esse espírito de superação seja o verdadeiro contágio na Rio 2016.

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e Mentiram para mim sobre o desarmamento”.