República Cleptocrática do Brasil

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 25 de maio de 2017.

Joesley

Tempos atrás eu legendei um documentário do Netflix que falava sobre a mentira. O tema principal era a predisposição humana a mentir e os fatores e ferramentas à disposição da sociedade para refrear esse comportamento nocivo. O documentário, (Dis)Honesty: The Truth About Lies, apresenta diversas histórias de pessoas que, num determinado momento de suas vidas, resolveram optar pela mentira, e posteriormente tiveram de sofrer suas consequências. Todos os casos se deram nos Estados Unidos.

Desde uma mãe que mente sobre seu endereço na matrícula escolar de sua filha e vai presa por adulterar um registro público até o juiz da NBA que é preso pelo FBI por fornecer informações confidenciais para apostadores, o que se vê em cada história é o duro enfrentamento das consequências da mentira, principalmente quando ela configura crime. Em todos os casos, o resultado é unânime: após punidos rigorosamente, os mentirosos se declaram arrependidos e dispostos a nunca mais repetir o erro.

Quando a imprensa noticiou o acordo de delação feito pelos irmãos Joesley e Wesley, não pude deixar de pensar que nosso país é, de fato, uma piada; uma piada imoral e de mau gosto. A leniência com os criminosos – desde traficantes e assassinos até políticos e empresários corruptos – tornou-se o padrão de conduta do sistema judiciário brasileiro, catapultando nossos índices de criminalidade e os escândalos de corrupção para patamares inéditos na história mundial moderna. Quando dizem que o Brasil se tornou uma cleptocracia, não há exagero.

Qual é a mensagem que o povo brasileiro recebeu quando da divulgação das condições do acordo com os donos da JBS? Qual criminoso, neste lado da galáxia em que vivemos, conseguiu a façanha de sair ileso, mudar para Nova York, manter a quase totalidade de sua riqueza e continuar a tocar seus negócios mesmo depois de ter confessado subornar todos os agentes políticos e governamentais que cruzaram o seu caminho? As respostas são fáceis. À primeira pergunta: no Brasil, o crime compensa, sempre. À segunda: nenhum.

Somos uma nação moribunda, onde os vícios se tornaram virtude e as virtudes foram soterradas sob uma montanha de crimes. Estamos doentes em todos os níveis. Recentemente, uma família de conhecidos teve o infortúnio de ver o filho preso por tráfico de drogas. Ao chegarem à delegacia, o delegado já os esperava com uma proposta de suborno. Tudo acertado, o garoto saiu sem nem sequer ser fichado. Mais uma vitória para o crime. Pai, mãe, filho e delegado ajudaram a movimentar essa máquina gigantesca de impunidade e corrupção que nunca para de girar.

Libertam-se garotos por centenas ou milhares de reais, libertam-se Joesleys e Wesleys por milhões ou bilhões; ninguém precisa temer a cadeia. Políticos são condenados e a única punição que recebem é perder temporariamente seus mandatos, quando muito. A Receita Federal é capaz de multar uma senhora que esqueceu de declarar um único recibo médico, mas não consegue rastrear ilegalidades na casa dos bilhões. Os Tribunais de Contas parecem existir apenas para “inglês ver”, e mesmo quando apontam irregularidades não há consequências mais graves para quem as cometeu. O Judiciário possibilita tantas apelações e recursos que os casos com trânsito em julgado são uma raridade. Presidiários saem de suas celas para passar o dia das mães e o Natal em casa, podem se satisfazer sexualmente nas visitas íntimas, e raramente cumprem a pena toda. Mesmo assassinos cruéis, como Suzane von Richthofen, ganham liberdade após poucos anos de encarceramento.

A pergunta de um milhão de dólares é: há solução para o Brasil? É claro que… (para ler o restante deste artigo, clique aqui).

Redistribuindo a pobreza

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 11 de maio de 2017.

pobreza

Qual é a melhor solução para a pobreza? Na cartilha da esquerda, a resposta é sempre igual: redistribuir renda. Só que para redistribuir algo é necessário primeiramente criar esse algo – a não ser que você redistribua uma coisa que cai do céu gratuita e livremente. O Estado nunca cria riqueza; o Estado as consome com as bocas vorazes da burocracia, da ineficiência e da ilicitude. Portanto, a criação de riqueza é função da sociedade – mais especificamente, dos empreendedores. Quanto mais riqueza for criada, mais riqueza será despejada nas interações entre indivíduos e empresas e, por conseguinte, mais riqueza chegará às mãos do cidadão comum.

Brasileiros, quando em primeira viagem aos Estados Unidos, geralmente se impressionam com as ruas bem cuidadas, com as coisas que funcionam, com a segurança, com o tamanho das lojas e dos carros, entre outras coisas imediatamente notáveis. Mas é somente depois de um certo tempo vivendo aqui que você começa a perceber diferenças mais brutais e de maior influência na vida diária das pessoas. Uma ótima maneira de se visualizar certos tipos de diferenças é comparando uma cidade dos EUA com uma de população equivalente do Brasil. Mesmo usando uma cidade da rica região do interior de São Paulo, por exemplo (dessas que costumam figurar entre as melhores cidades para se viver no Brasil), o resultado é impressionante. Pegue-se um par qualquer de cidades de 50 mil habitantes, uma no Brasil e uma nos Estados Unidos, e a quantidade de supermercados, concessionárias automotivas, lojas de material de construção, clínicas médicas, restaurantes, lanchonetes, centros comerciais, pet shops, shopping centers etc. será muito maior na cidade americana que na brasileira.

A comparação fica ainda mais fácil de se entender quando olhamos a riqueza bruta produzida em cada um dos países, medida pelo Produto Interno Bruto, o famoso PIB. O PIB do Brasil em 2016 foi de US$ 1,8 trilhão. O PIB americano passou de US$ 18,5 trilhões; ou seja, dez vezes mais riqueza produzida para uma população apenas uma vez e meia maior. O Canadá, com apenas um quinto da população brasileira, tem um PIB bem próximo ao do Brasil; ou seja, cada canadense, na média, coloca as mãos em cinco vezes mais riqueza que um brasileiro. Duas grandes cidades do mundo têm PIB quase igual ao do Brasil: Nova York e Tóquio. Ou seja, tudo o que produzimos de riqueza em um ano inteiro, no Brasil inteiro, é pouco mais que tudo o que apenas uma dessas cidades produz.

Redistribuir renda é uma grande mentira de todo regime socialista ou comunista. O caso da Venezuela de hoje é um ótimo exemplo. O país, riquíssimo em reservas de petróleo, sofre com a miséria e a fome de sua população porque os governos de Chávez e Maduro destruíram a capacidade produtiva do país. Venezuelanos têm fugido para as nações vizinhas, inclusive para o Brasil – muitos estão morando debaixo de viadutos em Manaus, aliviados por terem fugido de uma miséria que a grande maioria de nós nem sequer imagina como seja. O governo venezuelano, corrupto e inchado como a maioria dos governos da região, não consegue transformar o mar de petróleo sob seus pés em riquezas para a nação – muito pelo contrário. O final da história é sempre o mesmo em qualquer lugar onde algum tipo de socialismo foi implementado: redistribui-se somente a pobreza.

O Brasil escapou por pouco de um destino semelhante ao do vizinho quando Dilma Rousseff foi defenestrada do Palácio do Planalto. O problema é que a mentalidade da falsa redistribuição de renda continua em alta no país. Não há reformas legislativas que facilitem a vida dos empresários e de todos os que realmente produzem riquezas, não há nenhuma menção de desoneração tributária, não há iniciativas governamentais para tirar as amarras da economia brasileira. As pouquíssimas que existem, como a recente tentativa de reformar levemente a legislação trabalhista, são combatidas como se… (para ler o restante deste artigo, clique aqui).

DNA brazuca

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 30 de março de 2017.

sushi

O dia é quarta-feira. Entro num restaurante italiano próximo ao meu escritório. O restaurante faz parte de uma rede e tem algumas lojas na região. Sento-me com minha esposa após sermos muito bem recebidos pela hostess. O lugar é bem arrumado, mas não é chique ou requintado. Na verdade, uma placa na entrada anuncia alguns especiais de almoço por US$ 7, uma pechincha para a realidade local. Após estudarmos o cardápio, ela resolve pedir um torteloni de abóbora com pancetta, e eu decido por um fettuccine com molho de camarão.

Chegados os pratos, dou aquela garfada matrimonial no prato de minha esposa e descubro que ela fez uma escolha muito melhor que a minha. A garçonete passa por nossa mesa dois minutos depois e pergunta se gostamos da comida. Segue-se o diálogo:

“Gostamos, sim. Na verdade, eu gostei bem mais do que ela pediu que do meu prato.”

“Senhor, eu posso trocar o seu prato por um igual ao dela.”

“Sério? Puxa, obrigado, mas não precisa, não.”

“Não quero que saia daqui sem que sua experiência tenha sido a melhor possível. Será um prazer trazer um torteloni para o senhor.”

“Tudo bem, então. Aceito a cortesia.”

Após me deliciar com aquele torteloni cheio de pancetta, saio do restaurante ainda sem acreditar que aquilo tinha acontecido. Estávamos em nossos primeiros meses na América, e mal sabíamos que aquilo aconteceria com frequência em diversos outros lugares. Estávamos descobrindo a beleza de ser cliente numa terra em que cliente é rei.

O dia agora é domingo. A descoberta de que um novo restaurante japonês com DNA brazuca abriu na região nos leva a marcar o almoço de domingo num lugarzinho bastante descolado e muito bem frequentado na cidade vizinha à nossa. O local lembra um micromercado municipal, com uma cervejaria, uma padaria francesa, um café, um açougue mais sofisticado, uma barraca de sucos e lanches naturais, uma chocolateria e uma casa de chá. E ali, no meio de todo esse pessoal gringo, um japonês quase que 100% brasileiro. Dono brasileiro, atendente brasileiro e sushiman brasileiro. Não fosse o cardápio em inglês, poderíamos nos imaginar comendo sushi no Brasil.

Após analisarmos as opções, fazemos o pedido: ceviche e sushis variados, com uma única ressalva: tirar o cream cheese do hot roll porque nosso amigo Eduardo, fresco, não gosta. Com o pedido anotado e pago – o preço, mesmo sendo um restaurante sem serviço de mesa, já deixou todos menos entusiasmados e de carteiras vazias –, seguimos para uma das mesas do mercado e aguardamos a mensagem de texto no celular avisando que os pratos estão prontos para serem retirados. Quase meia hora depois, chega a mensagem. Vou até o balcão, pego os pratos com a ajuda do meu amigo e voltamos à mesa. Provo o ceviche e tenho a impressão de estar comendo limonada de peixe. Eduardo vai com voracidade para cima do hot roll e descobre que está cheio de cream cheese. Voltamos ao balcão, eu imaginando que seria tratado como daquela vez no italiano. Segue-se o diálogo:

“Amigo, o ceviche só tem gosto de limão.”

“É a nossa receita, senhor.”

“Eu não gostei. É possível trocar por alguma outra entrada?”

“Não, senhor. Não posso trocar por outra coisa, a não ser que queira comprar um novo prato.”

“Certo. Deixa pra lá. Outra coisa: pedimos o hot roll sem cream cheese e vocês colocaram cream cheese.”

“Vamos fazer outro. Por favor, me entregue o que veio errado.”

Dois hot rolls com cream cheese depois e completamente insatisfeitos com o serviço, saímos dali para nunca mais voltarmos.

Há um ditado entre os brasileiros imigrantes que explica muito bem a diferença entre os dois casos que contei: tem brasileiro que sai do Brasil, mas não deixa o Brasil sair dele. Em vez de enriquecer a cultura local com as boas características de um brasileiro – simpatia, calor humano, versatilidade, adaptatividade etc. –, o sujeito traz as práticas ruins que tinha em sua terra natal. Fazendo isso, cancela a maior vantagem da imigração, a sinergia de culturas. Entendo que algumas práticas comerciais comuns aqui nos Estados Unidos sejam impraticáveis no Brasil, pois os clientes simplesmente abusariam delas. Dou um exemplo: muitos restaurantes daqui deixam copos menores ao lado das máquinas de refrigerante, para que o cliente possa beber água sem pagar. Ninguém fica fiscalizando para ver se você pegou água ou Sprite, mas as pessoas respeitam e pegam somente água (pelo menos a grande maioria delas). Consegue imaginar isso no Brasil? Agora, se você se dispôs a abrir um negócio em terras estrangeiras, seria pedir muito que os bons costumes locais sejam seguidos?

A mentalidade gersoniana ainda tem muita influência na vida diária de muitos brasileiros. Quem tenta levar vantagem em tudo não consegue enxergar a vida como… (para ler o restante deste artigo, clique aqui)

Je suis Dilma

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 16 de março de 2017.

000_FP4IZ

Eu moro há três anos nos Estados Unidos e falo inglês com fluência. Aliás, a língua inglesa sempre foi uma de minhas paixões, tanto que fui franqueado de uma rede de ensino de idiomas por quase dez anos no Brasil. Além disso, trabalhei em várias multinacionais americanas, onde volta e meia tinha de desfiar o idioma saxão em telefonemas e reuniões. E eis que, mesmo com esse histórico, ainda não me sentiria à vontade para dar uma entrevista em inglês. Seria certamente algo que me tiraria o sono na noite anterior.

Mas com Dilma Rousseff tudo é diferente. A ex-presidente, apesar de sua “heterodoxia” ao se comunicar em sua língua-mãe, resolveu que seria uma boa ideia conceder entrevista em francês durante sua recente viagem à Suíça. O resultado não poderia ter sido mais previsível: Dilma envergonhou o Brasil novamente. Se já andava na corda bamba ao discursar em português, misturando cachorros ocultos com crianças, estocando vento e fazendo poesia moderna com pasta de dente, em francês ela cruzou fronteiras. Nem mesmo os grandes comediantes que passaram por este planeta conseguiriam superar o esquete da dentuça francófona.

Ser ridículo é uma decisão pessoal, sempre. O problema de Dilma é, por algum capricho do divino, ter conseguido um dia ser eleita e reeleita presidente de um país com mais de 200 milhões de habitantes. Ou seja, ela faz parte de um grupo seleto de pessoas – e que fique claro que, no Brasil, ele é seleto apenas por seu diminuto tamanho e não pela qualidade de seus integrantes – e essa membresia, por assim dizer, requer uma etiqueta específica, completamente ignorada por ela. Dilma não só pisoteou o idioma alheio; ela o fez para transmitir uma mensagem inadequada e mentirosa, enlameando de vez sua já manchada história. Seguindo a linha “Napoleão de hospício”, a ex-presidente usou seu tempo de entrevista para denunciar um complô antidemocrático em curso no Brasil, cujo objetivo principal seria impedir a candidatura de Lula à Presidência em 2018. Tivesse mais alguns minutos e conhecesse mais algumas palavras do francês, Dilma poderia ter abordado a questão dos alienígenas que já vivem entre nós ou defendido que a Terra é, na verdade, plana. Sua opção foi, claramente, pelo maior dos três absurdos.

Ironicamente, poucos dias depois do vexame na Suíça, Dilma e Lula apareceram juntos em mais uma notícia: a divulgação da lista de Janot. Os dois ex-presidentes constam neste grupo não tão seleto de criminosos em potencial, ao lado de outros estrupícios como Aécio Neves, Aloysio Nunes, Antônio Palocci e Guido Mantega. A famigerada lista expõe o horror que é a política brasileira e nos deixa com a sensação de que estamos andando em círculos, em que o próximo escândalo é apenas uma versão mais recente da falcatrua anterior. Seu autor acertou em cheio quando disse que a democracia foi tomada pela corrupção no Brasil. Meu temor é que essa realidade seja irreversível em virtude de a corrupção estar tão alastrada e amalgamada na estrutura de… (para ler o restante deste artigo, clique aqui)

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e “Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

Saudades dos revolucionários

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 2 de março de 2017.

FIDEL 4_ AFP.jpg

Uma das coisas mais engraçadas dos últimos tempos no mundo virtual são os memes “raiz/Nutella”. Para quem não viu, são apresentadas duas épocas de uma mesma profissão e suas diferenças marcantes, geralmente embaixo de fotos que estereotipam os dois lados. Um dos que mais gostei foi o “vendedor raiz” versus “vendedor Nutella”. O vendedor raiz, com foto de cabelo e bigodinho típicos dos anos 80, andava de Uno Mille, ficava em hotel de 35 mangos, fazia happy hour das 18 às 4 horas, saía com as secretárias e com as clientes, jogava sinuca, fumava Derby, tomava Brahma e vendia muito. Já o vendedor Nutella anda de HB20, só fica em hotel com academia, almoça salada com grelhado, só sai com cliente a negócios, bebe Heineken ou Corona, não fuma de jeito nenhum e não vende quase nada. Essas tiradas de bom humor exemplificam com muita clareza a diferença entre as gerações dos que já estão chegando aos 50 e a dos que estão atravessando os 20.

Na política também é possível fazer um meme raiz/Nutella. Eu não era nascido quando a esquerda revolucionária tentava transformar o Brasil no “paraíso comunista” do Hemisfério Sul. Mesmo assim, posso dizer: bons tempos aqueles de esquerda raiz. Eram tempos em que eles se assumiam pelo que eram – gostavam de ser chamados de comunistas, tinham orgulho de defender o comunismo, cantavam a Internacional com lágrimas de emoção e acreditavam que a utopia de Marx transformaria o mundo-cão do capitalismo (pelo menos os mais ingênuos pensavam assim). Por amor ao comunismo eles plantavam bombas, sequestravam autoridades, faziam reuniões secretas e planejavam a tomada revolucionária do poder. Ainda que não fossem o suprassumo da coragem – a maioria debandou como um bando de baratas diante da resposta militar em 1964 –, qualquer tentativa de comparação com a esquerda Nutella de hoje é simplesmente ridícula.

Estamos em 2017, e a nova geração de comunistas – os que preferem ser chamados de progressistas – está tão distante da esquerda raiz quando o oriente do ocidente. A galerinha progressista não acredita mais na revolução armada. Na verdade, a maioria deles nem sequer sabe como usar uma simples pistola. Nem o bom e velho coquetel Molotov faz parte do arsenal desse pessoal, que prefere mostrar as nádegas desnudas em forma de protesto. Os jovens universitários, que antes compunham canções de protesto e dominavam os grêmios estudantis, agora invadem reitorias para fumar maconha e fazer sexo livre, sempre com a exigência de que a polícia repressora não os incomode enquanto engajados nessas atividades “revolucionárias”. Em vez de sequestrarem autoridades, os progressistas de hoje preferem quebrar o tabu e usar o banheiro do sexo oposto, ou então se engajam na difamação de oponentes em redes sociais. E, quando recebem alguma resposta à altura, preferem bloquear qualquer um que discorde de suas posições, pois não têm a capacidade e nem a paciência de debater. A esquerda Nutella não lê, não estuda, não escreve bem, não discute e não costuma raciocinar. E, ainda assim, escolhe ser mais radical que a esquerda raiz em quase todos os pontos de sua agenda ideológica.

Que fique claro que não estou desejando a volta de atentados ou sequestros. Estou somente tentando mostrar a nossa triste realidade. A nova geração de esquerdistas politicamente engajados é uma piada de mau gosto. As pautas… (para ler o restante deste artigo, clique aqui)

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e “Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

Luxo para bandidos

Sou paulista e, mesmo morando nos EUA, ainda tenho minha empresa no Brasil e pago impostos para o governo estadual. Recentemente, conversando com um amigo que é policial militar na cidade de São Paulo, fiquei sabendo de uma coisa bastante perturbadora. Meu amigo me contou que o dinheiro dos nossos impostos é usado para pagar salários de mais de R$ 18 mil para advogados cuja única atribuição é defender criminosos. Ao mesmo tempo, se um policial atira e fere ou mata um criminoso, ele tem que pagar o advogado de defesa do próprio bolso, mesmo ganhando o salário magro que nossas forças policiais recebem, sejam civis ou militares. Ou seja, eu e você pagamos para que criminosos recebam a melhor defesa criminal possível enquanto policiais fazem vaquinhas para ajudar companheiros que estão sendo processados pelo mesmo Estado que mal lhes paga para defender a população.

Como não gosto de escrever nada sem fundamento, fui conversar com uma amiga que trabalhou na defensoria pública por um bom tempo. Pedi que ela me explicasse o que acontecia lá dentro e por que ela havia pedido transferência para outro departamento. A resposta foi ainda mais perturbadora. De acordo com ela, os defensores públicos são instruídos a utilizar toda e qualquer mentira necessária para livrar os criminosos da cadeia, incluindo inventar que o acusado foi violentado e coagido pelos policiais que o prenderam. Ela também me disse que a chefia inteira da defensoria é composta por aquele tipo de gente que defende os direitos humanos dos bandidos antes de defender o direito à vida dos cidadãos. Por último, me disse que saiu de lá porque não suportava mais viver sabendo que estava ajudando a livrar criminosos confessos da prisão.

A polícia tem muitos defeitos, não vou negar. Há muita corrupção, principalmente na Polícia Civil, e muito policial agindo totalmente fora da linha. Mas a maioria dos policiais sai de casa para trabalhar sem saber se vai voltar, munidos de armamentos inferiores aos dos bandidos, tendo muitas vezes suas famílias ameaçadas. E, quando são obrigados a agir em virtude de um crime, são suspensos, processados e jogados num sistema injusto que premia criminosos e pune os cidadãos de bem. Até quando vamos proteger assassinos, ladrões, traficantes e estupradores? Até quando vamos aceitar que nosso dinheiro pague todas as despesas que esses criminosos geram quando são presos? A mensagem que passamos a todos os bandidos é bastante encorajadora: cometa seu crime e lhe pagaremos um bom advogado; se for preso, deixaremos que transe com suas mulheres e que use seu celular; quando tiver um feriado familiar, deixaremos que saia da prisão para visitar seus queridos; e, se por uma fatalidade você morrer na prisão, pagaremos uma quantia polpuda para que sua família possa ficar tranquila. Nem uma criança que suja a parede com lápis de cor recebe uma bronca tão branda. Esse Brasil é uma piada de muito mau gosto.

 

É o amor

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 29 de dezembro de 2016.

amorpic

Pensei bastante no tema a que dedicaria minha última coluna de 2016. Tentei achar algo realmente relevante no cenário nacional, mas o máximo que encontrei foram discussões infrutíferas sobre a legitimidade ou não de um presidente da República se deleitar com sorvetes importados. No cenário americano, o mesmo do mesmo: democratas e mídia mainstream tentando de todas as maneiras desqualificar Donald Trump, desesperados com as escolhas acertadas e conservadoras que ele tem feito para seu gabinete.

O fato é que eu não queria abordar nenhuma dessas picuinhas políticas nesta última vez em que me dirijo a você, leitor, no ano de 2016. Por isso, depois de meditar um tanto a respeito, resolvi falar daquilo que, em minha opinião, mais faz falta no mundo de hoje: o amor. Antes que você desista de ler o restante deste texto, saiba que não pretendo ser piegas, tampouco sentimentalista nesta reflexão. Caso essa percepção lhe ocorra, será mais por conta da desconexão que esse vocábulo tem com a realidade corrente do que por culpa de minha abordagem do mesmo.

A falta de amor é algo que me incomoda e me machuca diariamente. Tanto em coisas pequenas, como o vizinho que ouve música em volume altíssimo sem considerar as pessoas na casa ao lado, quanto em monstruosidades, como o ataque terrorista de Berlim, o principal problema deste mundo é a falta de amor. E que ninguém ache que a religiosidade é a cura para esse mal: cansei de acompanhar discussões entre católicos e protestantes nas mídias sociais que fariam o próprio Jesus Cristo virar as costas e sair envergonhado. E o que dizer do islamismo? Uma religião cuja forma mais radical é responsável atualmente pela quase totalidade dos ataques terroristas e pelo assassinato de inocentes que não professam a mesma fé, ou seja, que de amor não tem nada.

A falta de amor está nas coisas corriqueiras, no e-mail raivoso de quem não concorda com sua opinião, no sujeito que corta a fila, no atendente que trata mal os clientes, no cônjuge que dá uma patada no outro, no nervosinho que lhe mostra o dedo médio no trânsito, naquela puxada de tapete do colega de trabalho e em cada ato desonesto praticado por quem quer que seja. Longe de querer endossar a tese descabida de muita gente da esquerda, de que alguém que cola numa prova é tão sujo quanto quem recebe milhões em propina, creio que a falta de amor nas pequenas coisas é condição sine qua non para a falta de amor nas grandes. Aliás, este é o grande problema do marxismo e da esquerda em geral: achar que é possível amar as multidões e odiar os indivíduos ao mesmo tempo.

A Bíblia possui muitíssimas passagens em que o amor é o tema principal. Talvez a mais conhecida seja aquela escrita por Paulo, em sua Carta aos Coríntios, aquela que Renato Russo utilizou como letra de uma canção, a mesma que é lida e repetida em casamentos ao redor de todo o globo: “Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver amor, serei como o sino que ressoa ou como o prato que retine. Ainda que eu tenha o dom de profecia e saiba todos os mistérios e todo o conhecimento, e tenha uma fé capaz de mover montanhas, mas não tiver amor, nada serei. Ainda que eu dê aos pobres tudo o que possuo e entregue o meu corpo para ser queimado, mas não tiver amor, nada disso me valerá. O amor é paciente, o amor é bondoso. Não inveja, não se vangloria, não se orgulha. Não maltrata, não procura seus interesses, não se ira facilmente, não guarda rancor. O amor não se alegra com a injustiça, mas se alegra com a verdade. Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta”.

O texto é magistral. É claro como água: amigão, você pode fazer o que quiser, pode parecer legal, fingir ser honesto, fazer pose de justo e se declarar o defensor dos pobres e oprimidos; se não tiver amor, não vale nada. Você pode ser petista, tucano, conservador, libertário, progressista, bolsonarete, olavete, religioso, ateu, palmeirense, corintiano, branco, preto, amarelo, índio, gay, hétero, casado, solteiro, rico, pobre, ignorante ou letrado; se não tiver amor, não vale nada. É na hora de verdadeiramente amar que caem todas as máscaras e que ficamos completamente nus. O problema é que ninguém mais parece se importar com essa nudez, e ser cruel e desagradável tem passado de ofensivo a desejável.

Eu disse que você poderia achar este artigo piegas, porque no fundo ele tem uma só conclusão: a solução para tudo é o amor. Falando assim, pode até parecer que eu sou algum tipo de hippie pós-moderno, mas o fato é que se essa não fosse a solução, ela não teria sido adotada por Deus. Quando comemoramos o Natal, no domingo passado, comemoramos o nascimento de Jesus Cristo, ou seja, do Deus que, por amor, se encarnou e morreu pela humanidade. Esse amor nos está disponível, ao alcance de qualquer ser humano. Nossa natureza difícil e egoísta nos afasta, muitas vezes, de amar. Mas ela não pode servir de desculpa eterna. Se há uma coisa que posso desejar para 2017 é que você ame muito mais do que amou neste ano. Se fizer isso, certamente terá dias melhores. Feliz 2017!

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e “Mentiram para mim sobre o desarmamento”.