A última ponte

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 5 de novembro de 2015.

Os atos recentes de vandalismo perpetrados por feministas radicais nas paredes da Catedral da Sé, em São Paulo, colocaram novamente o aborto em pauta – um tema tão imoral que nem sequer deveria admitir discussão. Por acaso se discute se negros devem ser escravos, se judeus devem ser exterminados ou se cristãos devem ser queimados vivos? Ou então se homossexuais devem ser castrados ou doentes mentais, sacrificados? Todas essas possibilidades soam tão fora do aceitável, nos dias de hoje, que sua mera menção num discurso público pode ocasionar a prisão e indiciamento de quem as sugerir. No entanto, os mesmos que vociferam pelas redes sociais e pela mídia quando leem um comentário que tacham de racista, sexista ou homofóbico são os que acham a coisa mais normal do mundo assassinar um bebê.

Nenhuma teoria racional consegue explicar a atração que essas pessoas têm pela morte de bebês inocentes. Historicamente, a humanidade evoluiu muito no respeito à vida. O comércio moderno de escravos, praticado em todo o continente americano, era a última fronteira bárbara que ainda nos impedia de dizer que entendemos realmente o que são os direitos básicos de um ser humano. O fim do século 19 assistiu à abolição da escravatura em todos os países americanos – o Brasil foi o último a fazê-lo – e alguém que estivesse a contemplar os registros históricos do homem poderia imaginar facilmente que o próximo século seria ímpar no respeito à vida, uma culminação evolutiva da nobreza humana. Infelizmente, o marxismo, o feminismo radical e a eugenia apareceram na face do planeta, e o século 20 ILUSTRA-Quintela-k9fD-U101983193110qVE-1024x1381@GP-Webtornou-se o mais sangrento e assassino de toda a história. Em nome de suas loucuras, esse triunvirato ceifou centenas de milhões de vidas.

Estamos em 2015, e há um consenso geral de que os extermínios ocorridos sob as mãos de loucos como Hitler, Mao e Stalin não podem se repetir, jamais – são uma mancha em nossa história. Mas os bebês continuam sendo assassinados diariamente, muitas vezes em clínicas tocadas com o dinheiro de impostos e a bênção do Estado. As feministas radicais lutam pelo direito de matá-los quando e como quiserem, enquanto a sociedade se sensibiliza com cachorrinhos maltratados e políticos se preocupam com o sofrimento dos gansos. Para defender seu direito sobre seu corpo, removem o componente divino da vida humana, rebaixando-a ao mesmo nível de outros animais e até mesmo vegetais; e assim são capazes de lamentar a morte de uma samambaia, mas não conseguem chorar por um feto esmagado ou intoxicado durante um aborto, que nada mais é do que uma sessão de tortura seguida de morte.

Escrevo este texto com um bebê ao meu lado. Continuo tentando traçar um caminho pelo qual meu pensamento consiga justificar a morte de um ser puro como esse. Vejo seu pequeno rosto, sua fragilidade, sua dependência, e vejo nele a maravilha de uma vida que acaba de começar. Tento de todas as formas pensar como um abortista, me colocar em seu lugar, mas simplesmente não consigo. Impedir uma vida de acontecer parece algo tão torpe, tão injusto e tão egoísta que sua mera sugestão me soa tão imoral quanto o Holocausto.

Em tempo, dezenas de voluntários, incluindo moradores de rua que ali costumam se abrigar, dedicaram seu tempo e esforços para limpar as pichações que as ativistas criminosas deixaram nas paredes externas da catedral. Com bastante trabalho conseguiram apagar as mensagens de ódio, não permitindo que aquele lugar se torne um símbolo duradouro da injustiça e do egoísmo. E, de quebra, ainda nos forneceram um quadro claro do que é a sociedade brasileira hoje: uma maioria de pessoas normais tentando limpar a sujeira de uma minoria de loucos.

O feminismo radical bloqueia o acesso à última ponte que separa a humanidade do respeito à vida. Precisamos atravessá-la e depois queimá-la, cientes de que o clamor desses milhões de vidas interrompidas ainda nos assombrará por muito tempo.

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

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