É hora de falar de armas

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 16 de junho de 2016.

Muitos brasileiros têm pavor de armas, como se fossem uma coisa intrinsecamente má. Infelizmente, nos últimos 25 anos o Estado e a mídia conseguiram colar nas armas a culpa pela violência, quando na verdade foi o banimento delas que deixou os brasileiros indefesos e à mercê de criminosos que atacam com a certeza de que não haverá resistência da vítima. Quando eu tinha meus 10 anos, lembro muito bem que meu tio andava armado, e meu pai sempre falava em comprar a dele. Lembro de ter entrado numa loja com ele e ver as armas expostas, que podiam ser compradas por cidadãos obedientes à lei. Isso soa hoje como fantasia no Brasil, depois que o governo conseguiu desarmar grande parte da população – mas não tirou nem uma pistola sequer das mãos dos criminosos.

Quando acontecem tragédias como a de Orlando – a menos de 25 quilômetros de minha casa –, a loucura sobe a níveis absurdos, e as redes de televisão começam a despejar uma quantidade tão grande de mentiras a ponto de o cidadão comum não saber mais em que acreditar. Mas, quando escrevo aqui, o faço como alguém que estudou o assunto a fundo, baseado em centenas de tabelas estatísticas – contendo dados dos últimos 400 anos, de países diferentes – e em estudos sérios feitos por professores de grandes universidades. Eu entendo que essa é a maneira correta de alguém se informar sobre um assunto, e não lendo três reportagens tendenciosas num jornal qualquer ou assistindo a alguns ignorantes no assunto discutirem em certos canais exclusivos de notícias.

A mídia engana demais. Como exemplo, posso citar os casos de tiroteios em escolas americanas, que são tratados como a coisa mais mortífera do mundo. Se você pegar qualquer ano como exemplo, de 1995 até hoje, o número de estudantes mortos em ataques como esses é menor que o número de estudantes mortos por esforço excessivo nas práticas de educação física. Mas ninguém verá uma reportagem sobre isso, porque o que interessa é pintar as armas como vilãs supremas. Em casa é a mesma coisa: quando uma criança morre por um disparo acidental da arma de seus pais, vira notícia no mundo inteiro; mas não há nem uma menção sequer às mortes por ingestão de produtos de limpeza, que acontecem 90 vezes mais que as mortes com armas. O que pensar sobre isso?

Para mim é bastante óbvio. Se existisse um interesse real do governo e da mídia de evitar mortes infantis, por exemplo, eles deveriam se preocupar muito mais em instruir os pais sobre como guardar seus produtos de limpeza do que tentar tirar o instrumento de defesa de suas mãos. Deveriam alardear os riscos de se andar de bicicleta, atividade que mata mais jovens que todos os atiradores dementes juntos. Mais que isso, deveriam mostrar os inúmeros casos documentados de pessoas que estão vivas hoje porque alguém próximo (ou elas mesmas) tinha uma arma numa situação de confronto com um criminoso.

Perceba a diferença: muitas pessoas morrem de bicicleta, mas não se tem notícia de que uma bicicleta tenha salvo uma vida, e ninguém sai por aí pedindo o banimento das bicicletas. Muitas pessoas morrem pelo uso de armas, mas muitas mais vivem por causa delas – as armas que matam são apenas as que estão nas mãos de criminosos – e todo mundo sai pedindo seu banimento generalizado. Um estudo recente da Universidade de Chicago sobre o uso defensivo de armas mostrou que em 99% dos confrontos com criminosos a pessoa só precisa sacar a arma para assustar o bandido e impedir o crime, e que menos de 0,1% dos crimes com armas de fogo foram cometidos por cidadãos que possuem uma arma legalizada.

A quem tem um preconceito infundado sobre as armas de fogo, convido a conhecer mais sobre o assunto. Ainda que você nunca compre uma para si, é importante saber que o direito de tê-las deve ser garantido a todos os cidadãos de bem, e que você estará mais seguro se houver alguém de bem armado por perto. Lembre-se de que a polícia chega sempre depois do crime. Bastaria uma pessoa armada dentro daquele clube em Orlando para evitar que o terrorista ceifasse tantas vidas. Há dezenas de relatos de situações semelhantes, em que um civil armado evitou diversas mortes ao abater um atirador; infelizmente eles são deixados no limbo pelos jornalistas militantes do desarmamentismo. E as zonas onde não se permite o porte oculto de armas curtas continuam sendo os alvos preferidos dos maníacos, terroristas e malucos em geral. Afinal, qual é a dificuldade de se infringir uma pequena proibição para quem já planeja o pior dos crimes?

Cidadãos de bem do Brasil e do mundo – brancos, negros, héteros, gays, homens, mulheres, jovens, idosos –, armai-vos!

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

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