O tapete vermelho

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 26 de maio de 2016.

Estender o tapete vermelho é uma expressão que traz à mente a sensação de que alguém importante está a chegar. O tapete vermelho é a passarela dos eminentes, dos honrados, dos homenageados; ele define, por assim dizer, o merecimento de quem pisa em sua superfície.

Mas, como acontece com todas as coisas positivas deste mundo, o governo petista também conseguiu deturpar o conceito de tapete vermelho. Em vez de estendê-lo para honrar os merecedores, o governo Dilma o fez para encobrir falcatruas e rombos quase incalculáveis. A presidente impedida era como um glutão estabanado, daqueles que vê uma mesa cheia à sua frente e não consegue parar de comer e de derrubar restos e migalhas ao seu redor. E sua equipe de governo era como os faxineiros preguiçosos da casa, varrendo os restos caídos para debaixo do enorme tapete vermelho da desonra. Bastou entrar um novo inquilino para perceber duas coisas: o tapete já estava alto, de tanta sujeira varrida para debaixo dele; a casa estava cheirando à podridão, por conta da porquice sem fim da turminha do PT.

Há muitas metáforas que podem ser usadas para o finado governo. Podem ser comparados a ratos que invadiram a despensa das finanças públicas, a inquilinos de péssimo caráter que ocuparam a casa do povo brasileiro, a ganhadores da loteria que gastaram pensando que o dinheiro jamais acabaria, ou a crianças mal-educadas que se lambuzaram com o pote de doce roubado do vizinho. Mas nenhuma delas conseguirá passar o estado real de coisas ao qual nosso país foi submetido. Para isso seriam necessários muitos anos de investigação, devassas minuciosas nas contas públicas do período e uma força-tarefa que nem todas as empresas de consultoria do mundo, juntas, talvez conseguissem fazer.

Michel Temer, na impossibilidade de realizar tudo isso, começa seu governo com boas medidas objetivas de governança. Começa, na verdade, a fazer o que qualquer administrador mediano faria: limitar as despesas para tentar sair – um dia, quem sabe, num futuro distante – do cheque especial. A aprovação da nova meta fiscal para 2016 pelo Congresso Nacional mostrou que o novo governo entende que o dinheiro do Estado não nasce em árvore e não é infinito; as críticas feitas por políticos da nova oposição mostraram que PT, PCdoB, PSOL et caterva continuam acreditando em Papai Noel e em Saci Pererê.

Em outra frente, o novo governo tenta recuperar o terreno perdido na diplomacia. Parece que José Serra está disposto a deixar uma marca incisiva na condução das relações exteriores. Não acredito ainda que possamos nos livrar de vez do Mercosul, mas tê-lo devidamente colocado no ostracismo é algo que consigo enxergar sob a gestão de Temer. Com um pouco mais de otimismo dá até para crer que alguém na nova equipe terá a ideia brilhante de tentar um tratado comercial com o maior parceiro econômico do planeta, os “estadunidenses imperialistas”, como diria aquele seu professor de história boçal. Talvez seja bom se Serra tiver umas conversas com o pessoal da Colômbia, do Peru e do Paraguai, que já entenderam que o Mercosul está para os tratados comerciais assim como o Esperanto está para os idiomas em uso.

Quanto ao tapete, Temer terá de comprar um novo. Tem manchas que simplesmente não saem mais, nem com aqueles produtos miraculosos do 1406. A sujeira dos governos Lula e Dilma só tem um destino viável: o aterro sanitário.

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

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