Não tem graça, Dooley (quer dizer, Meryl)

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 12 de janeiro de 2017.

meryl

Escrevo esta coluna de um quarto de hotel em Albuquerque, Novo México, uma cidade que ganhou notoriedade por ser o local da trama de Breaking Bad.

Eu adorei Breaking Bad. Coloco ao lado de Seinfeld e The Office na minha lista de séries favoritas de todos os tempos. Aliás, Bryan Cranston, que alcançaria o auge da fama interpretando Walter White, entrou para o radar dos produtores justamente em Seinfeld, quando fez o papel do dentista Tim Whatley.

Sentado aqui na terra dos White e de Jesse Pinkman, me bateu uma tristeza ao ver meu druglord preferido aplaudindo em pé o discurso mentiroso e afetado de Meryl Streep, que escolheu usar seu tempo precioso no microfone do Globo de Ouro para propagar uma mentira ridícula sobre Donald Trump. Cranston, que já tinha entrado na minha lista de celebridades babacas quando participou de um vídeo anti-Trump-pró-Hillary, participou com entusiasmo de mais um episódio que corrobora uma conhecida tese: a de que a opinião de um ator sobre política é tão valiosa quanto a opinião de um metroviário sobre a existência ou não de matéria escura no universo. Ben Affleck e George Clooney, dois ícones da esquerda caviar artística, se juntaram à léria um dia depois, saindo em defesa da diaba que veste Prada.

Diz a sabedoria popular que futebol, religião e política não se discutem. Neste caso, concordo em chamar de sabedoria, porque esses temas são de fato destruidores da harmonia familiar e de amizades. E o são justamente porque qualquer um que os discuta geralmente o faz de uma posição de suposta autoridade no assunto. Assim, o sujeito que mal consegue entender o conceito de tática acha que pode contribuir em muito nas discussões sobre aquela substituição que resultou num gol adversário. E o outro, que nem sequer faz ideia de qual seja a etimologia da palavra “religião”, acha que pode desqualificar a fé alheia e fundar a sua própria com base em meia dúzia de mantras que decorou em seus anos de igreja.

Mas é na política que vemos a maior quantidade de pretensos especialistas falando todo tipo de asneira, tanto em pequenos grupos como nas redes sociais e em transmissões públicas. Para que estudar ciência política, ética, filosofia e história? Política não é nenhuma medicina, pensa o orgulhoso “comentarista político”, e qualquer um pode opinar livremente sobre isso. É claro que qualquer um pode opinar, até mesmo este que vos escreve, graças ao pouco de liberdade de expressão que nos resta. Mas, ao contrário do que parece ser o senso comum, os erros na política matam muito mais gente do que os erros médicos, e os astros de Hollywood (além dos “astros” brasileiros do Projac) parecem gostar de falar justamente disso. Curiosamente, não conheço um artista famoso que tenha expressado suas opiniões sobre fusão nuclear, movimentação tectônica ou transmissão de energia sem fio, temas tão alheios às suas especialidades artísticas quanto a política.

Dizem que, para podermos desfrutar do melhor da arte, precisamos separar o artista da pessoa. Eu tenho uma dificuldade muito grande com isso. Tipos como Wagner Moura, Chico Buarque, Benicio del Toro, Sean Penn, Bono Vox e Alec Baldwin, só para citar alguns, envolvem-se tão profundamente com uma agenda política que perdem todo e qualquer apelo artístico para mim. Simplesmente não consigo vê-los atuando sem me lembrar de suas posições radicais de esquerda. Meryl Streep acaba de entrar para a lista.

O fato é que está ficando cada vez mais difícil sentar em frente à televisão e passar um tempo agradável se divertindo sem que apareça alguém politizando até comerciais de sabonete. Sinto saudades da época em que Os Trapalhões eram minha diversão de domingo e o Pica-Pau não me ensinava nada além de como sacanear o Dooley. Só sobraram South Park e Clint Eastwood para contar a história.

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e “Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

Um comentário sobre “Não tem graça, Dooley (quer dizer, Meryl)

  1. CONCORDO PLENAMENTE QUE NADA MAIS NOS DISTRAI NA TELEVISÃO. PROCURO POR UM FILME, QUE VALHA A PENA VER NOS TELECINES, SÃO FILMES REPETIDOS O TEMPO TODO, ACABO DESLIGANDO A TV. OS JORNAIS TELEVISIVOS DEIXAM MUITO A DESEJAR. O TEMA POLÍTICA, É CHEIO DE MENTIRAS. PARA MIM, NÃO HÁ NADA MAIS NA TELEVISÃO QUE SE POSSA DIZER SER BOM.

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