Aqui de boas, parasitando

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 30 de junho de 2016.

“Programa bem-sucedido do Ministério da Ciência e Tecnologia coloca o Brasil finalmente na lista de ganhadores do Prêmio Nobel”

“Vinte anos depois de reformular a matriz educacional, governo colhe os louros: a educação brasileira está entre as dez melhores do mundo”

“Minha Casa, Minha Vida recebe menções internacionais por ter praticamente zerado o déficit habitacional do Brasil”

“Globo admite perda de liderança de audiência para a TV Brasil”

“Ministro da Saúde recebe prêmio internacional em reconhecimento à excelência do sistema público brasileiro, o melhor entre as 20 maiores economias do mundo”

“Gastos do governo para preparar os Jogos Olímpicos do Rio são os menores das últimas 12 edições dos jogos. Japão pede nossa ajuda para repetir o sucesso em 2020”

“Lei Rouanet completa 25 anos de sucesso: o cinema brasileiro recebe seu quarto Oscar e Steven Spielberg lidera movimento nos EUA pedindo a adoção de uma legislação semelhante para Hollywood”

O que as sete manchetes acima têm em comum? Resposta fácil: são todas fictícias. Mas por que o governo não consegue ter sucesso em suas políticas e intervenções nos mais diversos campos de atuação? Resposta mais fácil ainda (e em destaque, para que você nunca mais se esqueça disso):

O Estado não sabe fazer quase nada direito.

As investigações mostrando os desvios de dinheiro proveniente da Lei Rouanet são mais uma prova de que todo o dinheiro que o Estado tira de nosso bolso é mal empregado – é gasto sem cuidado, sem responsabilidade e para benefício dos “amigos do rei”.

Em 1991, quando foi sancionada por Fernando Collor de Mello, a Lei 8.313 – Lei Federal de Incentivo à Cultura – foi recebida como se fosse um ato de genialidade. Que ideia fantástica! Já que vamos pagar imposto de qualquer jeito, pelo menos uma parte dele vai, de forma garantida, ajudar a cultura brasileira. Não tem como dar errado! Pois bem, só esqueceram que o dinheiro todo vai para as mãos do Estado, e é o Estado que decide quais serão os projetos culturais beneficiados pela lei. Esta premissa já é ruim por si só – a ideia de ter alguém do governo decidindo que “essa cultura é mais merecedora de financiamento do que aquela” é repugnante para mim –, mas, quando nas mãos de um governo fortemente ideológico como o do PT, ela resultou em um grande desastre.

A investigação da Polícia Federal em curso tem como foco os desvios de recursos, seu uso fora da finalidade e da regulamentação da lei. É o caso do casamento suntuoso de Felipe Amorim e Caroline Monteiro, bancado com dinheiro da Lei Rouanet e celebrado na elitizada praia de Jurerê Internacional, com direito a show sertanejo particular, hotel cinco estrelas e boca livre gourmet. Mas existe um aspecto que a PF não investigará, e que é mais pernicioso que um casalzinho de corruptos se esbaldando com dinheiro alheio: durante os governos petistas, a Lei Rouanet foi usada como instrumento para beneficiar artistas de orientação ideológica alinhada à do partido, no intuito de difundi-la em massa através do aparato cultural. Esse é um crime que deixará consequências por gerações, e seus responsáveis provavelmente não serão julgados e nem punidos. Terão um destino muito melhor que o de Goebbels.

Por fim, antes que eu exceda o espaço desta coluna, convém explicar o “quase” da minha frase destacada ali de cima. Ele se refere justamente àquela prática que tanto nos prejudica e que drena grande parte da riqueza produzida para o ralo do governo: o Estado sabe, como ninguém, promover sua ideologia e enriquecer sua rede de privilegiados com dinheiro alheio. Em outras palavras, o Estado é perito em parasitar o povo. É uma solitária gigantesca no intestino do país. E o vermífugo somos nós.

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

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