República Cleptocrática do Brasil

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 25 de maio de 2017.

Joesley

Tempos atrás eu legendei um documentário do Netflix que falava sobre a mentira. O tema principal era a predisposição humana a mentir e os fatores e ferramentas à disposição da sociedade para refrear esse comportamento nocivo. O documentário, (Dis)Honesty: The Truth About Lies, apresenta diversas histórias de pessoas que, num determinado momento de suas vidas, resolveram optar pela mentira, e posteriormente tiveram de sofrer suas consequências. Todos os casos se deram nos Estados Unidos.

Desde uma mãe que mente sobre seu endereço na matrícula escolar de sua filha e vai presa por adulterar um registro público até o juiz da NBA que é preso pelo FBI por fornecer informações confidenciais para apostadores, o que se vê em cada história é o duro enfrentamento das consequências da mentira, principalmente quando ela configura crime. Em todos os casos, o resultado é unânime: após punidos rigorosamente, os mentirosos se declaram arrependidos e dispostos a nunca mais repetir o erro.

Quando a imprensa noticiou o acordo de delação feito pelos irmãos Joesley e Wesley, não pude deixar de pensar que nosso país é, de fato, uma piada; uma piada imoral e de mau gosto. A leniência com os criminosos – desde traficantes e assassinos até políticos e empresários corruptos – tornou-se o padrão de conduta do sistema judiciário brasileiro, catapultando nossos índices de criminalidade e os escândalos de corrupção para patamares inéditos na história mundial moderna. Quando dizem que o Brasil se tornou uma cleptocracia, não há exagero.

Qual é a mensagem que o povo brasileiro recebeu quando da divulgação das condições do acordo com os donos da JBS? Qual criminoso, neste lado da galáxia em que vivemos, conseguiu a façanha de sair ileso, mudar para Nova York, manter a quase totalidade de sua riqueza e continuar a tocar seus negócios mesmo depois de ter confessado subornar todos os agentes políticos e governamentais que cruzaram o seu caminho? As respostas são fáceis. À primeira pergunta: no Brasil, o crime compensa, sempre. À segunda: nenhum.

Somos uma nação moribunda, onde os vícios se tornaram virtude e as virtudes foram soterradas sob uma montanha de crimes. Estamos doentes em todos os níveis. Recentemente, uma família de conhecidos teve o infortúnio de ver o filho preso por tráfico de drogas. Ao chegarem à delegacia, o delegado já os esperava com uma proposta de suborno. Tudo acertado, o garoto saiu sem nem sequer ser fichado. Mais uma vitória para o crime. Pai, mãe, filho e delegado ajudaram a movimentar essa máquina gigantesca de impunidade e corrupção que nunca para de girar.

Libertam-se garotos por centenas ou milhares de reais, libertam-se Joesleys e Wesleys por milhões ou bilhões; ninguém precisa temer a cadeia. Políticos são condenados e a única punição que recebem é perder temporariamente seus mandatos, quando muito. A Receita Federal é capaz de multar uma senhora que esqueceu de declarar um único recibo médico, mas não consegue rastrear ilegalidades na casa dos bilhões. Os Tribunais de Contas parecem existir apenas para “inglês ver”, e mesmo quando apontam irregularidades não há consequências mais graves para quem as cometeu. O Judiciário possibilita tantas apelações e recursos que os casos com trânsito em julgado são uma raridade. Presidiários saem de suas celas para passar o dia das mães e o Natal em casa, podem se satisfazer sexualmente nas visitas íntimas, e raramente cumprem a pena toda. Mesmo assassinos cruéis, como Suzane von Richthofen, ganham liberdade após poucos anos de encarceramento.

A pergunta de um milhão de dólares é: há solução para o Brasil? É claro que… (para ler o restante deste artigo, clique aqui).

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