A presidente de Schroedinger

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 12 de maio de 2016.

O físico Erwin Rudolf Josef Alexander Schroedinger, ganhador do prêmio Nobel de Física em 1933, ficou famoso fora do contexto acadêmico por um experimento virtual chamado de “O Gato de Schroedinger”, um paradoxo que ele inventou para tentar explicar o problema da mecânica quântica aplicada à vida diária, em objetos e seres de dimensões não subatômicas.

Ele descreve o experimento da seguinte maneira: uma caixa fechada, dentro da qual há um gato, um detector de radioatividade e um frasco de veneno. Há também um mecanismo que, se ativado pelo detector de radioatividade, quebra o frasco de veneno, que por sua vez mata o gato. Schroedinger dizia que, usando a interpretação quântica de Copenhagen, como não se pode saber se surgirá ou não uma partícula radioativa a ser detectada, o gato deveria ser considerado vivo e morto ao mesmo tempo, num estado ambíguo. É claro que bastaria abrir a caixa para saber se o real estado do gato, e o experimento fictício foi uma maneira de Schroedinger criticar a interpretação de Copenhagen. Mal sabia ele que seu experimento seria comprovado no Brasil de 2016.

Temos hoje a presidente de Schroedinger, a morta-viva do Planalto. Graças a seus incansáveis companheiros de crime, Dilma vai tentando se manter no poder com manobras jurídicas e com ameaças de violência. No front jurídico ela conta com a defesa de José Eduardo Cardozo, o advogado-geral da União que se transformou em advogado pessoal de Dilma Vana. O homem que deveria defender a União passou a desempenhar o papel preferido dos políticos petistas: advogado de porta de cadeia – Better call Cardozo. No front da violência, ela conta com os bandidinhos de sempre: MST, MTST e sindicalistas pelegos. Como lhes falta coragem para um embate realmente violento e armado, esse pessoal acaba queimando pneus em rodovias, agredindo gente indefesa e tumultuando a vida do cidadão comum. Estão mais para mosquitos do que para leões.

Voltando a Schroedinger, se nosso gato é a presidente, nossa caixa é Brasília. O veneno já conhecemos, mas em nosso caso ele pode ser chamado de remédio ou de impeachment. O mecanismo, esse é mais complicado… Câmara, Senado, STF, todos fazem parte desse processo intricado que ativa o veneno e mata o gato. Olhando Brasília de fora, fica realmente a impressão de que a presidente está morta e viva ao mesmo tempo. Mas, basta fazer um furinho na caixa para perceber que ela já partiu desta para a melhor (ou pior, dependendo de Sérgio Moro).

A turma do PT age como uma criança que não suporta perder. Aliás, escrevendo isso, lembrei-me claramente de um episódio de infância que cai muito bem como ilustração. Estávamos em cinco amigos, todo mundo na faixa dos 12 anos de idade, jogando War em minha casa. Um dos garotos estava prestes a ser eliminado – só lhe restava a Austrália. Quando ele viu uma miríade de exércitos inimigos acumulados em Sumatra e Bornéu, percebeu que não resistiria à próxima rodada, arrancou o tênis do pé e jogou em cima do tabuleiro. Voaram pecinhas para todo lado, e tivemos que começar de novo (sem ele, é claro) porque ninguém conseguia lembrar onde estavam os exércitos de cada um. Tivesse ele jogado um punhado de cocô no tabuleiro, a analogia seria perfeita.

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

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