A cartilha dos canalhas

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 8 de setembro de 2016.

Sabe por que os partidos de esquerda da Austrália são melhores que os brasileiros ou americanos? Porque estão muito mais longe. Sim, é uma piadinha, mas que carrega consigo uma grande verdade: partidos de esquerda são todos iguais; só muda o endereço, parafraseando o dito popular.

Alguns dias atrás, aqui nos Estados Unidos, o vazamento de um certo e-mail da coordenação de campanha democrata não virou notícia no Brasil, mas causou um rebuliço nos noticiários americanos. Vale a pena conhecer o caso, que mostra o comportamento típico da esquerda diante das minorias que ela diz defender, mas que na verdade apenas utiliza como massa de manobra para se eleger.

O comunicado em questão foi escrito em novembro de 2015, e o assunto principal é o grupo BLM (Black Lives Matter, ou “Vidas negras são importantes”, em tradução livre), um movimento racial adepto do radicalismo e seguidor da agenda vitimista, aquela que usa mentiras como a da dívida histórica para justificar atos de violência. O grupo sempre apoiou candidatos democratas, tradicionais defensores do sistema de cotas, da inculpabilidade de criminosos por causa de seu perfil racial e social, da divisão da sociedade em minorias beligerantes etc. O que o pessoal do BLM não sabia, até alguns dias atrás, era que os democratas não gostam nem um pouco deles.

A mensagem contém revelações de como agem os democratas para ganhar votos de gente cegada pela narrativa de esquerda. Ela é enviada por Troy Perry, diretor de Diversidade do Comitê de Campanha Democrata (DCCC), a toda a equipe do comitê. O e-mail começa com o seguinte parágrafo (o destaque é original da mensagem, e a tradução é minha):

“Os candidatos presidenciais têm tido dificuldades para responder às táticas do movimento Black Lives Matter. Embora tenha havido pouco engajamento por parte dos candidatos ao Congresso, candidatos e equipes de campanha devem estar preparados. Este documento não deve ser enviado por e-mail ou entregue a ninguém de fora do prédio. Por favor, passe estas melhores práticas à equipe de campanha apenas em reuniões ou por telefone.”

Segue-se um parágrafo explicando o que é o BLM, seu objetivo como grupo e o que querem em termos de mudanças de legislação. Logo em seguida vem a parte que azedou o relacionamento entre BLM e democratas:

“Se for abordada por ativistas do BLM, a equipe de campanha deve se oferecer para um encontro com ativistas locais. O número de convidados do BLM deve ser limitado. Por favor, procure fazer encontros individuais ou reuniões com grupos pequenos: ouça o que eles têm a dizer; não ofereça apoio a posições políticas concretas.”

O documento também pede que não se mencione, em hipótese nenhuma, os termos “crimes de negros contra negros” e “todas as vidas são importantes”, pois isso só fará enfurecer os ativistas (ainda que sejam a mais pura verdade).

A qual conclusão se pode chegar? Para mim, é bastante óbvio. A esquerda sempre tratou e continua tratando as pessoas como crianças ingênuas. Ao usar táticas do tipo “finja que se importa, mas não se comprometa” ou “não fale a verdade para não irritá-los”, o Partido Democrata americano segue à risca a cartilha dos canalhas, a mesma usada pela esquerda brasileira e por todas as outras. E uma das grandes provas de que suas bandeiras não passam de fachada para a tomada e manutenção do poder é o fato de que os conflitos raciais nos Estados Unidos de hoje se resumem, quase que exclusivamente, a cidades governadas há décadas pelos democratas. Seus modelos de gestão não funcionam, e eles não têm o menor interesse em ajudar negros, pobres, indígenas, gays ou mulheres; a única coisa que querem é o voto dessas pessoas. Qualquer semelhança com PT, PSOL, PCdoB et caterva não é mera coincidência.

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

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