Restou-nos o Pelé

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 26 de novembro de 2015.

PELE_PeléQuem nunca viveu um pouco da rivalidade Brasil-Argentina? É no futebol que ela se manifesta com mais evidência, e ainda hoje os hermanos insistem em dizer que Diego Maradona foi melhor que Pelé (delírio deles, é claro). Mas, futebol à parte, essa rivalidade acabou se tornando realidade também na política, e da pior forma possível: uma competição de quem faz o governo mais populista e mais bolivariano. A briga foi acirrada durante todos esses anos, com os Kirchner se mantendo no poder por nada menos que 12 anos na Argentina, e o PT governando o Brasil pelos últimos 13. Ambos os governos mantiveram proximidade com regimes autoritários como os da Venezuela e de Cuba, ambos aparelharam seus tribunais superiores com juízes ideologicamente alinhados, ambos caminharam em direção à supressão de direitos e liberdades básicas dos cidadãos.

No ano passado tivemos nossa chance de deixar os argentinos para trás, mas em vez disso conseguimos eleger Dilma Rousseff para mais um mandato, o qual parece ter cada vez mais chances de ser levado até o fim. Eles, por sua vez, deram o primeiro passo para sair do buraco em que se encontram ao recusar a continuidade do governo de Cristina Kirchner, que seria levada a cabo através do candidato Daniel Scioli. Mas a população argentina reagiu nas urnas, e elegeu Mauricio Macri, ex-presidente do Boca Juniors e representante de uma frente de centro-direita que resolveu fazer uma oposição de verdade ao governo Kirchner – bem diferente do que o PSDB fez nas últimas 2 disputas presidenciais.

Macri não poderia ter feito uma declaração melhor em suas primeiras entrevistas após a divulgação do resultado: ao dizer que lutará pela suspensão da Venezuela do Mercosul já na próxima reunião de cúpula do bloco, ele sinaliza um posicionamento totalmente distinto em relação ao regime autoritário de Maduro, distancia-se do PT, distancia-se de Evo Morales, e passa a agir como nós esperávamos que o Brasil agisse se tivesse um governo que preza pela liberdade. Nunca é demais lembrar que Maduro perseguiu e matou manifestantes desarmados nas ruas de Caracas, e que mantém presos, em regime de completo isolamento, líderes oposicionistas cujo único crime foi o de terem expressado suas posições políticas abertamente.

Parabéns e obrigado ao povo argentino por ter combatido a onda bolivariana que pretendia pintar o continente de vermelho. Os quatro cavaleiros do apocalipse sul-americano – Lula, Chávez, Morales e Kirchner – e suas duas mulas substitutas – Dilma e Maduro – perderam uma batalha importante. Tivesse o Brasil eleito Aécio Neves, o projeto de poder do Foro de São Paulo teria recebido um golpe mortal com a eleição de Macri. O novo presidente herdará um país em situação difícil – o governo Kirchner seguiu à risca a agenda de esquerda, resultando em crise econômica, deterioração das instituições, supressão de liberdades individuais e corrupção, entre outros males. Aplica-se aqui a velha metáfora do navio que navega para o destino errado: para mudar sua direção não basta desligar os motores, pois a inércia é grande demais e, quanto maior a massa, maior a inércia. A Argentina tem condições de se recuperar em muito menos tempo que o Brasil, que ainda tem pelo menos três anos de má administração pela frente. Se Macri conseguir realizar as reformas que seu país precisa, quando Dilma sair do Planalto o Brasil já não jogará mais na mesma divisão da Argentina. Aí, só nos restará o Pelé.

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

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