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Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 10 de dezembro de 2015.

Tenho visto diversos de meus amigos e conhecidos em estado de desânimo, decepcionados com quase tudo à sua volta: a política brasileira, as instituições, a doutrinação nas escolas em que seus filhos estudam – inclusive as particulares –, a crise econômica, a queda de padrão de vida, a violência, o desemprego, a crise moral, a pobreza intelectual da nação, a destruição da alta cultura e muitas outras coisas realmente lamentáveis. E não são apenas os que vivem no Brasil; muitos, como eu, moram nos Estados Unidos e acompanham de perto os absurdos que Barack Obama e sua turminha fazem por aqui, e acabam sofrendo pelos dois países ao mesmo tempo.

bomba-atomicaBem, eu já estive nessa mesma situação, já me senti desanimado ao extremo e com a vontade de jogar a toalha. São momentos em que você quer apagar da memória tudo o que sabe sobre o mundo como ele é e voltar para uma vida de ignorância; ou então bate o desejo de que alguém aperte o botão errado, lance um míssil nuclear de longo alcance e acabe de vez com o mundo. Quem nunca desejou o fim num momento de agonia que atire a primeira pedra.

Mas, pelo menos para mim, a esperança ainda é maior que o medo e o desgosto. Meu ponto de inflexão foi o nascimento de meu filho. É incrível como uma criança pode trazer uma nova perspectiva a um homem, e o Benjamin veio para me resgatar do fatalismo. Quando você tem uma família nuclear só sua, a qual tem de sustentar e defender, as lutas do mundo ficam em segundo plano e, com a medida certa de otimismo, é possível enxergar uma realidade muito mais agradável e desfrutar plenamente os momentos que realmente importam.

O governo é corrupto? O STF está aparelhado? Dilma é a pior presidente que já ocupou o Planalto? O Brasil caminha cada vez mais para o buraco econômico? Sim, sim, sim e sim. Mas nenhuma dessas realidades, e nem mesmo outras piores, devem nos tirar o desejo de buscar a felicidade, a capacidade de fazer planos e o hábito de cultivar as coisas altas da alma. Viktor Frankl, psiquiatra austríaco de origem judaica, pôde estudar de perto – e sofrer na própria pele – uma das maiores tragédias da história humana, o Holocausto, e dela tirar sua grande contribuição para a escola vienense de psicoterapia e para o mundo: a análise existencial e as terríveis implicações da falta de sentido para a vida. Frankl observou que, mesmo com as condições cruéis e desumanas impostas aos prisioneiros dos campos de concentração nazistas, algumas pessoas conseguiam manter a sanidade e a esperança, e outras simplesmente sucumbiam às circunstâncias. A diferença entre elas era a motivação de vida das primeiras, aquela posse interior de algo maior pelo que vale a pena viver.

A cada um de meus queridos amigos, colegas, conhecidos e leitores desta coluna, deixo uma mensagem de otimismo: não permita que as circunstâncias desanimadoras ao seu redor, incluindo toda a podridão e sujeira que a mídia expõe e denuncia diariamente, lhe tirem a alegria. O que vou dizer pode soar um tanto piegas e sentimentalista, mas a hora é de focar na família, nos princípios, na manutenção do caráter, na construção do intelecto e no cultivo da fé. Você será, com certeza, uma pessoa mais bem preparada para enfrentar essa lama toda se estiver com a mente e o coração funcionando bem. E são pessoas assim que fazem toda a diferença no mundo.

Termino com uma citação do próprio Frankl:

“Entre um estímulo e uma resposta há um espaço. Nesse espaço está o nosso poder de escolher a nossa resposta. Em nossa resposta está nosso crescimento e nossa liberdade.”

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

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