Para baixo, e avante

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 15 de outubro de 2015.

São vários os países em que se encontra uma certa identidade comum na população, uma característica que vem à mente de imediato e que os define em uma só expressão generalista. Por exemplo, quem pensa nos ingleses pensa logo em pontualidade. Os suíços combinam com a palavra precisão. Os italianos suscitam um sentimento de alegria culinária; e nossos hermanos argentinos transparecem um certo empinamento nasal, mesmo em tempos de Cristina Kirchner no poder.

Mas e o Brasil? Já se disse muitas vezes que nossa característica é o jeitinho brasileiro ou a máxima de se tirar vantagem em tudo. Eu proponho algo um pouco diferente: somos um país de charlatães.

char • la • tão

1. Que explora a boa-fé do público, inculcando os próprios méritos e erudição para enganar; trapaceiro; embusteiro; enganador; vigarista.

2. Que se faz passar por aquilo que não é; impostor.

3. Que quer mostrar qualidades que não tem.

O charlatanismo está em todas as classes sociais, em todas as esferas políticas, nas mesas de bares, nas festas de aniversário, nas discussões do trabalho, nas conversas de bebedouro, nas universidades, nas igrejas, na televisão, enfim, na vida diária do brasileiro. Cada vez que se ouve um “pode confiar em mim”, um “fique tranquilo”, um “a gente dá um jeito”, o espírito do charlatanismo vive. Afinal, o que são as promessas de nossos governantes senão uma versão oficial e bem difundida dessas três afirmações? Não fossem as agruras da realidade – a crise, a falta de dinheiro, o desemprego, a inflação, a violência –, poderíamos muito bem ser o país do engodo perfeito, da mentira transformada em verdade institucionalizada, a versão continental do Show de Truman.

A sujeira e a imoralidade extremas da política brasileira são apenas um produto do charlatanismo da sociedade. Políticos, como se bem sabe, não nascem por brotamento, não são alienígenas, e geralmente nascem como bebezinhos bonitinhos, tal como todos os filhotes do reino animal. A desculpa clássica para que a maioria deles se torne corrupta e preocupada somente em conseguir mais dinheiro e poder é a de que a política corrompe – e esta é apenas uma meia verdade. Embora o sistema político vigente no Brasil seja um convite à corrupção, garantindo a impunidade e oferecendo muitas oportunidades para que os eleitos se beneficiem pessoalmente e ilicitamente de seus cargos, o corrupto já chega quase pronto ao seu gabinete. Ele ou ela já teve um ótimo treinamento em sua trajetória de vida. Desde criança, quando talvez tenha visto os pais ou um amigo dando um jeitinho ilegal para algo simples, até a época de escola, em que a doutrinação de esquerda (que é inerentemente charlatã) lhe encheu a mente e o coração, a pessoa vai tendo seu caráter deformado. Esta deformação atinge um ponto de não retorno quando o charlatão adquire a certeza de que os outros não passam de peças a serem manipuladas para sua própria vantagem.

E assim, com uma charlatanice após a outra, construímos um país sem elite. Não temos estadistas, não temos inventores, não temos gênios, não temos líderes inspiradores. É claro que generalizo aqui, mas o faço conscientemente, pois as pouquíssimas exceções só existem porque foram fruto de uma criação ou contexto completamente distantes da realidade brasileira; são ilhas minúsculas num oceano vasto de mediocridade.

Quando eu era mais jovem, ouvi que os regimes totalitários e os maus governos não resistiam à miséria e às crises econômicas. Quem dera isso fosse verdade, pois significaria nossa chegada a um tão sonhado ponto de inflexão na história. Infelizmente, nossos vizinhos cubanos, venezuelanos, bolivianos e argentinos estão aí para nos garantir que é possível perpetuar os erros e cavar sempre mais fundo. O Brasil chega a uma grande crise econômica no ápice de uma crise de princípios. Atolamos e não há um pedaço de madeira por perto para se colocar debaixo dos pneus.

Para baixo, e avante.

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

 

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